Christmas Tree Farm

3 Lutar com um amor verdadeiro é como lutar boxe sem luvas


Notas iniciais
Olá, amores! ❤️ E hoje venho com mais um capítulo, eu diria que ele é uma espécie de mashup entre "Closure" x "Afterglow", ambas músicas da Taylor Swift ❤️ Queria aproveitar e agradecer novamente a minha amiga Faila por ser minha leitura beta e por me ajudar com todas as dicas ❤️ e a vocês, queridos leitores, pela paciência, não gosto de entregar qualquer coisa, por isso demoro para postar. Espero que gostem e até mais! ❤️

“Por que eu tive que quebrar o que eu tanto amo?

Está na sua cara

E eu sou a culpada, eu preciso dizer:

Ei, é tudo culpa minha, coisa da minha cabeça

Fui eu quem nos incendiou, mas não era minha intenção”

(Afterglow – Taylor Swift)

22 de Dezembro de 2024

RACHEL ESTAVA SILENCIOSA durante o voo, os olhos fixos na paisagem que se estendia pela janelinha do avião. O azul do céu contrastava com as nuvens esparsas, mas o que se passava em sua mente era uma tempestade. A ansiedade que sentira antes de embarcar a consumira por completo, obrigando-a a recorrer a um remédio para dormir. Era a única forma de tentar encontrar algum sossego em meio ao turbilhão de pensamentos que insistiam em dominar sua mente.

Na noite anterior ao voo, Rachel não conseguira pregar os olhos por mais de três horas. O relógio marcava quatro da manhã quando finalmente cedeu ao cansaço. Seu sono foi inquieto. A ansiedade a trouxe à tona lembranças e questionamentos que a mantinham presa ao passado. Entre as memórias mais recorrentes, estava o desastroso Natal de 2014. A imagem de seu ex-namorado, vinha à tona com frequência, trazendo consigo a dor de um relacionamento que não dera certo.

Perguntava-se como seria sua vida hoje se Garfield tivesse tomado decisões diferentes, se não fosse tão imaturo. E se ele não tivesse ido àquele bar? Por mais que sua mente insistisse em reviver essas possibilidades, ela sabia que era inútil. O passado não podia ser reescrito. Ela não tinha culpa pelo fracasso do relacionamento. Afinal, ela dera o melhor de si, mas uma relação não pode prosperar quando apenas uma das partes se doa.

“Relacionamentos saudáveis exigem reciprocidade,” pensou ela. Sem isso, o que resta é apenas uma dependência emocional que prolonga algo fadado ao fracasso desde o início.

Enquanto lutava contra a insônia, Rachel ponderava se aquela viagem não era, de alguma forma, uma nova oportunidade que o universo estava colocando em seu caminho. Será que deveria mesmo ir? Será que estava cometendo um novo erro? Será que iria lhe fazer bem reabrir uma gaveta a muito tempo trancada? A dúvida a corroía, e ela se martirizava por considerar desistir, por cogitar que talvez tudo fosse uma má ideia. Sua mente era palco de um conflito interno incessante, cada pensamento empurrando-a em uma direção diferente.

Agora, sentada no avião, Rachel suspirou fundo.

A melodia suave de “Closure”, do álbum Evermore de Taylor Swift, ecoava em seus ouvidos.

“Eu sei que sou apenas uma ruga em sua nova vida

Continuar como amigos resolveria isso tão bem

Culpa, culpa, estendendo a mão através do oceano

Que você colocou entre nós

Mas é tão falso e é, oh, tão desnecessário

Sim, recebi sua carta

Sim, eu estou melhor

Te conhecer me feriu profundamente, até os ossos

Sim, recebi sua carta

Sim, eu estou melhor

Eu já sei que acabou, eu não preciso do seu encerramento

Seu encerramento”

A música parecia traduzir perfeitamente seus sentimentos, em partes. As palavras sussurravam sobre deixar o passado para trás sem a necessidade de um fim formal, sem a necessidade de uma última conversa ou de um acordo de encerramento. É sobre a percepção de que uma relação acabou, e que ambas as pessoas estão a sair-se melhor sem ela.

Era um lembrete de que a vida segue, mesmo com as feridas que carregamos. Mas será que não seria possível reverter isso?

Rachel balançou a cabeça e fechou os olhos por um instante, permitindo-se sentir o peso das palavras. Ela sabia que, por mais difícil que fosse, precisava encontrar paz dentro de si mesma, independentemente do que o passado trouxesse à tona. Aquela viagem não era sobre Garfield ou sobre o que poderia ter sido. Era sobre ela, sobre reencontrar seus amigos e se permitir recomeçar, passando por cima de seus fantasmas.

Quando abriu os olhos novamente, a paisagem ainda estava lá, imutável. Mas algo dentro dela parecia ter mudado.

Conseguiu dormir admirando a beleza das águas claras do oceano Atlântico. Acordou apenas quando foi avisada pela comissária de bordo que iriam desembarcar. O aeroporto estava um caos nessa época do ano, com famílias apressadas andando de lá para cá, guiadas pelo entusiasmo das férias e das comemorações de final de ano. Essa data podia ser tão dolorosa quando não se tinha uma família.

Ela chamou um táxi e, enquanto seguia para o hotel que havia alugado por 10 dias, próximo de 10 km da fazenda de árvores de Natal de Rita Farr, observava os grandes prédios de Gotham City. Tão altos e claustrofóbicos, pareciam arquitetados especialmente para fazer alguém se sentir assim: enclausurada, intimidada por sua violência e grandeza. Esse cenário foi um gatilho para lembrar-se rapidamente dos dias em que lutara contra o crime ao lado dos Titãs e sob o manto de Ravena, uma lembrança distante agora.

A dona do hotel onde se hospedou era uma senhora de meia idade, de cintura avantajada, bochechas grandes e rosadas, de cabelos prateados e usando óculos de fundo de garrafa. Seu nome era Veronica Woody, e ela ajudou Rachel a levar suas malas até um quarto ajeitado. O espaço tinha um estilo rústico e acolhedor, com ar-condicionado, uma cama de solteiro adornada com um jogo de cama em tons pastéis que combinavam harmoniosamente com as paredes beges. Uma mesinha de cabeceira completava o ambiente, trazendo funcionalidade e charme ao cômodo.

Rachel colocou suas coisas no quarto, pegou o computador e tentou ligar o ar-condicionado, mas o aparelho não funcionou. Decidida a resolver o problema, saiu em busca de auxílio da Sra. Woody. Enquanto descia as escadas, avistou pela janela três pessoas ruivas descendo de um carro de forma atrapalhada, o que chamou sua atenção imediatamente.

À medida que se aproximava do carro estacionado, ouviu uma voz feminina chamando de dentro da casa. Era uma mulher ruiva, de pele negra, com cabelos volumosos e grandes cachos, gritando com firmeza:

— Ryan, leva as malas lá para dentro, por favor, e tome cuidado com essa mala branca! Meus materiais de trabalho estão aí dentro!

A mulher usava uma camisa xadrez em tom de roxo, que combinava com seus cabelos intensamente avermelhados, e usava um boné amarelo. Ela parecia determinada, mas também estava atenta aos detalhes.

Logo após, o homem negro que havia estacionado o carro saiu dele com um gesto tranquilo. Ele era grande, imponente, com longos cabelos ruivos que caíam pesados sobre seus ombros. Sua longa barba ruiva estava enfeitada com várias trancinhas. O que mais chamava a atenção era o seu rosto: um dos olhos era verde, mas o esquerdo tinha uma cicatriz enorme, cortando-o de forma dramática. Ele olhou para a mulher e disse, com um tom calmo, mas cheio de segurança:

— Eu te disse que chegaríamos antes do meio-dia, filha.

A mulher sorriu, um sorriso sincero, e respondeu:

— Nunca mais duvido de ti.

Rachel observava tudo em silêncio. Abriu e fechou a boca algumas vez antes de começar a falar:

— Kory? — A ruiva virou a cabeça para trás e abriu um sorriso largo ao reconhece-la.

— Melhor amiga Ravena?! — exclamou, correndo em direção a ela. Em um impulso, a envolveu em um abraço apertado que quase a deixou sem ar.

— Que saudades! — Anders exclamou, apertando Roth com força.

— Também estou com saudades... mas agora, você poderia me deixar respirar? — A detetive respondeu com dificuldades, tentando recuperar o fôlego.

Kory se afastou, rindo de forma contagiante, antes de dar um olhar alegre para Galfore.

— Oi, Rachel! — Ele cumprimentou, com um sorriso acolhedor.

— Oi Gal, tudo bem? — Rachel respondeu, acenando com um sorriso tímido.

— Vou indo — Galfore respondeu.

— Ah, parece que o senhor se estabilizou oficialmente na Terra — Rachel comentou com um tom curioso.

— É, levar a vida dirigindo pelas estradas é bem mais interessante do que ser o grande governante de um planeta cheio de guerras.

— Se tornou caminhoneiro?

— Não — Riu, balançando a cabeça. — Agora somos tipo nômades. Vivemos viajando os Estados Unidos em nossos Trailer.

— Decidimos por essa vida assim que larguei os Titãs em 2016 — Kory explicou, sorrindo. — Eu até voltei pro meu planeta natal, mas era muita ordem e pressão por eu ser a princesa herdeira. A ansiedade estava me matando! Então, passei o trono para um suplente, mas tenho informações de tudo nesse lado da galáxia. Decidi viver aqui na Terra, viver da minha arte, sem ter muitos julgamentos e sendo livre.

— Olha, você sempre teve essa vibe para mim. Sem ofensas. — Rachel comentou com um sorriso de cumplicidade.

— Engraçadinha! — A ruiva rebateu, rindo e fazendo cosquinhas na amiga de cabelos roxos, que não conseguiu segurar uma risada alta.

Recobraram o fôlego.

— Ryan, vem cá! Temos visitas! — A tamaraneana gritou, e logo o irmão adolescente apareceu.

Ryan agora estava grande, com longos cabelos ruivos e um semblante que lembrava muito o de Kory. Ele usava uma camisa polo branca e larga, e uma calça jeans rasgada. Seu porte físico ainda era de quem estava em fase de crescimento, mas já era possível ver os músculos começando a se delinear. Assim que se encostou no batente da porta, abaixou o fone de ouvido vermelho com detalhes em dourado.

— Esse é o Ryan?! Nossa, ele tá enorme! — Rachel exclamou.

— Pois é, amiga, estou com a mesma sensação. Meu bebê cresceu tão rápido! — Kory esticou o braço direito e bagunçou os cabelos do garoto, que lhe lançou um olhar estressado.

— Maninha, para! — Afastou sua mão de seus cabelos. — Não sou mais criança, sou um homem agora.

— Uh, só porque você pensa! — A irmã mais velha contestou.

Ryan suspirou e se virou para a visita.

— Eu me lembro de você, Ravena, né? — Ryan disse, com um sorriso travesso.

— Sim, mas não me chamam assim há muito tempo. — A empata respondeu, com um sorriso nostálgico. — Pode me chamar de Rae.

— Legal, Rae. Você tinha uns poderes irados. E namorava aquele cara verde esquisito. — Ryan comentou, com um olhar de desdém.

— Ryan! — Galfore o repreendeu com firmeza. No entanto, as mulheres não puderam conter o riso.

— Não dá para julgá-lo — Kory saiu em defesa do irmão. — Um homem verde acabando com o Natal... ele claramente o confundiu com o Grinch.

— Ainda mais naquele tom de amargura... — Rae concordou.

— Amiga, ele não se esqueceu do episódio do peru até hoje. — Kory deu uma risada, lembrando-se do momento.

— Caso ele esteja na ceia, ficarei de vigia do peru, já estou avisando. — Ryan brincou.

— Ceia? — Rae se virou para a amiga. — Vocês também estão aqui por causa do convite da Rita?

— Sim. Estávamos pensando em passar o Natal em Nova York — respondeu, colocando as mãos nos bolsos de trás da calça. — Curtir o feriado na Times Square, mas aí veio o convite e eu pensei que seria uma boa ideia rever a galera. Tipo, eu amei saber que você vai, mas admito que estou esperançosa para que certas pessoas não compareçam. — Ela fez uma careta.

Rachel suspirou, olhando para Kory, que mexia inquieta as mãos e mantinha o olhar desviado, uma expressão de tensão estampada no rosto.

— Você... saiu dos Titãs por causa do Dick? — Rachel perguntou com um tom mais sério.

A tamaraneana ficou em silêncio e desviou o olhar. Umedeceu os lábios antes de prosseguir:

— Que tal tomarmos um café para colocar a conversa em dia? — sugeriu, tocando o ombro pálido da amiga.

— Gosto da ideia.

— Ryan, você ajuda o papai!

— Mas que saco! — O caçula rosnou, batendo pé.

Deixaram Galfore e Ryan cuidando de organizar as coisas do carro para o hotel. Caminharam até uma loja de conveniência acoplada a um posto de gasolina próximo. Apesar de a distância ser curta, o esforço de andar na neve tornou o trajeto mais desgastante. Cada passo afundava na imensidão branca e fofa, e o frio cortante as fazia apertar os casacos contra o corpo.

Ao entrarem no local, foram acolhidas por um ambiente mais quente e acolhedor. O espaço era amplo e moderno, com prateleiras organizadas em tons quentes de vermelho e laranja que combinavam com o esquema de cores do posto de gasolina. O aroma de café fresco misturava-se com o cheiro levemente doce de chocolates e salgados expostos em destaque.

Elas pediram um café quente, um chá de camomila, acompanhados com milk shake de morango e misto quente de acompanhamento.

— Aqui parece um lugar bom para mim. — Rae sugeriu, apontando para uma mesa próxima que se localizava perto de uma grande janela panorâmica.

— E tem uma bela vista. — Star concordou.

Ao colocarem os celulares em cima da mesa, perceberam que está tinha uma superfície gelada que refletia o brilho suave das luzes do ambiente. Sentaram-se e, finalmente, relaxaram um pouco. Dali, podiam ver os carros abastecendo no posto e, ao fundo, o hotel onde estavam hospedadas quase desaparecendo atrás de uma grande placa que exibia os preços dos combustíveis.

Enquanto sopravam o vapor das bebidas para aliviar o calor do líquido, Kory olhou pela janela, observando distraidamente o movimento. Rachel fez o mesmo, sentindo uma sensação estranha de tranquilidade em meio ao frio cortante lá fora. Por um momento, ambas ficaram em silêncio, apenas apreciando o contraste entre o calor confortável do café e a paisagem branca e gelada do lado de fora.

— Respondendo aquela sua pergunta no hotel... — Kory começou. — Digamos que sim. Gostaria de não ter que admitir isso em voz alta... mas eu continuei amando o Dick mesmo após o nosso termo e, consequentemente... da traição. — Suspirou. — Mas eu achei que conseguiria controlar minhas emoções e deixar isso de lado, sabe? Ser a heroína dedicada que sempre fui, mas aí...

— Estou ouvindo. — Garantiu. Apertando a mão da amiga, sorrindo.

— No dia de ação de graças do ano seguinte que você se foi, ele convidou ela para vir passar a festividade com a gente. — A sentença saiu num tom amargo em sua boca.

Rachel não precisou pensar muito para chegar à conclusão de que a amiga estava se referindo a Barbara Gordon.

— Isso foi muito insensível da parte dele. — Comentou. — Ainda mais sabendo de como essa traição te machucou.

— Pois é, mas acho que o Dick nunca se importou comigo de verdade... eu me senti tão mal, Rae. Fiquei totalmente acabada em vê-los juntos. Meu coração se fragmentou em mil pedacinhos. E na hora eu só soube ir pro meu quarto e chorar e depois olhar pro meu reflexo abatido no banheiro desejando que tudo aqui passasse. — Anders fechou os olhos com força, sentindo algumas lágrimas teimosas escorrerem. — Mas não passou.

— Sei bem como se sente e sinto muito que tenha passado por isso. Não existe nada mais doloroso do que ser descartada como um cardigã velho, esquecido debaixo da cama de alguém.

— Acho que isso é de uma música da Taylor Swift. — Kory riu, abafado.

— Abigail, uma colega de trabalho, me viciou nela.

As duas riram um pouco, trocando algumas piadas e lembranças que quebraram o silêncio inicial. No entanto, após alguns minutos, a conversa se dissipou, e ambas voltaram a ficar em silêncio, cada uma imersa em seus próprios pensamentos.

Rachel encarou o chá de camomila à sua frente. O vapor subia lentamente da xícara, como se desenhasse pequenos arabescos no ar frio da loja. Ao lado, um misto quente feito com pão integral, queijo de ricota e peito de peru parecia um convite discreto, mas ela hesitou antes de dar a primeira mordida.

Kory, por outro lado, segurava um milkshake de morango. Ela tomou um longo gole, o canudo produzindo um leve ruído ao chegar ao fundo do copo. Depois, suspirou fundo, inclinando-se para trás na cadeira.

— Não sei se fui uma boa namorada. Por mais que eu tenha me esforçado para ser atenciosa, compreensiva, gentil... Sempre estive com ele em todos os momentos, mas acho que nunca fui suficiente. Aconselhei, orientei, fui fiel. E ainda assim, ele fez isso comigo. Me trocou por ela sem nem ao menos considerar o que eu sentia.

— Não chore, por favor. Você não fez nada de errado. O único canalha aqui é o Grayson.

— Sabe o que é irônico? — Kory riu, mas sem humor. — Eu sempre te disse que homens medíocres machucam mulheres incríveis. Sempre te aconselhei a fugir deles. Mas eu mesma não consegui seguir o meu próprio conselho.

Rachel suspirou, apertando a mão de Kory sobre a mesa.

— Isso só prova que você é humana, Kory. Mas, olha, o que importa é que isso te deixou mais forte.

— Talvez... Mas quem está contando? — Kory disse, desviando o olhar pela janela. Depois de um momento de silêncio, acrescentou: — Eu definitivamente não quero encará-lo na festa da Rita. Só de imaginar... Ele vai rir ao saber que não consegui me tornar a artista que sempre sonhei. Que meus quadros só conseguem ser vendidos em brechós de quinta categoria.

Rachel estreitou os olhos, o tom de sua voz firme:

— Primeiro de tudo, ele não tem o direito de rir de nada. E segundo, vender em brechós ou galerias de luxo não muda o valor da sua arte, muito menos o seu. E você sabe disso, Star.

Fazia anos que Anders não escutava aquele apelido.

— Pelo menos eu não vendi minha alma e não me tornei apenas um bonequinho do meu pai. Ele ia começar a cursar Administração e abandonar o manto de Robin para cumprir as obrigações do Bruce. Nós duas sabemos que não é só para administrar a fortuna milionária dele.

— Nunca imaginei que um dia o Bruce se aposentaria como Batman.

— Bruce foi diagnosticado com Parkinson naquele ano. Lutar contra psicopatas definitivamente não estava nas recomendações médicas.

— Não havia mais ninguém para substituí-lo? Jason? Tim?

— Tim tinha outros planos com o namorado, Bernard. E o Jason... Bem, ele morreu. Coringa, de novo.

— O quê? Como? Quando? — Rachel arregalou os olhos, chocada.

— Há uns oito anos. O Coringa o sequestrou, torturou e assassinou com um pé de cabra. Foi esse o motivo que levou o Bruce a abandonar o manto também. Isso e o fato de o Coringa também ter atacado a Barbara.

— A Barbara?

— Sim. Ele invadiu a casa dela e atirou na barriga dela. A bala atingiu a coluna cervical. Por pouco que ela não perdeu essa batalha. Desde então, ela ficou cadeirante. Ela se tornou a nova Oráculo da Batcaverna, porque não consegue mais atuar em campo. Foi o Cyb que me contou. Acho que essa é a forma dela de continuar ativa nas funções de proteger Gotham.

— E o Dick?

— Dick se sentiu horrível. Ele era o novo Batman na época e não conseguiu chegar a tempo. Nem sei se ele e a Barbara voltaram depois disso.

— Acho que devi ter sido o suficiente para ele amadurecer e se tornar um homem.

— Quem sabe... mas não consigo sentir pena de gente escrota.

Rachel respirou fundo, o coração acelerado.

— É muita coisa para processar. Como alguém pode ser tão cruel a esse ponto? E como o Bruce nunca fez nada para tirar o Coringa de circulação?

— Acho que o lema de não matar foi o problema. Covardia, talvez?

— Talvez.

Um silêncio pesado pairou entre elas por um momento. Então Kory deu um suspiro profundo, tentando mudar o tom.

— Enfim, vamos deixar esse clima pesado de lado. Valeu por me ouvir, amiga. Eu realmente precisava desabafar.

— Você sabe que sempre pode contar comigo. Você ainda é minha melhor amiga.

— E você sempre foi a minha. Te amo.

— Também te amo. — Rachel sorriu. — Então, vamos voltar para o hotel?

— Vamos. — Kory levantou, suspirando. — Acho que é hora de enfrentar o dragão de frente. — Ela estendeu a mão para chamar a atenção do atendente. — A conta, por favor.

[...]

Garfield Logan estava no quarto de hospital, ajoelhado à altura da pequena Eleanor Oleary. Com uma lanterna em mãos, ele analisava cuidadosamente a pupila da menina. Eleanor, loirinha e com um sorriso adorável, ainda exibindo os dois dentes da frente faltando, estava calma e paciente, apesar de tudo o que tinha passado.

— Está tudo em ordem com a Eleanor — anunciou Garfield, com um sorriso tranquilizador nos lábios. Os pais da menina, Mark e Paul, que aguardavam ansiosos ao lado da cama, finalmente puderam soltar um suspiro aliviado.

A cirurgia tinha sido um sucesso. Eleanor havia passado por uma longa e delicada operação para remover dois tumores cerebrais, e Garfield Logan, formado em clínica geral e agora no final de seu primeiro ano de especialização em neurologia cirurgiã, havia participado do procedimento com dedicação e habilidade. Apesar de estar em treinamento, Garfield era reconhecido por sua entrega e talento.

— Muito obrigada, doutor Logan — disse Mark, com os olhos cheios de gratidão. — O senhor foi um anjo na vida da nossa pequena. Sabíamos que podíamos confiar em você. Jesus o colocou em nossas vidas neste momento tão difícil por um motivo.

— Agradeço, mas tenho que ceder metade dos créditos à Els. Ela foi incrível e muito corajosa — respondeu Garfield, com humildade.

— Valeu, doutor Logan — agradeceu Eleanor, abrindo um sorriso iluminado.

Garfield retribuiu o sorriso e, como havia prometido, entregou a ela um pequeno certificado colorido.

— Aqui está o seu certificado de coragem. Você merece.

— Uau! — Eleanor exclamou, segurando o certificado como se fosse um troféu.

Despedindo-se com carinho, Garfield deixou o quarto e caminhou pelo corredor do hospital. Seu turno de 24 horas estava prestes a terminar em cinco minutos, e ele mal podia esperar para ir para casa e descansar. O cansaço era evidente, mas o sentimento de dever cumprido fazia cada segundo valer a pena.

Enquanto atravessava os corredores silenciosos, Garfield lembrou-se de sua jornada até ali. Ele havia decidido se tornar médico em um momento que surpreendeu a todos — quando Rachel deixou os Titãs. Aquela mudança inesperada o fez refletir profundamente sobre sua própria missão na vida. Sempre apaixonado por biologia e por salvar vidas, Garfield encontrou inspiração na figura de Galfore, que lhe ensinou o valor da empatia e da responsabilidade.

Foram anos de estudos intensos, noites em claro e uma luta constante contra o TDAH. Garfield precisou desenvolver estratégias criativas de aprendizado e buscar aulas de reforço para acompanhar as exigências do curso de medicina. Mas, no fim, todo o esforço valeu a pena. Ele se formou em clínica geral e, agora, estava se especializando em neurologia em um dos hospitais oncológicos mais renomados de Gotham City.

Ao sair da sala, Garfield foi abordado pela doutora Eula Tozier, uma das professoras e neurologistas mais respeitadas do hospital. De meia-idade, ela era uma mulher esguia, com longos cabelos pretos que reluziam sob a luz, enquanto rugas suaves marcavam os cantos de seus olhos e pescoço, conferindo-lhe uma elegância madura. Apesar dessas marcas do tempo, sua beleza permanecia evidente, com uma sofisticação que a fazia lembrar Garfield da atriz Demi Moore.

— Excelente trabalho hoje, Logan. O Dr. Morrison disse que o senhor foi muito bem na cirurgia. — disse a doutora Tozier, com um sorriso caloroso.

— Fico feliz em ouvir isso. Dei meu melhor.

— Na verdade, o senhor está se saindo muito bem aqui no estágio aqui do hospital. Muitos pacientes fizeram boas avaliações do senhor, dizendo que é atencioso e dedicado. Consigo ver um grande futuro para você na neurologia. Continue assim.

— Eu que agradeço por todos os ensinamentos, doutora Tozier — respondeu Garfield, sentindo um calor de orgulho e gratidão.

— Feliz Natal, espero que aproveite bem as suas férias. – Ela sorriu.

— Feliz Natal, doutora.

Enquanto saía do hospital, o frio de Gotham o envolveu, mas ele mal notou. O calor das palavras de agradecimento de Mark, Paul e da pequena Eleanor aquecia seu coração. Logan sabia que havia escolhido o caminho certo.

Garfield dirigia uma Chevy G10, bege, 1978, com cautela, navegando pelas estradas congeladas da rodovia principal de Gotham a caminho da fazenda de sua mãe. O frio intenso tornava o volante rígido sob suas mãos, mas o calor do copo de café reforçado, comprado no Starbucks, ajudava a mantê-lo desperto.

Enquanto passava pelo hotel da Sra. Woody, piscou os olhos repetidamente, tentando afastar a distração causada por uma visão inesperada: uma mulher ruiva e outra morena saindo de um posto de conveniência próximo. Por um instante, perdeu o foco e quase invadiu a pista ao lado.

— Mais cuidado por onde anda, maluco! Caralho! — gritou o motorista de um Chevrolet Spin azul escuro, buzinando e freando para evitar a colisão.

— Foi mal! — Garfield respondeu, acenando em pedido de desculpas.

Ele respirou fundo e tentou voltar a atenção para a estrada, mas o posto já havia sumido no retrovisor. Com um suspiro cansado, ligou o rádio, buscando uma distração que o ajudasse a relaxar. Talvez não fosse nada demais, disse a si mesmo, tentando convencer sua mente inquieta.

Assim que chegou na fazenda. Garfield se encarou no retrovisor do veículo e retirou seu colar de pedra esmeralda. Em menos de um minuto, sua pele de clara foi para o tom esverdeado habitual.

— Sempre tenho que agradecer a M’gann por me dar esse presente.

De fato, aquela invenção marciana para se camuflar entre os humanos era bastante útil para salvar sua vida social.

Desceu da velha van, fechando a porta com um rangido, e seguiu pelo caminho de cascalho até o jardim, onde sua mãe trabalhava diligentemente. Rita, de touca marrom e luvas grossas, estava inclinada sobre um arbusto de rosas, manejando com precisão uma grande tesoura de jardinagem.

— Boa tarde, mãe! — ele cumprimentou, levantando a mão num gesto animado.

Rita ergueu o olhar, sorrindo ao vê-lo. Ela deixou a tesoura de lado com cuidado e se levantou, limpando as luvas na saia.

— Boa tarde, meu amor! — respondeu com carinho, aproximando-se dele. — Como foi a cirurgia?

Garfield soltou um suspiro aliviado e abriu um sorriso orgulhoso.

— Deu tudo certo. A Els vai sobreviver. Fiquei bem nervoso na hora, mas aí respirei fundo, usei aquela técnica pra controle de ansiedade que você me ensinou, e pronto. Eu sou O Cara! — Ele deu um tapinha no peito, meio brincando, mas claramente satisfeito consigo mesmo. — E ainda fui elogiado pela Dra. Tozier. Acho que minha nota vai ser ótima neste semestre.

— Você é o meu orgulho! — Rita exclamou, abraçando-o com força, o aroma de terra e flores impregnando as luvas que tocaram de leve as costas dele.

Antes que Garfield pudesse responder, a voz grave de Cliff ecoou do outro lado do quintal.

— Muito bem, O Cara! — ele disse, surgindo com passos firmes e os braços robóticos brilhando sob a luz. — Fico feliz que tenha dado tudo certo, mas agora me explica que diabos você fez com a minha carranca velha? — Cliff apontou para a van com um dos braços mecânicos, os dedos metálicos indicando o arranhão profundo na lateral. — Que droga é essa?!

Garfield coçou a nuca, desviando o olhar por um segundo.

— Ah, isso... — murmurou, visivelmente desconfortável. — Meio que quase me envolvi num acidente, tio Cliff.

Quase?! — Cliff bufou, cruzando os braços de metal sobre o peito. — Era só o que me faltava. Você vai pagar por isso, garoto.

— Acidente? — Rita interrompeu, a preocupação estampada no rosto. — O que aconteceu? Você se machucou? Foi na pista vindo pra cá? Eu já disse pro prefeito Derek consertar aqueles buracos, mas ele nunca me ouve!

— Não, não foi nada disso, mãe. Foi erro meu.

— Nem tem vergonha de admitir! — Cliff resmungou, incrédulo.

Garfield suspirou e deu um meio sorriso.

— É que, quando estava voltando, olhei pro posto de conveniência perto do hotel da Sra. Woody e vi a silhueta de duas mulheres que pareciam muito com a Rachel e a Kory. Loucura, né?

O silêncio que se seguiu foi estranho. Rita e Cliff se entreolharam, trocando um olhar carregado de significado.

— Por que vocês estão tão quietos? — Garfield franziu a testa, o tom levemente desconfiado. — O que vocês sabem que eu não sei?

Cliff fez um gesto evasivo.

— Quer saber? Eu peço pro Larry me ajudar a consertar a van. Tenho o fim de semana inteiro livre. Não se preocupe, doutor, pode descansar.

— Mãe? — Garfield insistiu, virando-se para Rita.

Ela hesitou, mordendo o lábio por um instante antes de erguer as mãos como quem se rende.

— Tá bom, tá bom. Digamos que eu meio que convidei os seus ex-colegas dos Titãs para a ceia de Natal este ano. Inclusive a Rachel. Culpada. — Ela deu uma risadinha sem graça, olhando para o chão.

Garfield ficou imóvel por alguns segundos, tentando processar a informação, antes de soltar um longo suspiro.

— Claro, por que não? Natal é mesmo uma época mágica... — Ele murmurou, sacudindo a cabeça com um sorriso resignado. — Mas agora tenho que ir dormir... Dia corrido, sabe?

— Tudo bem e me desculpa, querido, não era minha intenção te deixar triste ou desconfortável.

— Não precisa se desculpas, a senhora não fez nada de errado, eu só... Tô cansando demais para continuar com essa conversa. Boa noite! — Ele se afastou, com a cabeça baixa.

— Te disse que não seria uma boa ideia!

— Por favor, dá um tempo, Cliff!

[...]

“Me desculpe por ter te machucado

Eu não quero fazer isso com você

Eu não quero perder isso com você

Eu preciso dizer:

Ei, é tudo culpa minha, só não vá embora

Me encontre no crepúsculo”

Garfield subiu para o quarto, empurrando a porta com suavidade e entrando no espaço que sempre lhe oferecera algum conforto. O ambiente era simples e organizado, com paredes pintadas em um tom verde suave que lembrava um reflexo de si, mas que agora parecia quase sufocante. Poucos móveis preenchiam o cômodo: uma cama de solteiro encostada na parede, uma escrivaninha com um laptop ligado e uma luminária de luz amarelada, além de uma estante abarrotada de livros densos de medicina, cada um carregando o peso de sua dedicação.

No canto oposto, um detalhe que ele raramente encarava de frente: uma sessão de fotos dispostas em uma grande moldura. Ali estavam memórias de todas as fases de sua vida. Imagens de sua infância, momentos felizes com a família, formaturas... e, inevitavelmente, fotos dos Titãs. Entre elas, Rachel. Sempre ela.

Ele desviou o olhar antes que a enxurrada de sentimentos o invadisse. Caminhou até o banheiro adjacente e abriu o chuveiro, deixando a água morna escorrer por seu corpo tenso. O banho foi rápido, mas suficiente para lavar o frio da estrada e a exaustão física do turno de 24 horas. Porém, ao voltar para o quarto, vestindo roupas confortáveis, o peso no peito continuava lá, intacto.

Deitando-se na cama, Garfield puxou o cobertor até o peito e fechou os olhos, esperando que o sono o abraçasse rapidamente. Mas isso não aconteceu. Por mais que estivesse exausto, sua mente não parava.

Rachel. Sua imagem parecia gravada na parte de trás de suas pálpebras. Ele se lembrava do jeito que ela sorria, da intensidade em seu olhar, e, inevitavelmente, de todas as mancadas que ele havia dado enquanto estiveram juntos. Sua ansiedade, sua insegurança... Parecia que cada erro seu agora estava ampliado, como se uma lente cruel destacasse as falhas que ele tentava ignorar.

O nó em sua garganta apertava cada vez mais, e ele se segurava para não chorar. Afinal, tudo aquilo era culpa dele. Ele sabia disso. As brigas, os afastamentos... o fim abrupto e inesperado. Tudo por causa de sua cabeça bagunçada, de traumas antigos que ele nunca teve coragem de enfrentar.

Por meses, mentiu para si mesmo, dizendo que a ausência dela não fazia diferença. Mas isso era uma ilusão. Seis meses de negação, até que, finalmente, decidiu procurá-la. Lembrava-se da sensação amarga de estar diante da porta da faculdade dela, nervoso e esperançoso, apenas para ouvir de uma colega dela que Rachel não queria vê-lo.

Aquilo o devastou. Ele desistiu. Recolheu-se novamente em sua concha, convencido de que havia perdido a chance de consertar as coisas. Não porque não a amava, mas porque era mais fácil fugir.

Agora, deitado em sua cama, essas memórias pesavam como nunca. As paredes verdes pareciam se fechar ao seu redor. O vazio que sentia não era novo, mas era mais intenso agora. Ele respirou fundo, tentando se concentrar no som de sua respiração, como sua mãe o ensinara, mas dessa vez não funcionava.

Rachel era a única pessoa que ele desejava naquele momento, mas também a única que ele não podia alcançar. Com os olhos fixos no teto escuro, ele soltou um suspiro pesado, sentindo o cansaço se misturar à tristeza. Uma lágrima quente escorreu pela lateral de seu rosto antes que ele pudesse impedir. Era difícil admitir, mas ele sabia: ainda não havia superado. E talvez nunca superaria.

Garfield se sentou na cama e pegou o copo de água que sempre deixava disposto em sua mesinha de cabeceira, do lado do abajur. Enquanto segurava o copo com as mãos trêmulas, engoliu em seco. Não era o álcool, mas mesmo assim, o gesto carregava uma memória incômoda. A última vez que a vira, ele estava bêbado, tropeçando nas próprias palavras, preso em um ciclo destrutivo do qual parecia impossível sair. Ela havia visto seu pior lado — a fragilidade e o descontrole que o vício havia arrancado dele. Agora, mesmo sóbrio, a dúvida o consumia: será que ela acreditaria em sua mudança? Será que o enxergaria além daquela versão de si mesmo que ele mesmo mal reconhecia? O medo de um julgamento silencioso, ou pior, de um olhar decepcionado, tornava difícil até mesmo sustentar a coragem para encará-la de novo.

Ele tinha medo de estragar tudo de novo. Ela havia se tornado uma figura distante e inalcançável pra si. Não fazia a mínima ideia de como reagiria ao vê-la depois de tanto tempo.