Fazia meia hora que ensaiava em bater na porta do quarto 509. Enraizado no sofá da sala de espera, ponderava se era realmente uma boa ideia estar ali. As outras visitas foram mais fáceis. Jason seguia os dias inconsciente pela sedação constante para ajudá-lo a se recuperar melhor da cirurgia emergencial. Então, as chances de uma interação social eram nulas. Aparecia mais para dar um suporte emocional para Sue e Beatrice do que para visitar o pai. Contudo, tinha que admitir que a visão de Jason sobre o leito era de se lamentar. A perna direita e ambos os braços haviam fraturado no acidente e os membros suspensos para uma melhor imobilização. Com pinos externos em diversas partes, ele parecia uma personificação bizarra de Hellraiser. Foram trinta dias de procedimentos médicos invasivos até a estabilização do quadro para então o retirarem do coma induzido. Mesmo sem medicações sedativas, Jason demorou para recobrar a consciência, abrindo os olhos há alguns dias antes do Natal. Triss dizia que o humor de Jason estava instável devido às dores e a agonia de estar impossibilitado de realizar os gestos mais simples. Para aliviar os incômodos, os enfermeiros aplicavam analgésicos fortes que lhe causavam sonolência, o fazendo dormir boa parte do tempo. Sendo assim, Valiant preferiu adiar a visita o máximo que pode, devido ao péssimo hábito que tinham de discutirem todo reencontro. Contudo, sabia que um dia teriam de se encarar novamente.

Era véspera de Natal e queria estar trabalhando, não ali atendendo ao desejo pessoal de Jason. Deveria estar feliz pelo pai ter sobrevivido a um acidente tão grave, mas seu interior não reagia à notícia com positividade. Não depois do último e desastroso encontro. Os últimos momentos juntos foram perturbadores e as frases raivosas ainda o incomodavam o suficiente para perder algumas noites de sono. Valiant inspirou profundamente e soltou o ar devagar, criando coragem para seguir adiante ao se levantar. Era agora ou nunca. Ajeitou a jaqueta no corpo e penteou os cabelos rebeldes com os dedos, como se tentar parecer apresentável pudesse resolver algum impasse. Aproximou-se do quarto com o andar mais vagaroso que conseguia, como se desejasse prolongar seus últimos segundos de vida ao caminhar pelo corredor da morte. Deu suaves batidas na porta com os nós dos dedos e entrou. Sue terminava de alimentar Jason com uma sopa cremosa de aroma apetitoso. Quando ambos o encararam os sorrisos sumiram, encerrando de vez o clima harmonioso presente no quarto.

"Feliz Natal." cumprimentou ao fechar a porta atrás de si.

"Feliz Natal, querido."

Sue lhe direcionou o melhor sorriso que podia, mas o mesmo não chegou aos olhos. Talvez fosse pelo estado geral do marido, que apesar de bem, estava completamente dependente de ajuda. Jason recusou as últimas colheradas da sopa sem dizer nada, o observando com atenção como se o filho fosse uma figura mística saída dos livros de fantasia. Sue recolheu a bandeja e a deixou sobre a pequena mesa ao lado da cama hospitalar.

"Se importa de lhe fazer companhia?" Ela se dirigiu ao enteado enquanto colocava a bolsa sobre o ombro. "Ainda não jantei e não sei se o refeitório ainda estará aberto a essa hora."

"Tudo bem. Leve o tempo que precisar."

A mulher lhe sorriu discreto e se despediu do marido com um suave beijo nos cabelos. Valiant achou que ela fosse dizer alguma coisa quando se encararam, mas talvez tivesse sido apenas impressão sua. Assim que os deixou a sós, perdeu alguns segundos observando a porta fechada antes de falar com o pai.

"Muito pertinente. Você a mandou sair?" Recebeu um aceno positivo como resposta.

"Nós precisamos conversar."

A voz de Jason estava tão fraca e rouca que Valiant quase não reconheceu. Era tão acostumado a receber ordens e gritos vindos daquele homem que vê-lo em uma posição vulnerável chegava a ser estranho.

"Precisamos? Não temos boas experiências com isso." Ironizou.

"Vali, você precisa tomar um rumo na sua vida."

O policial se esforçou em parecer sério, mas o filho revirou os olhos, descrente. Não teve nem a oportunidade de perguntar como ele estava, se ainda sentia muitas dores ou se os médicos disseram algo sobre novas cirurgias. Nada parecia importar para Jason que não fosse corrigir o filho rebelde.

"Fala sério! Você quase morreu, Jason! Quer mesmo continuar esse assunto?"

"Você precisa me escutar."

"Não acha que eu já ouvi o suficiente?!"

No mesmo momento em que se irritou com a insistência naquela conversa absurda, Jason engasgou com alguma coisa e passou a tossir forte. Valiant cruzou os braços, julgando inicialmente que fosse apenas drama, mas ao ouvi-lo gemer em dor a cada reflexo do corpo, o ar abandonou os pulmões em um suspiro culposo. Pegou um copo descartável sobre a mesa e o encheu com água, logo se colocando ao lado do pai antes de levar o copo aos lábios ressecados. Jason sorvia o líquido pouco a pouco e conforme a garganta era umedecida, a crise de tosse pareceu acalmar.

"Quer que eu chame a enfermagem?"

"Ainda não." Respirar depois da crise era um sacrifício, pois as costelas fraturadas doíam em demasia. "Essas porcarias de analgésicos me deixam com sono."

"Então vá com calma..." Sugeriu pacientemente.

Jason respirava curto e por algumas vezes segurava o ar no peito devido ao latejar incômodo no corpo. Valiant ficou tentado a ignorar a ordem do pai e chamar a enfermagem, mas um novo pigarro o fez ficar. Não queria estar ausente caso ele tivesse uma nova crise. Não se lembrava de alguma vez ver o pai debilitado, seja por gripe ou uma simples indisposição. Jason sempre se apresentou um homem viril e energético. Presenciar tamanha vulnerabilidade era lamentável.

"Me desculpe... Pelas coisas que eu te falei antes... Naquele dia, você sabe..."

O arrependimento espontâneo o surpreendeu. Foram poucas as vezes que Valiant o ouviu se desculpar por algo, mas nenhuma delas teve um peso tão importante como aquele momento. O pai falou sem jeito, com pausas e em tom baixo, não encarando o próprio filho. Por alguns instantes, não soube o que responder. As sobrancelhas franzidas e a expressão séria mostravam o esforço que ele fizera para dizer aquilo e mesmo assim não conseguia acreditar. Quando Jason procurou seu olhar, percebeu que longos segundos de silêncio haviam se passado, sem que pudesse definir uma resposta

"Vai ser difícil de esquecer…"

Disse a primeira coisa que lhe veio à mente e surpreendeu-se outra vez ao vê-lo concordar hesitante, com um pequeno gesto de cabeça. ‘Bem,’ pensou, ‘se ele quer conversar...’. Continuou:

"Você não gosta das minhas atitudes, não gosta do meu corpo, não gosta do que eu faço… É difícil te agradar, Jason. Eu preciso nascer de novo para que, talvez, as coisas sejam do jeito que você queira."

"Não… Está bom desse jeito." Valiant estalou a língua nos dentes, sarcástico. Jason o ignorou. "Acima de qualquer coisa, você é meu filho e nada pode mudar isso."

"Aparentemente me ter como filho é uma punição pior que o inferno."

Jason o encarou surpreso, mas nada disse. Em outros tempos, o pai até mudaria de cor tamanha raiva antes de começar uma discussão acalorada com direito a xingamentos e empurrões. Aquela submissão era novidade para Valiant.

"Nós dois somos bem parecidos..." comentou Jason instantes depois.

"Todo mundo diz isso..."

"Não estou falando só de aparência física."

O policial pigarreou e Valiant se adiantou em oferecer um pouco mais de água. O simples ato de falar exigia muito do corpo fraco. Por um momento, lembrou das vezes em que o irmão permaneceu hospitalizado. Em respeito àquela fragilidade, Valiant abaixou a guarda, disposto escutar o que ele tinha a dizer. Quanto menos esforço ele fizesse, melhor.

"Quando eu tinha 14 anos, fui baterista de uma banda de garagem chamada Tigers. Eles não gostavam muito de mim porque eu era bem mais novo. Talvez se eu não tivesse insistido para entrar na banda, as coisas fossem diferentes."

Jason falava pausadamente e em um tom baixo, como se a vibração das cordas vocais o incomodasse.

"Diferentes em que sentido?"

A curiosidade era sincera, pois não fazia ideia que o pai era adepto às bandas de garagem.

"Eles eram uma péssima influência. Usavam drogas pesadas para um grupo de colegiais e tinham identidade falsa para fazer muita merda, Vali. E eu sempre os acompanhava. Meu pai e eu discutíamos o tempo todo. Ele odiava meus amigos e nem fazia questão de conhecê-los melhor. Eu ficava muito puto."

"Conheço essa história…"

Jason sorriu de canto e Valiant se viu retribuindo.

"Em pouco tempo, eu comprava brigas gratuitamente, cheirava cocaína como um viciado e vomitava as tripas de tanto beber. Mas no meu último ano de colégio, meu pai teve um infarto fulminante durante a pior briga de nossas vidas."

Jason sempre se mostrou um homem distante e reservado sobre si mesmo e por isso Valiant nunca soube de seu passado até aquele momento. Mesmo com suas diferenças, pode perceber o quanto aquele assunto ainda o afetava quando o silêncio se fez presente outra vez e seu olhar se tornar perdido em qualquer ponto da parede branca.

"Por anos, me culpei pela morte dele. Eu não tive a oportunidade de me despedir, me desculpar ou mesmo dizer que o amava. Mas hoje entendo que se não fosse por isso, talvez nunca me tornasse quem sou hoje."

"Lamento muito..."

Jason encarou o filho em pesar.

"Te contei tudo isso, Vali, porque sempre vi em você um reflexo de mim mesmo. Eu tive medo de você se perder e ser como eu."

Desta vez foi Valiant que se manteve em um silêncio reflexivo. Depois de tantos anos brigando e se agredindo, ter uma conversa civilizada com Jason estava fora da sua zona de conforto, ainda mais com tamanha demonstração de afeto que raramente via partindo dele. Desde o princípio, não queria estar ali e agora parece que a presença do pai se tornou repentinamente insuportável. Levantou da cama e caminhou até a janela, notando a cidade quieta por conta do evento festivo.

"Eu entendo seus motivos, Jason." Falou por fim, sem saber ao certo o que concluir de tudo aquilo. "Mas você poderia ter me dado pelo menos uma chance de provar que estava errado sobre mim."

"Sinto muito ter falhado com você. Eu só estava tentando fazer o que era certo."

"E eu só estava tentando ser um bom filho!"

O clima pacífico se tornou tenso de uma hora para outra. Não conseguia acreditar naquela súbita compreensão da parte do pai depois sucessivas brigas onde ele apontava todos os seus defeitos, como se fosse a pior pessoa do mundo. Agora, depois de uma experiência de quase morte, Jason parecia querer se aproveitar da fragilidade de sua condição para se redimir da culpa de um passado na qual ele não fazia parte. Aos seus olhos, Valiant o via como um grande hipócrita.

"A vida toda eu quis mostrar que podia ser um bom filho. Mas para qualquer coisa que eu dissesse, você conseguiu achar algum defeito para me corrigir. Para cada vitória conquistada com sufoco, pra você não era mais do que minha obrigação. Por muito tempo eu sonhei com o dia que você reconheceria meus méritos, porque assim como você, eu estava tentando fazer o que era certo. Mas tudo o que recebi foi desprezo e palavras ruins.”

Naquele exato instante, pode-se ouvir explosões de fogos de artifício do lado de fora, seguido de algumas gritarias alegres e cães latindo. O relógio do quarto marcava meia-noite do dia 25 de dezembro e as pessoas comemoravam felizes o amor em família. Até mesmo nos corredores era possível ouvir alguns funcionários se cumprimentando de maneira contida para não incomodar os pacientes internados. Todos festejavam a paz, menos eles dois.

A expressão de Jason endureceu e Valiant reconheceu os traços da irritabilidade tão característicos do pai. Toda compreensão amistosa desapareceu no instante em que deu vazão à sinceridade. Percebeu então que aquela conversa nunca teve o intuito de acertarem as diferenças afinal de contas. Jason abriu a boca como se quisesse dizer algo, mas hesitou um pouco antes de suavizar a face carrancuda.

"Você é livre para ser quem quiser ser, Vali. Ninguém pode te impedir de seguir seus sonhos. Você é um bom garoto e eu tenho muito orgulho das suas conquistas, filho."

O rapaz não conteve uma fraca risada sarcástica. Aquilo soava tão ridículo e fora de contexto que teve dificuldade em acreditar nas palavras do pai. Quase o mandou calar a boca, mas se conteve para não gerar uma nova discussão que não daria em nada. No instante seguinte, ouviram suaves batidas na porta antes de Sue retornar do seu breve jantar. Valiant viu a oportunidade de acabar com aquela visita torturante de uma vez.

"Feliz natal, Jason. Melhoras a você."

Deixou o quarto a passos largos, sem se dar o trabalho de esperar uma resposta ou mesmo se despedir de Sue. Não pretendia voltar ali nunca mais. Se arrependeu de ter vindo. Deveria fingir que não tinha pai, como o fez durante o tempo que viveu na Espanha. Não deveria ter insistido em ser aceito por Jason. Não deveria ter voltado para os Estados Unidos. Não deveria ter pedido folga no trabalho, em plena véspera de Natal, para dar uma de filho preocupado com o bem estar do pai ausente. Não deveria... Mas o fez mesmo assim. Sentia raiva de si mesmo por se deixar levar pelas palavras do irmão e acreditar que Jason era uma boa pessoa. Sentia raiva por estar sofrendo as consequências das próprias escolhas que nem sabia estar preparado. Ainda sentia uma profunda mágoa pelas coisas ditas pelo próprio pai dias antes do acidente. Nada importava mais. A relação deles estava destruída desde o princípio e Valiant estava cansado de tentar mudar daquele fato.


~x~

Notas finais
Bom dia, boa tarde ou boa noite pra você que dedicou seus preciosos minutos para ler esse conto inusitado.

Muito obrigada por chegar até as considerações finais dessa humilde escritora. Espero que tenha gostado do conteúdo.

Sinta-se à vontade pra deixar seu comentário, opinião ou críticas. Vou adorar interagir com você.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!