Chronicles Of A Vampire
3 Capítulo 3 - Brincando com o fogo do inferno
Notas iniciais
Março 1446
Nunca foi tão difícil andar pelas ruas da Europa sem ser reconhecido. Em umas de minhas andanças pelas bandas de Normandia, me deparei com um ritual de queima de bruxas. No tronco havia três mulheres, duas delas eram aparentemente novas e a outra um pouco mais velha. Suas vestem era sujas e rasgadas, típicas de uma bruxa da região. Fui me aproximando vagarosamente.
— Estas seguidoras do diabo, estavam rituando em nossas terras enquanto estávamos dormindo! – disse furioso, o homem de vestes pretas. – essas mulheres devem queimar no fogo de Deus.
Os gritos de veneração a aquele homem dominaram o pequeno vilarejo. O homem de preto que ate agora eu não conhecia o nome, se aproximou de uma pequena fogueira, pegou uma tocha e acendeu os troncos onde as três mulheres estavam. As duas primeiras gritaram veemente para Deus poupar suas almas, enquanto a velha recebia o fogo como parte de seu corpo.
Por mais de 20 minutos os gritos de agonia das duas mulheres ressoaram na minha cabeça, e para meu deleite soava como uma bela opera que a morte propusera para meus ouvidos. No entanto a velha senhora, já havia partido. Seu semblante de paz dava e de morte, dava ao homem de preto a culpa de ter matado somente uma velha senhora que morava nas florestas. A segunda mulher, mais nova, deu seu ultimo grito, enquanto o fogo corroía sua garganta, deixando amostra a carne putrefata de seu interior. A culpa correu de novo pelo corpo do homem de preto. A ultima mulher permaneceu ate seu coração explodir em milhares de pedaços em frente a multidão. O sangue dela era puro, senti de longe o cheiro de virgem, que nunca tinha tocado as partes intimas de um homem. A culpa correu pela ultima vez pela multidão, que esperava ansiosamente a ressurreição de uma das supostas bruxas. Nenhuma deu sinal de vida. O circo tinha finalmente acabado.
Esperei mais 4 horas ate anoitecer. Já tinha provado amargamente o sangue de uma bruxa, e sabia com toda a certeza de que havia uma naquela região.
Os aldeãos foram gradativamente entrando em suas casas, enquanto eu permanecia de pé em frente as três estacas com os restos mortais das mulheres. Olho pelo canto do olho e alguem se aproximando pelas minhas costas, com não tão boas intenções. Viro-me.
— Triste não? – digo ainda me virando para olhar seu rosto
— O que é triste? – responde o senhor com um ar de arrogância.
— Não achas triste, três mulheres inocentes morrerem acusadas de uma coisa que não são? – indago ao velho
— triste? Puff – desdenha o velho da minha cara – nada de triste meu jovem, uma era prostituta e a outra tinha lepra – diz o homem com a total clareza do que estava falando – fizemos um favor a nossa vila ao queimar essas duas impuras.
— e enquanto a outra? A mais velha, o fez ela fez para sofrer de igual a uma prostituta e uma leprosa? – pergunto curioso.
— a velha praticava ocultismo, foi pega diversas vezes com papeis, em escritas antigas, mais antigas que o próprio Deus. Ela morava na floresta junto com outra mulher.
— e onde esta essa outra mulher? Por que não esta junto a elas? – indago ao velho senhor.
— sumiu meu rapaz! Elas moravam sozinhas, e de vez enquanto as duas vinham ao vilarejo. A velha sempre mal arrumada, e com uma cara feia de assustar ate o próprio diabo. Mas a outra... aah a outra, era que arregalar os olhos! Uma mulher linda, de cabelos ruivos como o fogo, e de olhos azuis, mais azuis que o céu. Seu cheiro de rosas silvestres deixava qualquer homem deste vilarejo de boca caída.
— desculpe a indelicadeza, como se chama velho senhor? – perguntei com um ar educado, raro de se ver em mim.
— Gregori – respondeu com frieza
— sabe por acaso o nome desta tal moça? – indaguei-lhe mais uma vez
— Anastácia... Tudo que sei sobre ela. Também sei onde era a casa da velha, onde ela morava, se quiser se aventurar pela floresta – disse ele com um ar de desdém.
— seria um prazer acompanha-lo ate la – disse com satisfação.
— como queria... –disse o velho surpreso — Jovem doido, esses rapazes de hoje so pensam em mulheres – e saiu resmungando pela viela, ate sua casa. – acompanhe-me rapaz , ou quer ficar ai com as criaturas da noite?
Querer eu queria, mas como minha presença era a única que tinha durante semanas, aceitei o convite para ir ate seu casebre.
Ele chegou à porta, entrou, e saiu rapidamente vestido de um casaco marrom escuro que cobria suas vestes pretas. Carregando em uma das mãos uma tocha e na outra algum tipo de arma.
— pra que esta com esta arma? – perguntei já sabendo da resposta
— para caso Anastácia resolva nos fazer uma visitinha esta noite, meu caro rapaz.
Ao passo que adentramos a floresta, a escuridão da noite estava se juntando ao medo que o velho Gregory estava sentindo, e que por pura sorte, esse medo não me pertencia.
Estávamos indo pra uma espécie de clareira, e logo avistei a velha casa, da velha senhora. Tinha uma aparência desgastada. Não havia uma viva planta ao seu redor, e o cheiro podre estava tomando conta do meu nariz.
— que tipo de ocultismo a velha fazia – perguntei para o velho
— eram mulheres da floresta – resumiu em poucas palavras.
— mulheres da floresta? – indaguei-lhe mais uma vez
— eram elas quem cuidavam dos espíritos que por aqui transitavam. Dizem que o próprio Diabo deu-lhes esse cargo. – disse Gregory com a voz quase falhando.
As folhas das arvores começaram a balançar fortemente, como se algum tipo de furacão estivesse rodeando o lugar. O cheiro podre sumiu, e um essência peculiar subiu ao ar. A feição do velho esvaeceu. O medo mais uma vez tomou seu lugar.
— esse cheiro meu rapaz. Esse cheiro! – disse o velho aos berros
Em menos de um minuto, o escuridão tinha tomado conta do senhor, seus pês nunca correram daquele jeito, e sua garganta nunca tinha gritado daquela maneira.
Não sentia nada, nem sequer aflição. A única coisa que eu poderia temer naquele momento era eu mesmo. Mas de uma coisa eu sabia, aquele cheiro... Não era a primeira vez que o tinha sentido.
A lua começou a clarear a parte norte da casa, onde estava a porta, e uma janela com estacas de madeira presas pelo seu interior.
Do meio do nada, surgi uma figura com vestes finas, um paletó preto, e um chapéu da mesma coisa. Não sabia se aquele homem estava perdido ou apenas caminhando pela floresta de madrugada. Pela primeira vez em toda minha medíocre vida de sugador do sangue, avistei um uma pessoa, e por ela, não senti nada. Nada. Eu estava faminto, e minha presas nem se quer apontaram para fora da minha boca.
O homem chegou a mais ou menos dez metros de onde eu estava. Parou.
— senhor?... Por acaso o senhor esta perdido? –perguntei, mas fui ignorado.
Por um momento achei que estava invisível, ou talvez o homem é que estava..
— Fascinante não? – a voz surgiu de dentro da velha casa
— Apareça!– perguntei, evitando saber da resposta.
Então para minha surpresa, uma figura conhecida cruza as portas do casebre e se posiciona rapidamente na minha frente.
Minha cara se cobriu do cheiro mais podre que eu já tinha sentido, uma mistura de carne putrefata e excretos de um tuberculoso. A voz da figura saída do além.
— Não temes meu poder, vampiro? – diz a velha que mais cedo havia sido queimada.
— por que.. – engasgo-me com o cheiro – por que temeria alguém já morto? – respondo com um cara de nojo e uma gota de ousadia
— morto? – risos cobrem toda a clareira – não se lembra de mim, querido? – desdenha a velha da minha cara.
— com todo respeito, senhora velha, eu me lembraria de algo tão feio se cruzasse o caminho.
— como ousa esquecer-se de mim Benjamin? – diz a velha em tom de brincadeira
— como ousa citar meu nome sua bruxa imunda? – digo com o sangue das minhas vitimas subindo a cabeça – se arrependera de cruzar o caminho de um imortal, bruxa.
A risada dela ecoa na minha cabeça. A corpo da velha cai no chão. Demorei um pouco para perceber que com quem estava conversando. Anastácia havia usado o corpo da velha senhora como um fantoche, e agora seu espirito estava pairando sobre o chão da floresta. Era uma figura sem forma, sem rosto e sem corpo, apenas um borrão e uma voz que arrepiava os pelos do meu pescoço. Mas como poderia Anastácia saber meu nome? Nunca havia cruzado com ela antes, e a única maneira de alguém sabe o nome de um vampiro é se o próprio lhe fornecer. O espirito se cheio de uma escuridão e berrou.
-Eu sou o único ser imortal aqui, vampiro – disse a massa cinzenta e sem forma – com um estalar de dedos posso fazer seu corpo dobrar em três!
— Anastácia.. – antes de terminar, fui interrompido por um trovão
— como ousa me comparar a aquela mortal estupida, vampiro! – disse o espirito enfurecido – Meu nome é temido por gerações, e amaldiçoado pelos próprios deuses.
Não? Como não podia ser Anastácia? A única explicação que eu encontrara era essa. Se aquela coisa não era Anastácia, por que onde a moça andava? E o que fez aquela coisa se apossar do corpo da pobre velha.
— o cheiro de queimado vindo da sua cabeça me enoja Benjamin – diz o espirito
— como sabe meu nome... Coisa? – digo sem saber a quem me referir – e afinal quem é você?
Sabia que uma bruxa não revelaria seu nome tal fácil, afinal qualquer criatura caída, sabe que o nome, é o principal objeto de exorcismos e expurgações. Resumindo, ela nunca me daria o nome. A não ser que eu perguntasse da maneira certa. Mas minha memoria estava falhando naquela hora. Lembro-me de há alguns anos ter encontrado um monge em minhas andancas, e ele me apresentou o Malleus Maleficarum, um livro antigo que ajudava a tratar de bruxas. As palavras estavam na minha boca, mas não saiam.
“Vamos benji, vamos! Você sabe”, uma voz ecoou na minha mente. Tentava me lembrar ao máximo do trecho que falava sobre o reconhecimento. Nada... como eu me esquecera disso? “vamos benji, vamos”, a voz tornou a falar comigo. “Maleficis ab inferis, qui sum mundi ostendit, sermo, deducet vos in mortem, et ostende faciem tuam incidunt”. O paragrafo me caiu como uma pedra.
— Ostende Faciem Tuam – recitei em latim a frase “mostre tua face”.
A bruxa que estava em espirito, materializou-se novamente em uma figura conhecida, e para minha surpresa, uma não tão agradável.
— como sempre mexendo em coisas além de seu poder não? Benjamin. – disse a mulher de cabelos loiros e olhos verdes.
— o perigo sempre me acolhe como companheiro – disse-lhe. Recitar o nome daquela bruxa me deixava com certo receio, mas estava com um espirito educado mais que nunca. Merda. – como vai.. Medeia..
Em uma de minhas caminhas por Salem, conheci uma bruxa. Mas não sabia que mais tarde, ela me traria consequências terríveis. Agora dependendo da sorte. Não é tao fácil como parece matar uma bruxa, e mais difícil ainda é matar uma filha do diabo. Agora dependo extremamente da sorte.
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