Chosen: A Ascensão

15 Vazia e Incompleta


Tiro o fone e jogo o tablet na parede instantaneamente, quebrando alguma coisa no fundo do almoxarifado. Anthony Graymane não tem filhos. Ele nem sequer teve relacionamentos relevantes, e nunca casou. Seu compromisso era com a Ordem e com a Ordem somente. Levanto e começo a caminhar em círculos. Eu o ouvi dizer, eu vi seus lábios se movendo, formando aquelas palavras, e ainda assim, não é possível. Já perguntei se Anthony tinha filhos tantas vezes, mas tantas vezes, que o próprio Conselheiro conseguiu perder a calma comigo. Ele me assegurou que nunca teve filhos, nunca casou e nunca se relacionou com nenhuma mulher que valesse meu tempo. E agora cá estamos, lidando com as confusões da sua prole. Passo as mãos pelos cabelos, tentando assimilar as coisas. Se Anthony mentiu sobre isso, o quanto do que ele me falou é verdade?

Por um instante, perdi controle dos meus pensamentos e achei que fosse ter outro acesso de raiva. Saí correndo da sala, indo em direção ao Alojamento A. Eu vou falar com esse Sebastian, e vou falar agora. Minha vontade era apenas desabar no chão e gritar, não com algo específico, mas com tudo que vem acontecendo. As mentiras, as traições, as brigas. Já estou cansada de algo que mal começou. Pensei que tivesse controle absoluto sobre minhas emoções, mas não tenho. Sou completamente incontrolável, para ser sincera. Não sou capaz de lidar comigo mesma, o que, de certa forma, me assusta. Se nem eu consigo me controlar, quem vai conseguir? Pensando mais um pouco nesses assuntos, me ocorre que eu não sei absolutamente nada. Nem sobre mim, nem sobre os outros. Mas não é como se eu simplesmente não soubesse, é como se eu um dia tivesse sabido, porém agora tivesse esquecido. Sinto as informações borbulharem dentro de alguma parte da minha mente que não consigo alcançar. E o mais interessante: eu nunca liguei de estar no escuro. Pelo menos não até agora. Nunca tinha parado para pensar quem sou, de onde vim e quem realmente são essas pessoas a minha volta. Sou como uma biblioteca cheia de livros para aquele que não sabe ler. Minha cabeça está cheia de informações que não posso usar. Posso vislumbrar as imagens dos livros, porém sem jamais compreender suas histórias por completo. Sou incompleta. Sou chuva sem nuvem, mar sem água, caderno sem folha. Sou uma garota vazia querendo ser preenchida pela verdade escondida ao meu redor. Sebastian vai ajudar a me preencher.

Entro no Alojamento A pela cafeteria lotada e vejo Alex sentado com Elijay numa mesa próxima, conversando casualmente. Não sabia que os dois se conheciam. Alexander voltou ao normal. A longa cabeleira loura deu lugar a um corte bem feito e consideravelmente mais curto. Seus cabelos dourados estão agora perfeitamente arrumados, sem nem um único fio fora do lugar. A barba está feita e as roupas passadas. Trocou seu estilo a La Califórnia por algo bem mais... Clássico. Um visual composto por vestimentas caríssimas. A camisa, muito provavelmente, é Dior, sua marca favorita. Alex, com todos os seus relógios Cartier e sapatos de bico fino lustrosos, é o cara que poderia se adaptar a uma vida num palácio ou qualquer coisa do tipo. Ele parece ter saído diretamente de um conto de fadas. O jeito de falar, vestir... Bem, ainda bem que ele não é um príncipe de verdade, porque eu ouvi dizer que os príncipes deveriam ser fiéis as princesas... Elijay, por outro lado, parece estar se entretendo bastante com a companhia de Alex. Eles parecem compartilhar o mesmo gosto por artigos de grife, entretanto, James tem um péssimo senso de moda.

Tento me esquivar da mesa deles, o que não foi lá muito difícil. A atenção de todos parecia estar voltada para uma figura alta caminhando graciosamente por entre as mesas. Sebastian aparenta ser o tipo de cara que chama mais atenção que Jared. Não há uma única mulher nesse salão que não tenha dado ao menos uma olhada de canto para ele. Sebastian senta-se à mesa mais isolada da cafeteria. Ele não parecia querer evitar os olhares, acho que queria apenas algum tempo para processar tudo que está acontecendo. De certa forma, nem eu consigo explicar o tamanho da minha vontade de ficar encarando-o pelo resto do dia. Não é só a beleza, alguma coisa sobre esse cara me impede de tirar os olhos dele. Observo-o de longe por um tempo. Inquieto e agitado, Sebastian sofre em silêncio na mesa. Não sei o que se passa em sua cabeça, mas gostaria de descobrir. Também não sei que tipo de informação espero conseguir com um garoto que nunca vi antes, um desconhecido que muito provavelmente nunca ouviu falar de mim. Bem, pelo menos eu nunca ouvi falar dele porque Anthony mentiu.

Depois de certo tempo analisando-o de longe, acho que ele percebeu que estava olhando. Sebastian olha para baixo e sorri sozinho. Não um sorriso debochado ou irônico, mas um sorriso pequeno e verdadeiro. Vejo-o olhar diretamente na minha direção, quase como se me encarasse e tivesse certeza de quem eu era e por que estava ali. Aproximo-me lentamente da mesa dele, sem saber ao certo o que perguntar primeiro. Ele indica uma das cadeiras à sua frente com a cabeça. Sento-me, preparada para um verdadeiro interrogatório. Agora tão perto, posso notar detalhes que não tinha notado antes. Ele tem o pomo-de-adão bastante aparente. Suas sobrancelhas, a mandíbula quadrada, o nariz reto e proporcional, as covinhas nas bochechas... Todas essas coisas me fazem lembrar de Anthony. Sebastian tem uma pequena e quase imperceptível cicatriz no lábio superior, perto do corte que já tinha visto antes. Quando tira os óculos escuros e me encara, sinto aquela impressão de conhecê-lo voltar. Seus olhos têm um tom de azul que eu nunca havia visto antes, muito escuro e, ao mesmo tempo, brilhante. Seu olho esquerdo está um pouco inchado, como se tivesse levado um soco recentemente. Ele se ajeita na cadeira e apoia os cotovelos na beirada da mesa, iniciando nossa conversa.

– Quinn Fabrey... – Diz ele, num tom calmo. Sua voz é grossa e sedutora. – A que devo a honra?

– Como você sabe quem sou? – Pergunto, surpresa. Ele sorri, mas não responde.

– Vamos pular essa pergunta, ok? Eu sei quem você é, mas você não sabe quem eu sou.

– Sei, sim.

– Sabe? – Pergunta Sebastian, perplexo.

– Sei. Sebastian... Graymane, eu suponho. – Falo. Ele concorda com a cabeça.

– É, Graymane, infelizmente. Anthony falou de mim para você? – Sebastian franze as sobrancelhas, não acreditando.

– Ahm... Não exatamente. É uma longa história e eu esperava que você a explicasse para mim. – Ele ri ironicamente. – Eu vi tudo que aconteceu na pista de pouso e sei que te proibiram de falar comigo sobre algum assunto.

– Tem tanta coisa que você não sabe, Quinn. Eu queria poder te explicar tudo, mas... – Interrompo-o.

– Deixe-me adivinhar: mas não pode.

– Escute, eu vou lhe contar tudo, só não aqui e agora. As condições não são favoráveis. Eu vou falar tudo aquilo que eles não tiveram coragem de te falar, nem que seja a última coisa que eu faça, mas... – Sebastian simplesmente para de falar. Ele acompanha algo com os olhos. Sua expressão mudou da calma para a raiva em questão de segundos. Viro-me para descobrir o que ele encarava com tanto rancor.

Vejo Jared Henning se aproximar da nossa mesa, sorrindo. Seu rosto está estranhamente menos inchado do que há alguns minutos atrás. Antes mesmo que ele pudesse se aproximar mais, eu e Sebastian já havíamos levantado. Aparentemente compartilhamos o mesmo ódio por Henning agora. Jared chega mais perto, balançando a cabeça em negação.

– Não, não, não, Sammy. O que está fazendo? – Pergunta ele, em deboche.

– Não estou com paciência para isso agora, Henning. – Diz Sebastian, demonstrando a repulsa que sente por Jared.

– Por que voltou, Sebastian? Você deveria ter ficado naquela maldita ilha, onde é o seu lugar... – Fala Jared, claramente provocando-o.

– Típico... – Sebastian revira os olhos. – Tive que ir para aquela ilha por sua culpa, Henning! Seis anos, Jared. SEIS ANOS! Tudo isso para que limpasse a sua barra. Veja o quão bem isso saiu para todos nós... – Do que eles estão falando?

– Olhe o que fala, Sebastian. Não queremos que Quinn entenda as coisas da forma errada.

– Ela não está entendendo nada, nós dois sabemos disso. Mas essa foi somente uma das consequências das merdas que você fez. E você nem liga. – Diz Sebastian, num tom acusatório.

– Eu fiz o que tinha de ser feito. – Revida Jared.

– Você é um desgraçado, sabia? Como consegue olhar para ela e não se sentir culpado? Abraçá-la e fingir que se importa? Eu deveria contar para Quinn o porco que você é. – Sebastian cospe as palavras. Ele está muito irritado. Henning, por outro lado, parece estar se divertindo com essa discussão. O restante da cafeteria já pareceu perceber onde isso vai levar.

– Eu sabia que você diria isso, Graymane. Somos amigos, você é o forasteiro. – Fala Jared.

– São amigos porque ela não sabe a verdade! – Grita Sebastian.

– Mas você tente contar para Quinn! Só tente! – Jared aponta para Sebastian, gritando também. As coisas estão esquentando. Admito que adoraria assistir Henning apanhar de novo. – Tente contar e eu juro por Deus que será a última coisa que você fará nessa vida. Não está tão corajoso sem uma pistola, certo?

– Escute o que está dizendo, Henning. Você nunca conseguiu me parar e não vai ser agora que vai conseguir. Se quer tentar acabar comigo – Sebastian abre os braços, “se oferecendo”. – venha me pegar...

Jared vai para cima de Sebastian, acertando seu rosto. Ele ri ironicamente. A atenção de todos se voltou para os dois. Henning tenta acertá-lo novamente, mas não consegue. Sebastian é mais ágil e habilidoso. Não demora muito tempo para que ele canse de brincar com Jared e acerte um soco no seu rosto. Observo Henning arquear, o sangue escorrendo de um corte no lábio. Jared está sendo massacrado por Sebastian. Ambos gritam coisas um para o outro, distribuindo xingamentos e passando a culpa de alguma coisa adiante. Não entendo nada do que está acontecendo, mas também não impeço a briga. Henning merece tudo que está recebendo. Ele ainda teve a audácia de achar que somos amigos... Para falar a verdade, acho que Jared só disse isso para provocar Sebastian. Não demora muito para Alex e Elijay aparecerem, separando a briga. Logo, os quatro acabam discutindo.

– Ah, olha só quem está aqui... – Diz Jared. Seu rosto está ensanguentado e completamente inchado novamente. – Alex, meu amigo. Quanto tempo, não? A última vez que te vi você estava se pegando com... Como era mesmo o nome dela? Jessica, não era? – Fala Henning, provocando. Ele realmente quer brigar. Alex é educado demais para responder na mesma moeda, então apenas fica cabisbaixo. Jessica era a garota com quem ele me traiu.

Enquanto isso, Elijay estava tendo alguns problemas para manter Sebastian afastado de Jared.

– Me largue! – Gritava Sebastian para James. — Vão se ferrar, todos você! – Vejo Sebastian discretamente cochichar algo para Elijay, que concorda. Graymane ajeita as roupas e deixa a cafeteria sem falar mais nada.

– Vocês são impossíveis... – Falo, baixinho. Aproximo-me de Jared, pronta para mais uma discussão. — Sério, Henning? Depois de tudo isso, você ainda acha que somos amigos? – Pergunto.

– Nós um dia já fomos, Quinn. Um dia... – Diz ele, sorrindo. Jared abandona nossa discussão e vai embora. Alex e Elijay se aproximam de mim.

– Nos vemos hoje a noite? – Pergunta Alex. Eu não quero me encontrar com ele, mas vou mesmo assim, então balanço a cabeça em concordância, deixando-o satisfeito.

Elijay espera Alex ir embora para falar o que Sebastian havia dito. James conta que ele está no quarto ao lado do meu e que eu deveria passar lá, caso quisesse informações, porque ele está disposto a contar tudo que sabe. FINALMENTE! Alguém que realmente quer me contar que diabos está acontecendo por aqui. Agora, só preciso reunir Sebastian, Lana e Anthony na mesma sala e fazê-los contar tudo. Sei que isso provavelmente não vai acontecer em nenhum momento, não sou ingênua a esse ponto. Estou cansada de ser vazia e incompleta. Quero ser preenchida. Quero ser completa. Só preciso de respostas, só isso.

Notas finais
Espero que estejam gostando da história. Se estiverem (ou não) deixem um comentário. Não esqueçam de favoritar a história também.