Christmas Tree Farm
4 É difícil estar em uma festa me sentindo ferido
Notas iniciais
“Tem sido difícil me ajustar
Eu tinha as rodinhas mais brilhantes, agora elas estão enferrujando
Eu não sabia que você iria se importar se eu voltasse
Eu tenho muitos arrependimentos em relação a isso
Estacionei o carro na estrada para o mirante
Poderia ter seguido meus medos até o fim do caminho
E talvez eu não saiba exatamente o que dizer
Mas eu estou aqui na sua porta
Eu só queria que você soubesse que esse sou eu tentando
Pelo menos estou tentando”
(Taylor Swift — This is me trying)
GARFIELD ACORDOU com buzinadas altas que ecoavam do lado de fora da casa. Com um resmungo de insatisfação, esfregou os olhos pesados e, a contragosto, levantou-se da cama. Caminhou até a janela e abriu uma pequena fresta. O céu lá fora já estava mergulhado na escuridão; o sol havia se despedido há horas, e o silêncio envolvente indicava que era bem tarde.
Quem seria tão sem noção para aparecer na casa de alguém aquelas horas?
Antes que a irritação tomasse conta, um sorriso escapou ao ouvir duas buzinadas familiares, ritmadas e inconfundíveis. O som vinha de um Renault Duster estacionado do lado de fora.
— Esse cara é mesmo um figurão! — murmurou, rindo consigo mesmo.
Vestiu um roupão branco por cima do pijama — uma blusa cinza salpicada de bolinhas vermelhas e um bermudão vermelho desbotado. Depois, calçou suas pantufas confortáveis e seguiu para fora, curioso.
— Mas que porra é essa?! — Tio Cliff resmungou assim que Garfield apareceu do lado de fora. Sua voz grave e irritada ecoou no silêncio da noite. — Esqueceram que não se bate na casa dos outros de madrugada? Perderam a noção de bons modos aqui na América? Saudades dos meus camaradas canadenses, por lá nada disso acontecia!
— Ah, Cliffzinho, relaxa! — intercedeu sua mãe, rindo com bom humor. — É só o Stone, o melhor amigo do Gar.
— Só podia ser! — retrucou tio Cliff, revirando os olhos. — Já percebeu que tudo de estranho que acontece no Natal sempre envolve o seu filho?
— Por favor, não fala isso... — Rita pediu.
Garfield coçou a nuca, desconfortável com a observação.
— Me tiraram do meu sono de beleza — interrompeu tio Larry, surgindo de pijama, com as faixas, que serpenteavam o seu corpo, desorganizadas e com seu típico óculos de sol torto em sua cabeça. — É melhor isso ser algo muito importante.
O carro estacionou e piscou as luzes.
— Maninho! Cheguei! — Gritou aquela voz estridente e grossa.
— Cyb! — Garfield gritou, acenando.
Um homem negro, alto e forte, desceu do carro. Partes do seu corpo eram cobertas por próteses robóticas que reluziam discretamente à luz. Ele vestia uma blusa de frio marrom, grossa e com capuz, além de uma calça jeans larga, de um azul-claro quase celestial.
— Perdeu a noção do tempo lá na Suíça, cara?
— Eu diria que os suíços adoram dar passeios noturnos no sol da meia-noite. — Rebateu, rindo.
— Aí, desculpa pelo horário! Pegamos um trânsito infernal nas estradas e no aeroporto por causa da neve.
— Tranquilo! — Eles trocaram um high five seguido de um abraço apertado. — Que bom que você veio, cara. Achei que não ia dar tempo.
— Eu jamais perderia a chance de rever meu maninho. Afinal, o que você seria sem mim?
— Um alcoólatra ferrado?
— Garfield! — A voz de sua mãe soou firme, repreendendo-o.
— Foi mal... piada autodepreciativa na hora errada. — Garfield deu um sorriso amarelo, tentando aliviar o clima.
— Essa viagem acabou com a minha coluna... — disse Karen, colocando sua mala no chão. Seus longos cabelos encaracolados e castanhos estavam soltos, dançando ao vento. Ela usava uma blusa de mangas longas amarela, uma calça legging branca e sapatos pretos.
Assim que abriu a porta traseira do Renault, duas crianças negras, pequenas e cheias de energia, saltaram do carro como molas. Não deviam ter mais do que dois anos.
— Crianças, nada de correr! — Karen alertou.
— Esses são Joivan e Ray? Nossa, como eles crescem rápido! A última vez que os vi eram lindos bebês. — Rita comentou, encantada.
— É, eles crescem rápido. — Victor respondeu com um sorriso discreto, mas seu tom era contido.
— E eles estão tão lindos e fortes! Meus parabéns pela família maravilhosa, Karen. — Rita disse, avançando para abraçar o casal.
— É... obrigada. — Karen respondeu, esboçando um sorriso forçado, que mal disfarçava seu desconforto.
Enquanto isso, Garfield observava Victor de canto de olho. O homem exibia uma expressão quase imperceptível de tristeza: os lábios levemente curvados para baixo, o olhar distante, como se estivesse preso a pensamentos que não queria compartilhar. Era uma melancolia contida, quase camuflada pelo sorriso que insistia em manter. Fazia anos que Logan não via aquele semblante nele, e algo em seu instinto gritava que havia algo errado.
Victor e Karen terminaram de cumprimentar todos os presentes e se desculparam mil vezes com Cliff pelo incômodo no horário tão tardio. Depois de alguns minutos de insistência, ele finalmente aceitou as desculpas. Rita, sempre solícita, ofereceu dois quartos de hóspedes por conta da casa: um quarto de casal com suíte para Victor e Karen, e outro com duas camas de solteiro para os gêmeos.
Com semblantes cansados, logo todos foram dormir. No entanto, Garfield, inquieto, não conseguiu mais pregar os olhos. Ele revirou-se na cama por um tempo antes de decidir descer até a cozinha. Talvez um clássico cookie de Natal — aquele com gotas de chocolate e a massa crocante, levemente colorida, que sua mãe sempre deixava pré-assados sobre o balcão — pudesse ajudá-lo a relaxar.
Quando chegou lá, deparou-se com uma cena inesperada: Victor estava sentado à mesa, o rosto iluminado pela tela do laptop, enquanto tomava um refrigerante direto da garrafa.
— Pensei que estivesse exausto pela viagem — comentou Garfield, quebrando o silêncio e pegando Victor de surpresa. Ele deu um leve salto na cadeira. — Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa?
Victor hesitou por um momento antes de responder, sem tirar os olhos do teclado.
— Insônia... Não durmo direito há dias.
Garfield soltou um suspiro pesado, encostando-se ao batente da porta.
— É... eu sei bem como é. Essa sensação de estar morto de cansaço, mas não conseguir aquietar os próprios pensamentos... é horrível.
— É... — Victor murmurou, desviando o olhar para a tela do laptop. Ele parecia concentrado, digitando um e-mail longo, quase como se fosse uma carta, para alguém.
— Posso? — Garfield apontou para a cadeira ao lado dele.
— Claro, a pensão é sua. — Victor respondeu com um meio sorriso, sem desviar os olhos da tela.
Garfield puxou a cadeira e se sentou, observando o amigo por alguns segundos.
— Você parece abatido desde que chegou, cara. Aconteceu alguma coisa? — perguntou, direto, mas com a preocupação evidente na voz.
Victor suspirou profundamente, inclinando-se para trás na cadeira, como se o peso de algo invisível estivesse sobre seus ombros.
— Olha, não quero te incomodar com isso...
— Ei. — Garfield interrompeu, firme, mas com um tom acolhedor. — Nós somos irmãos. Você sabe que isso não me incomoda. Pode desabafar comigo sempre que precisar... — Ele fez uma pausa, procurando alguma resposta no olhar cansado do amigo. — Problemas no casamento?
— É sobre o meu garoto, o Joivan. Ele está... muito doente. — Victor hesitou, a voz embargada. — Há alguns meses, percebemos que ele batia muito a cabeça nas coisas e tinha dificuldades para se manter de pé. Então levamos ele ao médico, e foi quando descobrimos que ele tem dois tumores benignos no cérebro.
Victor parou por um momento, engolindo em seco.
— Na hora, Karen e eu ficamos desesperados. Sugerimos uma cirurgia imediatamente, mas o Dr. Lohan disse que era praticamente impossível de operar. Os tumores estão em uma área extremamente sensível do cérebro, no tronco cerebral. Ele explicou que mexer ali pode comprometer funções vitais, como a respiração, os batimentos cardíacos ou até os movimentos básicos. Disse que o risco é alto demais.
Garfield ficou em silêncio, absorvendo o que acabara de ouvir. Ele havia notado, de relance, que Joivan tinha alguma dificuldade motora, mas preferira não comentar nada.
— Meus sentimentos... Nem sei o que dizer. — Garfield finalmente respondeu, a voz baixa e solidária. — Mas não existe nenhum especialista que possa tentar operá-lo? Um médico que tenha experiência com casos assim?
Victor suspirou e balançou a cabeça, abatido.
— A gente procurou algumas opiniões depois disso. Falaram de tratamentos experimentais, algo com radiação de alta precisão, mas não é garantido que funcione. — Passou a mão pelo rosto, claramente exausto. — Outros sugeriram esperar, acompanhar de perto e ver se os tumores crescem. Mas, enquanto isso, ele continua assim... e cada dia fica mais difícil. Minha esposa e eu estamos tentando manter a calma, mas é como viver com uma bomba-relógio.
Victor fez uma pausa, olhando fixamente para a mesa, perdido em pensamentos antes de continuar:
— Até existem médicos especialistas, mas eles cobram muito caro pela cirurgia, e o plano de saúde não cobre todos os custos. Nós dois não sabemos mais o que fazer... Se hipotecamos a casa, fazemos empréstimos, ou simplesmente oramos por algum milagre divino de Natal.
Ele soltou uma risada sem humor, mas logo sua expressão voltou ao desespero.
— E isso vem causando tantas brigas... Está cada vez mais desgastando o nosso casamento. Karen sempre parece estar estressada e desconta todas as frustrações em mim. Ela espera que eu seja forte como uma rocha, mas... tem como não rachar numa situação dessas?
— Infelizmente não...
— Pois é... e esse sentimento de impotência é horrível. Eu gostaria de ser um marido melhor para ela...
Garfield inclinou-se ligeiramente para frente, atento a cada palavra, mas sem interromper.
— Vou ser sincero com você, acho que só não nos separamos ainda por causa das crianças. Sabe... Tentamos ser fortes pelos meninos, tentamos ignorar o quão isso está nos machucando, o quão tristes e com medo estamos, mas... quem vai ser forte por nós? — Victor disse, a voz quebrando no final. Ele levou as mãos à cabeça, como se segurando uma tempestade interna. — Tenho medo de não ser um bom pai, maninho. Eu juro que estou tentando. Mas e se eu falhar com eles?
Victor olhou para Garfield, os olhos cheios de um cansaço profundo e de uma tristeza que parecia maior do que ele podia suportar.
— Desculpe, sei que você já deve estar passando por muita coisa, não quero te amolar com isso...
— Que isso, jamais me incomodaria. É para isso que servem os amigos.
Victor sorriu, de forma discreta.
— Sempre te considerei como um irmão mais novo. Desde que nos conhecemos, você sempre me ajudou nos momentos que mais precisei, como agora. Todos nós ficamos tão contentes de poder viajar um pouco e esquecer dos problemas, mesmo que temporariamente, as crianças estão genuinamente felizes, inocentes de toda situação. Não tínhamos nada planejado para o Natal esse ano, acho que apenas ficaríamos em casa, maratonando filmes de Natal, sem ceia...
— Fico feliz em ouvir isso, de verdade, mas dê os créditos para minha mãe. Ela quem organizou tudo. Eu só descobri que essa festa aconteceria agora de tarde.
— Mas então, animado para rever o pessoal?
— Mais ou menos. Da equipe, só tenho contato com você mesmo. Você acha que o Dick vem?
— Aquele cara anda tão esquisito e na dele depois que retornou pra Gotham que nem sei te dizer... se a Estelar vir, acho difícil que ele venha também. Ele teria que ser muito cara de pau depois de tudo que fez a Star sofrer, palavras da Karen.
Ambos riram.
— É... — Garfield concordou, dando uma mordida em um cookie.
— Mas eu sei que de todos, o Dick é quem você menos está curioso para saber se vem ou não. — O olhar sugestivo surgiu no rosto dele, acompanhado de um sorriso provocador.
O outro arregalou os olhos, tentando disfarçar.
— Eu definitivamente não sei de quem você está falando, cara. — Levantou as mãos rapidamente, como se estivesse se rendendo.
— Uhum...
— A Rae é livre para fazer o que é melhor pra ela.
— Interessante... porque eu nem mencionei nomes. — O sorriso dele se alargou.
Após um breve silêncio, veio a confissão, acompanhada de um suspiro resignado.
— Tá bom, você me pegou...
— Então, quanto à Rae? Ela vem? Sua mãe te disse algo? — As perguntas foram lançadas com uma curiosidade genuína, mas mantendo o olhar atento.
— Sim, ela vem... Hoje à tarde, vi ela e a Kory saindo do posto de conveniência da Sra. Woody... — Sua voz falhou um pouco ao final, e ele desviou o olhar, inquieto.
O amigo inclinou a cabeça, estudando-o com atenção.
— E como você está lidando com tudo isso?
Garfield suspirou fundo.
— Boa pergunta... Estou sentindo tantas coisas que ainda é difícil encontrar palavras para definir tudo isso.
Um silêncio confortável se instalou entre eles, permitindo que a profundidade das emoções se assentasse. Finalmente, o amigo rompeu a quietude, oferecendo um leve tapa no ombro.
— Tudo vai ficar bem, você sabe que não precisa dela para ser feliz, né? Você alcançou tantas coisas nesses 10 anos que se passaram. Deixe o passado e as magoas para trás.
— Estou tentando fazer isso... Você ainda tem contato com ela?
— Conversamos de vez em quando. Ela se tornou uma detetive de renome da Scotland Yard.
— É, eu soube disso. Você saberia me dizer se... ela vai... trazer alguém para a ceia?
— Se fosse há uns dois anos atrás... talvez.
Garfield exprimiu os lábios numa linha.
— Era um cara legal?
— Talvez não no seu ponto de vista. Era o Garth. Eles ficaram juntos por uns 3 anos. Eles pareciam se dar tão bem, viviam postando fotos felizes no Instagram, terminaram no início do ano passado. Ela nunca me contou os detalhes.
— Sempre soube que ele era a fim dela. No fim, não era só paranoia gerada pela embriaguez...
— Sinto muito.
— Tudo bem, ele fez sua jogada e saiu vitorioso, no fim... você tem algum palpite do porque eles terminaram?
— Não sei, como eu disse, ele parecia um cara legal, mas...
[...]
— Ele era o cara certo... na hora errada. — Rachel afirmou, ofegante, assim que ela deu uma pausa na corrida.
— Nada de parar não, ainda faltam 10 quilômetros! — Kory deu sermão.
Rachel revirou os olhos.
— Realmente é necessário treinar assim nas férias? Ainda nem são 7 horas da manhã... E você prometeu que pegaria leve comigo!
— E eu estou pegando, essa é a quilometragem que eu fazia quando ainda era iniciante.
— Bom, acho que ser Tamaraneana deve ter suas vantagens.
— Você reclama demais, Rae-Rae! Você é uma super heroína, achei que você mais resistente que isso.
— Ex-super heroína. — Corrigiu. Kory revirou os olhos.
— Anda!
Com muita força de vontade, Rachel tomou um gole de água e seguiu correndo ao lado da amiga — por mais que os músculos de suas pernas doessem em resposta a isso. O suor fazia sua roupa aderir ao corpo, evidenciando o esforço.
Na beira da rodovia, os carros e caminhões passavam em alta velocidade, deixando para trás rajadas de ar quente, que contrastavam com o frio e traziam um alívio momentâneo.
— Se eu soubesse que você me faria treinar desse jeito, teria ‘esquecido’ minhas roupas de treino em Londres.
— Você reclama demais! — Kory se virou rapidamente para a amiga, fazendo suas madeixas ruivas rodopiarem no ar, e lhe mostrou a língua com um sorriso travesso.
— Que maduro da sua parte. — Rachel disparou.
— Enfim, voltando, por que você acha que o Garth era o cara certo que apareceu na hora errada?
Roth diminuiu o ritmo da corrida, e, pela primeira vez, Anders fez o mesmo.
— É que ele era um fofo — disse entre pausas, tentando recuperar o fôlego. — Sempre me trazia flores, me levava aos melhores restaurantes, planejava encontros românticos para mim, gritava aos sete ventos que me amava e sempre parecia ter tempo para mim. Um verdadeiro clichê romântico de Hollywood. O “terceiro amor”, como diz a velha teoria, aquele que vem para ficar, depois de dois amores traumáticos que terminaram mal... mas... tudo parecia tão unilateral, tão falso e superficial.
Ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos, e continuou:
— Acho que, por mais que Garth fosse uma pessoa adorável e que todas as minhas amigas morressem de inveja, achando que nunca encontrariam um homem tão decente quanto ele... eu meio que sentia falta da turbulência e dos desafios dos amores anteriores. No fim, parecia mais uma amizade de longa data, sustentada por conveniência e benefícios, do que um verdadeiro amor. Não sei nem se o que estou dizendo ainda faz sentido para você...
A amiga ruiva a olhou com compreensão antes de responder, no mesmo ritmo de respirações descompassadas:
— Talvez você sinta tudo isso porque... ele nunca foi realmente o cara certo, como você imagina. Não me leve a mal, amiga, mas, pelo que parece, você estava com ele porque era conveniente e parecia a escolha certa. Mas não era isso que você realmente sentia. Você não foi honesta com ele... e muito menos consigo mesma.
Rachel sentiu uma leve dor de cabeça com a constatação. Bebeu mais um gole de água, ciente do olhar atento da amiga sobre si. Parou de correr e apoiou as mãos nos joelhos, sentindo o suor escorrer por sua testa e costas. Logo, confessando:
— Achei que, se nós namorássemos, com o tempo eu aprenderia a amá-lo... mas os meses passaram. Seis, doze, vinte e quatro... e eu continuava me sentindo como uma atriz em cena, seguindo um roteiro ensaiado. Me sinto mal por não ter sido capaz de retribuir os sentimentos dele. Eu só queria ser feliz, com alguém que me respeitasse e me admirasse, mas acho que isso era pedir demais para pessoas como eu.
— Por favor, não diga isso. Você merece ser feliz, só não encontrou a pessoa certa ainda. — Kory garantiu, tocando seu ombro.
— Será? — Rachel respirou fundo antes de continuar, a voz carregada de culpa. — Sabe, Star, ele até me pediu em casamento, quando viajamos para Paris no réveillon de 2023. Estávamos bem em frente à Torre Eiffel quando os fogos começaram a iluminar o céu, e, ao nosso redor, todos pareciam incrivelmente felizes, como se o mundo inteiro estivesse em celebração, mas... eu não pude aceitar. Qualquer mulher se sentiria feliz em tê-lo como marido, mas a ideia de me tornar a Sra. Lennes me pesava. Como se aquele não fosse o meu destino. Eu teria que parar o mundo para parar esse sentimento.
Rachel ergueu os olhos para a amiga, com um meio sorriso cansado.
— Ele quis continuar o relacionamento depois disso, mas eu não pude. Terminei. Não parecia justo com ele.
Star assentiu, oferecendo um olhar compreensivo.
— É bom ver que você finalmente foi sincera consigo mesma, Rae. Você sabe que eu não sou a melhor pessoa para dar conselhos românticos, mas sei que você tentou dar o seu melhor para fazer esse relacionamento dar certo, e a culpa não é sua. Não mandamos no coração. Só porque, para todos, vocês pareciam a combinação perfeita, não significa que realmente eram o ideal um para o outro. — Kory inclinou a cabeça, curiosa. — Mas fiquei confusa... o que você quis dizer sobre não ser a mesma coisa que os sentimentos de um amor do passado?
Rachel hesitou por um instante, depois forçou um sorriso.
— Ah, isso? Esquece. É complicado. Vamos voltar a correr.
— Agora o espírito de atleta desceu em você, foi? — Kory arqueou uma sobrancelha, rindo.
— Não enche!
Rachel saiu correndo na frente.
— Ei, espera! — Kory não demorou a alcançá-la. Sua resistência física era impressionante. — Você quis dizer que ainda sente algo por um antigo amor? Ainda sente algo pelo Malchior?
— O quê? Não! Aquilo foi só uma ilusão idiota da adolescência... Ele era apenas um farsante, um dragão de papel velho.
— E quanto ao Garfield?
Rachel tropeçou um pouco na própria resposta.
— Eu... definitivamente não sei. Você faz perguntas muito difíceis, sabia?
Kory sorriu de canto.
— E como você se sente em relação ao Natal com a Patrulha do Destino?
— Se tudo sair como planejei, vai terminar bem. Tenho o roteiro perfeito na minha mente, sei exatamente como agir e me portar. E, por algum motivo, sinto que o universo está do meu lado.
— Não entendi nada, você não falou coisa com coisa. — Kory franziu o cenho. — Que roteiro perfeito é esse?
— Não vou contar. Se contar, não acontece.
— Sério que vai me deixar curiosa?
— Vou! — Rachel riu, divertida.
— Mas...
— Corre mais rápido se não quiser engolir poeira, Srta. Anders! Já são quase sete horas, o sol está nascendo e seu pai vai ficar preocupado se não te ver lá.
— Ai, credo! Você tem razão. Vamos logo, ele já deve estar acordando e vai surtar, achando que fui sequestrada. — Ela esticou a cabeça para trás, rindo. — Te odeio, Rae-Rae!
— Sei que me ama. — Piscou, provocativa.
[...]
Eram 7 horas da manhã do dia 23 de dezembro.
O vento cortante da manhã tornava o ar gelado e as ruas ainda estavam um pouco escuras. A neve acumulada dificultava os movimentos de Garfield, que avançava com esforço em seu Chevy G10 pelas ruas brancas e silenciosas. Ajeitou as várias camadas de blusas de frio ao chegar ao hospital e seguiu diretamente para o estacionamento reservado aos médicos. Sentia suas mãos suadas deslizarem no volante, um reflexo discreto de sua ansiedade. O som de seus passos ecoava no chão congelado enquanto ele se dirigia ao prédio aquecido.
Ao entrar, sentiu o contraste do ar interno, mais quente, e seguiu rumo ao consultório da doutora Eula Tozier, sua instrutora. Quando parou diante da porta, respirou fundo antes de dar três batidinhas.
— Pode entrar — veio a resposta do outro lado.
Garfield girou a maçaneta e entrou. A doutora Tozier ergueu o olhar, afastando os papéis em sua mesa e retirando os óculos de leitura. Ela franziu ligeiramente as sobrancelhas ao vê-lo.
— Sr. Logan? Achei que estivesse de folga neste Natal — comentou, surpresa.
O jovem loiro hesitou por um instante, mas logo assentiu, fechando a porta atrás de si.
— E estou, mas é que eu gostaria de conversar sobre algo importante.
A médica cruzou os braços, observando-o com atenção antes de responder:
— Sobre? Seja rápido, tenho que orientar meus residentes no plantão. Está chegando vítimas de um acidente grave entre um ônibus que descarrilhou na rodovia nessa madrugada, duas horas de Gotham.
Garfield respirou fundo antes de dizer:
— É sobre um garotinho de 4 anos que está com um tumor cerebral no cerebelo e precisa muito de um milagre de Natal. A senhora tem tempo?
— Não muito, mas você conseguiu chamar a minha atenção. — Ela colocou os óculos sobre a mesa, fez um gesto com a mão direita para que ele se sentasse na cadeira disposta a sua frente.
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