Chosen: A Ascensão
16 Delírios
As horas se arrastavam. Não importava o que eu fizesse, tudo parecia... desacelerado. Em certo momento, perdi a noção de tempo e espaço, minha mente divagava. Fiquei louca com a sensação de que aqui não é onde eu realmente queria estar, apesar de não saber explicar em que lugar eu gostaria de ficar. Satisfazer minha curiosidade e desejo pela verdade parecia um anseio perdido nas minhas memórias distantes e inalcançáveis. Depois da calmaria, veio a raiva. Raiva de tudo e todos. Raiva das mentiras e das verdades. Raiva por me importar demais e por não me importar o suficiente. Por diversas vezes, eu só quis visitar Sebastian e pedir que ele não me poupasse de nada. Em seguida, eu só quis deitar na minha cama e não sair nunca mais. Seria a bipolaridade um dos estágios dos meus delírios?
Fiquei deitada o dia todo. Pouco me importava que estávamos em pé de guerra, que Anthony quase arrombou minha porta hoje cedo, que Lana gritou comigo através das frestas da fechadura e que Elijay ameaçou invadir meu quarto pela sacada. Pouco me importava que as respostas que eu tanto procurava estavam na porta ao lado, esperando para serem descobertas. De nada adiantava dizer que eu também não ligava para o fato de eu querer deixar Alex sozinho hoje a noite. Eu estava tendo uma crise existencial? Talvez. Minhas teorias conspiratórias e pensamentos aleatórios sempre se provaram muito esclarecedores. Eu sabia que se olhasse fundo nos olhos das pessoas eu veria. Oh, eles têm contado mentiras, e como têm. Corações tão frios quanto o meu, se importando consigo mesmos somente. Eu deveria ficar longe deles, mas é inevitável. Pensamentos doentios e perturbados fazem parte de nós. Fazem parte de mim. O que me lembra: eu ainda não contei a ninguém sobre as mortes em Heraklion. Duvido que não saibam. Pensar que já matei e mataria de novo não me incomoda. Não sou uma assassina, sou uma sobrevivente. Faço o que preciso. Matar é preciso, sempre foi.
Quê diabos eu estou pensando? Meu Deus, alguma coisa está muito errada comigo. Posso ser estranha, doentia e muito perturbada, mas meus propósitos nesse instante são os mesmos que os do restante da humanidade. Quero descobrir quem sou, porque até o presente momento, eu não faço ideia. Antes, ficar sozinha era um problema. Hoje, minha solidão é força. Simplesmente sei que eu devo estar soando como uma psicopata. O tipo de pessoa que tortura filhotinhos por diversão.
Mas quem é Quinn Fabrey, afinal? Seria ela uma guerreira pronta para enfrentar qualquer desafio? Ou seria ela a garota que deveria estar internada num hospício? Quem sou eu? Seria eu aquela que evitará uma guerra? Ou seria eu aquela que a causará? Rolar entre as cobertas não me trará as respostas. Encarar a imensidão azul do dossel da minha cama não fará com que eu descubra quem sou, apenas me deixará mais confusa. Especialmente se eu pensar no que sei.
O que eu sei? Sei meu nome. No momento, essa é umas das únicas certezas que tenho. Meus pais. Quem são, de onde vieram e por que eu não me lembro deles? A missão. De todas as pessoas habilidosas e cheias de talento que a Ordem já treinou, por que fui eu a escolhida? Quer dizer, eu tenho ótimas habilidades, minhas estratégias são impecáveis e me adapto a qualquer situação. Mas por que eu? Por que é tão importante esconder a verdade de mim? São só palavras. De qualquer jeito, o passado não pode ser alterado. Não importa o que eles me digam, uma hora ou outra, a verdade será revelada. Segredos deixarão de ser segredos, e as mentiras serão descobertas. Além da morte, existe apenas uma outra coisa nesse mundo que não pode ser contida ou evitada, e essa coisa é a verdade.
Ah, que raiva. Jogada na cama, continuo a pensar. Não consigo encarar os fatos ainda. Afinal, não há quase nenhum fato para ser encarado. Estou tensa, nervosa. Não consigo relaxar. Para falar a verdade, tudo que consigo pensar no momento é quão bagunçados meus pensamentos estão. Fico relembrando as coisas que tenho certeza de que são verdade, e tudo isso me faz concluir que só posso ter alguma perturbação muito grande. Eu me lembro de odiar coisas e de odiar pessoas. Eu me lembro de matar coisas e de matar pessoas. Eu me lembro de destruir coisas e de destruir pessoas. Me lembro de vencer às custas de outros. Me lembro de ignorar os sentimentos alheios. Me lembro de dizer coisas ruins. Eu podia fazer uma lista com as coisas que lembrei que tenho certeza, e dela nada bom sairia. Mas por que eu me sinto tão bem fazendo essas coisa sádicas?
Oh, Deus. Eu me sinto meio... tonta. Sei lá, não estou falando coisa com coisa. Nada faz sentido. Vivemos num país livre, certo? Tenho o direito de falar besteiras. Mas espera aí, esse é o lema da América, não da Grécia. Mesmo assim, não acho que sejamos livres. Eu não posso fazer nada do que eu realmente quero. Se para nós da BS já é ruim, só imagino para o pessoal da Bowden. Digamos que eles têm uma sistema bem... Interessante. A Ordem é regida por um Conselho constituído por cinco dos mais prestigiados membros. Na Bowden as coisas são decididas de forma bem arbitrária. Essa organização é “governada” por uma sistema que se assemelha a uma monarquia. Famílias são as regentes, e esse poder é hereditário e pode ser passado adiante para aquele que for escolhido por um "governante". Tudo começou com a família Bowden, a fundadora. Por centenas de anos, foram eles que comandaram essa Ordem. Porém, há aproximadamente 50 anos atrás, o último herdeiro da Bowden, Charles, foi morto por membros de uma família francesa, os Louisigan, que vêm regem essa Ordem desde então.
Durante minhas aulas na Academia, aprendemos que o sistema da Bowden é rígido. No entanto, por mais que os Louisigan estejam no poder há bastante tempo, dizem que há aqueles cuja lealdade ainda está com a família fundadora. Dizem que eles esperam por um novo herdeiro e que os Louisigan trapacearam seu domínio, já que Charles não passou seu poder adiante, ele foi assassinado por Marc Louisigan, um dos seus protegidos. Porém, Charles pretendia entregar o comando da Ordem para o italiano Claudio Bellucci, seu mais confiável companheiro. Hoje a Bowden está nas mãos dos gêmeos Louisigan, Louis e Louise. Entretanto, por mais que não haja descendentes Bowden, há descendentes Bellucci, e eles podem vir a brigar com os gêmeos pelo controle da Ordem. Diversos conflitos ocorreram no decorrer dos anos em virtude da constante busca dos humanos por poder. Somos obcecados por ele, todos nós. Não há como negar, o poder nos faz fazer coisas estranhas e maldosas. Mas por que eu estava lembrando disso mesmo? Ah, liberdade, certo. Bem, os regentes da Bowden são extremamente autoritários e eles não têm muita liberdade quanto ao que fazer ou treinar. O que me lembra: eu deveria estar frequentando os treinos da Academia, mas não estou. Na verdade, a Academia é a menor e a mais insignificante das minhas preocupações no momento, por isso nem vale a pena incluí-la na minha crise existencial de hoje.
Olho para o relógio na minha cabeceira: 6:20. Alex mandou uma mensagem mais cedo dizendo que eu deveria aparecer para o nosso “encontro” por volta das oito. Céus, como eu queria poder evitá-lo. A pior parte disso tudo é que sou obrigada a aturá-lo. Pior que isso, na verdade, é que ele não tem feito nada além de tentar me agradar nos últimos dias, o que faria uma pessoa normal se sentir culpada por odiá-lo. Mas eu não sou uma pessoa normal, sou? Por isso eu ainda quero estapeá-lo toda vez que ele aparece. Alex está me irritando, e muito. Quão difícil pode ser para ele compreender que não voltaremos nunca mais? Não só por ele ter me traído e por eu odiá-lo por isso, mas também porque não tenho tempo para isso no momento. Relacionamentos são coisas que requerem tempo e atenção, e se eu tiver que dar meu tempo e atenção para algo, que seja para mim mesma. Não quero/posso me envolver com garotos agora.
Levanto da cama um pouco tonta e abro as portas de vidro que dão para a sacada. Uma agradável brisa bagunça meus cabelos. O sol já está se pondo, dando lugar a uma majestosa lua cheia. Mais um dia se passou e eu ainda não sei o que fazer. Em quem posso confiar? Mesmo que Sebastian me conte o que sabe, como posso ter certeza de que ele não está me enchendo de mentiras? Como Anthony espera que eu queira falar com ele depois das coisas que ele omitiu? Há quanto tempo Jared esteve escondendo sua verdadeira personalidade de mim? Eventos recentes estão me fazendo questionar até a lealdade de Lana. Ela trabalha com Anthony, mas levou a câmera escondida para a pista de pouso mesmo assim... Quem é esse Luke que todos tanto falam e por que ele é tão importante na Bowden, se os Louisigan estão no poder?
Droga, eu me sinto como uma marionete que pode ser controlada por todo mundo. Basta uma pequena encenação para que você possa puxar as minhas cordinhas. E todo esse tempo eu achando que manipulava as pessoas... Parece que todos gritam comigo sem falar nada, sempre me criticando. Anthony principalmente. Fui treinada para obedecer, mas o que acontece se eu não quiser mais ser o que se espera que eu seja? Eu achava que governada essa Ordem, que fazia o que eu queria e que ninguém podia me impedir. Eu costumava apreciar a sensação de sentir o medo nos olhos dos meus adversários n’O Covil, invencível. Agora, por alguma razão, eu me acho completamente “vencível”. Cansada disso tudo, vou para dentro e abafo meus gritos agonizantes com um travesseiro. Tiro as roupas que vestia e entro no banho, esperando que a água quente, mais uma vez, lave meus problemas. Mas ela não faz isso. A única coisa que pode acabar com totalmente com as minhas aflições é a morte, mas isso traria satisfação demais para gente que eu quero ver sofrer. Sem contar que eu sou exageradamente incrível para morrer, o mundo precisa da minha grandeza.
Ao sair do banho, coloco um short jeans, All Star e uma blusa qualquer. Minha saída com Alex não merece nada melhor que isso. Seco meu cabelo lentamente, como se o mundo tivesse parado para esperar que eu o fizesse. Vou até o espelho e , de forma ainda mais lenta, passo uma fina e quase imperceptível camada de rímel nos cílios. Depois de amarrar e desamarrar meus tênis umas dez vezes, resolvo que é a hora de encarar o que quer que seja a ideia de “encontro” de Alex.
Dirijo-me para a garagem da Ordem, para o nosso “jardim secreto”. Caminho muito devagar, quase como se o meu pequeno atraso fosse capaz de fazer Alex desistir de mim e do que preparou para hoje. Mas isso não acontece. Chego, no mínimo, meia hora atrasada – e de propósito. O jardim está exatamente igual a última vez em que estivemos aqui. Bancos de metal se espalham por entre grandes árvores e arbustos verdes. O cheiro de terra molhada misturada com o perfume de algumas flores causa uma boa sensação. A pouca luminosidade me faz demorar um tempo para localizar Alex, mas assim que o faço, minha sensação boa se esvai da mesma forma tão rápida chegou. Ele está num canto, perto das minhas flores favoritas – lírios brancos. Sentado numa pequena mesa improvisada e iluminada à luz de velas. Alex está usando roupas bem formais, como sempre. Seus cabelos dourados estão perfeitamente arrumados e seus sapatos bem lustrosos. Ao me aproximar dele, um pequeno sorriso se esboça em seus lábios, revelando dentes muito brancos. Sinto seus olhos brilhantes em mim, analisando-me, fazendo com que eu me arrependa instantaneamente de ter vindo com as pernas de fora. Sua camisa azul realça a cor dos seus olhos. Noto que ele está usando uma fragrância conhecida de perfume... Um tanto incomum para ele. Espera... É o perfume que Jared usa, exatamente o mesmo. Tenho certeza disso, já havia comentado diversas vezes o quanto gostava desse cheiro. Em seu colo vejo um violão velho e surrado. Ah, não. Se já não bastassem todos os delírios que tive hoje, lá vem Alexander Blackthorne com um violão antigo e algumas músicas românticas para mexer mais ainda com o meu emocional. Sobre a mesa, comida italiana, também a minha favorita. Por que eu não fiquei no meu quarto? Por que eu não fui interrogar Sebastian? Por que eu não fiz qualquer outra coisa? Oh Deus, onde isso vai levar? Em que encrenca em me meti? Será que eu não posso sair correndo? Não, chega! Quinn Fabrey não sai correndo, não importa quão ruim a situação seja. Vou enfrentar isso aqui com dignidade, afinal, qual a pior coisa que pode acontecer?
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