Christabel

2 Capítulo dois – Pacto de Sangue


Notas iniciais
Saindo do forno. Espero que gostem, até daqui a três dias, obrigada.

Depois dos longos minutos respondendo a todos os emails de Amélia perguntando sobre Davi, — meu primo de terceiro grau —, me senti ao todo esgotada. Eu estava em dúvidas também sobre muitas coisas a respeito dele, mas não como ela, querendo saber ao certo a altura, cor dos olhos e sua orientação sexual. Era completamente diferente.

Eu estava com medo de que alguma coisa acontecesse com as pessoas aqui nas quais eu daria o mundo para protegê-las, não conseguia confiar em Davi, apesar de topar em ajudá-lo, eu não poderia esquecer sobre muitas coisas do nosso passado, coisas que eu detesto em lembrar.

Davi quer quebrar a maldição, e eu prometi ajuda-lo, por que fiz isso? Talvez seja pelo amor que sinto por ele e todos os outros 19. Não posso negar. Onde eles estariam? Onde estariam meus outros irmãos e irmãs, saberiam eles que Davi está planejando alguma coisa? – Vou morrer me fazendo todas essas perguntas sem respostas. Agora tenho que pensar em um jeito de me concentrar nisso...

Isso.

Se Davi estava disposto a quebrá-la, então ele achou o que tanto procurou...


— Davi, poderia vir aqui? – o chamei.

O tempo jazia frio e abafado, eu e Davi estávamos em Londres. Era fim de março, um clima um tanto estranho para essa época do ano. Davi e eu havíamos marcado de encontrar Cassiel, porém o mesmo, já estava alguns minutos atrasados.

— Acha que ele vem? – perguntei a Davi ainda me abraçando por causa do frio. Arrependi-me de não ter usado um vestido com mangas compridas, esse não fazia jus a mim, porém, era absolutamente lindo: azul escuro, como o céu em uma noite clara de verão e era sem magas, um tanto cheio, típico, para o século XVIII.

— Christabel, antes de ele chegar, precisamos concordar com algo. – disse Davi se aproximando. Ele tinha os olhos grudados nos meus olhos, seu mesmo corpo humano de sempre estava pálido e doentio. Davi evitava sempre os costumes humanos, como comer e dormir, o que prejudicava seu corpo.

— C-como? – gaguejei pelo frio.

Antes de ele responder, ele tirou seu casaco de camurça preto e o colocou de uma forma gentil sobre os meus ombros.

— Obrigada. – respondi.

— Christabel, o quanto você me ama?

O frio havia passado. Agora o que eu sentia era o peso de uma pergunta, senti como se o mundo tivesse parado e que estávamos de frente para uma plateia de milhões de pessoas, nas quais, aguardavam minha resposta. Eu olhei para minhas mãos, que estavam sobre o casaco, tentando ao máximo prende-lo junto ao meu corpo.

— Sabe que não posso calcular a quantidade... Você é meu irmão o amo semp...

— Então é isso? – interrompeu-me ele – Apenas um simples e maldito amor fraternal?

— Davi entend...

— Francamente... Pensei que sentisse algo por mim, mas do que um maldito amor fraternal!

Senti como se algo quebrasse minhas pernas, Davi estava se declarando de uma forma diferente, não era mais como se eu estivesse falando com meu irmão... Era como se a gente fosse nada mais do que dois desconhecidos.

— Não é o suficiente pra mim. – ele disse depois de uma longa pausa, agora ele estava calmo.

— Davi... Não temos tempo nem ideia de como começar algo assim – eu disse, agora com um tom frio.

— Esquece...

Ele respirou fundo.

— Vamos esperar Cassiel chegar, e terminaremos logo com isso.

Tentei falar mais alguma coisa, mas fui impedida, algo me fez calar a boca o mais rápido possível. Davi estava sendo injusto e egoísta, eu sempre estive do lado dele, desde que caímos. Todavia, não sei se isso pode ser alguma coisa da minha parte. Vir-me-ei e encarei a costa, um navio, lá longe saia. O sol já estava nascendo, fiquei-o observando por alguns segundos, mesmo recém-nascido, ele queimava minha pele. Era estranho estar nesse corpo, ele era diferente dos muitos no qual eu entro. Diferente de Davi, ou de qualquer anjo caído, eu prefiro ser neutra. Depois da queda, meu verdadeiro corpo ficara preso no inferno, Davi fora o único a ficar com o seu verdadeiro, por ter sido, ou ainda é... Um verdadeiro Querubim, não um simples anjo da guarda como eu, por isso, tenho que ficar na maior parte do tempo sobrevoando em um simples borrão branco quase transparente; ele me permite ir aonde eu quiser, sem mais nem menos. Mas uma razão para me perguntar é claro, por que diabos Davi queria algo diferente da nossa amizade? Se nem a mesma pessoa eu sou sempre...

“O amor é mais forte que qualquer coisa”, uma vez um amigo me disse.

Debrucei-me sobre o cais, os cabelos longos e ruivos dessa garota na qual eu havia usurpado caíram sobre a água que estava tão perto da beirada. Por um instante pensei em pular, olhei para o reflexo de novo, depois olhei para minha esquerda. Davi desviou rapidamente os olhos, ele estava debruçado sobre o cais também admirando o nascer do sol, mas não como eu, que estava praticamente deitada sobre a água.

— Já não era sem tempo – ouvir Davi murmurar, pus-me de pé em um instante, e lá estava ele.

Cassiel.

Ele era um anjo da guarda também, assim como eu. Cassiel estava em um corpo humano diferente desde a última vez em que o vi há quase nove meses, o que me fez parecer que ele havia usurpado em um dos guardas da guarda costeira, alto e medonho, tinha os cabelos loiros e um nariz pontudo, era branco, mas tinha a pele queimada do sol.

— Christabel, Davi... – cumprimentou ele.

— Como andas meu irmão? – perguntei ignorando os olhares frios de Davi.

— Vou muito bem, exceto... Bem... Hum... Notaram algo de estranho hoje por volta das três da madrugada? – perguntou ele.

Davi e eu fizemos um sinal de não com a cabeça.

Cassiel limpou a garganta e continuou.

— Nefilins, em toda a parte. Meredith entrou em contato comigo ontem, ela também os presenciou. Se quisermos ser discretos e encontrarmos o medalhão, precisaremos ser rápidos. Pois alguns deles são espertos.

Eu e Davi não respondemos nada, apenas trocamos olhares preocupados.

Nefilins são seres híbridos nascidos da união de humanos e anjos caídos, há muito que não ouvíamos falar sobre um. Pois, depois do dilúvio, eles estariam extintos e Deus deu um ponto final aos demônios tendo relações com seres humanos. Porque os demônios que praticaram tal ato, jogou todos no abismo. É claro que nem todos os demônios estão “presos” hoje, então deve ter existido um grupo de demônios que cometeu um pecado mais grave além do pecado original. Tudo indica que os demônios que se relacionaram com as fêmeas humanas são aqueles que estão em “prisões eternas”. Isso iria prevenir que os outros demônios tentassem repetir tal ato. Mas mesmo assim, essas afirmações são quase tão duvidosas como as de Cassiel e Meredith terem realmente visto algum nefilin.

Cassiel andou até a baía, olhando para o sol que já estava no ápice. Depois de longos e tristes minutos em silêncio eu disse:

— Então, se realmente eles estão aqui... Devemos encontrar a pedra, ou todos nós seremos castigados por Deus.

— Ou, correremos para o lado de Lúcifer – disse Cassiel.

— Nunca, mesmo ele estando em poder de meu corpo, minha verdadeira carne, na qual carrego as minhas assas, nunca – rebati.

— Então, ou Deus nos matará, ou um próprio filho fará isso – disse Davi.

Senti como se o mundo tivesse acabando.

— O que? – perguntei incrédula.

— Além do próprio Deus, um nefilin é a única coisa que pode nos matar. E se eles matarem um de nós, enquanto ainda estivermos ligados uns aos outros, todos nós morreremos. – disse Davi.

— Eu sei. – respondi.

Cassiel disse:

— Sem o medalhão, todos estarão vulneráveis.

— Eu sei. – eu disse novamente.

— Com ele, estaremos a salvo, pelo menos, de uma morte inútil. – disse Cassiel.

— E ao lado de Lúcifer, também. – disse Davi.

O que Davi disse me deixou ainda mais chateada, deixei os dois no cais e sai, depois parei e voltei de novo, tirei o casaco de camurça de Davi dos meus ombros e entreguei a ele, ainda sem olha-lo.

Depois fui embora, e só voltaria ao anoitecer.


Sorrir um tanto sonolenta ao lembrar isso, depois olhei o relógio e já passava da meia noite, deitei-me e adormeci.

Só lembro-me de ter sido arrastada por Amélia durante todo o intervalo do dia seguinte, eu estava exausta. Eu não gostava da escola, as pessoas hoje em dia parecem me estressar muito mais do que antigamente. Depois de mais três horas de aula voltei para casa acabada, cansada de ouvir Amélia falando de Davi, cansada da aula de História repetindo tudo o que eu havia vivido, e mais ainda cansada da aula de Religião, com suas mentiras e fé esfarrapada. E pior ainda, Davi não apareceu hoje na escola.

Foi ai que já em meu quarto, vestindo meu melhor vestido, encarando o espelho, pensando em milhões de desculpas para não ir a festa no lago com Amélia, a campainha tocou. Amélia havia chegado, e eu não havia conseguido bolar nada, nenhuma desculpa...

Desci as escadas correndo quando esbarrei em Derek que estava parado junto a porta.

— Opa, vai com calma! – disse ele.

— Papai, eu já vou indo. Dê um olá a mamãe por mim, e não me esperem! – disse enquanto saia correndo sobre o gramado com Amélia ao meu lado.

— NÃO DEMORE! – gritou Derek na porta.

Eu e Amélia sorrimos. E partimos em direção ao meu inferno particular da noite.

Entramos no Chevrolet Celta preto do Sr. Pankson, pai de Amélia.

— Ainda não acredito que ele emprestou pra você – eu disse me referindo ao carro enquanto colocava o cinto de segurança.

Ela sorriu.

— Fazer o que? Ninguém resiste a minha carinha angelical.

Rimos um pouco mais alto que o de costume e partimos.

A estrada estava fria e escura, muitas das vezes eu olhava pelo canto do olho para Amélia que mantinha os olhos tensos na estrada, ela parecia nervosa, afinal, nunca havia dirigido para essa parte da cidade.

— Quer que eu dirija? – perguntei.

— Não... – respondeu ela ainda com as mãos firmes ao volante e os olhos grudados na estrada.

O resto da viagem foi um tremendo de um silêncio, quando chegamos à festa ela já estava completamente agitada. Varias pessoas se aglomeravam em torno de uma fogueira alta, e muitas outras estavam espalhadas por toda a praia. Eu e Amélia logo nos juntamos a uma turma de veteranos próxima a fogueira.

— Finalmente! – exclamou Jéssica Turner, que estava de braços dados com seu firme namorado Steven Parker. Jéssica era baixa, pálida, magra e com o cabelo colorido, que agora estava com uma mistura diferente de antes, que era roxo. Agora estava amarelado, com um tom alaranjado nas pontas.

— Meu pai meio que demorou a ceder o carro – respondeu Amélia se servindo de um salgadinho de queijo.

Entre o grupo estavam: Joyce Collins, uma garota mais baixa ainda que Jéssica, com os olhos e cabelos castanhos, uma pele bronzeada e Mandy Carter, a mais alta com os cabelos negros com as pontas tingidas em um vermelho sangue, Johnny Mikaelson, um garoto bonito e musculoso e um tanto cabeça mole e abestalhado, o que tinha de músculos tinha de burrice; Steven, namorado de Jéssica, alto e moreno, era sem dúvidas o mais bonito aos meus olhos do grupo e o então, namorado – se é que se pode dizer assim – de Amélia, Edward Nelson, um perfeito idiota.

— Então, vocês sabem me dizer quem está patrocinando a festa? – perguntou Mandy curiosa.

— Acho que o dono da San Diego de novo – respondeu Steven.

— Idiota – murmurou Amélia.

— Bem que ele poderia trazer bebidas descentes, ai, deixa pra lá, então querem dançar? – perguntou Joyce.

— Escutem essa, – começou Edward – tem uma pequena festa logo depois, no outro lado do lago e pensei que a gente poderia...

— Fala sério. – disse Jéssica o ignorando.

— Então, Sophie e Amélia? – perguntou ele para a gente depois que todos do grupo haviam negado ir.

— Não. – eu disse.

— Eu vou – disse Amélia rapidamente pondo seu copo de plástico em cima da mesa ao lado e pegando Edward pelo braço.

—Améli...

Eu tentei chamar, mas já era tarde, ela havia corrido com Edward até um barco e logo que tentei ir atrás eles começaram a se afastar.

— Os deixem, vão acabar voltando – disse Johnny pegando meu braço.

Logo recuei e voltei para o grupo.

— ... então eles falavam de tirar mais do que queriam, não entendi – tagarelava Mandy gesticulando.

— Não acho necessário, deveria deixar crescer mais...

— Quem é aquela?

— Não faço ideia, odiei a maratona. Vocês viram?

Deixei com que a conversa do grupo se tornasse apenas um som de fundo, junto com toda a barulheira da festa. Depois de longos minutos tendo que aturar a todos, minha atenção não saia do outro lado do lago, onde estaria Amélia? Voltei a encarar a fogueira. Eu olhava a cada cinco segundos para a margem com intuito de encontrar Amélia.

Nada.

— Vou buscar ela – anunciei.

— Eles devem está ocupados, Sophie... Não vai querer atrapalhar não é? – disse Jéssica.

Joyce sorriu.

— Não importa, não confio em Edward, já deixei isso claro a todos desde a sétima série.

Sai quase correndo, empurrando várias pessoas a minha volta. Ignorei completamente o fato de que vários garotos estavam assoviando enquanto eu passava.

“Gostei, é a Sophie gente?”

“é sim”

“Quem viu quem vê”

— Com licença, como chego do outro lado? – perguntei ainda olhando para um homem que estava encarando o lago.

— Como é? – ele virou.

— Está me seguindo? – perguntei.

Davi sorriu alto e voltou a dizer:

— Não é a única coisa bela aqui na festa, Christabel.

— Sophie – corrigi olhando para os dois lados para ter certeza de que ninguém ouvira.

— Sophie? – ele sorriu agora mais alto.

— Encontrou o medalhão, não foi? – eu disse agora cruzando os braços e o encarando.

— Como sabe? – ele perguntou.

– Palpite.

— Não viria aqui sem ele, a propósito, preciso de um favor.

— O que? – perguntei.

— Quero seu sangue. Uma gota, só uma gota – ele disse.

— Ta de brincadeira...

— Chris... Sophie, só uma gota. Nada mais – ele disse.

— Para que, posso saber?

Agora nos encarávamos como antes.

— Tenho que ter certeza que não vai abandonar de novo – ele disse.

Senti como se algo me puxasse para baixo. Ele não acreditava em mim.

— Não vou embora.

— Então não terá problema em fazer o pacto.

— Pactos de sangue são inquebráveis e imperdoáveis, eu não posso me dar ao luxo de correr o risco com ele. – eu disse agora com raiva.

— Ou você o faz, ou eu pego a força. – ele disse.

— Não! – retorquir.

— Sou mais forte e mais rápido – ele disse.

— Não! – voltei a gritar.

Agora eu havia esquecido Amélia e Edward, eu havia esquecido a festa e meus pais. Só estava pensando em mim e Davi. Naquele instante. E em como eu seria mandada ao abismo se quebrasse o pacto, eu não quebraria, mas ele é imperdoável, e se algo de ruim acontecesse e a tentativa de quebrar a maldição falhasse, eu seria a culpada, e eu seria castigada a uma eternidade.

— As coisas mudaram, amor. Agora sou eu quem faz as regras. – ele disse.

— Não pode me obrigar! – eu disse.

— Liza e Derek? Seus... Pais? – ele disse pensativo.

— Eu já concordei em ajuda-lo! O que quer mais?

— Saber que não estragar a coisas para mim dessa vez, Christabel.

— Tudo bem – eu disse depois de um tempo.

— Ótimo – ele disse erguendo a mão para que eu a segurasse.

Assenti com a cabeça, desviando seus olhares frios e dei minha mão a ele, ele com um anel preto e reluzente no polegar, ele feriu a palma de minha mão. Não senti nada. Nunca sentia nada, quando caia e me machucava, ou me queimava na panela quente, ou quando tive que limpar o ácido do laboratório de química no sétimo ano e acabei deixando em carne viva meus dedos. Não sentia nenhuma sequer dor física. Por mais forte que fosse. Mas essa doeu absurdamente por dentro.

— Obrigado, nos vemos ao amanhecer, irei encontrá-la, deixe a janela aberta. – ele piscou e sumiu.

Eu estava de novo sozinha.

Encarei minha mão cortada. Um corte fino, mas ainda sangrava muito, uma lágrima caiu de meus olhos, as limpei torcendo que ninguém as tivesse visto e saí para o lago.

Notas finais
:)