Christmas Memories
1 Com todo meu coração...
Notas iniciais

24 de Dezembro, 2020.
NATAL (s.m); é o momento de gratidão, época de harmonia. É aquele que é pontual, todo ano na mesma data. Aquele que renasce e ilumina alma e coração.
O brilho do sol matinal na Toca era fraco, porém os raios solares já indicavam claramente mais uma manhã do mês de Dezembro. Entretanto, na opinião de Dominique Weasley, aquela não era uma manhã qualquer.
Perdida em seus devaneios, a jovem Weasley retardou alguns segundos para voltar ao seu consciente. O aroma dos biscoitos de gengibre recém-feito preenchia todo o espaço, deixando a ruiva com água na boca e avivando todos os seus sentidos.
Deu um rápido pulo da cama, afastando suas cobertas e caminhando em direção à janela, puxando as cortinas para o lado e deixando os feixes de luz, agora já intensos, aquecerem a temperatura do seu corpo. Em seu interior, as batidas de seu coração eram frenéticas e logo um sorriso brotou em seus lábios.
Era dia 24, véspera de natal, a data que Dominique mais amava no mundo.
Alisou o suave pêlo do seu cachorro, Beau, que pulava em suas pernas, tão animado quanto ela estava. Talvez fosse o espírito natalino.
O período das festas de fim de ano era praticamente sagrado para a ruiva, uma tradição que acontecia entre todos os Potter-Weasleys e demais antes mesmo do nascimento de sua irmã mais velha, Victoire.
Era o momento ideal para calorosas trocas de energias, a época em que a esperança e a felicidade pareciam se espalhar com intensidade por todos os cantos. Gestos e sorrisos. Um clima de sonho se espalha no ar, e todas as pessoas se olham com um brilho reconfortante no olhar. Bendita seja a data que une todos em uma conspiração de amor.
As pessoas espalhavam magia, gentileza e amor com mais vigor. E na opinião da Weasley, que bom seria se o natal fosse todo dia. Pois as memórias na época natalina eram as mais doces que ela conhecia.
Assim, após terminar de se arrumar, desceu animadamente as escadas da Toca, escorregando em um aguaceiro.
— Merda. – Disse, enquanto sua mão amaciava as nádegas em uma tentativa falha de amenizar a dor da queda. — De quem foi a brilhante ideia de usar o feitiço dos flocos de neve na escada e nem se dar ao trabalho de executar da maneira correta?
Ótimo, sua felicidade acaba de ser danificada.
— Dominique, olhe os modos! – Molly ralhou, enquanto permanecia incrédula com o vocabulário da jovem, ajudando-a a se levantar em seguida.
— Isso com certeza foi ideia do James, só ele é burro o suficiente para essas coisas e... – Parou de falar após o olhar repreendedor da avó. — Me desculpe vovó, mas não é nada divertido andar com a bunda molhada por aí logo pela manhã.
Molly deu pequenas gargalhadas, enquanto a ruiva erguia o rosto e empinava o nariz.
— Venha querida, preparei os seus biscoitos preferidos de gengibre. – Exclamou a senhora baixinha, enquanto arrastava a neta até a cozinha. Novamente, o aroma dos biscoitos fez o estômago de Dominique resmungar.
A mesa rústica da cozinha já estava repleta de alimentos, o que animou a garota. Não era segredo para ninguém que ela havia herdado o apetite do tio Ron. Após sentar-se à mesa, seus olhos observavam o lugar com mais calma, agora prestando atenção em cada detalhe.
As paredes estavam decoradas com algumas guirlandas, enquanto pequenas estrelas douradas brilhavam presas no teto. Uma grande toalha de mesa verde esmeralda com detalhes prateados cobria o móvel, e logo um sorriso maroto surgiu nos lábios da garota. Todo ano ela e Fred faziam uma aposta sobre a cor da toalha. Uma aposta idiota aos olhos dos outros, mas era como uma pequena tradição entre os dois. Geralmente, as cores variavam entre verde, azul, amarelo ou vermelho (cores das casas de Hogwarts). Sua mão deslizou sob o tecido, e um sentimento de saudade invadiu seu coração. A Sonserina era como sua segunda casa.
Pelo menos naquele ano ela ganharia uma caixa gigantesca com sapos de chocolate.
Dominique voltou sua atenção para o jarro de suco de abóbora em sua frente, despejando o líquido no copo transparente. No entanto, sua ação foi interrompida por um barulho na sala, semelhante á um vidro se quebrando. A jovem levantou em um pulo ágil, já com a varinha nas mãos, pronta para azarar aquele que havia interrompido sua degustação.
Mexam com qualquer coisa, menos com as joias e a comida de Dominique Weasley.
Seus passos cessaram assim que ela avistou uma figura de cabelos azuis turquesa recolhendo alguns cacos de vidro. Ted Lupin havia herdado o jeito desastrado de Nymphadora Tonks de acordo com seu tio Harry – e bom, Dominique concordava com isso.
— Smurf! – Dominique exclamou, praticamente se jogando em Ted assim que chegou mais perto. Era um apelido de sua autoria, e pobre daquele que ousasse ‘’plagiar’’ a ruiva.
Dominique não era muita adepta a abraços. Entretanto, Ted era claramente uma exceção.
— Hey Nique, senti saudades. – Respondeu o azulado, enquanto apertava a garota contra seu peito. — Me desculpe pelo vaso, sabe como é, cinco anos fora de Hogwarts e ainda tenho problemas em aparatar.
Ela riu quando o homem revirou os olhos de forma engraçada, fazendo um bico bem estranho com os lábios.
— Não se preocupe, um pouco de magia e tudo resolvido. – Respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, enquanto movimentava a varinha em suas mãos. — Reparo!
— Brilhante. – Afirmou Ted, se sentindo um pouco idiota por não ter pensado naquilo antes. Dominique contraiu os lábios, enquanto colocava sua melhor expressão de superior.
— É o que faço de melhor. – Guardou a varinha dentro de suas vestes, voltando a olhar para o jovem. — Onde está a Victoire?
— Sabe como é sua irmã, ela nunca perde a oportunidade de fazer algumas ‘’comprinhas de natal’’. — Dominique segurou uma risada pela careta no rosto do cunhado e amigo. — Aliás, ela pediu para trazer algo para você. Eu não entendi direito, mas é algum tipo de álbum.
Rapidamente ela se lembrou de um álbum de fotos que sua irmã havia mencionado duas semanas atrás. Dominique era uma garota cheia de tradições e costumes, portanto, todo natal ela adicionava uma foto naquele álbum para ajuda-la a relembrar de todas suas memórias. No entanto, ela achou que tinha perdido o objeto no ano passado, o que resultou de muitos dias de choro. Ela era extremamente apegada a objetos com um significado emocional.
Enquanto Ted revirava sua mala de couro, Dominique permitiu-se sentar na poltrona próxima a enorme árvore de natal. Ela batia a ponta dos dedos no braço da poltrona, desejando que Ted encontrasse aquele bendito álbum o mais rápido possível.
— Achei! – bradou com um tom de felicidade enquanto balançava um livro de capa dura e esverdeada na palma esquerda.
— Graças a Merlin, achei que ficaria aí o dia inteiro. – Dominique tomou o álbum da mão do garoto rapidamente apertando-o contra o colo com força.
— De nada, minha querida. – ironizou.
— Eu não sou sua querida, Lupin. – Mostrou a língua para Ted, que bagunçou os longos cabelos ruivos, levando um tapa na mão em seguida.
— Ai! Seu tapa dói, idiota. – Ele amaciava a mão, enquanto fazia novamente a careta engraçada. — Eu vou procurar James e Fred no quarto, me mandaram uma carta hoje cedo, acho que estão tramando algo.
— Boa sorte ao tentar entrar naquele lugar bem organizado. — O sarcasmo em sua voz era visível já que todos sabiam que o quarto que os garotos da Grifinória (junto de Albus) dividiam era extremamente desorganizado. Pobre Albus, pensou Dominique.
Ted franzia as sobrancelhas e em seguida, soltou uma pequena gargalhada enquanto subia as escadas.
O olhar da ruiva voltou para o álbum em suas mãos. Ela tocou a capa com delicadeza, enquanto abria em uma página qualquer. As memórias de natal eram as melhores em sua vida.
❄
Natal de 2010, 6 anos de idade.
KUDOS (s.m); expressão que designa consagração, glória, enaltecimento. Elogios para uma realização excepcional.
Dominique cresceu como uma criança de personalidade forte, esperta, audaciosa e divertida. Não era muito de falar, gostava de ficar quieta em seu canto, mas adorava uma brincadeira.
Possuía uma paixão gigante por livros, principalmente aqueles que continham contos natalinos. Entretanto, naquela noite em específico, era quase impossível ler o seu pequeno livrinho de contos.
O barulho animado das conversas na sala preenchia toda a Toca, e bom, ela odiava ler em barulho. Embora estivesse um pouco irritada pela tamanha baderna, ela desceu da escada em pequenos pulinhos para se juntar á família. Aquela época era sua predileta desde quando se entendia por gente.
O brilho colorido dos piscas-piscas iluminava a grande árvore e boa parte do local. O cheiro dos biscoitos de gengibre que ela aprendeu a preparar junto com a avó Molly rescendia, deixando a pequena garotinha ruiva com água na boca. Sorriu ao notar seus avós maternos sentados ao lado de seus pais. A sua tia Gabrielle não viria para a Toca, iria passar o Natal com uma nova namorada, o que deixou a pequena Weasley um pouco enciumada. Ela não era tão apegada à loira quanto Victoire era, entretanto, sua companhia fazia muita falta, principalmente na hora das compras.
Dominique sentou-se ao lado de Victoire, que conversava animadamente com Molly II. No entanto, a cara de tédio da ruiva era visível. Digamos que ela não gostava tanto de discutir moda como a loira.
Começou a conversar com o avô, Monsieur Delacour, sobre os pedidos que ela fizera ao Papai Noel. Ela ficou um pouco receosa sobre o assunto, já que não sabia se havia sido uma boa menina naquele ano. Porém, o seu interior se aquecia somente de imaginar um colar novo ou o livro sobre Salazar Slytherin. A criança era muito curiosa, sendo assim, ela tinha uma atenção em especial para a história do bruxo. No fundo, ela sabia que aquilo preocupava sua família, principalmente seu tio Ron. Seria ela a primeira Weasley na Sonserina?
O aroma dos biscoitos abarrotou o cômodo, fazendo com que todos avançassem até a bandeja nas mãos da vovó Molly. Todos pareciam comer os biscoitos com satisfação. Dominique ficou orgulhosa de si, ela gostava de ser boa em tudo que fazia.
Um barulho de cuspe fez com que o seu olhar voltasse a sua direita, dando de cara com uma Victoire que fazia uma careta dramatizada de nojo.
— Isso está horrível! – A loira bradou, empurrando o restante dos biscoitos para o lado. — O que você colocou aqui dentro? Cera de ouvido?
— Victoirre! Nom seja insensível com sua irrmã. – Apesar de morar á anos na região inglesa, Fleur ainda possuía o sotaque francês. E geralmente ele sempre era maior quando estava nervosa.
— Cale a boca sua fresca, não seja tão chata pelo menos no Natal. Meus biscoitos estão ótimos! – Gritou para a irmã, dando um leve empurrão na mesma.
— Dominique, não empurre a sua irmã! – Dessa vez, Bill Weasley já estava em pé ao lado da esposa, como se estivesse preparado para separar uma briga de galo.
— Isso está ótimo? Jure Dominique? Aceite que está horrible!– Victoire franziu a sobrancelha. Era uma cópia barata de Fleur na opinião da ruiva.
O rosto da pequena Weasley corou. Mas não de vergonha ou timidez, e sim de raiva. Ela semicerrou os dentes e semicerrou os pequenos olhos azuis. E foi em questão de segundos que tudo aconteceu. Ninguém soube bem explicar quando, as pessoas na sala pareciam em choque assim que viram a situação do cabelo de Victoire. Os longos fios lisos e loiros prateados agora se dividiam em tonalidades verdes e vermelhas, imitando as cores das várias guirlandas pela casa. E assim, a primeira gargalhada surgiu de James Potter.
— A Vic está igualzinha a meia velha colorida do tio George! – O garoto mal conseguia terminar a frase, pois se engasgava com sua gargalhada. E em seguida, a sala foi preenchida de risos e palmas, enquanto algumas pessoas tentavam segura-lo, mas sem sucesso. — Rose, pegue a câmera do vovô, corre!
Em questão de minutos, flashes foram vistos por todos na sala. A primeira foto daquele natal seria o cabelo ‘’natalício’’ de Victoire. E futuramente, uma das fotos do álbum de Dominique.
Após olhar-se no espelho que Molly ofereceu, Victoire soltou um pequeno gritinho agudo e tentava cobrir o cabelo com os braços.
— Parabéns Domi, sua primeira demonstração de magia! – George pegou a garota e a rodopiou pela sala, enquanto ambos davam gargalhadas.
— Oh querrida, meus parabéns mon amour!— Fleur depositou um casto beijo em sua testa, enquanto ia um pouco sem jeito tentar ajudar a filha mais velha.
— Domi, você se superou desta vez! – Parabenizou James, enquanto Fred assentia.
— Realmente, foi brilhante! – Elogiou o moreno.
— É a garotinha do papai, não é? – Foi tomada pelos braços de Bill, seguindo por uma sessão de cócegas.
Após toda a barulheira, a ceia foi servida e todos davam boas risadas com as piadas de George Weasley. Do outro lado da mesa, Victoire Weasley estava com uma cara emburrada, mas satisfeita com a linda trança que Hermione fizera em seu cabelo. Agora ela estava na moda natalina, pensou Dominique. Seu olhar foi até a foto da irmã em suas mãos, talvez nem Ted que era um metamorfomago chegaria naquelas tonalidades curiosas. Deu um pequeno riso baixo, enquanto uma ideia passava pela sua cabeça.
Dominique faria aquilo ser memorável.
❄
Natal de 2015, 11 anos de idade.
SFORGASI (v); em italiano: aliviar ou dar vazão a seus sentimentos. Abrir o coração. Desafogar-se. Desabar.
As janelas da Toca faziam um barulho forte, recebendo fortes golpes de vento. A tempestade de neve estava forte naquela noite, pois nem mesmo as fortes rosas e os resistentes lírios pareciam aguentar ficarem presos em suas raízes. A forte ventania golpeava a porta. Uma hora dessas, o pequeno Gnomo de gesso, Alfred, já havia partido desta para melhor.
Aquele seria um natal frio, assim como o coração de Dominique Weasley.
A pequena ruiva encontrava-se encolhida no sofá dentro do abraço da prima Rose. Ambas detestavam tempestades daquele jeito, e a mais velha em especial, possuía fobia de vento. Anemofobia era o nome dado ao medo mórbido de ventanias e de correntes de ar. Dominique não sabia como e quando esse medo começou, só lembrava-se de correr para um local seguro cada vez que uma corrente de ar batia forte. Nada fazia Dominique correr mais rápido do que sua fobia, a não ser James Potter ou um coração partido.
Duas semanas atrás, o destino fez uma piada cruel com a jovem Delacour-Weasley. Ou melhor, com seu jovem e inocente (ou não) coração.
Já era esperado que a ruiva fosse selecionada para a Sonserina, entretanto, os choques ainda permaneceram. Ela recebeu uma carta de seus pais, uma Fleur bastante orgulhosa e um Bill que tentava aceitar passivamente a situação. Sua irmã, Victoire, também lhe apoiava; já que a mesma pertencia a Corvinal e não a Grifinória. Entretanto, nenhum pecado nos Weasley era maior do que ser da Sonserina. Palavras de Ronald Weasley, em um berrador na manhã do dia 02 de setembro.
Certo tempo se passou desde a seleção, e com ele, surgiam novas amizades. James e Fred eram da Grifinória como o esperado, mas não passavam muito tempo com a garota, pois segundo eles, suas amigas eram piores até que as cobras.
Ser amiga de uma filha de um Comensal da Morte não facilitava muito a aceitação dos Weasleys. Entretanto, Dominique já não se importava com a opinião dos outros, pois Amalthea Leta Lestrange era a melhor amiga que poderia ter. Thea, como gostava de ser chamada, era uma garota ousada e determinada, assim como era uma dócil e boa amiga.
— E então, o que vai fazer em Hogsmeade amanhã? – Thea perguntou, enquanto arrumava o longo cabelo negro em uma belíssima trança embutida.
— Pensei em irmos à Dedosdemel após eu encontrar com o meu primo Fred. – Respondeu, enquanto avaliava as unhas recentemente pintadas de prata.
— O da Grifinória? Céus, não sei como vocês são primos. Ele é tão exibido, assim como o amiguinho Potter. – A morena revirou os olhos, terminando de arrumar o restante dos fios no topo da cabeça.
— Ele é legal, Thea. Mas enfim, só tenho que resolver minha aposta com ele e vamos. O que acha? – Deitou-se na cama, enquanto avaliava a expressão da amiga.
Dominique tinha o dom de ler as pessoas somente com o seu olhar, o que era terrivelmente assustador.
— Certo, mas quero ir a outro lugar depois. Ouvi dizer que o Harry da Corvinal estará no Três Vassouras com sua companhia. – A Lestrange deu pequenos pulinhos de felicidade, fazendo a outra soltar uma risada baixa.
— Harry da Corvinal? Qual o sobrenome, só pelo nome fica difícil saber. – Após a Segunda Guerra Bruxa, muitos dos sobreviventes haviam batizados seus filhos com o nome de seu tio.
— O Harry Verlac, meu anjo. Somente o cara mais bonito de Hogwarts! – Soltou um suspiro alto, enquanto sorria para o além.
— Mas nós só temos 11 anos, acha mesmo que ninguém naquele lugar vai nos notar? Você sabe, não tenho essas idiotices de por minha vida em risco quando sei onde mora o perigo. Isso é coisa de gente da Grifinória, Thea. – Exclamou Dominique, bufando em seguida.
— Não se preocupe minha pequena ruiva. Tudo ficará bem. – Respondeu a morena, apertando a bochecha da outra e levando um tapa na mão.
No dia seguinte, tudo parecia bem. Elas foram até a Dedosdemel, onde encontraram com Fred, o Potter e companhia. Eram evidentes as farpas que Amalthea e Fred trocavam, então a Weasley tentou ser rápida com seus negócios. No final da tarde, foram até o famoso pub e Dominique ficou surpresa ao ver sua irmã sentada ali, e pior, bebendo.
— Fique quieta, Thea. Minha irmã está bem ali, e ainda por cima bebendo. Ela não pode me ver! – Dominique tentava esconder seu rosto com uma versão do Profeta Diário.
— Tudo bem, tudo bem. Apenas olhe para aquela coisa maravilhosa de olhos castanhos. – Respondeu em um tom no mínimo meloso na opinião da ruiva.
Ela passou a observar a mesa bem á frente. Olhou para Harry por poucos segundos, ele era realmente bonito, mas não fazia seu tipo. Foi quando o olhar de Dominique parou em uma figura ao lado de Victoire. Ele possuía cabelos negros e bem arrumados, seu tom de pele era oliva e entrava em contraste com os belíssimos olhos verdes, semelhantes à cor do brasão sonserino. Seus lábios esboçavam um sorriso torto, enquanto sua risada ecoava como uma canção dos anjos pelo pub.
— Terra para Dominique. – Amalthea denunciou ainda tentando se recuperar de crise de riso. — Tome, acho que vai precisar disto. – Ela estendeu um paninho branco, fazendo um movimento discreto no queixo.
— Não seja idiota. – Empurrou a mão da amiga, enquanto seu rosto adquiria um tom de pimenta. — Quem é aquele Deus?
— Meu anjo, aquele é o Mishka Ivanov. Foi transferido da Durmstrang para Hogwarts no ano passado, também é da Corvinal. – Respondeu a morena, sem prestar muita atenção no garoto.
— Mishka? Isso parece o Hugo falando ‘’mosca’’ em português pela primeira vez. – Proferiu, enquanto voltava seu olhar para aqueles olhos esverdeados.
Em questão de segundos, ela escutou o que mais temia.
— Nique-Nique, você está aqui! – Vociferou Victoire, dando um tchauzinho para a irmã. — Venha aqui, conheça meus amigos!
Por um momento, Dominique ficou com uma raiva gigantesca da irmã pelo apelido infantil. Entretanto, aquela poderia ser uma oportunidade de conhecer o rapaz. Ela nunca foi do tipo de gostar fácil de alguém, no entanto, aquele rapaz havia mexido com todos os sentidos dela.
Eles foram todos apresentados, e por alguns segundos, Domi poderia jurar que viu Misha – como os amigos o chamavam – olhando e sorrindo para ela.
Uma semana depois, Dominique já se preparava para levar um possível namorado para a Toca. Ela conversava bastante com Misha, sabia que ele estava na dela. Aqueles lindos olhinhos entregavam seus sentimentos e a reciprocidade. E foi em uma tarde fria de inverno que tudo aconteceu.
A Weasley esperou que a última aula da Corvinal acabasse para executar o seu plano. Ela usava mais maquiagem que o normal e possuía o cabelo trançado para o lado. Mas o que mais chamava atenção eram seus lábios com um batom avermelhado. De acordo com Amalthea, vermelho deixa qualquer mulher poderosa. Ela não era muita adepta a cor, mas tinha que concordar com tal afirmação.
Mesmo com pouca idade, qualquer um que olhasse a garota ficaria encantado com sua beleza. Os traços herdados dos veelas eram visíveis já com 11 anos. Assim que a porta se abriu, a garota levantou-se rapidamente e puxou uma figura duas vezes maior que ela para o canto. Seja ousada e tímida, as palavras de Thea ecoavam em sua mente.
— Oi Domi, aconteceu alguma coisa? – O Ivanov olhou confuso para os lados, procurando algum tipo de problema. Entretanto, só encontrou um belo par de olhos azuis cravados nele.
— Aconteceu Misha, e eu sei que precisamos conversar. – Respirou fundo, olhando séria para o garoto. — Eu sei que pode parecer rápido, mas estou antecipando isso por nós dois.
— Dominique, eu...
— Sim, eu sei. Eu também gosto de você e estou pronta para levar nossa relação á diante. Sei que disse a Vic que me adora bastante! – Após terminar de falar, ela fechou os olhos e formou um pequeno bico com os lábios.
Ele a olhava surpreso, mas em instantes pousou uma mão no ombro da garota.
— Dominique, eu nem sei muito bem o que te dizer. – Sorriu de lado. — Olha, quando eu disse que te adorava para a Victoire, eu quis dizer que te adoro como a minha irmã caçula, sabe? Não desse jeito. — Explicou, e cada palavra dele era como um corte no coração da ruiva. — Você é nova ainda, ruivinha. Tem tanta coisa para viver pela frente. Tenho certeza que um dia achará alguém melhor que eu. No entanto, eu não sou essa pessoa que você espera.
E a partir daquele momento, tudo parecia dar errado. Uma tempestade ameaçava chegar bem ali, e Dominique sentia seu corpo começar a tremer.
— T-tudo bem, eu entendo. Desculpe-me por tudo isso. – Ela disse tão baixo, que se não estivessem próximos, ele não a escutaria. Mishka abraçou a garotinha, mas logo ela endureceu o corpo e se soltou do abraço, correndo para dentro do castelo. A ventania só piorava, mas não era isso que havia feito Dominique Weasley chorar.
No fim de semana, ela voltou para o Chalé das Conchas e dias depois, para a Toca.
Ainda agarrada a Rose, Dominique pensou o quão ruim uma decepção amorosa era. Mishka Ivanov foi a primeira pessoa a partir o seu coração. E os danos não pareciam reparáveis.
Perdida em seus devaneios, ela não viu James Sirius chegar por trás do sofá e explodir uma bomba de bosta bem ali. Rose deu um pulo alto, que por um momento, a Delacour-Weasley achou que a prima cairia do sofá.
— Sirius, seu idiota! Eu vou contar para a tia Ginny! – Bradou furiosa, correndo atrás do garoto com uma varinha na mão.
— Dominique Beaux Gabrielle Weasley, quii bagunçe é essa aquirr?! – Fleur Weasley gritou furiosa.
— Foi o James, Maman! Ele explodiu uma bomba de bosta onde eu e Rose estávamos! – Explicou Dominique, enquanto apontava para o primo que ainda corria como um retardado.
— JAMES SIRIUS POTTER, APAREÇA AGORA MESMO! – O grito forte de Ginny Weasley ocupou o recinto. Nessas horas, o Potter mais velho já deveria estar escondido.
Dominique ainda estava tristonha em meio à noite. Ela nunca havia passado um natal tão triste como aquele. Sabia que a família não estava acostumada com a garota sendo da Sonserina, e para piorar, possuía um coração quebrado. Silenciosa, seus passos lentos se dirigiram até a poltrona antiga de Arthur, onde ela costumava ler.
Abriu algum de seus vários livros sobre poções, mas era quase impossível prestar atenção em algum trecho do bendito livro. De repente, três figuras conhecidas pararam em sua frente e ela levantou os olhos. Victoire analisava o olhar da irmã, tentando desvendar aquela máscara que a garota tanto carregava. Rose sentou-se ao seu lado novamente, enquanto Louis sentou do outro e segurou sua irmã, tentando passar o máximo de conforto.
Ela não precisava dizer muito, eles eram família e se conheciam. Pois nada era mais forte que o amor de uma família. E naquele Natal, ela voltou a sorrir. Ela não poderia estar em um lugar melhor do que aquele.
Após levantar-se da poltrona, ela foi em direção ao avô paterno, que lhe chamava há algum tempo.
— E então, o quer ganhar de Natal? — Indagou Arthur.
Sua expressão tornou-se pensativa. Ela sempre pedia joias ou livros, mas naquele ano, ela precisava de uma companhia especial.
— Eu quero muito um cachorrinho! Eles são as criaturas mais legais e fofas. — Respondeu a pequena ruiva.
— Até mais do que eu? – O ancião Weasley fez uma cara tristonha, fazendo Dominique rir.
— Talvez. Eu gosto mais de cachorros do que de pessoas. — Afirmou de forma inocente e Arthur riu em resposta, puxando a pequena de 11 anos para seu colo.
Não demorou muito para toda a família se ver esbanjando em comida ao redor de uma grande mesa de madeira antiga (que por sinal, possuía uma toalha na cor amarela; ponto para Fred) e dividindo presentes, bebidas e histórias que passaram durante o ano.
Dominique gargalhava com cada uma delas, se sentindo feliz como nunca. Afinal, ela estava em casa e com sua família. E nada nem ninguém tirariam sua felicidade. Ela era uma Weasley, estava no seu sangue ser forte e corajosa. Minutos depois, já se sentia poderosa, principalmente com todos os mimos de seus familiares e as joias maravilhosas que havia ganhado. Ela era sim poderosa. Logo viu o barulho de um click e flashes atingindo seu rosto. Aquela era sua fotografia predileta.
Ela era uma rainha, com ou sem ninguém.
❄
Natal de 2019, 15 anos de idade.
ZAHIR (exp.); em árabe: algo ou alguém que uma vez tocado ou visto, jamais é esquecido.
Quinto ano. O ano da tortura. O ano em que todos os quintanistas sentem o fogo do inferno. O ano dos temidos e não esperados N.O.M’s.
Além de toda a pressão com as temidas provas, ela ainda tinha que se preocupar com algo que incomodava seu interior, deixando-a aflita. Ela estava sentada no tapete da sala jogando xadrez bruxo com a pequena Lily Potter, que não aguentava mais perder para a sonserina.
— Xeque-mate! – Bradou a jovem, enquanto jogava o longo cabelo para o lado. Dominique já tinha 15 anos e a sua beleza parecia aumentar a cada dia. Certo dia, ela até encontrou James Sirius paralisado na escada olhando para ela. Ela era uma garota belíssima e sabia disso.
No entanto, o tempo passou e com ele muitas características da jovem ficaram no passado. Ela havia deixado de ser a garota mimada de sempre e que fazia questão de implicar com qualquer pessoa que atravessasse seu caminho em um dia de mau humor. Estava madura, mais ambiciosa do que nunca e muito mais dissimulada.
Ela fora nomeada monitora da Sonserina, trazendo orgulho para a sua família que finalmente havia se acostumado com a ideia de uma serpente dentro de casa. O ano de 2019 parecia perfeito para si, a não ser por uma razão.
No começo do ano, todos os alunos de Hogwarts foram informados sobre uma parceria de quatro escolas, propondo um intercâmbio de um ano. Dois alunos de cada escola eram escolhidos e trocavam de lugares com os de outras escolas. Hogwarts se despediu (mesmo que por não tanto tempo) de Romane Blake e Alec Fraser, Lufa-Lufa e Corvinal, respectivamente.
O Grande Salão estava repleto de olhares curiosos, ansiosos para conhecerem os seus novos companheiros. E como se lessem suas mentes, duas figuras entraram rapidamente no local e Dominique mal teve oportunidade de prestar atenção em suas aparências. Neville Longbottom repetia o mesmo discurso da seleção.
— Damian Chermont! – Um garoto que aparentava ter a mesma idade da garota sentou no banquinho enquanto o chapéu bagunçava seus fios esbranquiçados extremamente arrumados.
— Grifinória! – Exclamou o velho Chapéu pouco tempo depois. Em seguida, o garoto caminhou animadamente até a mesa, logo sendo recebido por James, Fred, Rose, Lily, Hugo e os demais.
— Leslie Carvalho! – Quase de imediato, Dominique esqueceu o porquê estava pensativa. Já conhecia a fama das brasileiras, mas nunca havia visto uma tão de perto.
Algo dentro de Dominique pedia por Sonserina.
— Lufa-Lufa! – Bradou novamente, e a garota desceu do banquinho caminhando um pouco tímida até a mesa amarela. Que bochechas lindas, pensou a Weasley.
Ela passou a observar a garota discretamente enquanto Amalthea e Jade (sua melhor amiga da Grifinória) conversavam sobre alguma notícia de quadribol. Ambas eram batedoras de seus times, e sabiam muito bem exercer suas funções. Dominique também deveria estar prestando atenção, pois era uma das artilheiras do time. Entretanto, a atenção da bruxa foi tomada pela jovem de cabelos louros escuros e olhos pretos – Talvez castanhos, pensou consigo mesma.
A novata pareceu perceber os olhares em si, encontrando um belo par de olhos azuis. Ao invés de recuar, a ruiva continuou olhando para a brasileira de forma doce e curiosa. Ela sentiu seu peito inflar quando Leslie retribuiu seu olhar com um sorriso tímido.
No dia seguinte, a aula de Herbologia era com a Lufa-Lufa. Algo se ascendeu no interior da bruxa. Ela caminhava com passos largos, procurando chegar o mais rápido possível dentro da sala. Queria negar, não queria aceitar, mas aquela jovem brasileira mexeu com os instintos da Weasley. Os alunos das outras casas olhavam estupefatos para a beleza da ruiva. E no fundo, cada um deles sabia que ela era o desejo mais profundo de qualquer aluno em Hogwarts. Mas um desejo que eles jamais teriam.
Assim que adentrou pela porta, seu passo cessou quando a voz do Prof. Neville emergiu.
— Senhorita Weasley! – Exclamou feliz em rever uma de suas melhores alunas. — Sente-se ali ao lado de nossa queridíssima Leslie, espero que sejam boas amigas.
Parece que Merlin conspirava ao seu favor, e ela estava feliz com isso. Caminhou em passos um pouco rápidos até a mesa esquerda, sentando ao lado da bruxa que agora vestia uniformes da casa dos texugos. Leslie esboçou o mesmo sorriso tímido, mas brilhante como nunca.
A aula passava mais rápido que o normal, entretanto, cada segundo ali era precioso para Dominique. Toda a felicidade da bruxa foi interrompida pela sua maldita pena, que insistia em não funcionar naquele momento.
— Quer uma pena emprestada? Acho que a sua não está muito boa. – Leslie ofereceu baixinho, um pouco próxima da ruiva.
O olhar de Dominique levantou rapidamente e ela pode sentir suas bochechas corarem, pois a lufana abaixou a cabeça enquanto sorria.
— Claro! Muito obrigada! – Agarrou a pena dourada delicadamente, enquanto a Carvalho voltava a olha-la nos olhos. — Está gostando daqui?
— Só tive um dia de experiência, na verdade. – A sonserina se sentiu estúpida pela pergunta assim que foi respondida. — Mas sim, estou gostando mais do que deveria.
A última frase parecia ser referente a outra coisa e isso animou prontamente a garota.
Meses se passaram e as garotas já estavam mais próximas do que imaginavam. Adoravam caminhar pelos jardins, assim como estender uma toalha sob a grama e passarem o dia conversando com Amalthea e Jade.
Era Halloween, a data predileta de Thea. As quatro garotas caminharam até suas respectivas mesas, encontrando com alguns colegas. Dominique passou boa parte da noite na mesa da Grifinória, junto de seus primos e as duas amigas. Assim como Scorpius Malfoy e Albus Potter, a casa dos leões já estava acostumada com sua constante presença.
Conversava animadamente com James, e dessa vez, nada de pegadinhas. Ambos sempre foram próximos, entretanto, as brincadeiras inconsequentes do primo a irritavam profundamente. Quase não percebeu quando Leslie a cutucou por trás, chamando-a para dar uma volta.
Elas subiam rapidamente as escadas, tomando todo o cuidado possível quando elas moviam do lugar. Agora, corriam de mãos dadas e não demoraram muito para chegar até a Torre de Astronomia. Dominique amava o universo, principalmente as estrelas. Não é a toa que era uma grande amante da tradição de nomes da extinta família Black. Sua preferida era Sirius. E de acordo com seus familiares, o padrinho de Harry Potter recebeu aquele nome, fora aquele que se diferenciou da família no momento em que foi escolhido para a Grifinória. Assim como ela, sendo uma Sonserina. O nome passou para o primogênito do Potter, que fazia muito jus aos nomes dos dois marotos que recebeu.
Dominique ainda procurava recuperar seu ar quando foi surpreendida pelos lábios de Leslie grudados nos seus. O selinho durou alguns minutos até a lufana interromper rapidamente.
— Me perdoe Dom. Eu não deveria...
Ela não terminou o restante da frase, pois os vorazes lábios de Dominique tomaram os seus. Sua mão direita foi até a nuca da brasileira, presa em seu cabelo, enquanto a esquerda descia até a cintura. Logo, Dominique sentiu os lábios macios e Leslie em seu pescoço- certamente aquilo ficaria marcado. O interior da Weasley bradava por mais e a Carvalho parecia saber disso, pois logo prendeu o corpo da ruiva em uma grande parede fria enquanto o contato ficava cada vez mais próximo. Perigo instantâneo. Seu consciente gritava para que ela desse um fim, mas seu coração implorava por mais. As línguas travavam uma batalha que se comparava a uma dança sincronizada, o calor consumia o ambiente.
Logo se separaram devido à respiração acelerada, sorrindo uma para a outra. O ato se repetia diversas vezes ao longo dos meses, geralmente com as duas escondidas. Elas gostavam disse, sem ninguém para perturbar suas vidas. No entanto, Dominique se sentia aflita.
— Você é de Escorpião e eu de Sagitário, percebe isso? – A lufana exclamou, enquanto acariciava o cabelo da Weasley.
— Como assim? Eu não entendo tanto dessas coisas como Rose. – Respondeu um pouco perdida.
— Seu elemento é água e o meu fogo, Domi. Somos totalmente opostas. Você é intensa, tem esse jeito todo obscuro enquanto tenta esconder o próprio coração. E eu sou mais agitada, razão de menos. – Explicou, enquanto esboçava um sorriso tímido. — Sem contar que não sou tão vingativa quanto você, Gendry que o diga.
A menção do nome do garoto fez Dominique rolar os olhos. Semanas atrás, ele havia feito piadas com Leslie, que nem parecia se importar tanto. Entretanto, todos sabiam que mexer com Dominique Weasley era mexer com fogo, principalmente quando ela era a melhor em Poções. Por Salazar, aquele garoto nunca mais direcionou uma palavra a Leslie. A Weasley fez questão de que a língua dele estivesse o mais danificada possível para tal ação. Sonserinos eram arteiros e verdadeiras cobras. Você nunca sabe quando eles darão o bote, e quando ele vem, é fatal.
— Acha que isso dará certo? – Dominique perguntou mais para si mesma do que para Leslie.
— Todo esforço tem resultado. Só vamos nos atirar e ver no que vai dar. – Disse, enquanto depositava um casto beijo nos lábios da ruiva. — A propósito, seu horóscopo diário diz: ‘’ Você comprou uma estrela no céu, pois sua vida é escura e você precisa de um pouco de luz’’.
A ruiva ficou pensativa, pois naquele momento, era exatamente o que se passava.
Ela não conseguiria manter o seu precioso segredo escondido por muito tempo. Teria que arrumar coragem e enfrentar sua família e talvez fizer o natal daquele ano, o pior de todos.
E assim, chegou o dia 24 de Dezembro.
A Weasley subiu até o quarto que dividia com Rose e Roxanne, dirigindo seus passos até o banheiro. A água fria escorria pela sua pele aveludada e sua cabeça estava apoiada contra o Box. Ela tentava respirar, mas não sabia como. Só queria acabar com aquela maldita ansiedade, aquele maldito medo. Veja só, ela nunca foi muito corajosa. Entretanto, precisava ser naquele momento para sua própria sanidade.
Após passar mais de meia hora se arrumando (palavras de Roxanne Weasley), a sonserina desceu as escadas lentamente e os olhares foram direcionados a si. Ela olhou diretamente para o irmão caçula, que a analisava assim como ela costumava fazer com as pessoas.
Finalmente havia chegado a hora da ceia. Todos sorriam e riam das piadas de George e o filho, Fred. No entanto, Dominique se encontrava entre os tios Percy e Charlie, tentando ao máximo se tornar invisível na grande mesa. Mas Dominique Weasley nunca fora invisível.
— Dominique, você quase não comeu o peru. É seu prato predileto. – Sua tia Hermione disse baixo, mas não o suficiente para que Victoire não escutasse.
— Domi, você está se sentindo bem? – O olhar preocupado da loira foi como um tapa na face de Dominique. A mão de Victoire se enroscou na sua e logo a atenção de todos foi para si.
Ela nunca foi tão insegura como estava sendo agora, tão pouco sensível. Entretanto, ela não pode cessar as lágrimas que teimavam em cair de seus olhos.
— Mini? – James chamou, parecendo preocupado.
— Querrida, o que aconteceu? – A voz de Fleur Weasley já estava falhando e logo a garota percebeu que a mãe também chorava.
— E-eu preciso contar algo para vocês... – Respirou fundo assim que a voz falhou. Precisava ser corajosa. — Há algum tempo, eu conheci uma pessoa. Intercambista do Brasil, para ser mais exata. E essa pessoa ascendeu uma luz em mim que eu já não via há muito tempo. Ela me torna boa, traz bondade ao meu coração e conseguiu derreter boa parte de toda camada de gelo que rodeava o meu coração. – Ela secou algumas lágrimas antes de continuar. — E essa pessoa é uma garota, uma linda garota. Leslie Carvalho, intercambista da Lufa-Lufa.
Percy Weasley cuspiu toda a sopa de ervilhas na cara de Ron e sua cadeira deu uma forte bambeada, sendo segurado pela caçula Lucy. O pedaço de peru no garfo de Ron paralisou em sua mão, assim como Arthur e Harry olhavam tentando absorver a informação. Bill Weasley pareceu congelar no tempo e a cara de choque da esposa desesperou Dominique. Victoire continuava a apertar sua mão, ao lado de Ted e Louis que lhe olhavam com orgulho.
— Eu não espero que entendam, mas deveriam procurar entender. Estamos em pleno século XXI, eu sei que a sociedade ainda é bastante conservadorista e até alguns de vocês sejam. Também sei que a luta da LGBT está longe de acabar, mas não devemos desistir por agora. E bom, eu não sou apaixonada por gêneros e sim por pessoas. Eu amo pessoas, independente de ser homem ou mulher, branco ou negro, gordo ou magro. Elas são pessoas assim como eu e assim como vocês. Eu ainda sou a Domi, entendem? Eu não deixei de ser quem sou, apenas estou mostrando quem realmente sempre fui. E eu espero que tenham maturidade o suficiente para lidar com isso. Perdoem-me por estragar o natal de vocês. – Dominique abaixou a cabeça, enquanto escondia seu rosto em meio às lágrimas.
Após um longo silêncio, palmas começaram a surgir no ambiente. E em questão de poucos minutos, todos gritavam o nome da sonserina e caminhavam para um abraço apertado.
— Chame a Leslie para almoçar aqui amanhã, o que acha? – Sugeriu Bill, depositando um beijo em sua bochecha. — Eu te amo, Domi. E sua orientação sexual jamais mudaria isso.
Ela voltou a chorar assim que o pai parou de falar, agarrando-se no seu pescoço.
— Oun minha bebé, a maman ama você querrida! – Fleur a tomou nos braços, apertando-a com força.
E pela primeira vez na vida, ela não se sentiu incomodada em receber tantos abraços.
— Venha aqui, sua pirralha! – Agora era Victoire que lhe apertava em um abraço quase que sufocante. — Eu tenho orgulho de quem se tornou, ouviu bem?
— É, mesmo pertencendo a Sonserina. – Ted piscou e Dominique lhe olhou feio, atirando-se em seus braços em seguida.
— Eu sempre soube, vi vocês na biblioteca uma vez, mas queria que você estivesse confortável para me dizer. – Exclamou Louis, que alisava os cachos nas pontas do cabelo da ruiva.
E aquele havia sido mais um caloroso natal. Na manhã seguinte, toda sua família conheceu Leslie e ficaram encantados com a garota. Dominique tirou uma foto delas sentadas nos fundos do jardim, sorrindo como nunca.
Dominique poderia não pertencer à casa dos leões, mas descobriu ser tão corajosa quanto um.
❄
Natal de 2020, 16 anos de idade.
MERAKI (v); do grego: fazer algo com alma, criatividade ou amor. Colocar parte de si em algo que está a fazer.
Dominique fechou o seu álbum após passar alguns minutos olhando sua foto com Leslie. A brasileira voltou para o país de origem, o que devastou um pouco a ruiva. Elas ainda mantinham contato por cartas, mas no fundo sabiam que o que viveram ficou para trás. Dominique sabia, Leslie jamais seria esquecida.
Ela subiu as escadas em passos lentos, a fim de admirar as diversas flores presas na escadaria e em volta das guirlandas. Toda vez que vinha para a Toca, aquele vazio em seu peito parecia sumir. Até seu subconsciente reconhecia que ela estava onde deveria estar. Em casa.
Chegando ao quarto, ela vasculhou suas coisas a procura de um vestido vermelho. Afinal, como diria a Lestrange, vermelho deixa qualquer mulher poderosa.
Dominique era o tipo de pessoa que passava horas e horas se arrumando, mas no Natal, sua arrumação parecia nunca ter fim. Vestiu o longo vestido vermelho, que lembrava as cores da Grifinória. O busto era composto por um tecido grosso e muitas pedrarias enquanto formavam um decote de formato ‘’V’’. A sua saia era feita de seda e forro de malha, não possuía pedraria alguma e balançava com qualquer balanço de ar. Dominique se assemelhava a uma borboleta, livre e bonita. Os longos cabelos estavam soltos, com terminações em cachos delicados. Com os fios avermelhados, o Universo foi vestido de liberdade. Por fim, não poderia faltar o bendito batom vermelho, destacando-se em sua maquiagem clara e bonita.
Os olhares de toda sua família foram até a jovem garota de 16 anos, que descia as escadas como uma verdadeira princesa.
— Você está linda, Domi. – Harry Potter elogiou, dando um abraço na sobrinha. Ela logo reparou que o cabelo do tio jamais teria jeito, assim como o de James.
Ela segurava a câmera de seu avô com firmeza, este ano queria uma foto diferente. Logo a casa foi preenchida pelas conversas animadas e os barulhos das crianças.
— Pega o gnomo, pega! – Dominique se assustou ao ouvir a voz de Louis ecoando pelo lugar, enquanto uma figura de chapéu pontudo corria pela casa. Provavelmente Sirius havia enfeitiçado o pobre e sobrevivente Alfred.
— Ai Lily! Por acaso eu virei o martelo de Thor?! – Um nervoso Hugo esbravejou, após ser empurrado contra a mesa pela Potter caçula.
— Eu vou atirar uma cadeira em você, Malfoy! – Albus Potter carregava uma das velhas cadeiras de Molly pela cozinha, enquanto gritava pelo melhor amigo. Era o primeiro natal de Scorpius naquela casa e já queriam acertar o pobre garoto violentamente.
— Essa família é muito unida, não acha? – Ted surgiu ao seu lado, olhando o Potter do meio correr furioso.
— É o que temos de melhor, meu amigo. – Dominique deu de ombros, enquanto se sentava na mesma poltrona que olhava o álbum mais cedo.
— Ei Ted, Mini. Vocês sabem o que a Victoire tanto esconde? Ela estava fazendo um mistério dissonante na cozinha. – Perguntou o primogênito dos Potters, que parecia mais arrumado que o normal.
— Dissonante? – Dominique ergueu uma sobrancelha, olhando incrédula para o moreno.
— Rose me deu um dicionário, lembra? – Ele revirou os olhos, fazendo com que ambos segurassem o riso. — Não fuja do assunto, Mini. Vocês sabem ou não?
— Eu não faço ideia, isso porque sou casado com ela. – Ted ergueu as mãos, realmente parecendo sem informação alguma.
— Deve ser algum anuncio de uma nova viagem, sabe como Victoire é. Entretanto, ela não parece muito em climas de viagem. – Ela disse a última frase mais para si do que para os outros dois.
— Do que você está...
James Sirius foi interrompido pela loira, chamando todos para a ceia. Algo estava errado, Victoire nunca gostou de comer cedo. E pelo o que a irmã sabia, ela andava comendo mais que o normal.
— Tori, acho que já pode parar de fazer segredo, pelo menos comigo. – A ruiva disse baixinho apenas para que a irmã escutasse.
— Não se preocupe, Dom. Suas dúvidas serão respondidas. – A loira abriu um sorriso radiante. Naquele momento, Dominique teve certeza. Victoire – agora Lupin – escondia algo de todos. Algo muito surpreendente.
Todos os Delacour-Potter-Weasleys se reuniram na grande mesa como de costume (a toalha verde já estava limpa, graças a Merlin) e rapidamente as gargalhadas voltaram a emergir. A sonserina olhava de longe a árvore que havia decorado com Rose e Lily. Agora, o topo possuía duas estrelas. A tradicional e um pentagrama, em homenagem a religião Wicca que Rose começara a seguir.
Um barulho de vidro tirou a atenção da Weasley e de todos os restantes. Uma Victoire Weasley estava em pé, novamente com o mesmo sorriso radiante de uma hora atrás.
— Victoire Apolline Molly Weasley, o que você está aprrontando? – Fleur cruzou os braços, enquanto encarava a primogênita com curiosidade e um certo medo.
— Bem, boa noite família. Eu quis dar essa notícia para todos de uma só vez, pois queria ter certeza de que dessa vez, tudo estava perfeitamente nos trinques. – Merda Victoire, não brinque com meu coração assim – Dominique já tremia, com o passar dos anos, desenvolveu um transtorno de ansiedade e não controlava a tremedeira que surgia em seu corpo cada vez que ficava ansiosa. — Após muitas tentativas e percas... – Desta vez, ela abaixou a cabeça por alguns segundos. — Eu finalmente consegui, eu estou esperando um bebê!
Dominique começou a engasgar com a própria bebida, sendo acompanhada de James e Fred ao seu lado. Bill Weasley passou a ficar da mesma cor do cabelo da filha mais velha, enquanto Fleur lacrimejava e ia em sua direção. Hermione, Harry e Ron se entreolhavam, provavelmente pensando sobre o mais novo pirralho ou pirralha da geração dos Lupin. Seus outros tios ainda olhavam para a sobrinha mais velha, totalmente incrédulos. Arthur Weasley e Molly já abraçavam a neta. O choque se desfez assim que George assobiou em comemoração.
— O primogênito catarrento Weasley-Lupin! – Bradou o homem, enquanto era acompanhado por Fred, Albus, James, Scorpius e companhia.
Lily Luna já pedia de joelhos para ser uma das madrinhas, mesmo sabendo que os possíveis seriam Dominique e Louis.
E falando em Dominique, a garota demorou um pouco para voltar á ‘’Terra’’. Mal poderia acreditar, logo teria um sobrinho e nem havia terminado seus anos em Hogwarts. A ideia de ter uma criança de sangue tão próximo do seu a assustada da mesma forma quando Lily, Hugo e Louis nasceram. Porém, ela já ansiava por segurar um pequeno fruto do amor de Ted e Victoire, visto que a loira já havia perdido três bebês ao decorrer e antes do casamento.
Ela se jogou nos braços da irmã, logo sentindo seu cabelo encharcar com as lágrimas da mesma. Merlin, aquilo era tudo o que Victoire sempre desejava.
Dominique era uma crente da magia do natal e de toda paz e harmonia que ele trazia consigo. Aquele milagre era uma prova viva disso. Horas depois, todos se reuniram para o tão famoso amigo-secreto, onde James Sirius a fez chorar com um lindo discurso. Ambos haviam se tirado.
— Essa pessoa inspira coragem em todos, e principalmente em mim. A pessoa que eu tirei, nos mostra todos os dias que apesar dos terríveis acontecimentos que surgem em nossas vidas, somos capazes de passar por cima de todos eles. Ela me ensinou o quão raro e belo é apenas o fato de existirmos. Ela possui a coragem das estrelas, e eu a amo por isso. Vem cá, Mini, hoje o seu abraço é meu. – Sirius terminou o discurso, enquanto abria os braços a espera de Dominique.
E aquele havia sido um dos muitos natais na vida de Dominique Weasley. A garota intensa, dissimulada e de bom coração. Ela se lembrava de cada natal com muito carinho e amor. Pensava no quanto o mundo precisava de toda aquela gentileza em meio a tanto caos. Bruxos ou trouxas, ambos ainda viviam no caos e um pouco de amor enchia o coração de qualquer pessoa.
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Biscoitos assando na cozinha. Cartões e laços para todos os lados.
Gélida, memórias de natal flutuam como flocos de neve no ar.
A família ao redor da árvore.
Nós tínhamos uma maneira de fazer manhãs de natal, tão alegres quanto podiam.
Eu fecho meus olhos e vejo rostos reluzentes de todas as crianças que agora têm os próprios filhos.
Engraçado, mas dezembro chega.
E eu me lembro de cada natal que passei.
Avec tout mon coeur,
Dominique Beaux G. Weasley.
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