Christmas Tree Farm
2 Eu volto para dezembro o tempo todo
Notas iniciais

“Então essa sou eu engolindo o meu orgulho
Em pé na sua frente dizendo que sinto muito por aquela noite
E eu volto pra dezembro o tempo todo
Acontece que a liberdade não é nada mais além de saudades suas
Desejando ter percebido o que eu tinha quando você era meu
E eu volto pra dezembro o tempo todo”
(Back To December – Taylor Swift)
15 de Dezembro de 2024
— EU NUNCA MAIS vou pisar os meus preciosos pés nessa espelunca! — exclamou uma loira, estupefata.
Ela usava um vestido azul de seda, uma blusa de frio pesada com babados e botas vermelhas sujas de lama. Enquanto dizia isso, arrastava sua mala com esforço pela lama e a colocava no porta-malas do táxi.
— Tara, espera, por favor, vamos conversar! — Um rapaz de cabelos e pele verde suplicou, correndo atrás dela, tentando alcançar seu antebraço.
— Não, Garfield! — Ela se esquivou bruscamente. — Estou há menos de TRÊS DIAS aqui e quase fui morta mais de uma vez pelos animais e insetos desse lugar infernal! Essa fazenda da sua mãe é uma verdadeira amostra do inferno!!!
— Por favor, não seja exagerada.
— Exagerada?! — Markov apontou para si mesma, com os olhos e bocas arregalados, perplexa.
Tudo começou naquela fatídica manhã, quando Rita Farr e Garfield estavam prontos para cumprir a tarefa de cortar as árvores de Natal encomendadas pelos clientes. Enquanto isso, Tara foi encarregada de ajudar Cliff Steele — um tio de consideração de Gar —, a alimentar e preparar as renas para a exibição natalina que ocorreria durante o almoço. Era um evento aguardado por todos da região, especialmente pelas crianças, que esperavam ansiosas pela chegada de Larry Trainor, outro tio de consideração de Gar, vestido como Papai Noel.
Tara aceitou a tarefa a contragosto, já antecipando que aquilo não acabaria bem. Sua primeira missão foi alimentar Sven, uma das renas da fazenda. O que ninguém teve o cuidado de avisar, era que Sven tinha um temperamento difícil, odiava a cor vermelha e não era lá muito paciente com humanos que o chamassem de “cervo idiota”. Vestida justamente de vermelho, Tara também não foi exatamente amigável ao lidar com ele, especialmente depois que o animal chutou o milho, acertando-a em cheio.
O resultado foi um espetáculo que seria cômico, se não fosse trágico para Tara. Sven avançou como uma flecha, e seus gritos puderam ser ouvidos até o campo de pinheiros. A perseguição só terminou quando ela tropeçou em uma raiz e rolou morro abaixo na floresta, batendo nos galhos pelo caminho e destruindo seu caro vestido. Após uma visita ao médico, o diagnóstico foi tranquilizador: nenhuma fratura, mas sua paciência com a fazenda de Rita estava definitivamente esgotada.
— Olha, eu entendo que deve ter sido frustrante o lance com o Sven...
Tara o interrompeu.
— A questão, Garfield, é que, não sei se você percebeu, mas o problema não é só o Sven! A semana inteira está sendo um desastre monumental para mim!
— Mas por que? Tudo parece estar tão perfeito...
— Perfeito?! Na primeira noite, eu fui atacada por uma horda de pernilongos. Minhas pernas estão todas vermelhas! — Ela apontou para as canelas desnudas. — E no dia seguinte, quebrei um dos seus saltos favoritos, enquanto te ajudava a carregar um pinheiro até a caminhonete.
— Eu disse que eu e o tio Cliff dávamos conta.
— Sim, com um tom que soou muito como se você me achasse inútil demais para fazer isso. E pelo visto, não estava errado... — Sussurrou a última parte, antes de continuar. — E como se não bastasse, a minha calça jeans de 3 mil dólares da Zara rasgou bem no meio da minha... acho que você sabe onde estou me referindo.
Garfield se segurou para não rir.
— Isso porque eu ainda nem entrei no critério das refeições.
— Eita, calma lá. A comida da minha mãe é a melhor da região. Ela ganhou por 3 anos consecutivos o prêmio de melhor comida de hotel nos melhores do ano promovido pelo prefeito!
— Claro, mas ela sempre dizia que estava ocupada demais para atender as minhas preferencias alimentares! Ela me servia a porcaria de bacon e presunto em todos os cafés da manhã, sendo que eu sempre deixei claro que preferia peito de peru e atum para seguir com a minha dieta restritiva. Uma tremenda falta de empatia!
Garfield soltou o ar pela boca. Ele fechou os olhos com força, relembrando das outras inúmeras queixas de Markov.
As noites tampouco ofereciam descanso. Tara dividia o quarto com Garfield, mas o verdadeiro terror aparecia quando ela forçava a janela emperrada, na intenção de fechá-la, antes de dormir e dava de cara com um guaxinim curioso. Em todas as vezes, ela caía para trás, esperneava e gritava, e o pequeno invasor parecia se divertir à custa de seu desespero.
A lista de desventuras parecia interminável. Ao tentar lavar suas roupas, Tara derrubou um recipiente de um litro inteiro de sabão em pó na máquina, provocando uma espuma digna de um show de comédia. E, claro, teve o episódio embaraçoso do lençol elástico: uma luta épica que terminou com ela presa nele por meia hora, sem que ninguém ouvisse seus pedidos de socorro.
Como se já não bastassem os desafios do ambiente rural, Tara ainda tinha que lidar com as moscas, os grilos e as traças que pareciam conspirar para destruir o que restava de sua paciência.
— Eu fui muito heroína de estar aqui até agora! — Ela acusou, entrando dentro do Táxi.
— Querida, por favor...
— Não me venha com “querida” agora! — Cuspiu e passou as coordenadas pro taxista. — O mais longe daqui, de preferência!
— Calma, tenho certeza que podemos resolver isso. Meus amigos estão loucos para te reencontrar e...
— Que se foda! — Gritou.
— Mas eles também são seus amigos e...
— Passar bem, Logan! — disse, apontando o dedo do meio, quando o carro deu partida.
— O Natal definitivamente não é uma boa data pra ti, garotão. — Cliff disse, dando dois tapinhas no seu ombro esquerdo. — Se eu ganhasse uma moeda toda vez que você levasse um pé na bunda no Natal, eu teria duas moedas. O que não é muito, mas é estranho ter acontecido duas vezes!
— Valeu, tio Cliff. — Garfield forçou um sorriso.
— Cliff, por favor, não seja tão duro com ele. — Rita pediu. — Sinto muito pela sua namorada, querido. — O abraçou.
— Tá tudo bem, mãe. — Ele retribui e depois se afastaram. — E ela não era minha namorada, pelo menos não oficialmente
— Como é que os jovens dizem mesmo, eram “ficantes”? — Cliff arriscou. — Quanta tolice!
— Mesmo sendo “o seu relacionamento não sério e não oficializado” — Sua mãe fez aspas no ar. — Parecia que você queria dar o passo adiante, até a trouxe pra cá, pra conhecer a nossa família.
— Acho que fui muito precipitado... — Arqueou as costas. — Ela era legal, mas nunca seria igual a...
— Rachel? — Rita completou.
— A garota ideal.
Garfield suspirou fundo e pôs as mãos no bolso da blusa de frio.
— É... — Ele se afastou e se virou. — Preciso de um tempo, ok?
— Tudo bem, o Cliff pode me ajudar com as árvores de natal que faltam.
— Eu? — O homem robô apontou para si, indignado, apesar da face de metal não deixar transparecer as expressões faciais.
— Sim. — Rita afirmou.
— Porra! Nunca mais venho te ajudar não, bem que a Jane disse que você escraviza o primeiro trouxa que aparecer. Por que não pede pro Larry?
— Porque o Larry está ocupado se arrumando de Papai Noel. — Ela cruzou os braços.
— Ai, mas que saco!
— Seja compreensível. O nosso garoto já passou por coisa demais hoje.
— Ele tem 29 anos! Já sabe lidar com seus problemas e com suas responsabilidades.
— Que coisa mais maldosa de se dizer.
— Você tem que parar de trata-lo como criança, assim ele nunca vai amadurecer. — Cliff decretou, indo pegar a primeira arvore do chão.
— Que seja, ele sempre será o meu bebê.
— Bebê é o caralho!
Cliff, em seguida, reprimiu uma sequência palavrão enquanto carregava as árvores sozinho com um só braço, continuando o trabalho a mais que lhe foi designado.
Enquanto isso, Garfield, que estava escondido atrás da porta do celeiro que ficava perto de onde os dois discutiam, balançou a cabeça e se aproximou do cantinho especial de Ventania, o cavalo mais rápido da fazenda, que fazia a alegria das crianças – desde que não ultrapassassem 50 quilos – junto da rena Sven. O animal, branco, de crina amarela e brilhante, estava calmamente comendo sua ração quando Logan chegou e começou a acariciá-lo.
— E aí, amigão, como vão as coisas? — perguntou ele.
O cavalo apenas balançou a cabeça, desviando rapidamente a atenção da comida, porém logo voltou a comer. Garfield riu.
— É, fico feliz que você esteja bem... A Tara foi embora, amigão. Fez o maior escândalo... Mas sabe, não a culpo. Na verdade, estou feliz por ela ter ido embora. Estranho, né? Acho que nunca combinamos desde o começo. Ela sempre me olhava de cima pra baixo, como se eu fosse inferior por não saber a diferença entre uma bolsa de luxo e uma réplica barata. Que no fim, pra mim, dá tudo na mesma.
Garfield encarou o chão por um momento e suspirou fundo.
— Mesmo assim, meu coração está doendo. Isso dela me abandonar justo hoje, há menos de 10 dias pro Natal, me fez me lembrar — Parou de repente, umedeceu os olhos e fixou o olhar no chão. Quando voltou a falar, sua voz era baixa, quase um sussurro. — da Rachel...
Ventania levantou o pescoço e o encarou.
— Não, você não teve a oportunidade de conhecê-la. Você nem pensava em vir ao mundo quando nos separamos. — Riu, fraco. — Ela fazia parte da minha equipe, quando eu ainda era membro dos Titãs...
Ele sorriu, os olhos marejados de lágrimas e um brilho nostálgico refletindo na expressão. Logo, continuou:
— Tudo foi minha culpa. Eu fui um babaca egoísta que queria ela por perto a qualquer custo, mesmo que isso significasse fazê-la abandonar seus sonhos e abrir mão da própria felicidade. E também tinha o meu vício no álcool. Eu nunca pude me controlar, sozinho. Passei dos limites. Mesmo já tendo superado o vício, ainda me dói falar sobre. E tudo isso, somado a todo aquele ciúme bobo, só piorou tudo...
Ele fez uma pausa, acariciando a crina de Ventania.
— Queria saber como ela está hoje. Eu ainda tenho contato com os Titãs, mesmo depois de ter saído da equipe e abandonado a vida de super-herói há alguns anos. Mas eles nunca mencionam o nome dela. Deve ser por respeito... ou receio.
Logan sentiu os olhos começarem a lacrimejar.
— Tenho saudade daquele tempo. Todo mundo parece tão distante agora.
Ventania, como se entendesse a melancolia do momento, encostou sua cabeça no ombro de Garfield.
— Sabe, amigo, eu andei pesquisando. Soube que ela está bem na Scotland Yard. É uma das detetives mais renomadas de lá, sempre aparece em revistas e reportagens. Parece que ela anda mais ocupada do que nunca... mas fico feliz por tudo que ela conquistou. Rachel sempre foi tão sensitiva, esforçada e inteligente. — Garfield fez uma pausa, deslizando os dedos na crina brilhante de Ventania, que balançou a cabeça suavemente, como se o encorajasse a continuar.
— Eu já tentei mandar mensagens pra ela algumas vezes. Já digitei cartas longas, mas... apaguei todas logo em seguida.
Ventania, como se notasse o tom pesado da confissão, encostou o focinho na mão de Garfield, fazendo-o sorrir. Ele riu baixinho e deu um leve toque no pescoço do cavalo.
— Você é um ótimo ouvinte, amigão — Garfield suspirou e continuou. — Sinto que não deveria fazer isso com ela, depois de tanto tempo. Reabrir antigas feridas... Isso só a deixaria ansiosa, talvez até receosa. Porque, da última vez que ela me viu... — Ele olhou para o chão, a voz quase sumindo. — Ainda deve estar queimada no fundo da sua mente. Ela colocou tantas expectativas em mim, e eu... eu as deixei queimar.
Garfield deu um passo para o lado, mas Ventania o seguiu, encostando levemente a cabeça em seu ombro. Ele sorriu de canto e passou a mão no focinho do cavalo, os olhos começando a brilhar com lágrimas.
— Posso te contar um segredo? — Acariciou Ventania de novo, com movimentos lentos. — Eu volto pra aquele dezembro o tempo todo na minha mente. Dou meia-volta e faço tudo ficar bem. Sempre me dou falsas fantasia a fim de aliviar a dor dessa terrível realidade... Mas mesmo assim, é um peso que nunca consigo deixar para trás. Acho que no fundo, eu só queria que o universo me presenteasse com mais uma chance, mesmo que eu não seja realmente merecedor dela...
Ventania bufou baixo e deu um passo adiante, quase como se tentasse abraçar Garfield com seu corpo robusto. Ele riu baixinho, acariciando o animal mais uma vez.
— Obrigado, parceiro. Às vezes, você entende mais do que qualquer pessoa.
A neve começou a cair com força, cobrindo o céu com um véu branco e denso. Os ventos sopravam do leste, cortando pela Crina de Ventania e sacudindo os galhos das árvores. Com esse mesmo balançar, chegaram a brincar com os cabelos de Rita, que suspirava profundamente enquanto observava o horizonte.
— Ele está tão tristinho… que judiação! — comentou a mulher, com um ar de pesar.
— Não se preocupe, ele vai sobreviver — ironizou Cliff, enquanto fazia força para carregar outra árvore até a traseira da caminhonete. Após encaixá-la, deu um tapinha satisfeito na lataria, como se parabenizasse a si mesmo pelo trabalho bem feito.
— Eu realmente não sei… — murmurou Rita, antes de parar de repente. — Espera aí!
Um sorriso largo e quase malicioso se espalhou em seu rosto, tão exagerado que lembrava o do Grinch. Cliff notou e franziu o cenho.
— Mas que diabos de cara é essa, Rita? Tá parecendo uma psicopata!
— Acho que tive uma ideia! — exclamou ela, cheia de empolgação.
— O que você vai aprontar agora?
— Nada além do necessário, para o bem de todos.
— Já pensou que a melhor alternativa pra todos é não se intrometer? Deixar as coisas fluírem no próprio ritmo.
— Ah, mas o ritmo das coisas está muito lento, bobinho — bateu com o dedo indicador no nariz metálico de Steele. — E uma ajudinha não prejudicará ninguém.
Cliff cruzou os braços e soltou um suspiro resignado.
— É exatamente disso que eu tenho medo.
[...]
16 de Dezembro de 2024.
Rachel estava exausta.
O último caso havia sido bem desgastante.
A investigadora Roth enfrentou um dos casos mais desafiadores de sua carreira nos últimos dois meses: o brutal assassinato da pequena Connie Rollins, de 7 anos de idade, encontrado em um terreno baldio a cinco quadras de sua casa, em uma noite chuvosa de outono. O caso abalou a comunidade, e a complexidade das investigações trouxe desafios inesperados para sua equipe.
Quando a equipe chegou ao local, o cenário era desolador: nenhuma digital, pegada ou vestígio de sangue além do de Connie foi encontrado.
— Parece que temos um caso delicado em mãos, Kensington — comentou Rachel para sua colega de equipe, Abigail, que fotografava a cena do crime com calma.
— Pobrezinha. Sempre me dói o coração ver vítimas tão jovens assim. — A ruiva abaixou a câmara por alguns instantes, numa expressão serena.
— Nem me fale. Os peritos disseram que não encontraram nada que possa nos dar uma luz — respondeu Rachel, enquanto olhava ao redor. O vento do final de tarde balançava seus cabelos, e os fios roxos deslizaram para frente, bloqueando sua visão. Ao ajeitá-los para trás da orelha, seus olhos se fixaram em um restaurante na esquina.
A fachada do restaurante Vicenzo’s era pintada de amarelo vibrante, com um grande desenho de uma pizza fumegante no centro. O letreiro acima da entrada exibia o nome em letras cursivas vermelhas, destacando-se na esquina movimentada.
— Bem que o universo podia nos dar uma luz — murmurou Abigail, pensativa.
— Acho que suas preces acabaram de ser ouvidas. Tive uma ideia.
E, como previsto, ao entrevistar Christoffer Vicenzo, o proprietário do restaurante próximo, um detalhe crucial veio à tona. Ele relatou ter visto um Chevrolet Opala 1978, preto, estacionar no terreno baldio naquela noite, e o motorista teria descartado algo suspeito ali. Esse relato revelou-se vital, pois Connie havia sido enterrada no local até ser descoberta por um pastor alemão da vizinhança, que desenterrou o corpo.
Seguindo essa pista, Rachel rastreou o cachorro, que pertencia a uma vizinha próxima. Examinando os pelos do animal, foi identificado sangue de um indivíduo do sexo masculino, um vestígio que forneceu um fio de esperança. No entanto, ao submeter o DNA encontrado ao banco de dados criminal, nenhum registro correspondente foi identificado.
Persistente, Rachel recorreu a uma nova tecnologia disponível através de uma campanha financiada pelo governo, que analisava bancos de dados de doadores voluntários de sangue para mapear parentescos genéticos. Com esse recurso, ela conseguiu identificar uma parente próxima na região, Molly Springfield.
Ao interrogar Molly, Rachel descobriu mais uma peça do quebra-cabeça: Molly era uma jovem adotada que, recentemente, havia localizado seu avô biológico, Jeremiah Sullivan. A conexão levantou alarmes. Sullivan, um conhecido supervisor do parquinho da escola onde Connie estudava, tinha acesso à rotina da menina e conhecia seus horários. E também tinha um Chevrolet Opala 1978, preto.
As descobertas colocaram Jeremiah Sullivan no centro das investigações, com indícios que o vinculavam diretamente ao crime.
Quando a polícia bateu à porta de Jeremiah Sullivan para levá-lo à delegacia, o idoso tentou uma última e desesperada fuga. Cambaleando pelas ruas, tentou despistar os agentes, mas uma antiga lesão no joelho o traiu, e ele foi forçado a parar, dobrado pela dor. Na delegacia, sob o olhar atento de Rachel, Jeremiah negou qualquer envolvimento no crime repetidas vezes.
Porém, a experiência de Rachel em lidar com criminosos complexos foi crucial. Com seu poder de empata, pôde penetrar nas mentiras, explorar as contradições e analisar o comportamento do suspeito. Ao pressioná-lo, Rachel acessou a teia de emoções confusas que o consumia: raiva, desgosto, medo e aflição eram evidentes, mas arrependimento, nem sinal. O confronto direto quebrou suas defesas, e Jeremiah, finalmente, confessou.
Ele revelou que Connie lembrava muito sua falecida esposa nos tempos de juventude. A ligação era visceral e perturbadora. Jeremiah contou que conheceu sua esposa ainda criança, e a paixão inocente evoluiu para um casamento de 40 anos. No entanto, tudo desmoronou com a morte dela, vítima de um câncer de pulmão causado pelo hábito de fumar. O aniversário dela, 19 de Setembro, havia se tornado um dia especialmente doloroso.
Naquele fatídico dia, Jeremiah viu Connie após a aula e, tomado por um misto de delírio e saudade, aproximou-se dela. Usou doces como isca, chantagens sutis e um planejamento frio para atraí-la, até que, num ato hediondo, a estuprou e depois tirou sua vida. Ao ouvir a confissão, Rachel sentiu um profundo nojo, uma repulsa quase impossível de disfarçar. A satisfação veio apenas quando deu a ordem para que ele fosse preso, garantindo que o monstro enfrentasse as consequências de seus atos.
Agora, o desfecho estava próximo. No tribunal, todos estavam de pé, aguardando com ansiedade o retorno do juiz Mason. O silêncio na sala era quase insuportável, quebrado apenas pelo som do ar condicionado. Jeremiah permanecia impassível, sem esboçar remorso, enquanto Rachel, no fundo da sala, o observava atentamente. Ele emitia ondas de sentimentos tão neutras, que Roth sentiu repulsa.
Após o recesso, o juiz Masonfinalmente entrou, trazendo a decisão do júri.
Cada olhar na sala estava fixo no magistrado. A sentença seria a conclusão de meses de trabalho intenso, de noites sem dormir e da luta incansável para trazer justiça à pequena Connie. O juiz limpou a garganta, olhou para o acusado, e começou a anunciar o veredicto:
— Senhoras e senhores do júri, sou informado de que vocês chegaram a um veredicto. Senhora Humphries, por favor, levante-se. O júri chegou a uma decisão unânime?
— Sim, Meritíssimo. — Respondeu Abbie Humphries, a líder do júri, de pé.
— Por favor, entregue o veredicto ao oficial de justiça.
O oficial de justiça foi até a bancada e pegou o formulário do veredicto, verificou e entregou ao juiz. Ewan Mason o leu silenciosamente e mandou devolver a líder do júri.
— Senhora Humphries, por favor, leia o veredicto. — Ele pediu.
— No caso de Regina versus Jeremiah Sullivan, quanto às acusações de estupro de vulnerável, homicídio duplamente qualificado e ocultação de cadáver, consideramos o réu culpado.
Rachel, que estava até agora prendendo o ar, soltou o ar em alivio e abraçou com força sua amiga e colega de equipe, Abigail, que estava do seu lado. Todos do júri murmuraram satisfeitos com a decisão, principalmente os pais de Connie.
Ela observou o casal afrodescendente sentado a poucas mesas atrás, de mãos dadas. Alyssa descansava a cabeça no ombro de Eddie, e ambos carregavam consigo fragmentos de Connie. Os cabelos encaracolados da mãe estavam presos com um laço vermelho familiar — o favorito da filha e semelhante ao que ela usava no dia de sua morte. O pai, vestindo uma blusa de lã, exibia no peito um broche de escoteira que a filha havia conquistado no acampamento de verão do ano anterior. Eles pareciam compartilhar, em silêncio, o mesmo sentimento que ela.
— Senhora Humphries, esse é o veredicto de todos os membros do júri?
— Sim, Meritíssimo!
— Assim será registrado. Os senhores Knight e Jordan — Voltando-se para os advogados. — Têm algo adicional antes que eu dispense o júri?
— Não meritíssimo. — responderam os dois advogados. Knight com tom de comemoração e Jordan com um gosto amargo na boca.
— Então, caso encerrado. — O juiz Mason bateu o martelo e os guardas levaram Jeremiah para a cela, com ele esperneando e ameaçando todos presentes.
— Senhoras e senhores do júri, agradeço pelo seu serviço nesta importante função cívica. Vocês estão dispensados. O tribunal será suspenso para que procedamos à fase de sentença.
Após parabenizar a equipe pelo sucesso no caso, Rachel foi até o bebedouro beber água, quando foi abordada pelo casal Rollins.
— Sr. e Sra. Rollins... — Ela os cumprimentou.
— Viemos agradecer por ter trazido justiça para a nossa Connie, detetive Roth. — Alyssa agradeceu.
— A senhora nos deu esperança num momento crucial. Estaremos eternamente gratos. — Eddie Rollins também agradeceu.
— Eu sabia que a justiça não iria falhar. O juiz ficou muito mexido com o que viu e as evidências eram bastante claras.
— Que Deus te proteja e a recompense por tudo detetive. — Eddie pegou firme nas mãos do detetive.
— Eu quem agradeço pela confiança.
— Esperamos que o seu Natal seja maravilhoso junto de sua família. — Alyssa desejou, abraçando a detetive. — Eles devem amar uma mulher tão inteligente quanto você.
— Sim, eles amam... — A resposta saiu quase num sussurro.
Rachel não era fã de contato físico, mas, naquela ocasião, não se incomodou. Apesar da sombra evidente de tristeza que pairava sobre o casal, ela podia perceber o alívio e a felicidade em seus semblantes – finalmente, a filha havia encontrado justiça. Misturado a isso, havia também um sentimento de raiva latente, difícil de ignorar. Era impossível sentir qualquer coisa além de nojo por Sulliman, mas Rachel encontrava conforto na certeza de que o espírito da menina, enfim, descansaria em paz.
Ao chegar à sede da Scotland Yard, a supervisora-chefe, Sra. Hooper – uma mulher caucasiana, magra, de meia-idade, cabelos castanhos e olhos verdes –, reuniu todos para uma parabenização coletiva. Rachel e sua equipe foram recebidos com uma salva de palmas longa. Quando o silêncio finalmente se instaurou, Rachel fez questão de reforçar:
— Obrigada a todos, mas preciso dizer que isso não é só mérito meu. Nenhum de nós chega a lugar algum sozinho. Eu tive o privilégio de contar com uma equipe incrivelmente talentosa, e foi graças ao trabalho árduo de cada um que conseguimos chegar até aqui. Essa vitória é de todos nós.
A sala respondeu com mais aplausos, enquanto Rachel trocava olhares de gratidão com sua equipe.
Então, era hora de voltar ao trabalho. Roth se encaminhou até o escritório, com Abigail Kensington, sua colega de equipe e antiga companheira dos tempos de faculdade, ao seu encalço.
— Você mandou muito bem hoje no tribunal, Rae. — Abigail a parabenizou. — Apresentou uma postura bastante corajosa.
— Só fiz o que era necessário para por aquele monstro na cadeia. — Rachel respondeu.
— Você sempre tão modéstia. Saiba que ganhou bastante pontos com a equipe, reconhecendo o esforço de todos, chefinha. Bem diferente do nosso antigo chefe, que era um horror.
— Você sabe que sempre tento ao máximo ser gentil com as pessoas, todos nós temos dias difíceis, não precisamos dificultar ainda mais.
— Sabe, a primeira vez que te vi na faculdade, achei que você seria uma mulher tão metida a ponto de causar dor física, mas fico feliz que eu estava errada em minha primeira impressão. Você é inteligente, esperta e espetacular. Sempre me é um orgulho te ver crescer e se tornar essa profissional de renome.
— Digo o mesmo pra você. — Rachel sorriu. Ambos entraram em seu escritório e Rachel lhe ofereceu um café, o qual a amiga ruiva recusou educadamente.
— Você parece ter ficado abalada após a conversa com aquele casal.
— Impressão sua. — Forçou um sorriso.
— Sabe que não fizeram por mal.
— Eu sei... — Roth suspirou. — É só que... às vezes me sinto mau por não ter mais alguém para compartilhar o espirito natalino do Natal. Homens... eles odeiam mulheres fortes e mais sucedidas que eles, você até deu sorte por conhecer o John.
— Acho que ele é um dos poucos caras com quem sai que não foi um completo babaca. — Kensington complementou. — Então, alguma pretensão de onde passar o Natal? Se quiser, eu e meu marido não nos importamos de te convidar.
— Agradeço o convite, de verdade, mas... — Ela começou a brincar com a colherzinha do café.
— Mas...?
— Não sei se estou no clima.
— Ah, amiga, por favor, você nunca parece estar no clima! Por favor, pensa com carinho vai.
— Obrigada mesmo por se preocupar comigo, Abigail, mas eu sei me cuidar. Aproveita com sua família, ok?
— Eu queria que você também tivesse companhia. Ninguém merece passar o Natal sozinho e... trabalhando.
— Não estarei trabalho, a partir de amanhã estarei de férias. Nem pensarei em serviço.
— Certeza? — Abigail franziu os cenhos, desafiadora.
— Abigail, você não tem mais serviço para fazer? — Rachel sobreergueu a sobrancelha.
— Ok, capitã. — Ela fez menção de se retirar, rindo. Rachel a acompanhou gentilmente até a porta. — Aliás, antes que eu me esqueça, a Betty disse que deixaram esse cartão dourado pra você hoje de manhã. É dos Estados Unidos.
— Estados Unidos?
— Sim, e ela disse que parecia ser importante.
— Ok. Obrigada.
Uma vez sozinha em seu escritório, Rachel abriu a gaveta e encontrou o envelope dourado, reluzente sob a luz fraca. Passou os dedos pela superfície lisa e sentiu um aroma familiar: pinheiros.
— 12458. Interior de Gotham City. — Rachel leu em voz alta o remetente. Franziu o cenho. Fazia anos que não recebia notícias de lá.
Abriu com cuidado, pegou um estilete e deslizou a lâmina pelo lacre, revelando um convite de papel amanteigado, com letras cursivas e recado direto. Arregalou os olhos, sentindo as mãos suarem e uma secura dolorosa tomar o fundo da garganta. Enquanto lia, as palavras pareciam sobrevoar o papel, dançando de forma debochada bem diante de seus olhos.
[...]
Rachel perdera as contas de quantas vezes leu e releu aquela carta. Por fim, decidiu reunir suas coisas e ir embora para casa, aproveitar o fim de tarde para descansar. Despediu-se de todos da Scotland Yard.
— Boas férias para você, senhorita Roth! — Abigail a desejou, a vendo sair da agencia, enquanto andava até o outro setor.
— Obrigada! Nos vemos em Janeiro.
— Até! E se lembra que o meu convite ainda está de pé.
— Ok, juro que não vou esquecer.
O trânsito naquele horário era caótico, as ruas tomadas por uma confusão de carros e buzinas. Por sorte, morava em um bairro próximo ao trabalho, em um apartamento amplo e acolhedor. Ao chegar, estacionou na vaga reservada ao seu apartamento. Permaneceu por um momento dentro do carro, apoiando a testa no volante, sentindo o toque frio do couro contra a pele enquanto respirava fundo.
Girou a cabeça para o convite, que estava repousando no banco do passageiro. Por um segundo, sentiu-se como se fosse sugada por um portal que a levasse para o passado.
Setembro de 2014.
Era uma segunda-feira de manhã. Rachel, que naquela época ainda atendia pelo nome de Ravena, chegou ao hospital com o coração acelerado, acompanhada pelos demais Titãs. A ansiedade transparecia em cada passo apressado, cada olhar preocupado. Assim que entrou no prédio, dirigiu-se à recepcionista com urgência.
— Garfield Logan — disse, tentando conter o tremor na voz.
A funcionária consultou os registros no sistema antes de responder.
— Sala 23, segundo andar.
Rachel mal ouviu as palavras completas antes de partir em disparada para o elevador. A espera pelo retorno do elevador ao saguão principal pareceu se arrastar por uma eternidade. Ao seu lado, Kory tentou consolá-la com palavras gentis, mas Rachel não tinha paciência para ouví-las, mesmo reconhecendo as boas intenções da amiga. O nó em seu peito parecia apertar mais a cada segundo.
No segundo andar, a busca pela sala 23 foi mais complicada do que ela imaginava. Corredores idênticos, portas numeradas de maneira confusa, e a crescente frustração fizeram sua cabeça latejar. Finalmente, eles encontraram a sala. Um dos enfermeiros os interceptou na entrada.
— Apenas uma pessoa pode entrar de cada vez.
Os Titãs trocaram olhares rápidos. Sem hesitar, cederam o lugar a Rachel para que ela fosse a primeira a ver Garfield. Ela respirou fundo antes de abrir a porta.
O quarto era simples e iluminado, com grandes janelas que ofereciam uma vista privilegiada da praia de Jump City. No entanto, Rachel mal notou o cenário. Seus olhos foram imediatamente para Garfield, deitado na cama, com a cabeça enfaixada por faixas bege. Ele parecia cansado, mas esboçou um sorriso ao notar sua presença.
— É um pouco irônico, não acha? Ter a praia de Jump City assim ao meu dispor e estar preso aqui — disse ele, com um tom que tentava ser descontraído. — Acho que a maioria dos enfermeiros me olhou atravessado quando viu meu tom de pele.
Ele forçou uma risada, mas Rachel permaneceu séria. Esse sempre fora seu jeito, mas agora havia algo mais em sua expressão: preocupação e tristeza.
— O que aconteceu? Recebi uma ligação desesperada do Garth.
Garfield desviou o olhar, visivelmente desconfortável.
— Tinha que ser ele… Olha, não precisa ficar preocupada, eu estou bem, ok? Tive que levar alguns pontos na testa, mas já estou bem.
— Garfield!
A repreensão no tom de Rachel o fez suspirar, derrotado.
— Tá bom, você venceu. — Ele respirou fundo antes de continuar. — Eu sai com os garotos para jogar vôlei de praia, sabe, para distrair a cabeça. Como eu te falei, não menti para você. Mas… tinha uma barraquinha de bebidas alcoólicas ali perto e… estou tão pressionado com tudo que anda acontecendo, que você vai embora para Londres, que o Cyb vai entrar para a Liga da Justiça, que… eu não resisti.
— Garfield, isso é péssimo.
— Eu sei, minha princesa... — Ele abaixou a cabeça, cabisbaixo.
— E como você veio parar aqui?
— Bebi demais, passei da conta, como sempre... Então, no meio da festa, comecei a fazer gracinha e fui com a galera na beira de um precipício, para mostrar meus poderes. Mas meus animais ficam instáveis quando eu não estou correspondendo por mim 100%. E então... quando fui dar um giro duplo no ar, no formato de uma águia, me transformei e comecei a cair. Consegui fazer outras transformações, o que deve ter amenizado na queda, a Dra. Kendall presumiu, mas isso não me impediu de bater a cabeça em uma das rochas. Me desculpe, não queria deixar nenhum de vocês assustado.
Rachel olhou para o chão.
— Você não está mais conseguindo se controlar com a bebida, e não é de hoje. — Ela se aproximou da cama e pegou na mão dele. — Eu sei que você achou ruim quando a psicóloga disse que você estava tendo um vício muito forte com a bebida, mas eu acho que ela estava certa. Você poderia ter morrido! E, por Azarath, eu falei para os meninos não te levarem para festas com bebidas disponíveis!!!
— Não os culpe, por favor, a culpa é somente minha — Ele fungou, seus olhos ficando embaçados por pequenas lágrimas.
Ele fez uma pausa, hesitando antes de continuar.
— Sabe, acho que comecei a beber por causa do meu pai, Steve Dayton. Ele batia muito em mim, Rachel. Isso somado à perda dos meus pais verdadeiros e ao sentimento constante de ser um estranho… Eu sou verde, tenho poderes… nunca me senti normal. Tudo isso só agravou as coisas. Mesmo com Steve longe da minha vida, as cicatrizes ainda estão aqui, dentro de mim. E os comentários maldosos que ouvi por tanto tempo… Eles não somem. — Ele engoliu em seco, os olhos marejados. — Não sinto raiva da minha mãe, da Rita, por isso. Ela também foi vítima. Eu sei que ninguém tem culpa de nada disso, mas eu… eu não consigo esquecer. Foi por isso que eu comecei a beber, para tentar fugir de tudo isso, pelo menos por um momento.
Rachel olhou para o chão, absorvendo cada palavra.
— Porra, às vezes parece que não estou nem tentando. — Garfield continuou seu monologo. — Qual é a porra do problema comigo?! Por que a bebida é tão necessária para mim dessa forma? Como eu permiti isso? Me desculpa, meu amor, me desculpe mesmo. Vejo que você está chateada.
Rachel apertou levemente a mão dele, os olhos ainda fixos no rosto abatido de Garfield. Sua expressão era um misto de dor e resolução.
— Gar, eu não estou chateada. — Sorriu, fraco. — Eu entendo o quanto pode estar sendo difícil para você, afinal, é muito difícil lutar contra um vício como esse... e sei que, por mais clichê que isso soe, nós podemos superar isso, juntos. — Ela apertou firme sua mão. — Você não está sozinho, ok? Nunca esteve. Você tem sua mãe, seus tios, nossos amigos Titãs, seus amigos do tempo do colégio, e tem a mim.
— Eu sei. — Ele apertou mais suas mãos. — Obrigado por estar comigo nesse momento, princesa.
— Enquanto estávamos vindo pra cá, estava conversando com o Galfore, o pai da Kory, e ele disse que conhece um amigo, um outro tamaraneano que vive aqui na Terra há alguns anos, e que conhece um bom grupo de apoio de Alcoólatras Anônimos. Lá tem muitos profissionais qualificados e atenciosos, então acho que eles seriam bons para você. O que acha?
Garfield ficou em silêncio por alguns momentos, o olhar perdido em seus próprios pensamentos. Rachel sorriu novamente, desta vez com mais firmeza, e apertou sua mão mais uma vez. Uma fagulha de esperança parecia ter surgido entre eles.
— Eu não sei não, amor… e se eu estragar tudo de novo? Eu queria ser forte, mas não sou. Eu sou apenas humano.
— Por favor, pense positivo. Existem tantos relatos na página deles no Instagram, todos positivos. — Ela pegou o celular de dentro da bolsa e mostrou a página para ele. — De fato, o tratamento não é nada fácil e é um processo longo que exige muita determinação da pessoa. Mas, como eu disse antes, você não está sozinho. Por favor, não custa tentar. Isso não é por mim, nem pelos Titãs, nem por status. É por você e seu próprio bem-estar.
Ela levantou o queixo dele com o indicador esquerdo, forçando-o a encarar seus olhos. Foi uma troca de olhar intensa.
— Por favor.
— Ok, eu vou fazer.
— Promete para mim que vai tentar e que não vai desistir de você.
— Prometo.
— E também promete que vai fazer o máximo possível para ficar longe da bebida quando eu estiver fora.
— Prometo.
— Te amo.
— Também te amo.
Eles uniram seus lábios em um selinho rápido. Uma promessa silenciosa pairava entre eles, carregada de esperança e coragem.
[...]
— Não sei se ainda estou pronta para vê-lo novamente Garfield, e acho que essa é a minha sina.
Rachel saiu do carro com os saltos ressoando contra o asfalto úmido. O convite estava em sua bolsa, pesando como um tijolo, mesmo que fisicamente fosse apenas um pedaço de papel. Ela subiu as escadas de mármore polido que levavam ao seu apartamento e destrancou a porta, revelando seu refúgio particular.
O apartamento era espaçoso, decorado em tons de preto e roxo que refletiam sua personalidade gótica e introspectiva. As paredes eram adornadas com cortinas pesadas e quadros abstratos emoldurados em prata fosca. O piso era de madeira escura, impecavelmente polido. Espalhados pelo espaço, equipamentos tecnológicos modernos davam um toque de contemporaneidade: uma televisão de tela curva que ocupava quase toda uma parede, um sistema de som integrado e luzes ajustáveis controladas por comando de voz. No centro da sala, um sofá de veludo preto se destacava, contrastando com uma mesa de vidro com detalhes metálicos.
Rachel caminhou diretamente para a cozinha, uma área que exibia uma mistura de funcionalidade e sofisticação. O mármore negro da bancada reluzia sob a luz fria dos spots embutidos. Ela abriu a geladeira e pegou uma garrafa de vinho, escolhendo uma taça elegante para si. Serviu a bebida com calma, o líquido rubro refletindo em seus dedos pálidos enquanto ela caminhava até a janela panorâmica, que oferecia uma vista impressionante da cidade iluminada.
Ela tomou um gole e riu baixinho de si mesma, incrédula com o rumo de seus pensamentos. Voltar para os Estados Unidos? Só de considerar a ideia, ela já se sentia louca. As lembranças surgiam em sua mente como fantasmas belos, mas ainda assim, indesejados. Ela se lembrou do motivo de sua partida, do dia em que jurou para si mesma que nunca mais queria ver a cara estúpida de Garfield Logan na vida. Ele havia quebrado a promessa que lhe fez, e aquilo a encheu de raiva como poucas coisas conseguiram antes.
Mas... havia também a outra face dessa moeda. Rita Farr. Sua ex-sogra que sempre foi um amor de pessoa, principalmente com ela. Rita a deu o maior apoio quando soube do desastre natalino de 2014 e disse que estaria ali caso Rachel quisesse conversar e que a apoiaria em qualquer decisão que tomasse.
A ex-sogra tinha dito que seus ex-colegas Titãs estariam lá. Os Titãs... Ela sentia falta deles, mesmo depois de tudo. Sentia falta das comidas tostadas de Kory, das piadas do Cyborg, até mesmo das discussões com Dick. Sentia falta de ser adolescente, de ser parte de algo maior, de ter uma família improvisada que a entendia melhor do que qualquer um. E, se fosse honesta, sentia curiosidade. Como estariam todos agora? Teriam conseguido derrotar os seus próprios demônios? Também enterraram assuntos inacabados?
Rachel suspirou, seus olhos pousando novamente no convite. Passar o Natal sozinha em um apartamento frio e vazio definitivamente não era a melhor das opções. Sim, ela poderia ir para a casa de Abigail. A amiga havia insistido. Mas o marido dela? Ah, aquele nariz empinado e o ar de superioridade dele sempre a deixavam irritada. Não, isso também não parecia atraente.
Ela terminou a taça de vinho em um gole e pousou-a na bancada antes de caminhar até sua mesa de trabalho. Sentando-se diante de seu MacBook Pro, ela respirou fundo e, com dedos hesitantes, começou a digitar.
Voo para Gotham; última hora.
Parte dela esperava que não houvesse mais vagas disponíveis. Seria um sinal, uma desculpa para desistir e continuar sua vida ali, no conforto de sua solidão. A outra parte, no entanto, desejava o contrário. Ela estava, sem perceber, colocando a decisão nas mãos do destino.
Roeu as unhas, num impulso involuntário.
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