Choque de Tempo
23 Capítulo 23 - Dois corações por um.
A manhã seguinte na casa da árvore começou agitada e bem cedo.
Challenger, Malone e John saíram cedo, antes mesmo das 7 horas, seguindo para o moinho de vento. Havia muito para se fazer e, para Challenger, quanto antes conseguissem finalizar a tal invenção melhor; até porque que não era apenas uma simples invenção, mas sim uma possível medida de segurança para todos eles.
Verônica, como de costume, saiu cedo para colher frutas frescas e caminhar um pouco. Os acontecimentos dos últimos dias a estavam deixando fora de si, nervosa e estressada, além de ter que, por hora, se preocupar em ajudar Marguerite com o Oroboros. Mesmo que a morena fosse para a aldeia Zanga, que estes a guiariam, Verônica ainda tinha que aprender mais sobre o medalhão e sobre o próprio Tryon; ela estava receosa que algo desse errado, porque se acontecesse não saberia se podia ser consertado.
Marguerite e William haviam levantado por volta das 7:30, estavam tomando café, ambos quietos.
William com seus receios sobre a jornada, principalmente depois da experiência do dia anterior, do tiranossaurus rex, mas também entusiasmado por dentro, pois queria muito conhecer essa nova cultura para ele, os Zangas, esperava poder trocar muitas informações.
Marguerite, por sua vez, já não sentia mais dores, estava bem, porém não queria naquele momento falar com ninguém, estava apenas se deliciando com o sabor do seu café e agradecia por William estar tão perdido em seus pensamentos que nem sequer lhe falou nada e os demais já terem saído, além, é claro, do fato de ter acordado tão cedo, isso contribuia para seu mau humor.
Após o café, Marguerite deixou em cima da mesa um bilhete breve, apenas informando que haviam partido para a aldeia Zanga e sem mais delongas.
O trajeto foi tranquilo, sem nenhum imprevisto. William observava a paisagem ao seu redor; ainda que com feras, sua opinião sobre aquele ser um lugar fascinante não se alterava. Marguerite ia ao seu lado, guiando o caminho e atenta; sabia que William não tinha experiência e John não estaria por perto dessa vez para ajudá-la se algo acontecesse (embora procurasse não pensar nessa última circunstância, pois não queria John por perto, não queria mais nada dele, nada que viesse dele, nem sequer deveria estar pensando nele).
Antes do horário do almoço chegaram na aldeia Zanga. Assai, como sempre amiga dos exploradores e cordial, os recebeu. Foi de grande surpresa, até mesmo para Marguerite, quando viu William conversar com a garota em seu próprio dialeto Zanga, o que mostrou para os demais da aldeia, os que lhe cercavam ainda com receios, que William era amigo.
Assai os guiava para as suas cabanas; ficavam lado a lado, mas separadas, até porque, para a garota, Marguerite deveria estar noiva de John, pois ele esteve há um tempo pedindo ajuda a ela e ao Xamã para cravejarem os diamantes em uma aliança. Além disso, haviam os costumes do lugar: não era era permitido, para os Zangas, indivíduos de sexos diferentes compartilharem o mesmo local de dormir se não fossem casados, os Deuses poderiam se zangar.
Na cabana em que Marguerite fora alojada as mulheres conversavam, mas Assai não pôde deixar de reparar um corte profundo na mão de Marguerite, uma cicatriz que ela não se lembrava de ter visto antes.
A — Marguerite, e como estão todos? Faz um tempo que já não vou a casa da árvore lhes visitar, mas o Xamã me falou que no estado em que estou é perigoso.
Marguerite parou imediatamente tudo o que estava fazendo e encarou a garota, que tinha as mãos na barriga e um sorriso largo e iluminado no rosto.
M — Está grávida, Assai? E não nos contou?! Verônica iria adorar saber disso! Desculpe, eu nem sequer havia reparado em sua barriga que já está se mostrando.
A — Estou sim, Marguerite, poucas luas ainda, descobri recentemente e por enquanto não pretendo sair assim. Tive muitas dores de cabeça, fiquei um pouco abatida, por isso estou evitando me esforçar.
M — Assai, você tem que me contar o que faz para dores de cabeça porque as minhas nesses últimos dias parece que vão me matar de tanta dor.
A — Hahaha claro que depois lhe conto o que faço para resolver esse seu problema. A menos que você já esteja planejando dar um herdeiro para o John.
M — NÃO! NÃO E DEFINITIVAMENTE NÃO. Desculpe, Assai, mas não estou e nem planejo ter um herdeiro com John, aliás, nenhum herdeiro e nenhum futuro. Imagino que saiba bem do nosso envolvimento; pois bem, rompemos tudo, se Lord John Roxton não pode confiar em mim, na minha palavra, então não será digno e merecedor de meu amor por ele. Posso assegurar que minhas dores não são nada mais do que nervoso, estou com os nervos a flor da pele, aconteceram tantas coisas, coisas que creio que você precisa saber e que talvez só o seu Xamã possa me ajudar.
As duas mulheres ainda passaram um bom tempo conversando. Marguerite contou sobre todo o ocorrido dos últimos dias, da experiência de Challenger, sobre William e quem ele era, do plano que ela e Verônica tinham, dos medalhões e, claro, quanto as discussões, sobre ela e John e a rivalidade entre os irmãos. Porém, procurou só o essencial de cada coisa.
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No moinho de vento os três homens trabalhavam arduamente a manhã toda embaixo do sol.
Challenger e Malone conversavam normalmente, a nova invenção estava entusiasmando ambos e antes que percebessem já estavam fazendo a trilha para a casa da árvore, pontuando as outras demais árvores que seriam escolhidas e qual o caminho mais seguro. Já o caçador fazia todo o trabalho quieto, o que falava era apenas para perguntar algo ou pedir desculpas; naquela manhã ele estava extremamente desastrado, havia derrubado os pontos, que seriam tochas de madeira, o fio já havia dado nó umas duas ou três vezes e ainda tinha errado a mira quando um raptor esteve por perto do moinho — é bem verdade que ele nem tinha ouvido o animal chegar.
Tanto o cientista quanto o jornalista suspeitavam o que estava fazendo John ficar daquele jeito. Nunca sequer tinham-no visto assim, mas sabiam que se tinha algo, ou melhor, alguém que lhe tirava a concentração, esse alguém era Marguerite, era essa a resposta para John estar agindo de tal maneira.
Próximo ao horário do almoço, os três exploradores fizeram uma pausa para se alimentarem, tomarem um pouco de água e descansarem um pouco na sombra de alguma árvore próxima.
O caçador estava mais afastado, sentado, com os pensamentos tão dispersos que não viu a aproximação do amigo cientista.
C — John, meu velho, o que está acontecendo com você? Não tocou na comida, não bebeu e, por Deus, també não percebeu eu chegando.
J — Desculpe, Challenger. Eu não me sinto bem hoje, não dormi o suficiente talvez. Não sei nem o que te falar. A não ser me desculpar.
Challenger se aproxima mais do caçador, ficando a sua frente, agora podendo ver melhor o rosto carregado dele: estava com olheiras e não eram olheiras de apenas uma noite mal dormida, mas sim de várias noites, o que o deixou preocupado. Ele havia percebido como o caçador andava distraído, não comia e parece que nem dormia; certamente estava sofrendo por amor, por seus atos, se culpando por tudo o que tinha feito a Marguerite e, claro, pela separação deles; estava sofrendo pelo desprezo, pela negação e por estar sendo ignorado por ela. Challenger sentou-se ao lado do caçador, que até estranhou a atitude do homem mais velho pela qual não esperava.
C — John, você sabe que agindo desse modo não vai levá-lo a nada, não sabe, meu amigo?! Principalmente trazê-la de volta. Eu não gosto de me intrometer na relação de vocês, nem nas suas vidas privadas, mas é a sua saúde, John, e o seu desempenho. Falhas como essas de hoje podem ser fatais. Quando Marguerite voltar precisará de você. Na verdade, creio que só irão vocês três. Alguém precisa protegê-la e do modo como está, como vem agindo, tenho dúvidas se será capaz.
J — Challenger, eu nunca me senti assim, está me consumindo. Estar tão perto dela e não poder nem sequer falar, ou mesmo que eu tente ela irá me ignorar como se eu não estivesse lá, como se eu não existisse. Minha nossa, George, tem ideia disso? Eu sinto como se fosse enlouquecer. A noites não durmo, não me alimento bem e não consigo pensar em caçar ou qualquer outra coisa que não seja Marguerite. E pior: William; ele está ganhando espaço, está passando mais tempo e ficando mais perto de Marguerite. E se... Se ela, de repente, gostar? Eu não sei, George, não sei mais o que pensar.
C — John, meu amigo, eu não sei nem de perto pelo que está passando, nunca pude ter tal experiência; ainda que eu ame minha esposa, não é segredo para ninguém que nunca senti ciúme e nem nunca fiz tais loucuras que vocês jovens fazem. Mas se quer um conselho, deixe-a livre. Ela o ama e vai voltar. O tempo é o melhor remédio. Porém, não faça como fez ontem mais cedo, tratando-a como se tivesse o direito de lhe dar ordens, aceitando as provocações de Marguerite. Só irá perdê-la com isso.
J — Eu agi mal não foi, George?
C — O que está feito, está feito. Não estou aqui para julgar ninguém. Só reflita sobre seus atos para que num futuro os erros não se repitam. É a melhor medida para acertarmos um erro. Bem, vamos, ainda tem muito a se fazer. Coma algo, eu e Malone aproveitamos para desembaraçar os fios.
Assim, ambos levantam-se e, como combinado, cada um volta para suas obrigações.
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Verônica, na casa da árvore, procurava por qualquer informação que tivesse à respeito do Oroboros ou mesmo sobre o Tryon. Estava em sua quarto, havia pilhas e pilhas de livros, diários, tudo que lhe pudesse fornecer algo a respeito. Ela sabia que Marguerite com certeza teria mais sucesso e bem poderia tê-los acompanhado, mas neste momento o que ela mais queria era desfrutar da paz que sentia, sem brigas, sem trocas de ofensas, sem nada do tipo. Assim também poderia organizar suas idéias sobre assumir algo com Malone; ela estava feliz, o relacionamento dos dois estava na melhor fase pela qual já haviam passado. O jornalista após sua jornada havia mudado muito, o que fez a garota da selva admirá-lo em diversos pontos, essa mudança havia lhe feito muito bem. Estava realmente querendo assumir o relacionamento deles e sabia que Malone também queria, porém, aquele não era o momento certo. Talvez depois que eles levassem William embora teriam tempo para pensar nisso.
E ainda haviam Marguerite e John; ela estava ciente de como os amigos estavam. Marguerite se mostrava sempre indiferente, às vezes era impossível decifra-la, mas a garota da selva sabia muito bem que não era bem isso. Já o caçador era quem estava lhe preocupando, estava abatido e o pior é que seu estado estava refletindo em suas atitudes — logo iria refletir em sua saúde e isso não era definitivamente nada bom. Mas ela mantinha a esperança de que, em breve, os dois conseguiriam se acertar. Talvez com a ajuda dos outros, e dela mesma, que com certeza não hesitariam em fazer algo para que, senão voltassem a ficar juntos, pelo menos recuperassem um bom relacionamento.
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Na aldeia Zanga, Marguerite já se dirigia para a cabana do Xamã. Foi pedido para que William, por hora, a aguardasse do lado de fora. O Xamã iria, sim, instruí-la a usar de forma correta o Oroboros, mas haviam assuntos que cabiam apenas aos dois.
A herdeira encontrava-se sentada na frente do Xamã agora, o qual tinha ao seu lado sua esposa. Ela era, além da parteira da aldeia, também considerada uma feiticeira, dotada de grandes conhecimentos místicos. Ambos tinham estudos voltados para esses tipos de conhecimentos e em se tratando de algo tão forte como o Oroboros, optaram por conversar juntos com Marguerite.
A esposa do Xamã se chamava Luna, pois esta usava de seus conhecimentos para fazer a contagem das luas e predeterminar quando os bebês da aldeia nasceriam.
L — Minha filha, sabemos que está aqui por causa desse medalhão que tens em mãos. É, de fato, um poder e uma responsabilidade muito grandes para aquele que o tiver posse. Você está disposta a assumir isso? Porque, uma vez disposta, será para a sua vida toda, para as próximas e para as suas descendências que estão por vir.
Marguerite se viu obrigada a parar, respirar e pensar. Sim, seria arriscar-se demais, porém, na sua vida nada mais tinha a perder, já havia perdido tudo que havia um dia conseguiu, estava ainda se sentindo dilacerada por dentro. As descendências que estavam por vir, bem, não existiriam, uma vez que se conseguisse sair do platô ela teria que sumir outra vez e o homem a quem havia confiado o amor e a vida jogou tudo pelos ares por conta de seu egoísmo maldito. Sobre suas próximas vidas, ela nem sabia ao certo a respeito dessa, quem dirá das que estavam por vir. Sim, ela iria arriscar. O Oroboros, além de ser a saída daquele lugar esquecido por Deus, poderia livra-la de muitos problemas de volta a sociedade e de, certa forma, o poder de se teletransportar dava uma segurança.
M — Sim, estou disposta a arriscar. Não tenho nada a perder e, ao contrário, creio que possa é ganhar com o controle desde medalhão.
L — Ótimo. Então, eu e o Xamã iremos lhe ensinar tudo sobre ele e seu domínio também. Mas tem algo que deve saber: o Oroboros só funcionará de forma correta quando as duas partes forem uma só e assim deve ser o coração de quem o detiver. E o seu, minha querida, está em vários pedaços, está ferido, além de estar dividido por dois outros corações. Dois corações por um. Vejo que um é do homem que lhe aguarda lá fora e o outro é do homem que sempre está por aqui entre nossos guerreiros. Dois homens do mesmo sangue, dispostos a dar a vida deles pela sua. Minha querida, você entende que isso não irá impedi-la de usar este medalhão, mas que poderá haver falhas? E que, acima de tudo, tem que curar este ferimento e ver que não pode estar dividida. Só um deles será aquele que estará reservado a passar todos os dias de sua vida ao seu lado, que irá lhe trazer segurança para as descendências e que ainda vão se encontrar nas demais vidas.
M — Eu vou ficar bem. Sempre fico bem. Sei me cuidar sozinha e nunca precisei de nenhum deles, e não vai ser agora que irei precisar. Não os quero, nem um e nem o outro. Ora, um deles nem daqui é e o outro, ele que é o responsável por tudo isso. Não os quero. Só quero aprender como esse medalhão funciona, o botão de ligar e desligar, e o resto eu me viro. Só isso.
Tanto Luna, como o Xamã, observaram a reação da mulher; sabiam que ela estava irritada daquele jeito porque havia ouvido a verdade. Logo veio a recusa, Marguerite não queria que ninguém soubesse o que estava se passando em seu íntimo, ainda mais em se tratando de estar dividida; ela preferiu afastar qualquer pensamento assim e se ocupar em como consertar os últimos acontecimentos, apenas isso, não queria e nem se permitia pensar em algo mais.
X — Pois bem, sua escolha foi feita e você também já está avisada dos riscos, mas se acha que pode arcar com tais consequências, lhe ensinaremos tudo o que sabemos. Será preciso que fique aqui durante o dia de hoje inteiro, seu amigo logo será chamado também, pois ele precisa entender o motivo de sua vinda e de sua partida, além de ser importante que ele mantenha o autocontrole, uma vez que é a morte que irá encontrar.
Marguerite entregou o medalhão para o casal a sua frente que, antes de mais nada, o purificou, tirando qualquer mal que as mãos da humanidade, ao tocá-lo e usá-lo, nele tivesse inserido.
Então, fizeram a purificação também em Marguerite; foi determinado que apenas a Luna seria permitido tal ritual. Também foi lhe dado uma bebida que era uma mistura de ervas que os Zangas acreditavam que era sagrada, permitia-lhe ver além do que era mostrado — e para decifrar todos os segredos do Oroboros, só alguém que saberia ver além. Também foi determinado que para seu aprendizado suas vestes não eram dignas, além de estarem impuras, pois vinham de um lugar diferente daquele em que vivam. Portanto, Marguerite foi coberta de tecidos aveludados em tom de verde, pois essa também era uma cor que os Zangas consideravam ser influente, representava a natureza e a pureza.
Após os rituais terminarem, o casal depositou o medalhão em uma almofada marrom, porque estava ligada à terra e é para a terra que todo ser humano há de voltar, além de que um dos símbolos do medalhão era a morte.
X — Marguerite, encerrados os rituais, vou lhe ensinar sua lenda, a lenda que nós Zangas conhecemos. Mas você tem conhecimento que em meio a tantos povos a lenda muda, os ensinamentos podem ser outros; mas ainda que viaje, o medalhão sempre volta para o verdadeiro dono.
L — O Oroboros, minha querida, é um artefato místico que traz um desenho de uma serpente, uma cobra ou um dragão engolinho a própria cauda formando um círculo. Isso simboliza o ciclo da vida, a eternidade, a mudança, o tempo, a evolução, a fecundação, o nascimento, a morte, a ressurreição, a criação, a destruição, a renovação. Nós Zangas acreditamos ser uma ligação entre nós seres humanos e as divindades, deuses passados e presentes. Também, reza a lenda, ser o Oroboros tão antigo quanto as duas forças do universo, o bem e o mal, que quem o detiver não pode ser ferido enquanto o tiver em suas mãos. Às vezes, para quem o usa pode servir também como um olhar para si, como forma de evoluir seu espírito. Talvez ainda existam coisas dentro de você que precisam ser evoluídas, dons que precisam ser dispertos, sua alma ser purificada, muitas coisas para serem modificadas. E em tudo isso esse medalhão irá te ajudar. Claro, se assim você permitir; se não o fizer, ele apenas atenderá o seu pedido. Não existe uma forma ou quantia certa de pedidos, apenas que ele seja feito com fé. Não basta querer, você tem que acreditar no Oroboros, na sua lenda, no seu poder e saber o que você quer. Se, por um discuido, enquanto estiver fazendo seu pedido seu pensamento se desviar por qualquer motivo, o resultado pode ser desastroso e pior ainda se você não estiver se sentindo bem durante uma viagem, pode se perder em tempo e espaço.
Marguerite prestava atenção em cada palavra, sabia que eram valiosas, essenciais e não poderiam lhe faltar quando fosse usá-lo; estava tentando gravá-las mentalmente, cada uma.
L — Por último, o que poucos sabem é que o medalhão pode sim se partir novamente desde que seja em um ato de amor verdadeiro e de confiança. Isso só acontecerá se você quiser e se, acima de tudo, confiar plenamente na outra pessoa. É raro, mas pode acontecer. Porém, tome muito cuidado com quem irá dividir se caso isso acontecer.
Após toda a explicação, o Xamã levantou-se, fez um risco com tinta na testa de Marguerite e um outro risco no medalhão, conectando um ao outro; agora estavam ligados e, a não ser que ela quisesse, não podiam se separar.
X — Marguerite, você e o medalhão agora se tornam um. É sua responsabilidade e dever cuidar para que este poder não caia em mãos de pessoas que sejam injustas, que não tenham honra. Cuide deste medalhão como sua própria vida, só o divida em caso de vida ou morte. Precisa manter-se viva para dele cuidar, além de que só você pode passá-lo para as próximas descendências, e para isso precisa estar viva.
L — Isso mesmo, minha querida. Ainda que negue o amor, que negue seus sentimentos, e não estou lhe tirando a razão, o seu destino ainda está incerto, muitas coisas estão por vir. Agora peço que, por favor, se retire durante alguns minutos, enquanto vou purificar suas vestes. E também meu homem precisa conversar com seu amigo. Logo a chamarei e conversarei com vocês dois juntos, instruindo-os.
Marguerite estava sem palavras. Estava sentindo o poder ainda do ritual, agora podia sentir o Oroboros como uma parte de si mesma. Se retirou da tenda e logo William entrou.
Estava apenas o Xamã esperando. Por uma outra brecha Luna havia se retirado para purificar as roupas de Marguerite, enquanto esta estava sentada esperando que fosse chamada novamente.
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No caminho de volta para a casa da árvore, os homens já pregavam os pontos de energia e também já passavam o fio; seria por meio destes fios que passaria a corrente de energia a qual era fornecida pelo moinho. Havia três caixas de energia elétrica no moinho; uma era a responsável por toda a energia da casa e cerca elétrica e as outras duas ficavam ligadas às trilhas.
Os exploradores haviam escolhido dois caminhos, os mais seguros e mais rápidos entre a casa da árvore e o moinho.
A primeira trilha já estava praticamente finalizada, ainda voltariam nos próximos dias para acertar alguns detalhes como a distância de um ponto para o outro. Claro que durante todo esse trabalho as caixas de energia da trilha tinham que permanecer desligadas, evitando que acontecesse algum acidente, pois a potência de um choque daquele era capaz de matar.
Próximo à casa da árvore os exploradores decidiram iniciar os trabalhos da próxima trilha, aproveitando ainda a claridade do dia. Malone e John pregavam os pontos, enquanto Challenger passava os fios. O cientista havia deixado o caçador responsável por certificar-se de desligar as caixas elétricas e, como este havia lhe confirmado que tudo estava como havia pedido e até mesmo por tudo ter ocorrido como planejado na primeira trilha, nada poderia acontecer na segunda também. Porém, ao conectar o fio da cerca elétrica para o primeiro ponto, Challenger sentiu-se como que grudar no fio, seu corpo todo estremecer, o ar lhe faltar, seu batimento cardíaco acelerar e como se seu coração fosse sair pela boca, ele estava sendo eletrocutado. A caixa de energia elétrica da segunda trilha não havia sido desligada por falta de atenção de John e agora o cientista estava pagando por isso.
O caçador e o jornalista viam a cena com tamanho terror nos olhos. John mal conseguia reagir, sabia que se um deles tocasse no amigo a corrente elétrica seria dividida e mais de um deles seria eletrocutado. Malone, agindo por impulso e por lembrar que parte da energia vinha também da cerca elétrica, atirou nesta, cortando, assim, parte da energia, o suficiente para Challenger soltar-se do fio; porém, já inconsciente e passando muito mal. Verônica também ouviu o tiro e logo desceu para o socorro do amigo.
V — O que houve com Challenger?
N — Não há tempo de explicar, temos que subir com ele agora.
V — Vamos, claro. Rápido! Peguem ele, vocês dois. John, está me ouvindo?
J — Minha culpa. FOI MINHA CULPA!!!!
O caçador sabia que ele tinha sido o responsável por tal acontecimento; ele tinha que ter verificado se as caixas estavam desligadas e o fez, mas sua falta de atenção o havia traído e agora seu melhor amigo estava entre a vida e a morte. Mais uma culpa, mais uma falha. Ele não podia permitir isso, permitir machucar mais um de seus companheiros. John parecia enlouquecer, abandonou tudo e saiu correndo entre as árvores, sumindo da vista dos amigos; chorava de vergonha, de culpa, de remorso, do que ele havia se tornado. Não reconhecia mais a si próprio e a dor lhe tomava conta; não era uma dor física, mas sim uma dor que não poderia ser medida.
Malone tentou chamá-lo e até pensou ir atrás dele, não era certo sair por aí sozinho no estado em que estava, poderia cometer uma loucura o ser pego por um predador ou selvagens. Porém, Verônica o deteve, conhecia um pouco do caçador e, de certa maneira, ele precisava disso, tinha que passar um tempo sozinho.
V — Não, Ned. Deixe o John ir, ele vai voltar, só precisa de um tempo para si. Precisamos cuidar do Challenger antes que seja tarde.
N — Mas, Verônica, e se ele fizer uma besteira? E se for pego por algum selvagem ou predador?
V — Ned, John já é grande o suficiente. O que me preocupa não são os predadores ou selvagens, mas ele mesmo. Também temo que faça alguma loucura, algo que não quero nem pensar, mas Challenger precisa de nós agora.
N — Está certa. Vamos, eu levo ele, te ajudo a cuidar dele.
No andar de cima, Malone o deitou em sua cama conferindo se estava respirando, embora o choque houvesse sido forte, sim, ele estava respirando, mas ainda continuava inconsciente, sua pulsação acelerada e estava tão branco quanto uma folha de seus diários. Nem ele e nem Verônica tinham ideia do que deveria ser feito, mas fariam de tudo para trazer o amigo de volta.
V — Ned, e se fizermos massagens, não pode ajudar?
N — Eu não sei, Verônica, nunca lidei com pessoas eletrocutadas. Acredito que possa ajudar. Porém, Challenger está respirando; fraco, mas está. Acho que algo que pode ajudar é deitarmos ele de lado, em posição lateral por segurança. Você o segura pela frente, mantenha o pescoço dele reto, a cabeça levemente inclinada para cima, e eu irei fazer a massagem pelas costas para ver se ele volta. Preciso que o segure firme, farei com um pouco de força, não muita, mas o necessário.
V — Certo. Espero que isso ajude.
N — Eu também.
Malone iniciou a sequência de massagens, fez bem mais de uma sequência, pelo menos 3 ou 4 vezes, e somente na última o cientista brevemente acordou. Tossia, mas a respiração ajudou a baixar a adrelina, o ritmo acelerado dos batimentos e a pulsação. Contudo, logo ele ficou inconsciente novamente e parecia que não ia acordar tão cedo; entrou em estado de coma.
N — Challenger? Reaja. Vamos...
V — Ned, chega. Não vai adiantar, ele está em coma.
N — E vamos fazer o que? Não, Verônica, ele tem que voltar.
V — Eu não sei. Mas ele está melhor, está tudo normalizando, Ned. Porém o choque foi grande. Vamos esperar um pouco, ficar monitorando para que nada aconteça e se ele piorar ou não acordar, um de nós vai buscar o Xamã Zanga.
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Já estava anoitecendo, os últimos raios de sol daquele dia já estavam se despedindo; William e o Xamã conversavam sobre sua vinda para o platô, sobre sua estadia e o porquê deveria ir embora. O homem loiro, atento não só às palavras, mas aos modos do Xamã, à sua cabana, seus diversos frascos com líquidos, geleias e insetos, era uma cabana grande, reservada apenas para o Xamã, para seus ingredientes e; o chão era coberto de várias almofadas, panos de vários tecidos (que também estavam pendurados), alguns recipientes com velas, os quais iluminavam o ambiente. William nunca havia visto algo assim, estava admirando a cultura Zanga pelo pouco tempo que havia passado ali, mas ele queria ficar e admirar.
W — Mas, senhor, se me permite, eu ainda não entendo o meu motivo de ter vindo pra cá; desde minha chegada foram só brigas, discussões e lágrimas, envolvendo a todos, não só a mim. Nunca quis isso, causar isso.
X — Eu sei. Mas o seu motivo de estar aqui é por algo que nunca fez em vida, lá no seu tempo: praticar o perdão, descobrir o verdadeiro amor e saber aceitar que ganhar ou perder não importa, mas sim o caminho que se traça. Meu filho, o perdão não é para os fracos e sim para os fortes. Não é nesta sua vida que irá pagar, mas na próxima lhe será cobrado e nunca sabemos quando será a nossa próxima vida, pode ser daqui a anos ou pode ser amanhã. O amor, sei que ama aquela mulher, mas não pode impedi-la de ser feliz, não adianta amá-la se não pode sustentar esse amor. E competir, você e seu irmão sempre fizeram isto, mas só pensando nos resultados, nunca pensaram em saborear o caminho, em lutarem juntos, é por isso que os outros estão sofrendo, porque vocês se esqueceram de que neste mesmo caminho haviam outros.
W — Eu entendo, sei que este não é o meu lugar, que na verdade estou morto há 14 anos, mas nunca pude ter nenhuma das oportunidades que este lugar está me oferecendo, nunca tive nenhuma experiência como a que estou tendo agora. E está sendo tudo novo, diferente, assustador.
X — Ora, o novo assusta, o desconhecido é o medo dos homens. Mas já que lhe foi dada tal experiência, viva ela, cumpra a missão que lhe foi dada. Muitos se encontram somente quando passam por experiências de quase morte, talvez essa experiência seja para você levar para um pós morte, para a sua alma se acalmar, sua alma e seu coração. Portanto, meu filho, a oportunidade somos nós que fazemos; se lhe foi dada, faça, viva e, como sei que irá voltar para a morte, encare-a de frente, ciente de que fez tudo o que deveria ser feito. Vá em paz com aqueles que ficarem e, mais importante, consigo mesmo.
W — Está certo. Eu não sou daqui, aceito de muito bom grado essa experiência e vou fazer valer a pena, vou consertar todos os meus erros. Não sei bem se acredito ou não em próximas vidas, mas se existe mesmo como está me falando, não quero carregar tal fardo comigo, quero uma vida mais tranquila do que esta que tive e desta só quero levar coisas boas.
X — E você terá e fará se assim forem seus desejos.
Luna adentrou a cabana com as roupas da herdeira em seus braços, fez um breve aceno para William, o cumprimentando, e logo chamou Marguerite.
L — Bem, agora com vocês dois juntos irei explicar como deverá ser feita a viagem de seu retorno, William. Marguerite, também lhe ensinarei como usar o Oroboros, agora que estão ligados. E como Verônica poderá lhe auxiliar, ela é quem dará segurança para vocês fazerem a viagem. O Tryon e o Oroboros sendo usados juntos são donos de uma grande força; embora se contradigam em alguns aspectos, quando juntos permitem muito mais que viagens entre tempo e espaço, isso é algo que já fazem separados. Claro, um oferece estabilidade para o outro, mas eles são capazes também de curar e até mesmo de prever o futuro, de ler pensamentos, de saber quem é amigo e quem é inimigo. Tudo isso depende de seus detentores.
M — Certo, algumas coisas eu já sei. Preciso que me fale como deve ser feito.
X — Sabe, minha jovem, paciência é uma virtude.
M — Pode até ser, mas no momento não tenho nem um, nem o outro. Tenho sim sono, dores de cabeça e fome.
Luna não se segurou e riu pela resposta da herdeira, ela realmente mostrava quem era e do que era capaz; um tanto impetuosa, isso era bem verdade, mas nada que o tempo não lhe ensinasse e o Oroboros não colaborasse.
L — Está certa, entendo suas necessidades. E vou ser tão direta como você. Você e Verônica terão que estar juntas, ao menos no mesmo quarto. Você deve desejar ir para o destino escolhido, sentir e acreditar; e ela deve lhe desejar segurança, que se algo ter errado os medalhões tenham o poder de lhe trazer de volta seja de onde estiver. Você fará primeiro o desejo e ela em seguida. Também terá que ir com alguém, aquele que é o motivo de tudo isso ter acontecido, o real motivo, quem causou isso. Só ele irá lhe oferecer a proteção que precisa.
M — Challenger. É claro, ele foi quem trouxe William; mas ele vai me proteger?
L — Tem certeza que foi ele? Pense bem, minha querida.
W — John é o motivo, Marguerite. Foi por ele, pela sua dor, que Challenger me trouxe. Além do mais, acredito que só ele seria capaz de lhe dar a proteção e a segurança de que precisa.
M — John é o motivo? E me proteger? Não... Ele não...
L — Sim, ele mesmo. Você sabe disso, só não quer aceitar. Principalmente o fato de ele te proteger e não é a primeira vez, não é mesmo?
M — Isso não importa, se tem que ser, então será. Contanto que isso funcione pra mim já basta. Se ele tiver que ir, irá; não irei contradizer nenhum medalhão, não para causar mais problemas. Acabou? É só isso que precisamos saber?
L — Sobre o ritual de como enviá-lo de volta, não será trabalhoso, mas terão que estar os três de mãos dadas, como um pequeno círculo. Se tudo ocorrer bem, você e seu outro amigo serão apenas fantasmas no outro tempo e ninguém os verá. Ambos também voltam de mãos dadas. É sempre assim, tem que ser quando alguém for lhe acompanhar. Sempre.
M — Mãos dadas, certo. Melhor isso do que outra coisa... e só a mão mesmo. Bom, agora acabou?
L — Isso depende de você, minha querida. Já lhe ensinei tudo o que sei, nada mais tenho a lhe falar sobre os medalhões. Verônica, por ser filha da protetora deste lugar, também já deve saber usar o Tryon. Agora, tem algo mais que queira saber?
M — Não, não há mais nada que eu queira saber, já me basta. Eu agradeço por toda a ajuda, por todo o ensinamento, e não tenham dúvidas de que usarei com sabedoria o Oroboros. Darei minha vida se for preciso.
X — Acho que isso não é preciso, tem quem faça por você. Agora vá, se troque, alimente-se e descanse. Amanhã já poderão voltar para casa. E saiba que foi grande uma honra para mim poder prepara-la e ensinar tudo que sei para a detentora do Oroboros.
Marguerite e William se direcionavam cada um para sua cabana. A herdeira ainda envolta aos panos e tecidos verdes; não deixava nenhuma parte do corpo para fora, na verdade, estava tão bem enrolado que parecia um vestido. Assai já esperava por ela com um jantar farto. Na cabana de William também já havia deixado a bandeja com vários alimentos. Ambos não haviam comido nada desde sua chegada e estavam parecendo exaustos.
A — Marguerite, está linda envolta nesses tecidos! Onde estão suas vestes?
M — Com a parteira ou feiticeira, sei lá o que.
A — Logo ela virá trazer. Você deve estar exausta e faminta, não me lembro de ter visto um ritual tão demorado; não quando se trata de estranhos, quero dizer, pessoas que não são da aldeia.
M — Estou mesmo. Vou me alimentar e logo dormir, não sei nem se aguento esperar ela ou outro alguém trazer minhas roupas. E amanhã ainda acordarei cedo.
A — Faça isso. Vou lhe deixar sozinha, se precisar tem dois guerreiros por perto, pode chamá-los ou mesmo por mim. Também deixarei suas roupas por aqui para amanhã se trocar antes de partirem.
M — Está bem. Obrigada, Assai, e boa noite.
A — Boa noite.
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Já era noite. John nem sequer sabia mais que horas eram ou por quanto tempo estava correndo, muito menos por onde estava apenas correndo. Sem rumo, na verdade se sentia como se a vida, sua vontade de viver, o seu renascimento naquele lugar, tudo houvesse sido tudo tirado. John se sentia novamente morto por dentro, nada mais lhe fazia sentido, nada mais lhe dava gosto de viver. Depois de horas, a exaustão tomava conta, o corpo estava pedindo descanso. Ainda que tivesse um porte físico que lhe permitisse correr ou desempenhar trabalhos forçados e braçais durante um bom tempo, o dia havia sido puxado também e agora a noite muito mais. Além disso, seu psicológico também estava afetado, tamanha a sua dor, que agora parecia refletir fisicamente.
O caçador chegou a um estado em que se viu obrigado a parar. Logo reconheceu o lugar: território de predadores. Ciente dos riscos que corria, ele escalou uma árvore próxima o mais alto que pôde para manter-se seguro, pelo menos até o amanhacer. Não era típico dele dormir de imediato, mas seu cansaço era tanto, parecia até que um tiranossaurus rex havia passado por cima dele, que logo dormiu profundamente.
Durante seus sonhos, sonhos agitados, pôde ver todos os seus amigos, seu irmão, todos o acusando. Viu Challenger morto e a culpa era dele, de mais ninguém. Viu Marguerite chorando, sangrando, como se ele mesmo tivesse presenciado ela se cortar; suas lágrimas escorrendo pelo belo rosto. Viu William, mais uma vez, sendo morto, ele o matando. Viu seu pai. Foram sonhos terríveis que o fizeram acordar com os primeiros raios de sol.
J — Pesadelos. Não foram mais do que pesadelos, John, meu velho, foi a sua consciência lhe cobrando. Olha o que você fez?! Por Deus, eu não mereço mais nem sequer pisar naquela casa! Challenger pode estar morto e eu me acovardei. Marguerite, minha Marguerite, como pude não confiar em você, perder seu amor?! Meu irmão, ah meu irmão, nunca irá me perdoar; assim como você, papai, onde quer que esteja. William está certo, morreu de desgosto e eu causei sua morte também. A vida já não me faz sentido; eu feri, desapontei, todos aqueles que um dia me amaram. Parece que você ganhou, morte, logo mais estarei lhe encontrando.
O caçador estava mais que decidido a tirar a própria vida e sabia como, o território o favorecia. Abaixo da árvore em que descansava haviam três raptores com uma caça recentemente capturada, pelo visto; se John pulasse, ficaria suficientemente perto e não estava disposto a nem sequer fugir, se entregaria, viraria refeição de raptor. Ele sentou-se sobre o galho, fechou os olhos, ainda se lembrando de cada um, cada expressão, e começou a contar até dez.
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Enquanto isso, na aldeia, Marguerite estava dormindo agitada, lágrimas lhe escorriam pelo rosto, parecia estar angustiada. Acordou num sobressalto e aos gritos:
M — NÃOOOOOOOOOOO, JOHN!!!!!!! POR FAVOR, NÃOOOOOOOOOOO!!!!!
William, na cabana ao lado, escutou. Assai, que trazia uma bandeja com café, até mesmo deixou cair. Os dois entraram correndo não quarto, a herdeira estava sentada na cama, enrolada no meio das cobertas e dos tecidos, estava em prantos e não conseguia parar, ofegante, o cabelo solto pelo rosto, a cabeça abaixada. Assai havia apenas conseguido lhe tirar as mechas soltas de cabelo do rosto, mas nenhuma palavra. William, por saber do humor e do quanto a mulher poderia ser arisca, segurou carinhosamente uma de suas mãos, mas logo ela se esquivou .
Antes que Assai pudesse pedir para que um dos guerreiros buscasse o Xamã ou a parteira/ feiticeira, como também era conhecida, Luna já estava adentrando a cabana.
L — Preciso ficar a sós com ela; por favor, retirem se.
Assim que todos saíram, Luna sentou-se perto de Marguerite, que segurava firmemente o Oroboros, para a sua surpresa, mas permanecia calada, apenas chorava e respirava profundamente, ofegante.
L — Ele está morto não é mesmo, minha filha? Você sabe que não foi apenas um sonho.
M — Ainda não, mas vai estar e não há nada que eu possa fazer.
L — Você pode impedir, sabe disso. Só você pode.
M — Como? Não posso me teletransportar. Ainda que não tenha sido só um sonho, eu não sei onde ele está.
L — Não sabe, mas se não quer que aconteça apenas deseje, com todo o seu coração, que ele fique seguro onde quer que esteja. Vamos, você consegue.
Marguerite fechou os olhos e, como se em uma oração silenciosa, segurou o medalhão com força, desejando do fundo de seu coração, por todo amor que tinha por John.
M — Seja onde estiver, por favor, fique vivo. Por favor, eu sei que não o quero mais, não quero mais seu amor e nem mais nada de você, mas não o quero morto. Por favor, eu desejo de todo o meu coração, por toda a minha fé no Oroboros, por tudo o que jurei no dia de ontem, fique vivo.
Por alguns poucos instantes o medalhão brilhou; um dourado intenso, quente, esquentando as mãos de Marguerite; suas lágrimas cessarame sua respiração se acalmou.
M — Tá e agora? Como saberei se está tudo bem? Se ele está bem?
L — Não é óbvio? Você não sentiu? Não viu o que o medalhão demonstrou? Ele não reluziu, não esquentou e não lhe acalmou? Acho que você sabe que estes são os sinais. Está tudo bem agora, ele está bem e está vivo.
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John estava prestes a saltar, estava decidido, não queria mais viver daquele jeito. Sua contagem estava terminando, assim como os poucos minutos que lhe restavam de vida.
J — Oito, nove... Marguerite... Droga! Por que tinha que lembrar de você agora? Eu só te machuquei, te feri, traí seu amor e confiança. Porém, também prometi protege-la por toda minha vida, prometi lhe dar o último ar que respirar, se for preciso. Mas não poderei fazer isso estando morto... Não, eu não vou fazer isso. Ainda que me negue, que brigue comigo, que me rechasse todos os dias de minha vida, eu não vou me entregar. Por você, eu vou lutar cada dia, cada hora, ainda que nunca consiga seu perdão, mas não deixarei que nada lhe aconteça.
O caçador, de onde estava, conseguiu manter-se em pé, pendurou-se em um galho mais alto, ganhando balanço suficiente para saltar em uma distância maior que dos raptors abaixo e correr o máximo que podia. O quanto antes estivesse fora do território dos predadores, mais rápido estaria a salvo, voltaria para a casa da árvore, consertaria tudo o que causou e, ela gostando ou não, ele iria abraçar Marguerite nem que fosse na marra; ele precisava daquilo, precisava dela, nem que ela lhe desse um tapa na cara. Faria com que se sentisse vivo.
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