Choque de Tempo
13 Capítulo 13 - Os dois Senhores Roxton e Uma Nova Integrante na Família.
Passava do horário do almoço; Marguerite havia conseguido subir John para a sala, o homem parecia recuperar-se muito bem e rápido. Ambos haviam almoçado uma salada de frutas, uma vez que Marguerite não sabia cozinhar e John nem queria que ela se arriscasse, pois se algo pegasse fogo ela teria que se virar sozinha – ele ainda não conseguia se apoiar sozinho. Então aquela foi a melhor opção. Os dois agora estavam cada um em uma cadeira, relaxados, entre a sala e a varanda, ouvindo músicas no gramofone. Marguerite com um livro em mãos, entretida em suas lembranças e comparações; e John admirando a paisagem, isto é, incluindo a herdeira ao seu lado, vê-la calma era algo difícil de ver.
J — Marguerite, o que está lendo? Ela nem sequer ouviu o que o caçador havia lhe perguntado e continuou sua leitura. John percebeu que tinha sido uma tentativa em vão, que chamá-la parecia não adiantar muito. Ele, então, a cutuca na cintura, fazendo-a praticamente pular na cadeira. M – John! Mas que droga, não podia simplesmente me chamar?! Quase que caio e levo a cadeira. J — Como se eu não estivesse tentando... Você que está aí tão entretida que nem sequer me ouviu te chamando. M — Até parece. Eu ouviria se tivesse me chamado. Está mentindo. J — Eu mentindo? Ora, mas que desculpa mais esfarrapada vinda de você, Senhorita Krux. M — “Senhora Roxton” você quer dizer, certo? Ou o pedido também era mentira? J — Lady Marguerite Roxton. Essa é a pronúncia certa. E claro que não esqueci, nem muito menos mentiria sobre algo assim; na verdade, nem sobre ter lhe chamado. M — Tá, tá… Lady Roxton; essa é a pronúncia certa. Sei… Enfim, o que você queria perguntar? J — É Lady Roxton sim, uma vez que logo estaremos casados oficialmente. E sobre a pergunta, era: o que estava lendo?M – Ah, isso aqui é um livro que trouxe na mala, mas não tinha lido ainda. Chama-se “As Consequências Econômicas da Paz”; é um livro pós-guerra, teve várias cópias vendidas. Na época em que o comprei foi mais pela repercussão mesmo. E, de fato, é um livro bom, mas nada comparado com o que vivemos; é diferente escrever e vivenciar, os impactos econômicos de uma guerra são destruidores. J — Percebe-se que o escrever é diferente de viver. Principalmente pra você, minha cara, infiltrada nos meios de todos os negócios, envolvida em estratégias e na sobrevivência dos próprios países e, claro, na economia deles. M — É, acho que sim. Mas porque me chamou realmente? Não era só para perguntar o que eu estava lendo, era? J — Não, não era. Na verdade, era para perguntar do que estava se lembrando, pois, enquanto lia, notei que resmungou algo. Marguerite não havia percebido que tinha resmungado algo enquanto lia. Deve ter sido quando se lembrou de uma vez em que estava com os documentos que relatavam como o país havia ficado após a Grande Guerra, o quanto esta havia sido devastadora e como ela mesma havia tido trabalho para manter os negócios; principalmente quanto a Xan, que não havia lhe perdoado e tinha ficado no seu pé, ou mesmo os alemães. Mas ela não queria falar sobre isso; na verdade, nem deveria estar lendo algo que lhe despertasse tais lembranças desagradáveis. John olhou para a expressão da herdeira e pôde concluir que talvez ela estivesse se arrependendo de ter começado a ler aquele livro por conta de suas memórias, mas era o tipo de leitura que ela gostava e, bem, ele mesmo já havia lido tal livro. J — Bem, o que acha de lermos juntos? Assim, depois podemos discutir nossos pontos de vista. M — Nós dois discutirmos os pontos de vista?! Nós vamos brigar, John, e isso é o que eu menos quero. Porém, ao pronunciar tais palavras logo se arrependeu. John queria compartilhar sua opinião com ela e, mais do que isso, queria compartilhar sua vida. E ele estava sendo tão carinhoso com ela naquela manhã, que ela acabou se redimindo. M — Mas e daí que briguemos? Não seria mais novidade, não é?! Está bem, então. Mas sem me assustar de novo. Os olhos de John brilharam; quem diria, Marguerite voltando atrás de algo que tinha falado ou feito. E logo estavam ambos com as cadeiras postas uma bem ao lado da outra, Marguerite com a cabeça debruçada sobre o ombro de John e ele segurando com uma mão o livro para que lessem juntos e com a outra a de sua amada. –------------------------------------------------------------------------------ Na aldeia Zanga, já estavam na cabana do Xamã, Verônica e Malone preparando suas mochilas e bolsas para tomarem rumo da casa da árvore. O Xamã entregava a Verônica alguns frascos, alguns que Malone deveria ingerir e outros apenas para que aplicasse nos ferimentos, também instruindo como deveriam ser os cuidados e quantas vezes ao dia. X — Qualquer coisa venham me procurar, estarei aqui na aldeia. Também mandem meus cumprimentos para os seus amigos, principalmente para o homem de cabelo laranja, nós trocamos muitos conhecimentos.Verônica apertou-lhe as mãos em sinal de agradecimento, de respeito e um gesto de carinho.
V — Eu irei mandar sim. E o senhor será sempre bem-vindo se quiser ir algum dia nos visitar, tenho certeza que meu amigo irá gostar muito de vê-lo. E muito obrigada por salvar Malone, por tudo. Malone estava ao lado de Verônica, parecia mais corado agora, seus ferimentos estavam limpos, curativos muito bem feitos e o rapaz parecia tão feliz que mal conseguia esconder o sorriso em seu rosto. Logo depois que Verônica agradeceu ao Xamã foi a vez dele. N — Acho que Verônica falou tudo o que eu mesmo falaria, mas lhe devo muito mais que um obrigado, lhe devo minha vida e, se eu puder, irei um dia recompensá-lo, tem minha palavra. Devo-lhe também a minha alegria que me enche novamente o peito. Muito obrigado. O Xamã olhou o jovem, também apertando-lhe as mãos e puxando-o para um abraço. X — Meu jovem, você já me retribuiu: fez uma jovem muito feliz e espero que sejam assim para toda a vida. Verônica e Malone se olharam com um sorriso lhes atravessando os lábios e responderam em uníssono. N e V — Será. Logo o casal já estava distante, acenando para o Xamã nos portões da aldeia Zanga e rumando para o lar. V — Ned, você nunca mais irá mesmo me deixar, não é? Nem em uma nave assassina, muito menos em uma viagem sua. Malone sabia que a garota ainda estava um tanto insegura sobre o seu retorno, e ela estava certa. Ele mesmo havia passado tanto tempo longe que nem sequer sabia como seria a reação dos seus companheiros, mas nunca mais a abandonaria, estava indo de volta para a casa, para a sua família, para o seu lar e para ficar para sempre com o seu amor. Ned segura as mãos de Verônica à altura de seu rosto, depositando um beijo em cada mão, olhando-a nos olhos. N — Nunca mais. Eu só serei feliz ao seu lado, Verônica. Você é como se fosse uma parte minha ou eu sou uma parte sua. Eu não tenho uma aliança como John, mas eu só irei para onde você for, por toda a minha vida. Eu te entrego todo o meu amor. Você aceita?Verônica sorri, um sorriso puro, que descrevia toda a sua beleza e felicidade. V — Eu não preciso de aliança, Ned. Tudo o que eu preciso é de você ao meu lado e, se isso eu já tenho, se está me entregando o seu amor, então eu não preciso de mais nada. Claro que aceito. Agora vamos para casa; estou tão feliz por estar de volta, os outros precisam saber. Malone balançou a cabeça, eles estavam juntos, finalmente. N — Mal posso esperar para rever todos e para lhe mostrar meus diários. Passei por vários lugares onde nunca nos arriscamos ir, vários povos; você irá passar dias lendo, Verônica, e eu estarei com você para te contar e para evitar qualquer dúvida que tiver. Ah sim, também quero anunciar logo mais que estamos juntos, estou tão feliz, eles têm que saber! E bem, eu quero saber dessa aliança do John. Será que é para Marguerite? Aqueles dois juntos, finalmente, será? Iriam transformar a casa da árvore em um campo de guerra. Verônica sorri da colocação do jornalista, principalmente sobre John e Marguerite; ambos haviam mudado muito, brigavam bastante, mas não pareciam mais os mesmos, parecia que algo entre eles estava evoluindo, estavam mais próximos, sem falar de duas ou três vezes que viu um saindo do quarto do outro. V – Ned, eu não apostaria nisso... acho que mudaram muito. Aconteceram algumas coisas que fizeram com que todos nós mudássemos; te conto no caminho ou quando estivermos em casa. Mas acho que os dois estão pensando em algo mais sério do que seus jogos de gato e rato. Malone se surpreendeu com o comentário da garota, torcia para que um dia John conseguisse alcançar o coração daquela mulher misteriosa e letal, como ele mesmo pensava, mas achava ser impossível. N — Essa eu quero ver… Bem, vamos andando, estou ansioso para saber tudo o que aconteceu, terei que escrever tudo em meus diários. Irei relatar tudo. V — Algumas coisas não mudam… Mas vai precisar de pelo menos um diário inteiro. N — Nossa! Tudo isso? Bem, eu devo ter bastante folha em branco. V — Tudo isso e mais. Você perdeu muito coisa, Ned. Agora vamos. Estou ansiosa. N — Eu também. Não vejo a hora. –--------------------------------------------------------------- Passava das 16 horas, na casa da árvore estava tudo quieto. Roxton há um tempo já havia percebido que a morena estava dormindo em seu ombro; ele mesmo já havia deixado a leitura de lado, apenas observava a chuva que agora caía lá fora, ouvindo a melodia que ainda tocava no gramofone e, claro, de vez em quando observava qualquer movimento de Marguerite, embora ela parecesse totalmente relaxada, talvez pelo cansaço. Um barulho no elevador cortou todo esse silêncio, também despertando Marguerite de seu sono. Ainda deitada no ombro de John, bocejando e se espreguiçando, ela pergunta: M — Quem chegou, John? Está cedo para ser o Challenger, não está? John inclina sua cabeça por cima do ombro; sim, era o Challenger, mas seu irmão também estava lá, e ele não contava encará-lo novamente tão cedo depois daquela discussão. William, por sua vez, estava de costas, guardando suas coisas. J — É o Challenger sim. Marguerite percebeu o tom seco de John e sabia o que significava, era William. Challenger não tinha conseguido levá-lo embora. Logo ela estava se afastando de John e levantando-se. M — Challenger não está cedo para estar de volta? Challenger estava depositando o seu chapéu no cabide próximo ao elevador; William, ao seu lado, agora virado de frente, podia ver John na cadeira próxima a varanda e Marguerite em pé com uma das mãos apoiada na cadeira, a aliança agora era vista nitidamente. C — Eu, bem… Minha cara, eu… o teletransportador, você precisa entender. William viu a dificuldade que o cientista sentia, não que ele estivesse com medo da herdeira, mas estava apreensivo e nervoso, muito nervoso por sinal. Acabou intervindo; era a sua deixa para saber se havia algo entre ela e seu irmão e ele tinha que saber, não iria perder a oportunidade. Além disso, sabia o quanto John odiava quando ele dava em cima de suas namoradas e aventuras quando jovens e o quanto o caçador perdia o controle nesses momentos. W — Ora, se não é a nossa bela e estonteante Senhorita Krux. Acredito que o que o professor está querendo dizer é que, infelizmente, sua aparelhagem explodiu. Na verdade, acho que sobrecarregou depois da última viagem e acabou explodindo quando tentou me levar embora, assim como fechou a brecha que nos permitia entrada e saída da caverna. Acho que isso me prende mais tempo aqui com vocês e, claro, com senhorita. Marguerite estava parada ouvindo cada palavra, sentindo sua raiva pronta para vir à tona e explodir com Challenger por causa de seu erro e com William "ora, quem ele pensava que era para ter tal ousadia"?! Porém, quem estava com mais raiva e ódio que Marguerite era John, ele chegava a apertar uma das mãos no encosto da cadeira, não por Challenger, mas por William; quantas namoradas, mulheres, aventuras havia perdido para seu irmão na juventude. Mas não Marguerite, ela era mais que uma namoradinha, mais do que uma de suas aventuras, ela era sua mulher, sua esposa. E William não ia se intrometer dessa vez. A voz rouca do caçador ecoou firme e forte pela sala, antes mesmo que Marguerite se pronunciasse, até mesmo a assustando. J — Isso prende você por mais tempo aqui mesmo, William, dando mais tempo para acertarmos nossas diferenças, acertarmos o passado e tentando conviver no presente. Você irá ficar conosco sim e, estando sobre o mesmo teto, vamos ter que aprender a conviver civilizadamente e esclarecer algumas coisas. Uma delas é que para você a senhorita ao meu lado é senhorita Roxton. Sim, William, antes que pergunte, ela faz parte da nossa família, é a nova integrante da família Roxton. Nos conhecemos há pelo menos quase 4 anos, mas oficializamos nossa união hoje mais cedo. E, William, conto com o seu respeito. Aliás, exijo o seu respeito visto que agora ela é a esposa do seu irmão, sua cunhada e uma Roxton como tal. William teve a comprovação que queria, mas não contava ser um compromisso de tal magnitude; estava assimilando tudo o que ouvira de John, além de também ter percebido que em se tratando de Marguerite seria um território perigoso a tratar com o irmão, ele provavelmente não hesitaria em protegê-la. Marguerite não esperava pela confissão de John, ou pelo menos não naquele momento; eles iam esperar mais, porém, William talvez tenha ido longe demais. Estava tão parada quanto William, estática; seu rosto tingido por uma cor rosa suave, mas por dentro, ela também se sentia feliz, principalmente por ter ouvido tais palavras do caçador. Challenger, por sua vez, estava sorrindo, estava feliz pelos amigos, mas surpreso também, ainda assimilando tudo o que John havia falado. Quando o cientista conseguiu organizar suas idéias, o que não demorou muito, pois ele já esperava de certa forma pela união do casal, ele foi interrompido pelo som alegre da garota da selva surgindo do elevador e, claro, o jornalista ao seu lado.
Eles estavam prestando tanta atenção no que o caçador dizia, que mal viram quando o casal havia chegado. V — Chegamos. E vocês não vão acreditar quem eu trouxe comigo… Malone!!!Mais espantados ainda do que antes, e agora incluindo John, ambos falaram em uníssono:C, M e J: MALONE??!! Verônica e Malone se entreolharam, não esperavam tal recepção; na verdade, esperavam algo mais caloroso, porém, definitivamente estava acontecendo algo de muito grave ali. V — Nossa, mas que recepção essa de vocês hein… Marguerite olhou para os dois, agora não sabia mais nem o que esperava. M — É… é bom vê-lo, Malone. Espere um instante e logo vou lhe cumprimentar, mas antes eu preciso me sentar, acho que estou começando a ficar velha. Challenger estava tão extasiado quanto Marguerite, havia passado muitas coisas em pouco tempo. C — Minha cara, se você está ficando velha, imagine eu. Não consigo mais passar por tantas experiências em pouco tempo assim. Preciso me sentar também antes que minhas pernas falhem. Ambos se sentaram no sofá, respirando fundo, a expressão pesada, pareciam cansados mesmo. Malone olhou para os dois, até pareciam pai e filha, mas que nunca desconfiassem de tal pensamento. Verônica já não entedia mais nada também; observava o homem parado próximo a mesa, tinha ouvido anteriormente a voz de John, mas não o via – a não ser que fosse ele quem estivesse sentado na cadeira próxima a varanda, mas porque não foi os receber? V — O que está acontecendo aqui com vocês? Quem é esse aí? E porque vocês estão parecendo que viram um fantasma? M – Porque não foi um fantasma. Na verdade, nas últimas horas o Malone é o segundo fantasma, esse aí ao seu lado é o primeiro. Nós dê um pouco mais de tempo e iremos responder a cada pergunta sua ou do Malone, a menos, claro, que ele tem perdido o jeito. Malone e Verônica riram da colocação da morena, de fato, algumas coisas nunca mudavam. E Malone, claro, não podia deixar de responder, mas com uma outra pergunta. N – Não, Marguerite, eu não perdi o jeito. Estou cheio de perguntas para fazer, histórias para contar e escrever, só estou lhe dando um tempo. Mas uma eu tenho que perguntar: quando chegamos ouvimos John pronunciar sobre uma nova integrante da família Roxton, e depois de o Xamã Zanga nos dizer a respeito de uma aliança. Devo imaginar que seja você a nova integrante?
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