Choque de Tempo
27 Capítulo 27 - Mais uma canção.
Alguns passaram dias após a partida de William, aparentemente na casa da árvore os moradores viviam um momento de paz, ou pelo menos não havia nenhuma confusão, nenhuma visita inesperada, nada.
A invenção de Challenger sobre as trilhas da casa para o moinho com correntes de energia e iluminação havia sido um sucesso, além de, claro, ter ajudado a manter mais distantes os predadores.
Verônica e Malone também estavam extremamente felizes, o casal compartilhava da alegria de finalmente depois de anos terem se acertado.
Challenger ainda tinha esperanças de, em breve, poderem voltar para Londres para que ele pudesse rever sua amada esposa, mas para isso era preciso a colaboração de Marguerite, porém, esta, por sua vez, desde a sua última briga com Roxton, estava mais afastada, mais reclusa, pouco se juntava com os demais durante as refeições, quando tentavam puxar conversa ela muitas vezes os deixava falando sozinhos, passava a maior parte do dia em seu quarto ou mesmo treinando o uso do Oroboros, dispensava a ajuda ou companhia de qualquer um; a herdeira parecia estar, de fato, cada dia mais impenetrável, suas dores de cabeça também haviam aumentado, quase todos os dias a mulher procurava algum chá que fosse aliviar a dor, além de estar abatida, provavelmente por conta do distanciamento entre ela e John e até mesmo por suas próprias atitudes.
O caçador, por sua vez, decidiu respeitar a mulher; não a provocava mais, não respondia mais as provocações dela ou mesmo quando ela fazia algum comentário que o atingia. Ele também estava mais calado e até mesmo com olheiras, era nítido que John já não dormia mais tão bem, ainda que mais reservado, seu coração e mente gritavam por dentro, mas ele não iria estragar tudo, iria respeitar o tempo da herdeira e quando fosse o momento certo tentaria novamente, ainda que fosse ao menos uma conversa; ele tinha certeza que essa situação não ficaria como estava.
Certa noite, após o jantar, John havia se retirado para a varanda, um de seus lugares favoritos da casa, principalmente quando estava acompanhado por Marguerite, mas infelizmente a mulher nem sequer havia subido para o jantar, quem dirá se juntar a ele na varanda, talvez só nos sonhos dele. Ela estava tão perto e tão distante ao mesmo tempo que o caçador já começava a pensar que aquela era uma batalha perdida.
Os demais ainda estavam na mesa terminando suas refeições, não passou despercebido aos três exploradores como John e Marguerite estavam agindo e isso não estava longe de se tornar uma preocupação deles também.
V — Por quanto tempo será que ficarão assim?
C – Ora, minha jovem, em se tratando daqueles dois pode ser até amanhã, como daqui a um mês. São imprevisíveis, os dois. Mas admito que sinto vê-los assim.
V — Eu sei que são imprevisíveis, Challenger, mas não podemos permitir que fiquem assim. Marguerite se continuar como está logo estará doente e John, bem, eu já nem sei mais, parece que ele não é mais tão forte como era antes.
C — Eu concordo, Verônica. E, para piorar, Marguerite não permite que eu a examine, para ser sincero está cada dia mais difícil falar com ela. E sobre John, assim como você, já não sei mais o que esperar. Mas não creio que podemos fazer muito, é um assunto particular deles, um assunto do coração; talvez se não fossem tão orgulhosos como são já teriam se acertado, mas não podemos nos intrometer nisso. Não creio ser a maneira certa de se resolver esse problema.
N – Desculpe, Challenger, mas tenho que concordar com a Verônica. Não podemos ficar vendo eles nesse estado e não fazermos nada. Tínhamos que dar um jeito deles dois ao menos conversarem.
Verônica olhou para o jornalista e, de repente, teve uma ideia; uma idéia que talvez valesse a pena arriscar. Era a última esperança dela para fazer com que John e Marguerite se aproximassem novamente. Caso desse errado ela nunca mais daria um conselho sequer para eles, para nenhum dos dois.
V – Ned, é isso! Fazer eles conversarem! Eu acho que tenho uma ideia. Amanhã sairei para caçar com Roxton, irei sondar ele e saber o quanto está disposto a ter uma conversa com Marguerite. Challenger, você fique aqui em casa e cuide dela. E, Malone, separe algumas folhas de seus diários, folhas em branco, pois irei precisar. Se tudo der certo, amanhã conto qual será o plano, mas preciso da ajuda de vocês dois.
N — Eu estou dentro, Verônica. Pode contar comigo. Challenger?
O cientista ainda não estava tão confiante se deveria ou não se intrometer em um assunto para o qual não fora chamado, ainda mais por saber que uma das partes interessadas era Marguerite e ela era a que mais prezava por sua privacidade, mas no fundo até ele concordava que ver o casal, além de separados, tão cabisbaixos como estavam não era legal e algo precisava ser feito.
C — Está bem, podem contar comigo desde que sejamos cautelosos. Não quero mais problemas, mais do que já passamos.
V — Fique tranquilo, Challenger, sei o que estou fazendo.
C — Assim espero, minha jovem, assim espero...
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No dia seguinte, como combinado, Verônica e Roxton foram os primeiros a acordar e os primeiros a sair. A casa ainda estava silenciosa quando eles a deixaram, provavelmente os outros moradores ainda estavam dormindo.
Durante o dia, Verônica esteve observando o caçador, o seu comportamento, o modo como vinha agindo. John sempre fora o mais brincalhão dentre todos os outros, mas parecia que até mesmo isso ele havia perdido. Vez ou outra Verônica sentia e temia que John tivesse perdido o gosto pela vida e pudesse voltar a fazer alguma loucura como a que havia tentado anteriormente. Já passava da hora do almoço quando o caçador anunciou que iriam parar para descansar e depois voltariam para a casa da árvore, já que a caçada havia sido boa e já tinham o necessário para durar para a próxima semana.
Roxton tomava um gole de água em um fino rio que passava próximo de onde descansavam, quando Verônica se aproximou. Fosse aquele ou não o momento certo, ela tinha que falar, tinha que saber até que ponto John se arriscaria por Marguerite, para ter uma simples conversa com ela.
V — Roxton, eu preciso falar algo; sobre Marguerite.
A voz de Verônica saiu com ar de cautela e de preocupação que alarmou o caçador de imediato, já o preocupando e achando que algo estava acontecendo.
J — O que tem Marguerite? Ela não está bem, Verônica? Vamos, diga! Sabe muito bem que ela já não fala mais comigo, imagino que algo ainda lhe conte. Ela está doente, é isso? Não está bem? Está com problemas?
V – Não, Roxton, não é nada disso. Na verdade, Marguerite não fala mais com nenhum de nós, ou se fala é apenas o necessário. Mas não é isso que quero falar.
J — Ainda bem. Sabe que se algo acontecer com ela...
V — Você não se perdoaria?! Sim, eu sei. E é por isso mesmo que quero conversar com você. Acho que posso te ajudar com que, pelo menos, possa ter uma conversa com ela. E prometo que se der errado eu assumirei a culpa e não dou mais palpite nenhum. Tem minha palavra.
John voltou de imediato toda sua atenção para a garota da selva, se ela tinha um plano, se ela sabia como e de quais modos convencer a herdeira de ter uma conversa com ele, certamente o interessava e muito, pois ele mesmo já vinha pensando nisso há algum tempo, só não sabia como faria.
J — Está bem, qual é o plano?
V — Uma vez meus pais tiveram uma discussão, coisa boba, mas lembro que para se desculpar meu pai fez um jantar à luz de velas para minha mãe, iluminou todo o caminho até o local escolhido e deixou algumas folhas de papel espalhadas com alguns versos que ele mesmo escreveu. Eu fui a isca para que minha mãe chegasse ao local, fingi que meu pai havia perdido meu leão e que não conseguia achar, guiei ela até o local e lá eles conversaram e se acertaram. Podemos fazer isso com Marguerite. Mando Ned e Challenger para a aldeia Zanga, ou pelo menos faço ela acreditar nisso, falo que você saiu para caçar ou algo assim. Enquanto vocês três preparam tudo no moinho, eu a seguro em casa, depois saio a tarde e finjo que o encontrei ferido; ela terá que ir por uma das trilhas, é só eu a guiar pela trilha certa. E escondo o Oroboros para ela não pensar em usá-lo e ser obrigada a seguir o nosso plano.
J — Não me leve a mal, Verônica, mas isso está me cheirando a encrencas. Eu não sei escrever poemas, estaremos mentindo para Marguerite e sabe como ela é quanto a esta coisa de mentiras. Além do mais, duvido que ela me ouvirá, principalmente quando ver que não estou ferido. E ver vocês.
V — Eu te ajudo quanto aos poemas; e outra, são apenas versos que dirão exatamente como você se sente, o que sente por ela, seja sincero John. Eu sei que ela vai ficar brava quando descobrir a verdade, mas isso é por minha conta. Você terá que se preocupar em escrever os versos e preparar o caminho para nós. O resto eu assumo.
O caçador, antes de responder para Verônica, refletiu um pouco... Era uma chance, talvez a sua última chance... Valia a pena correr o risco e, além disso, pior do que já estava não poderia ficar.
J — Está certo, me parece um bom plano. Quanto a Challenger e Malone, talvez possamos mandá-los de fato para a aldeia Zanga, preciso que me façam um favor.
V — Um favor? Que favor?
O caçador tirou do bolso de sua mochila o relógio que tinha pertencido ao irmão, depositando-o na mão de Verônica.
J — Preciso que seja derretido e feito dele uma aliança com pedras cravejadas como a de Marguerite. Lá na aldeia eles saberão como fazer. Ou melhor, esta noite eu mesmo o derreterei; assim é só cravejarem as pedras e tem que ficar igual a de Marguerite. Se ainda me quiser de volta, quero usar uma aliança como prova de que tenho alguém para amar e proteger. Acha que eles poderão fazer isso?
V — Mas é claro que sim, John! É uma ótima ideia. Agora vamos para casa e amanhã bem cedo já colocaremos nosso plano em prática.
Enquanto John e Verônica passaram uma boa parte do dia fora, na casa da árvore estavam Challenger no laboratório, examinando seus novos insetos, Malone já havia separado as folhas em branco e também alguns dos diários dos pais de Verônica, havia deixado tudo separado no quarto que agora dividia com Verônica.
Marguerite levantou-se tarde, apenas subiu para tomar seu banho quente e logo retornou ao quarto; sua cabeça estava doendo muito, então preferiu ficar deitada pelo resto do dia, até mesmo a claridade incomodava.
Próximo do horário do almoço, os homens já se juntavam à mesa. Os dois olhavam para a escada na esperança de que a herdeira decidisse se juntar a eles, já que John não estava presente e o seu principal motivo de evitá-los era por conta de o caçador sempre estar por perto, mas ainda assim a morena não deu sequer um sinal.
C — Será que ela ainda está dormindo? Já está tarde.
N — Não, eu ouvi o barulho do chuveiro. Só deve estar nos evitando ou achando que John estará conosco.
C — Eu não sei... Ela não pode ficar assim, sem se alimentar. Vou verificar, saber se está tudo bem.
N — Eu que não queria estar no seu lugar. Mas se tem que ser feito, então vá em frente, boa sorte.
Challenger olhou para o jornalista, olhou para a escada e até sentiu certo receio, pois sabia que, ainda que fosse uma brincadeira de Malone, tinha um fundo verdadeiro. O cientista desceu silenciosamente até o quarto de Marguerite, chamou por duas ou três vezes e não teve resposta alguma, então, tomou a atitude de entrar e quando o fez espantou-se; a herdeira dormia tranquilamente, mas estava branca, pálida e até febril, provavelmente sintomas causados pela falta de alimentação, mas o abatimento da herdeira era preocupante.
C — Marguerite, acorde. Me desculpe, minha cara, mas preciso que acorde. No modo como está precisa subir e se alimentar. E eu vou lhe preparar algum medicamento para melhorar a febre. Sente algo mais?
Marguerite encarou o homem ruivo; odiava ser acordada ou incomodada em seu quarto, mas tinha que reconhecer que se sentia fraca, suas dores estavam aumentando, era como se a cada dia estivesse pior.
M — Está bem, está bem. Já vou subir. Antes você do que Roxton. Se ele souber que não passo bem, virá me buscar na marra.
C — John está fora caçando, minha cara. Não acha que esses seus modos de o evitar já não foram longe demais? Não é da minha conta, Marguerite, mas está doente justamente por estar evitando se juntar a nós nas refeições e, pior, não a vejo se alimentar depois também.
M – Realmente, Challenger, não é da sua conta. Quem deve saber o que é ou não melhor para mim sou eu mesma.
O cientista queria poder ajudar, queria poder conversar com a herdeira, saber o que estava acontecendo de fato, afinal, as dores de cabeça da mulher eram preocupantes, mas ela estava cada dia mais difícil de lidar.
A herdeira se levantou e seguiu na frente. Durante o almoço, Malone e Challenger trocaram olhares, Marguerite se alimentava, mas pouco, e não falou nem sequer uma palavra. Mais tarde, Challenger a examinou e a medicou e logo a mulher adormeceu em uma cadeira posta na varanda. Já não havia mais vestígios de febre e, até por conta do sol, Marguerite estava mais corada; ainda abatida, mas os medicamentos pareciam estar fazendo efeito, eram medicamentos fortes que a fariam dormir até pelo menos o horário do jantar, mas que iriam recompor muitas de suas forças.
John e Verônica chegaram já no final da tarde. O cientista acabara de vir da varanda, enquanto Malone estava na sala escrevendo em um dos seus diários.
C – Malone, está esfriando. Acha que consegue levá-la no colo para o quarto? Garanto que ela não irá acordar agora.
Quando os demais entraram não lhes passou despercebido a pergunta de Challenger direcionada ao jornalista. John logo tomou a iniciativa de atravessar a conversa, pois sabia que se estavam falando de alguém só podia ser sobre Marguerite, principalmente por não vê-la por perto.
J — Levar quem, George? Marguerite? Aconteceu algo com ela? Onde ela está?
C – Calma, meu velho, não há com que se preocupar. Marguerite teve dores de cabeça esta tarde, eu consegui medica-la, mas os remédios são bem fortes e ela acabou adormecendo na espreguiçadeira da varanda. Como já está caindo a temperatura, estava pedindo para Malone a levar para o quarto.
J — Essas dores de cabeça dela estão cada dia pior e ela não colabora. Não vai ajudar. George, eu a levo.
N — Você? Roxton, se Marguerite souber...
J — Ela não vai saber, certo, Malone?! São só alguns minutos. Só isso.
O caçador deixou seus pertences no sofá próximo, foi até a varanda e a encontrou; lá estava a mulher que tanto amava, dormindo tranquilamente, os cabelos soltos, o que o surpreendeu, pois Marguerite não costumava usá-los soltos — o que na opinião dele a deixava ainda mais bela. Delicadamente, como se estivesse pegando uma boneca de porcelana, John a pegou no colo e rumou para o quarto dela. Depositou-a em sua cama e a cobriu com uma das cobertas que estava próxima. O caçador ainda ficou alguns segundos por perto, observando-a em silêncio. Ainda que a amasse, não poderia forçar nada; iria tentar o plano de Verônica, mas sua mente, seus pensamentos e coração estavam ao mesmo tempo apertados, pois sabia muito bem que a herdeira era imprevisível e que isso poderia lhe acarretar em mais discussões ou em palavras que já havia ouvido antes e que partiram o seu coração. Ainda que precisou de um esforço dobrado, o caçador depositou um beijo apenas na têmpora da herdeira, arrumou um fio de cabelo solto em seu rosto e então ouviu, ainda que baixo, algo que lhe pareceu um sinal, que lhe dizia para seguir em frente e não abandonar o plano:
M — John... John... Meu cavaleiro de armadura brilhante.
O coração de Roxton parecia sair pela boca, ele ficava imaginando o que a herdeira sonhava para estar pronunciando tais palavras. Sem nenhum ruído ele saiu, seguiu as escadas rumo ao andar de cima, mas algo dentro de si havia mudado, agora ele tinha certeza que aquele era o momento.
Os outros ainda se olhavam incrédulos, Roxton havia tomado a iniciativa de fazer o que fez, ainda mais na situação em que se encontrava, mas nenhum deles também o deteve. Quando ele passou com ela em seus braços ficou estampado todo o carinho, cuidado, preocupação e amor que Roxton sentia, ele a cuidava como se fosse um diamante, um cristal valioso, e, de fato, para ele era o mais valioso do mundo.
O caçador subiu com um sorriso no rosto, estava determinado a começar a colocar o plano em prática. Logo pegou seu relógio, presente de William, e começou a juntar os equipamentos para derrete-lo; estava assobiando, tentando escrever algo para a herdeira, agora todos estavam na sala, já cientes do que teriam que fazer, cada um deles. Verônica e Malone liam os diários de seus pais, tentado encontrar algo, alguma frase que o caçador pudesse usar. Challenger preparava os equipamentos para o dia seguinte, também havia sugerido que levassem o gramofone até próximo ao moinho para que desse um ar mais romântico. Juntamente com a luz do luar, tudo poderia colaborar e, claro, os próprios John e Marguerite, eles deveriam colaborar um com o outro ou não haveria entendimento.
Marguerite acabou dormindo mais do que esperado; na verdade, não acordou nem sequer para se alimentar, fato que Challenger acabou tomando nota, mas preferiu não alarmar ninguém, guardou para si. Enquanto os outros estavam ocupados com o plano ele verificou a herdeira duas vezes e pôde constatar que a mulher dormia como um anjo, talvez pelo cansaço, ele não sabia, mas era algo que o havia perturbado.
Todos já haviam ido dormir quando John terminou de moldar a sua própria aliança. Infelizmente e sem sucesso algum ele não havia ainda encontrado frase nenhuma para colocar no caminho pelo qual a herdeira passaria. O caçador pegou papel e caneta e começou a escrever; escrevia, logo rabiscava por cima ou então amassava a folha e juntava um pouco para jogar no lixo. E nada, nada que lhe agradasse não conseguia escrever... Roxton definitivamente pensava consigo o quanto o irmão fazia falta naquele momento.
Enquanto isso, a herdeira acabara de acordar em seu quarto; imaginou que Malone ou Challenger haviam lhe deixado em seu quarto ou pelo menos esperava que tivesse sido um dos dois, não queria pensar na possibilidade de ter sido Roxton. Antes de se levantar a herdeira verificou os barulhos da casa e parecia que todos estavam dormindo, tudo estava silencioso. Marguerite se trocou, a calça que usava parecia estar lhe apertando, talvez por inchaço dos medicamentos; decidiu, então, ficar apenas com o seu conjunto de lingerie e o hobby por cima e rumou para cozinha, estava com fome, tinha acabado de se lembrar que apenas havia almoçado.
Marguerite subiu fazendo o mínimo de barulho possível, quando viu que alguém escrevia ela desviou o caminho evitando passar pela sala, porém, não passou despercebida pelo caçador. Roxton sabia que era Marguerite e preocupou-se. Seguiu-a sorrateiramente, viu que ela estava mexendo em algumas panelas, Verônica havia deixado a janta separada para ela. Porém, a garota da selva havia deixado o prato guardado em cima da mesa ao invés de deixar na pia.
M — Mas que droga, onde será que a Verônica deixou?!
Roxton, antes que pudesse segurar a sua língua, acabou respondendo sem perceber, foi automático.
J — Acho que é aquele em cima da mesa.
Marguerite, quando ouviu a voz do caçador atrás de si, sentiu-se gelar; fazia dias que já não o via, que o evitava ou mesmo que ouvia a sua voz, e saber que John estava ali bem atrás dela fez seu coração disparar; assim como o do próprio caçador por ter Marguerite assim tão próxima, diante dos seus olhos, a centímetros de distância.
Com a voz ainda falha, ela respondeu:
M — Obrigada.
Naquele momento, Marguerite teve que se virar, pois a mesa estava por trás de John; porém, o caçador não se moveu, não saiu do lugar, e quando ela se virou os olhos de ambos se encontraram, o ar parecia pesar, como se tivessem dificuldades para respirar. Marguerite deu alguns passos para frente, o que a deixou ainda mais próxima do caçador.
M — John, está no meu caminho.
O caçador de imediato deu um passo para o lado, dando passagem para a herdeira, mas quando suas mãos se tocaram, nem um e nem o outro foi capaz de resistir aos seus desejos; foi o suficiente para Roxton puxar a herdeira pelo braço, quebrando qualquer distância, qualquer barreira que havia entre os dois, e para sua surpresa a herdeira não recuou, não fugiu. Os olhos estavam vidrados um no outro, trocavam um olhar profundo como se um soubesse o próximo passo do outro. John tinha ainda receios, mas decidiu arriscar; ele depositou um beijo de leve no rosto de Marguerite e ela não reagiu, não contra; ela o correspondeu, envolveu seus braços no pescoço do caçador e logo os lábios de Roxton invadiam os dela, era um beijo que demonstrava toda a urgência, toda necessidade que um tinha de sentir o outro. Roxton apertava Marguerite contra o seu próprio corpo, assim como ela mesma o queria perto, como se pudessem formar apenas um.
O beijo, porém, foi se aprofundando, o desejo do casal parecia aumentar a cada toque trocado. Marguerite tinha uma das mãos no pescoço do caçador e a outra estava já por baixo da camisa dele, acariciando-o; enquanto John tinha uma de suas mãos entre os cachos soltos da herdeira e a outra na sua cintura — o hobby da morena já estava aberto a essa altura. Quando os dois se separaram para tomar ar, os olhos da herdeira baixaram como em um sinal para que Roxton continuasse; ela sentia tanta falta de John, que não queria que ele parasse, era como se seu íntimo o chamasse, assim como acontecia com ele. Roxton a pegou no colo e a depositou cautelosamente em cima da mesa, tomando cuidado para que não fizesse barulho, tirou o prato e o depositou na pia e voltou para a herdeira.
J — Marguerite, ainda tem algo que devemos...
M – Shhh! Eu sei, eu ainda não o perdoei, mas sinto tanta falta quanto você. Só não quero falar sobre isso, não agora.
J — Mas ao menos diga que irá me dar uma chance, que poderei me explicar pelo menos.
A herdeira apenas fez um sinal positivo com a cabeça, dizendo-lhe que se era o que ele queria, uma chance para se explicar, então ele teria. As palavras do cientista mais cedo haviam lhe tocado e até mesmo ela já não suportava mais toda aquela situação; ela o amava, amava aquele homem mais do que sua própria vida. E o que seria daqui em diante viver sua vida sem tê-lo ao seu lado? Talvez seria nada e ela não estava disposta a perdê-lo, não de novo. Talvez uma nova chance, não só para John, mas para si mesma.
Roxton abriu um sorriso de canto a canto, era o que ele precisava ouvir, precisava saber se a herdeira lhe daria uma chance nem que fosse apenas para se explicar, já bastava, era o que ele queria. O caçador voltou a aproximar-se de Marguerite, puxando-a para si, ele estava posicionado entre as pernas dela e os beijos trocados voltavam a ser intensos, fazendo um percurso até o busto de Marguerite, enquanto ela mesma o entrelaçava com as suas pernas.
Porém, algo fez os dois saltarem de surpresa. Era Malone, que havia acordado e, como viu um pequeno castiçal com uma vela acesa na mesa em que Roxton estava escrevendo, mas não o viu, decidiu ir próximo à cozinha. No mesmo instante, John pegou a herdeira no colo e a colocou em pé próxima a uma coluna mais escura e ficando a sua frente, sabia que o jornalista, como provavelmente ainda estaria sonolento, nem iria reparar.
N — John, ainda está acordado?
J — Estou sem sono, Malone. E você o que faz por aqui? Verônica irá sentir sua falta.
N — Sim, sim, já vou descer. Vim tomar um gole de água. Você está com calor, meu amigo? Sua camisa está toda aberta...
J — Ah isso... Sim, sim, estou com muito calor. Vá se deitar e eu também já irei descer, estou começando a ter sono.
N — Uhum... Bem, boa noite.
J — Boa noite, Neddy boy.
Assim que o jornalista desceu e que John teve certeza que ele tinha saído, ele então saiu da frente da herdeira, deixando-a livre. Marguerite, já recomposta, com o hobby amarrado novamente, passou pelo caçador, aproximou-se novamente dele e lhe deu um beijo no rosto deixando um recado:
M — Boa noite, John. Ah, claro, antes que eu me esqueça, é bom tomar um banho frio, bem frio, para tentar refrescar esse seu calor incontrolável. De preferência um banho em um lago bem frio e com crocodilos.
O caçador não esperava tal reação da mulher e ele mesmo não soube o que fazer, até porque antes mesmo que imaginasse ela já havia saído de perto e rumava para seu quarto. Ele balançou a cabeça, ainda olhando a silhueta de Marguerite desaparecendo, olhou para a mesa ao lado se lembrando dos minutos antes; estava com um sorriso no rosto, pois ao menos tinha se aproximado da herdeira e, melhor, ela havia jogado com ele novamente, como não fazia há dias.
J — Marguerite... Marguerite... O que você faz comigo? Me faz parecer até um cachorro abanando o rabo e correndo atrás de você para qualquer lugar que vá, acho que às vezes é isso que você quer, me provocar, e conseguiu. É, meu amigo, é bom irmos dormir porque ela não vai voltar tão cedo.
Ainda falando para si mesmo, recolhendo os papéis que havia escrito, Roxton seguiu para o seu quarto imaginando quais seriam os próximos passos a tomar, uma vez que a herdeira havia lhe dado uma nova chance.
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O dia seguinte chegou rápido e, para a surpresa de todos, Marguerite se juntou a eles na mesa do café da manhã. Porém, o caçador foi o último a acordar, embora ainda a tempo de se juntar aos demais e poder ver a herdeira conversando com Verônica.
Roxton estava um tanto despenteado, ainda um pouco amassado, o que não passou despercebido pelo demais moradores da casa da árvore. Marguerite estava com sua xícara de café, ao lado da garota da selva, quando Roxton sentou-se ao lado de Challenger e bem a sua frente. Ainda que disfarçadamente ambos trocaram alguns olhares.
M — Quem diria que ainda iria ver o grande caçador branco ser o último a acordar e se juntar a nós. De fato, Roxton, está ficando velho e desleixado.
Verônica quase engasgou com o chá que tomava, assim como Malone teve que levantar-se e tomar água, pois ele realmente havia se engasgado com a torrada. Challenger, por sua vez, apenas espantou-se, seu rosto ficou rubro e encarava a mulher com tal incredulidade que ele mesmo achava não ter mais.
Roxton encarava Marguerite com um sorriso de lado, se servindo de uma xícara de café, tranquilamente, o que também deixou os demais preocupados, pois isso havia sido algo que ninguém esperava.
J — Já que está tão curiosa em saber o quão velho e desleixado estou, porque tem medo de chegar perto de mim? Eu não mordo você, prometo. Aliás, lhe trataria muito bem.
Marguerite, por alguns instantes, sentiu o sangue ferver, mas depois de se lembrar da noite passada, sabia que se não tomasse cuidado com as palavras ela mesma cairia na própria armadilha.
M – Por que tenho medo de chegar próximo de você? Eu nunca falei que tinha ou tenho. Mas convenhamos, Roxton, você mais parece um lobo esfomeado se esgueirando pelos cantos do que um cavalheiro ou Lord inglês. Além disso, posso te oferecer mais do que imagina e não creio que daria tanta conta assim... Se bem que... Bom, tenho coisas para fazer. Com licença.
A herdeira tomou um último gole de café e saiu antes mesmo que alguém falasse algo.
Os outros olhavam para o caçador que mais parecia estar extasiado. Por isso nem ele esperava, Marguerite estava com seus jogos novamente e ainda mais provocante, mais tentadora e até suas brincadeiras agora tinham um duplo sentido que o surpreendeu a ponto de deixa-lo sem palavras.
Verônica quando viu o amigo sem reação e o modo como Marguerite se dirigiu a ele, após a saída da morena, acabou caindo na gargalhada, acompanhada de Malone. Até mesmo Challenger se esforçava para conter o riso, a situação em si havia sido divertida.
Malone acabou ligando o comentário da herdeira com o fato de tê-lo encontrado com a camisa toda aberta no meio da madrugada, sozinho na cozinha — ou talvez nem tão sozinho assim. E não pôde deixar de soltar um comentário, que deixou o amigo ainda mais envergonhado.
N — Hahaha um lobo esfomeado se esgueirando pelos cantos... É, isso explica muita coisa. Principalmente o seu calor essa madrugada, Roxton.
Verônica e Challenger, agora ainda em meios às gargalhadas, olharam para o rosto de Roxton, que parecia tingir-se de vermelho; o caçador estava com vergonha e isso acabava o denunciando, até mais do que gostaria.
V – Roxton, você ficou até tarde escrevendo, não foi?
N — A questão não é se Roxton ficou ou não escrevendo, mas quem possivelmente lhe fazia companhia. Afinal, escrever não dá calor.
John acabou se deixando levar pela brincadeira, o seu dia havia começado bem e, se tudo desse certo, terminaria ainda melhor.
J — Está bem, está bem, já chega vocês dois. Malone, meu amigo, alguém já lhe disse que tem a língua maior que a boca? Então... Escrever pode muito bem dar calor, dependendo do que você escreve. E você aqui sendo o gênio em escritas deveria saber disso. Agora, vamos, temos um plano a colocar em prática.
C — Eu concordo, meu amigo. Eu e Malone já estamos saindo para a aldeia Zanga e no caminho passaremos pelo moinho e vamos deixar o gramofone por lá. Bem, nos encontramos lá mais tarde. O resto está por sua conta e, de certa maneira, de Verônica.
J — Já tenho tudo em mente, Challenger. Tome, está aqui a aliança, eles irão apenas cravejar os diamantes. Nos encontramos no moinho às 18:30, quando já estará anoitecendo.
C — Certo. E, John, boa sorte.
J – É, eu vou precisar. Obrigado, Challenger e Malone.
Os dois exploradores logo saíram e, assim como o combinado, Challenger e Malone deixaram o gramofone no moinho e seguiram para a aldeia Zanga.
Roxton mostrou a Verônica o que havia escrito e a mulher ainda o ajudou com alguns versos a mais e com a decisão de qual trilha iriam seguir. A garota da selva aproveitou para descer até o quarto da herdeira, abrir o salto de bota por bota, até que achasse o Oroboros para escondê-lo provisoriamente, enquanto o caçador ficava de viaja, certificando-se de que Marguerite estava lá em baixo lavando as roupas. Logo, Verônica subiu correndo e entregando o Oroboros ao caçador para que ele o guardasse.
V — Certo até agora, está tudo correndo bem. John, o que pretende fazer no moinho?
J – Surpresa. Você verá, Verônica. As tochas de energia irão ajudar muito, mas posso fazer mais do que isso. Bom, vou sair; os versos no caminho são por sua conta.
V — Está certo, assim que enviar o sinal com os espelhos eu começo. E a levo até você.
J – Obrigado, Verônica. Muito obrigado.
Verônica, durante toda a tarde, se empenhou em fazer um jantar especial; aproveitou que a herdeira iria passar a tarde lá fora, ela estava lavando e costurando as roupas que havia deixado acumular durante os dias. A garota da selva também decorou o quarto de Marguerite com algumas flores do campo, flores que ela e John colheram no dia anterior na volta para casa, trocou todo o jogo de cama, substituindo por um outro de alta costura francesa que era de seus pais, mas nunca usaram (era todo rendado, com flores delicadas na renda, em tons mistos de branco, azul claro, lilás, rosa e verde, mas bem suave), também deixou o mosqueteiro e alguns outros tecidos colocados de forma que lembrasse uma tenda. Assim que terminou tudo, ela subiu e verificou que a herdeira acabara de terminar as tarefas. Já passava das 18 horas e o sol começava a se esconder, mas antes que pensasse em impedir Marguerite de subir, viu os sinais com espelho; havia chegado a hora, era agora ou nunca. A garota da selva desceu com a bolsa ao lado, parecia estar nervosa, preocupada, aflita — ou melhor, era isso que ela queria parecer para Marguerite.
M – Verônica, está tudo bem? Está agitada, o que houve?
V — Challenger enviou sinais com o espelho. Parece que no caminho de volta encontraram Roxton ferido próximo ao moinho, estou indo para lá.
M – Sim, eu vi os sinais e também vi quando Roxton saiu. Mas Challenger ou Malone podem cuidar dele, Verônica.
V – Não, Marguerite, não podem. Ele está muito ferido, precisa de cuidados imediatamente ou...
M — Ou o que, Verônica? Diga logo!
V — Ou pode não sobreviver.
Marguerite sentiu o chão faltar, o coração apertar, o desespero parecia naquele momento querer falar mais alto. Roxton estava ferido e, pior, correndo risco vida.
M — O que planeja? Sabemos que não podemos ficar sozinhas ou nos separar, já vai escurecer.
V — Vá até o laboratório, pegue o kit médico, eu lhe darei cobertura. Vou seguir por uma das trilhas iluminadas até o moinho, vou na frente e depois você irá. Certo?
M — Está bem, tudo bem. Qual trilha?
V — Aquela da direita. Nos encontramos lá. Não se esqueça, trave o elevador e tranque o portão.
M — Certo. Não irei esquecer.
Marguerite subiu para o laboratório o mais rápido que podia, a cada minuto perdido, sentia como se pudesse perder Roxton, estava com medo, um medo real, não conseguia se imaginar sem Roxton. Enquanto isso, Verônica seguia a trilha combinada. Até a garota da selva espantou-se, tinha que admitir que Roxton havia feito um bom trabalho: colocou uma flor ao lado de cada tocha, havia pétalas no caminho, no chão, e em cada ponto onde eram para serem colocados os papéis, havia uma vela acesa ao pé da árvore. Verônica foi colocando em cada uma das velas o papel, além disso, havia itens pessoais dos dois, tanto da herdeira, quanto de John.
Quando a herdeira estava novamente embaixo, próxima ao portão da cerca elétrica, pôde ver qual trilha seguir; era a única iluminada, porém, não viu Verônica e, de certa forma, isso lhe passou insegurança, sabia muito bem o quanto o platô poderia ser perigoso à noite, mas era preciso, pois John precisava dela, dos seus cuidados. Marguerite respirou fundo, preparou o seu rifle, deixando-o engatilhado, pronto para qualquer eventualidade. Porém, quando a herdeira colocou os pés na trilha, pôde ver as flores, as pétalas e logo a frente uma vela com um pedaço de papel por baixo; era a letra de Roxton, ainda que ele tivesse usado uma letra mais bem feita, até mais delicada e diferente daquelas com que ele rascunhava os bilhetes costumeiros de quando saia para caçar, Marguerite conhecia aquela letra melhor do ninguém. Junto ao papel havia o seu par de brincos de pérolas, eram os brincos que Marguerite usava quando embarcou para o platô. Ela pôs o rifle de lado, pendurando-o em seu ombro e trouxe o papel e a vela para cima, para que pudesse ler melhor. No papel havia o seguinte dizer:
"Nada vai mudar entre nós
Como eu sei?
Eu só sei"
M — Ótimo, isso só pode ser coisa do Roxton. E parece que teve ajuda. Bem, vamos lá, vamos ver onde vai dar.
A herdeira seguia a trilha, reparava em tudo a sua volta, sabia que o plano não tinha sido apenas de Roxton, que os demais, e em especial Verônica, o ajudaram. Por um lado, estava feliz, pois ao menos sabia que o caçador não estava em perigo; porém, por outro lado, tinha dúvidas, entre muitas delas, queria saber onde tudo isso daria e qual era o objetivo desse plano.
O segundo papel, agora com o chapéu do caçador ao lado, dizia:
"Tudo vai permanecer igual
Afinal
Não há nada a fazer
Eu não nego
Eu me entrego
Você é meu grande amor
E hoje eu vou te dizer: eu te amo"
A herdeira, ao ver tais versos, teve que segurar suas lágrimas. John estava se entregando, pelos seus escritos e, principalmente, por todas as vezes em que quase deu a vida para salvar a sua.
Marguerite seguia em frente, tinha o chapéu do caçador nas mãos, usava seus brincos; estava quieta, mas sua mente tumultuada de recordações.
Terceiro papel e este tinha o seu lenço, aquele que usou quando escondeu o colar que havia roubado dos piratas. John nunca devolveu aquele lenço, mas ela também nunca lhe pediu de volta.
“Eu imploro
Eu te adoro
Você tem meu coração
A bater pra você mais uma canção"
A cada papel, Marguerite se via com mais recordações vindo à sua mente e até já imaginava qual era o objetivo de tudo aquilo: um pedido de desculpas ou uma chance de John se explicar. Ele estava aproveitando a chance que lhe fora concedida e muito bem.
Quarto papel. Além do papel com os versos, havia o bem que John considerava ser o mais precioso: dobrado, estava o papel que ela mesma havia rascunhado “Lady Marguerite Roxton”, papel que ele havia descoberto quando ela fora sequestrada por um viajante com roupas do século XVII, ou simplesmente o Deus trapaceiro.
"Como pode alguém perder você
Como eu fiz
Como eu quis não te ter?
Vivo iludido
A acreditar que o amor
Não se pôs em você".
A trilha já estava quase acabando e, na medida em que Marguerite se aproximava do papel seguinte, pôde ver o que havia além do papel. Suas lágrimas, que tanto se esforçava para conter, começaram a rolar por seu rosto; era um par de alianças idênticas amarradas em uma bela margarida do campo, a aliança que Roxton havia lhe dado quando fez o pedido de casamento, porém havia mais uma, provavelmente que ele usaria.
Era o último papel, com certeza. Marguerite já via o moinho e podia ouvir de longe uma música, parecia uma valsa, a tocar. Também podia ver a figura de Roxton, impaciente por sinal, andando de um lado para o outro. Ela, então, pegou em suas mãos o papel, o quinto e último, e o leu em meio às lágrimas.
"Eu me entrego
Eu não nego
Eu errei, mas sou capaz
de fazer sua vida melhor
Estou voltando
Não sei quando
Pra roubar teu coração
Vou chegar no final de mais uma canção".
M — Ótimo, agora eu estou chorando. Mas que droga, eu já fui melhor do que isso. Mas antes não havia o Roxton, nem Verônica, nem Challenger e nem mesmo o Malone. Parece que esse maldito platô faz com que as pessoas mudem... Bem, vamos lá. Coragem, Marguerite, coragem. É a hora de enfrentar aquele que lhe fez mudar. John...
A herdeira seguiu em frente, passos pesados, tudo dentro de si era confuso: recordações, sentimentos, tudo estava confuso. Então, pôde ver o caçador aproximar-se, vindo ao seu encontro. A música agora estava mais alta. Havia um último papel em sua mão. Os dois estavam frente a frente, era nítido o nervoso, a ansiedade nos olhos verdes de Marguerite, ainda mais verdes por conta das lágrimas, e brilhavam ao encontrar os de Roxton. Ele lhe estendeu a mão e ela pôde pegar o papel, mas para sua surpresa estava em branco, não havia nada escrito, nem uma palavra.
M — Está em branco. Eu não entendo, todos os outros haviam versos, mas este não tem nada escrito.
J – Sim, está em branco. Porque está esperando para que seja escrito uma nova história aqui, aliás, neste e em muitas outras folhas de papel ainda em branco. Uma história de aventura, de cumplicidade, de segredos e de amor. Ainda que durante essa história houveram alguns rabiscos de algumas brigas, eu acredito que possam ser consertados. Não digo que serão apagados porque algumas cicatrizes ainda ficarão, então que possam ser reescritos, se, claro, você permitir.
Eu lhe imploro, Marguerite; se fiz tudo o que fiz, foi por estar consumido de incertezas, insegurança, ciúme, ódio, por estar experimentando sentimentos que antes desconhecia, como, por exemplo, ter meu coração partido. Marguerite, nunca senti nada disso por ninguém, até conhecer você. Eu sei que errei, sei que te perdi, que eu quis perdê-la, que eu fiz isso; mas eu imploro, me deixe ao menos ficar próximo de você, não vá me banir do seu coração ou de sua vida. Eu falo sério, não suportaria.
Roxton estava de joelhos no momento em que disse as palavras "eu imploro”. Ele de fato se ajoelhou, seus olhos a encaravam com tamanho desespero, era como se John dependesse daquele perdão para viver.
Marguerite pôde ver toda a dor, arrependimento e verdade em cada palavra, ele estava sendo sincero e ela mesma sabia que já não suportava mais a condição em que se encontravam, o afastamento entre eles a estava sufocando por dentro. Marguerite fechou os olhos por alguns segundos, respirou fundo, o máximo que podia, e então balançou a cabeça e, com a voz ainda embargada de emoção e pelas lágrimas que haviam caído, ela tentou responder. Porém, antes que a herdeira pudesse dizer alguma palavra, o caçador pegou sua mão esquerda; pôde ver a cicatriz ainda na mão delicada de Marguerite, o corte já estava fechado, mas ainda havia uma cicatriz não muito forte, mas aparente. O caçador sentiu-se amargar, lembrou-se de tudo que havia causado a ela, da dor que tinha causado, tudo por conta das suas imprudências, por ter sido egoísta e pensado apenas em si, lembrou-se das palavras injustas que disse a ela no dia em que deixou o seu ciúme falar mais alto que o seu amor.
J – Espere. Existem mais coisas que você deve saber. Eu sei, Marguerite, que quebrei sua confiança também, que quando não quis lhe ouvir, quando li o seu diário sem sua permissão e, pior, lhe disse tudo aquilo, foram palavras duras, amargas e que você não merecia ter ouvido. Eu me deixei levar pelo ciúme, pela inveja, por impulso; se eu a perdi foi minha culpa, minha culpa e, pior, sei que se tem alguém que ficou marcada com essa atitude minha, esse alguém foi você. Sei que se tem essa cicatriz em sua mão foi por minha culpa, que se cortou por minha culpa. Por Deus, agradeço por Verônica ter chegado, senão, bem, eu poderia esperar… não gosto nem de pensar, Marguerite, eu... eu nunca me perdoaria, nunca. Se você não quiser me perdoar, não me aceitar de volta ou mesmo não me quiser mais por perto, tudo bem, eu causei isso; saio da casa da árvore, vou para longe, não atrapalho mais sua vida, não mais do que já fiz. Mas eu preciso saber a sua posição, pois não aguento mais ficar assim nessa dúvida, nessa incerteza.
A herdeira tinha algumas lágrimas no olhar. Roxton estava certo, ele havia lhe machucado muito, nunca iria esquecer daquele dia, das palavras, de tudo o que lhe causou, principalmente porque fora naquele dia que ela havia perdido todo o controle da situação como nunca antes em sua vida. Quase tirou sua própria vida por causa do caçador, mas ele também fez o mesmo; o sonho que tivera de Roxton tirando a própria vida, todo o medo que sentiu de perder o homem que amava e, pior, de descobrir que não era apenas o sonho, era real, tudo havia acontecido. Tudo o que aconteceu havia feito com que ela pensasse duas vezes antes de dar uma resposta, pensar se era mesmo aquilo que ela queria: confiar novamente no caçador, lhe entregar seu amor. Porém, sabia que todos erravam e que ela mesma de certa forma errou, pois deveria ter contado para ele todos os seus segredos antes, sabia que com ele estes sempre estariam seguros. Talvez uma segunda chance, um recomeço...
M — Eu... Eu o perdoo, John. Eu também errei em não lhe confiar alguns segredos, segredos dos quais deveria talvez saber. Eu não o quero longe, eu o quero perto de mim, quero reescrever nossa história. Não digo começar do zero, porque seria o mesmo que esquecer tudo o que vivemos, mas escrever de onde paramos. Eu nunca vou me esquecer das coisas que me disse, de toda a dor que senti naquele dia, mas, John, sentir a dor de perdê-lo, de saber que poderia ter perdido sua vida por mim, eu… eu não quero isso, eu preciso de você do meu lado.
J — Eu sei que não merecia ter sentido a dor que sentiu, nem ter ouvido tudo o que falei, me arrependerei disso até o dia de minha morte; mas eu sou capaz de fazer o que quiser, Marguerite, e como quiser, só por estar me perdoando e por, bem, eu acho, estar me concedendo essa nova chance. Tem ideia do quanto estou feliz? Marguerite, eu a amo, a amo por tudo que é mais sagrado e...
Roxton não conseguiu terminar a frase; sua felicidade era tão grande, que ele mesmo já não se segurava mais, ele levantou-se e a abraçou; a abraçou tão apertado, tão forte que chegava até a sufoca-la.
M — John, está... Está me deixando sem ar.
J — Eu... Ah, me desculpe.
M — Está tudo bem, tudo bem. Eu não disse para parar.
J — Olha que posso lhe pedir mais que um abraço.
M — E por que não experimenta?
J — Volta para mim? Sem nenhuma cobrança, sem ciúmes, sem brigas, eu prometo. Por favor, me diga que sim?
M — Mas eu já disse que sim.
J — Já?
M — Sim, eu já disse que sim. Mas posso dizer de novo. Sim, eu volto para você, de onde paramos.
Roxton pegou a margarida do campo que a herdeira tinha em mãos, desfez o laço que prendia as duas alianças, pegou a mão esquerda de Marguerite, olhou-a nos olhos, respirou fundo.
J — Marguerite, eu antes havia feito um pedido de casamento a você, com juramentos que não me animo a dizer, mas que não os honrei. Agora, aqui tudo que posso lhe oferecer é o meu amor, devoção e a garantia de que daria minha vida para poupar a sua. Esta aliança é apenas um anel, antes eu pensava que ele podia representar tudo o que sinto e penso sobre você, sobre nós. Eu me enganei; este anel, esta aliança não chega aos pés do que sentimos um pelo outro. Eu juro que irei honrar não só essa promessa que lhe faço, mas a você, a tudo que venha de você, principalmente seus sentimentos.
Marguerite sorria e, quando ela pegou a aliança que colocaria na mão de Roxton, olhou-a pelo menos duas vezes antes; nunca imaginou ver Roxton usando uma aliança, ainda mais uma aliança com seu nome.
M — Eu também prometo respeitar e honrar você, seus sentimentos, seus pensamentos e tudo mais que seja relacionado a você. Juro por tudo, por todo amor que tenho por você. E eu o amo John, o amo mais do que qualquer outra pessoa e, sabe, nunca pensei que diria isso, mas não quero te perder, nunca.
J — E não irá, Marguerite, não irá. Eu sempre estarei ao seu lado. Sempre que puder e que permitir, estarei ao seu lado.
O casal aproximou-se. John acariciava o rosto da herdeira e, com a outra mão, segurava a dela. Ela já havia deixado cair o chapéu, o lenço, tudo que tinha em mãos. Ambos se acariciavam, um no rosto do outro, vendo cada traço, cada característica, o sorriso, as lágrimas de Marguerite, aquelas que restaram, os olhos de cada um deles brilhavam, um encontrava o do outro, podiam-se ver no olho do outro. Quando já estavam próximos o suficiente, encostaram os lábios até que se beijassem. O beijo trazia toda a pureza de um sentimento como aquele, era amor verdadeiro, amor que ninguém seria capaz de destruir, nunca mais, sem cobranças ou sem alguma promessa que não pretendiam cumprir.
Não muito longe dali, Verônica, Malone e Challenger observavam o casal; estavam felizes e finalmente juntos.
C – É, minha jovem, parece que o plano deu certo.
N — Já não era sem tempo.
V — É não era mesmo, Malone. Bem, vamos embora. Vamos deixá-los a sós.
C — Eu concordo. Vamos andando logo. Acho que eles merecem um pouco de privacidade.
Os três seguiram por uma trilha distinta, sem fazer alardes, pois não queriam estragar aquele momento do casal.
Na casa da árvore, cada um fez seu prato. Verônica preparou uma bandeja a parte e deixou no quarto da herdeira para que quando voltassem se alimentassem. Todos se retiraram, iriam jantar em seus quartos, e apagaram as demais luzes. Queriam que John e Marguerite tivessem alguns momentos apenas dos dois, sem interrupções, afinal, ainda que antes já tivessem tido a oportunidade não deu muito certo, então, se era um recomeço, que contasse quatro anos que eles vinham tentando se acertar e ainda não tinham conseguido, até agora.
John e Marguerite voltavam para casa também, estavam de mãos dadas, sorridentes, olhavam um para o outro, não paravam de se olhar. Ao entrarem na casa, Roxton guardou o gramofone, deixou suas armas e o kit médico próximos ao elevador, certificou-se de que tudo estava em ordem, elevador travado, cerca elétrica ligada e assim desceram para o quarto da herdeira, único quarto ainda aceso.
M — Foi você quem fez tudo isso?
J — Eu apenas pensei. Mas fomos todos nós. Challenger e Malone foram até os Zangas e cravejaram os diamantes na aliança que estou usando; Verônica foi quem teve a ideia a princípio, ela quem me ajudou com os versos, com os preparativos, inclusive com essa arrumação em seu quarto. E eu colhi as flores ontem e preparei a trilha hoje mais cedo. Não, eu não fiz sozinho, todos ajudaram, Marguerite, e eu quase implorei há alguns dias. E eles fizeram.
M — Acho que, se é assim, devo agradecê-los amanhã.
J — Eu acho que já agradeceu. Estamos juntos, eu e você. E era o que todos almejavam, o que todos queriam ver: nossa felicidade.
M — Obrigada por não desistir de mim, John.
J — Não seria capaz. Nem que eu quisesse. Nunca. Mas me diga, Marguerite, agora que estamos a sós e que vamos continuar de onde paramos, por que não retomamos o que começamos essa madrugada?
M – Por que será que sua pergunta não me surpreende? Mas sabe que estou curiosa para saber quanto foi o calor que sentiu essa madrugada.
J — Garanto que não irá se comparar ao de hoje. Mas antes, tome, é seu; eu e Verônica pegamos o Oroboros com receios de que você decidisse usá-lo.
Marguerite pegou o Oroboros de volta e o guardou, como sempre, em seus esconderijos, e quando virou-se Roxton estava a sua frente, como tinha feito naquela madrugada, a surpreendendo, esperando por ela. Sem sequer dizer uma palavra, nenhum dos dois, os seus corpos já se encontravam, o casal trocava beijos e carícias que a medida que se aprofundava viam-se peças e peças de roupas espalhadas pelo chão; até que, sem mais nenhuma roupa, John guiava Marguerite até a cama, deitando-a por baixo dele, percorrendo suas mãos por todo o corpo da mulher e formando também rastros de beijos quentes e molhados. A própria Marguerite sentia-se assim, deslizava uma de suas pernas um pouco mais dobrada entre a lateral do corpo do caçador, enquanto suas mãos, uma delas, estava na nuca dele mantendo-o próximo da sua pele, e a outra mão apertava, quase que o unhando, em um dos ombros, tamanho era o seu desejo. Até que ambos, já cedendo aos seus desejos, vontades e prazer, se entregaram um ao outro de corpo e alma
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