Chosen: A Ascensão
24 A Proposta
Daniel foi amarrado a uma cadeira. A essa altura, o garoto já está tremendo de medo. É impossível que ele realmente seja um Bowden. Todos eles foram mortos há muito tempo. Os Louisigan se asseguraram disso. Mesmo que, por algum milagre, ele seja quem alega ser, o que estaria fazendo aqui? Não faz sentido. Essa história soa muito estranha.
– Qual é seu nome?! – Grita Sebastian, tentando arrancar mais informações do garoto.
– Eu já lhe disse, é Daniel Bowden! – Responde ele, choroso.
– Sebastian, isso não está ajudando. – Falo.
Aproximo-me dele, encarando seus olhos castanhos. Pego uma das cadeiras encostadas na parede de pedra do castelo e arrasto-a para perto de Daniel. Sento a sua frente, ainda encarando.
– Danny, meu nome é Quinn. – Com a minha voz mais doce e sedutora, tento persuadi-lo a falar. – Conte-me, o que um Bowden faz aqui?
Sua expressão começa a mudar. Não me vendo como uma ameaça, Daniel para de tremer e começa a gaguejar, tentando formular uma resposta. De relance, vejo Sebastian revirar os olhos.
– Eu... Eu... Ahm, os Lousigan. Estou fugindo deles. Aqueles gêmeos... Eles são terríveis. – Responde ele.
– Que gêmeos, Danny? – Pergunto.
– Os gêmeos Louisigan, Louis e Louise. Eles são os herdeiros da Bowden. Devem ter uns vinte anos. São terríveis, os dois. Eles sabem que eu existo, e querem me matar. Sabem que se eu for até a Bowden e provar quem sou, eles podem perder o poder.
– Ah, pobrezinho... – Digo, com um olhar de pena. – Perdoe a indelicadeza, querido, mas como você está vivo?
– Quando os Louisigan vieram atrás da minha família, eles não sabiam que havia uma parte dela que não tinha envolvimento com a Ordem. Desde então, fomos obrigados a viver nas sombras, sempre com medo de sermos descobertos. Por fim, tudo isso foi em vão. Três meses atrás, quando os gêmeos assumiram a Bowden, eles retomaram a busca pela família Bowden, e foi aí que nos encontraram. – Os olhos de Daniel começaram a se encher de lágrimas, conforme ele avançava na história. – Eles mataram meus pais, meus irmãos e toda a nossa família. Eu não estava em casa quando atacaram, por isso consegui fugir. Desde então, venho me escondendo. Não fico mais do que alguns dias em cada lugar.
– Por que aqui? Digo, somos da BS. Como sabia desse castelo? – Pergunto.
– A Bowden tem informação sobre tudo de vocês. Sabemos seus esconderijos, seus códigos, absolutamente tudo. Não há onde se esconder. Se você pensar bem, não faria sentido para um Bowden se esconder na BS. Por isso eles não procurariam por mim aqui. – Responde ele, enquanto se recompõe. — Os arquivos diziam que ninguém usava esse castelo há muito tempo, e como era escondido, resolvi vir pra cá por uns dias. Trouxe provisões e tudo. Pretendia me esconder aqui.
– Nisso você tem razão, mas o que te faz pensar que estaria seguro aqui? Nós poderíamos muito bem te matar agora...
– Eu tenho informações. Sei como aquela Ordem funciona, dediquei minha vida inteira a aprender isso. Tenho um acordo, e sei que vocês são muito mais honráveis que a minha Ordem. Quero negociar. – Propõe Daniel.
– Prossiga...
– Vocês não querem os Louisigan no poder. Eles são maus e a única coisa com a qual eles realmente se importam é dinheiro. Eu sei sobre os fragmentos, e sei o que eles pretendem fazer com eles. Tenho muitas informações privilegiadas sobre a Bowden, sei como ela funciona. Eu passei a minha vida inteira me preparando para o dia em que eu tomaria aquela Ordem e restauraria a honra que os Louisigan destruíram. Mas não posso fazer isso sozinho. Vocês querem impedir que coisas ruins aconteçam, e eu quero vingança. Ajudo vocês a derrotarem os Louisigan e, em troca, vocês me deixam viver para assumir a Bowden. Estaria seguindo as instruções de vocês, faria como vocês quisessem. Todas as informações, tudo que sei, a sua disposição. Se eu assumisse a Bowden, aceitaria um acordo de paz, como vocês muitas vezes tentaram, mas os Louisigan recusaram. Poderíamos viver em paz.
É uma proposta interessante, mas não sei se vale a pena. O quanto esse garoto realmente sabe? Não teríamos como ter certeza que ele não está aqui como informante, ou que ele só quer nos matar. Um tratado de paz com a Bowden ia ser muito bom, mas isso é viável? Daniel tem a motivação certa, e até um cego seria capaz de enxergar que sozinho ele não vai a nenhum lugar.
Sebastian e Anthony estiveram calados esse tempo todo. Viro o corpo e olho para eles, impassíveis. Calculando as possibilidades.
– Danny, você nos daria um momento para discutir a proposta? – Pergunto. Ele não está em posição para fazer demandas ou negar, mas devo fazê-lo pensar que somos boas pessoas.
– Claro. – Diz ele, sorrindo timidamente.
Nós três saímos da sala e voltamos para o corredor. Fechamos a porta atrás de nós e consideramos as nossas opções. Sebastian é o primeiro a se pronunciar, sem nem considerar muito.
– Absolutamente não. Vocês não podem realmente estar considerando uma aliança com aquele cara...
– É uma proposta tentadora. – Diz Anthony. – Além do mais, que mal ele poderá fazer?
– Foi isso que eu pensei, aquele garoto não tem condições de fazer nada contra nós. – Falo.
– Vocês não podem estar falando sério! – diz Sebastian. – Eu consigo reconhecer um mentiroso quando vejo um, e acreditem, ele não pode ser confiado.
– E você acha que nós não sabemos? – Digo, num tom acusatório.
– Claramente não, se estão querendo aceitar essa “proposta”. – Responde Sebastian. Reviro os olhos.
– Devíamos falar com o resto do grupo. – Sugere Anthony.
– Isso seria ainda pior... – Diz Sebastian.
– Digamos que ele realmente seja quem diz ser, e saiba o que diz que sabe. Isso seria uma vantagem enorme. Vamos concordar com isso. Podemos mantê-lo monitorado, ver como ele se comporta. No pior dos casos, ele não nos diz nada de útil e o entregamos aos Louisigan. Na melhor das hipóteses, ele é realmente útil e, quando isso tudo acabar, assinamos um tratado de paz com a Bowden. Não saímos perdendo em nenhum dos casos. – Digo.
– Ok, vamos supor que aceitemos isso. O que vamos falar para todo mundo? Que temos um Bowden conosco e que ele agora é nosso protegido? – Pergunta Sebastian.
– Exatamente. – Respondo.
– Ah, vocês não podem estar falando sério... – Reclama Sebastian.
– Acho que devíamos aceitar. – Repito. – Anthony, você decide...
– Vamos aceitar. – Diz ele.
Sebastian fica furioso, mas não contesta a decisão de Anthony, apenas fica resmungando para si mesmo. Quando voltamos para a sala e o Coselheiro vai falar com Daniel, aproximo-me de Sebastian e sussurro um comentário maldoso em seu ouvido:
– Relaxe, nós sempre podemos cortar um dedo por cada mentira descoberta.
Sebastian esboça um leve sorriso e responde:
– Ele tem vários dedos, alguns a menos não fariam diferença. Consigo pensar em várias coisas para cortar que ele sentiria muito mais falta...
Rimos ao pensar nessa possibilidade. Sebastian é tão perverso quanto eu...
Anthony continuou discutindo possibilidades com Daniel, e Sebastian se aproximou deles subitamente e perguntou:
– Se você estava se escondendo aqui em cima, por que fazia tanto barulho?
Daniel o encara, o olhar de ameaçado retorna.
– Bem, eu estava aqui há apenas algumas horas quando vi vocês chegarem. Eu tenho muita alergia a poeira, então fui obrigado a limpar o lugar. Não podia arriscar sair daqui e ser visto. Já que vocês também estavam chegando, poderiam pensar que era um dos seus e ignorariam. E depois, eu tentei bloquear a porta com aquela estante. – Daniel, que já estava com as mãos livres novamente, graças a Anthony, apontou para uma grande estante de madeira ao lado da porta. – Acho que vocês já perceberam porque conseguiram entrar aqui. Tentei ser o mais silencioso possível, mas infelizmente não sou um cara muito furtivo.
Sebastian não acreditou em nada que saiu da boca de Daniel. Ele está desconfiado e acho que ele não vai tirar os olhos dele nem por um instante sequer.
Anthony planejou com Daniel o que farão: ele deverá ficar escondido aqui até a hora de irmos para Los Angeles. Na viagem, caso alguém questione a presença dele, diremos que ele era o encarregado de cuidar do castelo e não podíamos deixá-lo lá, caso a Bowden viesse procurar por nós. Depois explicaremos para alguns quem ele é e o que está fazendo ali. Sebastian, Alex e Elijay ficarão encarregados de vigia-lo. Por enquanto, vamos mantê-lo, mas caso ele não seja útil, vamos entregá-lo aos Louisigan.
Reabastecemos as provisões de Daniel e deixamos a sala. Anthony volta para a outra parte do castelo, e ajudará a organizar as pessoas. Eu não tenho a menor vontade de encarar a galera da BS, então vou para o andar de baixo e sento no mesmo banco em que eu e Sebastian estávamos no dia em que soube do incêndio. Ele também não quis voltar, então ficamos sentados no banco de madeira de frente para a janela de vidro, encarando a paisagem da montanha.
– Não confio naquele cara. A história toda parece suspeita.
– Ele só parece... Assustado, eu acho.
– Ele gostou de você, foi legal com ele. — Disse Sebastian, ao me encarar.
– Você ficou com ciúme? — Pergunto. Ele sorri, mas não responde.
Depois de mais um tempo em silêncio, resolvo mudar o assunto.
– Aquilo tudo era verdade, não era? – Pergunto. – As coisas que você me contou...
Sebastian balança a cabeça em concordância.
– Eu não queria ter jogado toda aquela informação em você desse jeito. Na hora pareceu que eu jamais teria outra oportunidade.
– Conte mais. – Encaro-o. A urgência e a curiosidade visível nos meus olhos.
– O que você quer saber? – Pergunta ele. Seus olhos azuis cravados nos meus.
– Detalhes. Coisas que eu jamais me lembrarei.
Noto que ele tem uma pequena mania: olhar para baixo e sorrir. É algo encantador, na verdade. Ele o faz quando peço os detalhes. Analisando Sebastian novamente, chego a conclusão de que ele deve ter aquela pequena cicatriz no lábio apenas para provar sua existência. Uma pequena falha que o separa da perfeição. “Ninguém é perfeito”, eles dizem. Bem, aquela cicatriz era o que o tornava alguém.
– Você me chamava de Sam. – Diz ele, nostálgico.
– Sam? Sam não é o apelido de Sebastian...
– Exatamente. Tínhamos uns sete anos quando você resolveu que ia me chamar assim. Você disse que Sebastian era muito longo e que queria me chamar de Sam. Ninguém nunca entendeu.
Sorrio ao pensar sobre isso. Uma Quinn Fabrey pequenina ao lado de um mini Sebastian discutindo sobre um apelido sem sentido. Algo trivial que eu jamais saberia. Meu sorriso se desfaz ao lembrar desse detalhe. Ao lembrar que existem milhares de pequenas coisas como essa que eu jamais saberei. Sinto um aperto no coração, o estômago revirar e a dor de cabeça voltar. Quero me lembrar. Quero as histórias importantes, as felizes, as tristes. Quero os pequenos detalhes. Coisas triviais.
– O que mais? – Pergunto, tentando satisfazer meu desejo por lembranças.
– Minha mãe gostava mais de você do que de mim. – Disse ele, rindo.
– Você sente falta dela?
– Bastante. Ela era... Bem, uma ótima pessoa. Anthony era rígido demais, ocupado demais.
– Como eram os meus pais?
– Incríveis. Seu pai era um gênio, sério. É uma pena que isso tudo tenha acontecido. Ele tinha como contribuir muito com o mundo. E sua mãe era tão ocupada quanto meu pai. Todas as missões importantes eram designadas a ela. Liz era bem habilidosa. E, bem, era tão bonita quanto você.
Sebastian olha diretamente para mim ao dizer isso, como se quisesse ver a minha reação quando ele me provoca. Tento conter o sorriso, mas não consigo. Estamos próximos, bem próximos, mas essa distância não me incomoda. Estou sentada com os pés sobre o banco, e Sebastian na beirada, à minha frente. Consigo analisar seu rosto de perto, tento decifrá-lo, entender sua história, e por isso pergunto:
– Como era o exílio?
Com essa pergunta, o sorriso de Sebastian se esvai. Seu rosto se fecha, e toda a intimidade que parecíamos ter dois segundos atrás vai embora tão rapidamente quanto chegou. Uma raiva incontrolável e talvez até medo do passado toma conta dele. Acho que peguei pesado na pergunta. Devia ter continuado falando de outras coisas. Não queria irritá-lo. Queria que continuássemos aqui por horas, conversando sobre coisas boas. Queria mais trivialidades. Saber coisas minhas, coisas dele, coisas nossas, talvez. Saber dos meus pais, dos seus pais e de tudo que eu não sei.
Sebastian diz que precisa arrumar umas coisas, levanta subitamente e vai embora sem mais delongas. Sozinha no banco gelado, percebo que não devia ter feito essa pergunta.
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