Choices
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Nero estava com cinco anos de idade, isso significa muitas perguntas para sua mãe, as quais nem sempre ela conseguia evadir, afinal seu filho tinha uma mente brilhante apesar de ser apenas uma criança e passar boa parte do dia imerso em videogames e internet como boa parte das crianças de sua idade e dar trabalho à sua mãe na hora de desligar os eletrônicos e ir dormir, mas Irene, apesar de aprendiz na arte da maternidade, (e ela suspeita que o nunca deixará de ser) já havia aprendido uns truques para convencer o pequeno a ir para cama sem muita teimosia.
— Nero, hora de dormir. – Irene tentava controlar o tempo que seu filho ficava nos videogames, porém acabava sendo complacente porque a encantava ver o filho se comportando como uma criança normal, Nero frequentemente se comportava como um adulto em miniatura, a mulher culpava seus genes.
— Cinco minutos.
— Se você vir agora, eu conto uma história. – De repente ela tinha toda atenção do filho, que a olhava com profundos olhos azuis, tão parecidos com os de seu pai.
— Você é uma mulher muito esperta. – E lá estava de novo, o adulto em miniatura, claro que ele logo percebeu sua pequena chantagem, se ele escolheria aceita-la seria questão de sorte.
— E você é uma criança muito esperta. – Ela observa enquanto ele desliga o aparelho e se dirige para o quarto. Irene o segue e ajuda a se acomodar embaixo das cobertas.
— Já contei a história do homem do rosto lívido?
— Não mãe. – Nero agora era só um garoto novamente, com olhar expectante ansioso por uma história misteriosa.
— A história começa com dois amigos de guerra na África... – Irene contou sobre James Dodd e Godfrey Emsworth, como James se desesperou com o desaparecimento do amigo e acabou por contratar Sherlock Holmes para encontrá-lo e como Godfrey estava na verdade se escondendo porque acreditava estar com lepra. A mulher esperava que Nero já estivesse dormindo quando terminasse o conto, porém o garoto ainda a olhava profundamente, como se tentasse deduzir algo.
— Como você sabe histórias do Sherlock Holmes que não estão no blog do doutor Watson? – Irene se repreende mentalmente, claro que seu filho, fã de histórias de detetives e com acesso a internet, havia encontrado o blog do doutor.
— Bem... – A mulher considera suas opções, não parecia vantajoso nem agradável mentir ao garoto. – E Se eu te contar que conheço o senhor Sherlock Holmes?
Nero estreitou os olhos e analisou sua mãe mais um pouco.
— Talvez eu acredite...
— Mister Holmes me ajudou alguns anos atrás. – Irene viu os olhos do filho brilharem e seu coração partiu.
— Por que você nunca me contou?
— Porque eu posso te poupar do meu passado.
— É por isso que nos mudamos tanto? – Nero não nega sangue realmente, a mulher sabia que ele não gostava nada de se mudar o tempo todo, ele acabava sempre sendo o aluno novo, e tinha dificuldade em fazer amigos, e não via porquê fazê-los se acabariam se mudando novamente.
— Sim. – Ela responde em seco na tentativa de deixar o assunto morrer, mas o garoto não permite.
— Você está no blog? – A esse ponto Irene já percebeu que seu filho não só sabia a resposta da pergunta, como já havia deduzido que ela era “a mulher” Irene Adler, por sua sorte não há muitos detalhes do seu caso no blog do doutor, graças a assuntos confidenciais do governo (ela se recusava a pensar que era graças a Mycroft Holmes)
— Sim. – Ela podia ver as engrenagens na cabecinha de Nero, tentando associar o que havia no blog com o que ela confirmou.
— Qual sua relação com ele? – A mulher respirou fundo, esperava que ele chegasse a essa conclusão algum dia, mas não imaginou que seria tão cedo.
— Tudo bem... Ele é seu pai Nero. – Não havia sentido em mentir ou tentar adiar o inevitável, o menino nem ficou surpreso.
— E ele não sabe que eu existo?
— Não. – Havia um nó se formando na garganta da ex-dominatrix.
— Por que? – Nero começou a mostrar sinais que estava chateado.
— Bem... como você apontou, eu não posso voltar a Londres, tenho muitos inimigos lá, e Sherlock não poderia sair de Londres, aquela cidade é a vida dele. Ele não sabe sobre você porque ele também tem sua cota de inimigos. E eu não poderia colocar sua vida em risco. – Ela termina com um sorriso e bagunçando seus cachos na tentativa de reanimar o garoto.
— Você nunca quis ser mãe. – Não era uma pergunta, Irene expirou machucada, seu coração apertou, isso foi súbito. Nero percebeu que quase levou sua mãe as lágrimas então completou:
— Tudo bem, mesmo, deve ter sido difícil para você. – Ele abraça Irene sentada na cama, ela acaricia sua cabeça em seu colo e deixa escapar uma lágrima. Eles ficam assim por vários momentos, até a mulher quebrar o silêncio.
— Eu nunca tinha pensado em ser mãe, verdade, por isso as vezes não sei o que fazer, ou como lidar com algumas coisas, mas eu dei sorte, já que você é tão inteligente.
— Você não fica atrás. – Os dois riem levemente antes de cair em um silêncio confortável, quem quebra dessa vez é Nero.
— Sabe, você tinha outras opções... não precisava ficar comigo. – Outra brutal verdade vinda do garoto.
— Quando eu descobri estar grávida não me permiti considerar as opções. Pensando nisso agora, acho que eu me sentia sozinha... nunca no mesmo lugar por muito tempo, nada fixo. Motivos egoístas, verdade, mas você mudou isso bem rápido. – Ela finalizou com um beijo nos cachos do menino, e se levanta, porém, antes de sair Nero chama:
— Mãe. – Irene se volta para o filho. – Você está se saindo bem.
A mulher ri leve sabendo ter feito a escolha certa.
— Obrigada.
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