Choices

4 Capítulo 4


Notas iniciais
Desculpe não ter postado antes, eu estava com o capítulo pronto para postar na sexta, mas achei que tudo estava acontecendo muito rápido. Então deletei e fiz outro.
Esse foi um dos motivos da demora.

A música é Night and Day,cantada por Ella Fitzgerald. Eu coloquei a letra só para vocês saberem o que acontecia em cada parte da música, mas apesar da letra ser ótima, não é tão relevante para o capítulo, é mais a melodia mesmo. Então se puderem ouvi-la, eu acho legal.

Espero que gostem.

Uns bons minutos se passaram, e a temperatura da água já tinha passado de agradável para fria, quando Rachel decidiu sair da banheira.

— Eu vou me levantar para pegar aquela toalha, – Rachel apontou para a tolha no suporte que se encontrava acima da sua cabeça e um pouco para a esquerda. – eu vou confiar em você. Feche os olhos e nem pense em abrir.

— Você quase me ofende assim. Eu sou uma lady, jamais abriria meus olhos para te espiar ou olharia entre as frestas dos meus dedos. – Ela fez cara de desdém e fechou os olhos enquanto sacudia as mãos para tirar o excesso de água antes de levá-las ao rosto.

Quinn ouviu e sentiu a água da banheira se agitar com o movimento de Rachel se levantando. Por dois segundos, não mais que isso, ela pensou em espiar a morena, mas não teve coragem. Normalmente não perderia a chance, mas não queria que Rachel pensasse que não poderia confiar nela.

— Pronto, pode olhar. – Rachel já estava enrolada na toalha. — Eu vou para o quarto me trocar e vou achar algo para você vestir. Não saia daí, eu não quero que você molhe o banheiro todo.

— Só não demore, ou amanhã a notícia nos jornais será “Futura estrela da Broadway mata amiga de hipotermia”. – Rachel sorriu e disse:

— Então vamos evitar isso. Tente não morrer no meu banheiro.

Quinn sorriu e viu Rachel caminhar em direção à porta. Antes que se desse conta, estava com os olhos vidrados e uma gota de água que descia pelo pescoço da morena fazendo seu caminho pelos ombros da garota.

Algum tempo depois Rachel estava de volta com uma tolha e roupas nas mãos.

— Peguei emprestado um pijama do meu pai, acho que você ficará mais confortável assim. Depois que se trocar eu coloco sua roupa na máquina.

— Obrigada. – Vendo Rachel parada e olhando para ela, Quinn continuou a falar. — As regras de não espiar a nudez alheia valem para você também, você poderia dar licença? – Rachel sorriu, balançou a cabeça e saiu.

— Você pode me emprestar um par de meias? Não quero ficar de pijama e botas. — Quinn já trocada, perguntou a Rachel que esperava por ela sentada na cama.

— Na terceira gaveta daquela cômoda tem, pode pegar. – Rachel disse apontando para o móvel, levantou-se e pegou as roupas molhadas das mãos da loira. – Eu vou levar isso aqui lá para o porão e você pode me esperar na sala.

— Tudo bem, só vou colocar as meias e desço.

Conforme o prometido, Quinn desceu para esperar Rachel na sala. Enquanto esperava, ela observava os porta retratos espalhados pelo cômodo com as fotos da família Berry. Algumas fotos em particular a fizeram sorrir, como a foto de Rachel ainda bebê dormindo sobre o peito de Leroy que lia deitado no sofá, ou a de Rachel sorrindo para a câmera de olhos fechados sem os dois dentes da frente. E foi olhando as fotos que ela chegou a uma estante cheia de discos de vinil, tudo muito organizado e bem catalogado.

Rachel estava colocando as roupas de Quinn para lavar, e acabou se perdendo em seus pensamentos sobre as coisas que haviam acontecido naquela noite tão atípica. Ela começou a sorrir e nem se deu conta disso. De repente ela foi tirada de seus pensamentos por Quinn gritando:

— Meu Deus! Rachel vem aqui.

— O que foi? – A morena disse ofegante após subir as escadas correndo

— Não acredito que seus pais tem esse disco! – Ela tinha no rosto o sorriso de uma criança que ganhou o que queria na noite de natal e nas mãos o disco Ella Fitzgerald Sings Cole Porter Songbook Vol. 2.

— Quem não acredita sou eu, se o seu objetivo hoje é me matar, parabéns, você está quase conseguindo. — Rachel falou colocando uma das mãos na testa. – Estou até suando frio.

— Não entendi, por que o drama? –Quinn tinha uma expressão confusa no rosto.

— Do jeito que você gritou, achei sei lá... que você tivesse se machucado, ou fosse uma barata, não sei.

— Não foi minha intenção te preocupar. – Quinn falou com um leve sorriso. — Mas se eu tivesse me machucado eu teria gritado ai, se fosse uma barata, eu não teria falado nada, teria matado.

— Você não tem medo de baratas? –Rachel perguntou com cara de nojo.

— Não. Barata é um bicho desse tamanho – Quinn mostrou com os dedos o tamanho do bicho. – Meus sapatos são maiores que isso.

— Chega de falar dessa coisa asquerosa. Por que de tanta felicidade com esse disco? – Rachel estava mais calma agora.

— Adoro as composições Cole Porter, cantadas por Ella Fitzgerald, é melhor ainda. Posso escutar uma musica? – Quinn perguntou com olhos de suplica para Rachel, e continuou falando antes que a morena respondesse. – Prometo te proteger de todas as baratas em território nacional.

— Claro que pode. — Rachel estava espantada com o gosto musical da garota, mas resolveu não comentar nada.

Quinn foi até o toca discos na mesma estante, ligou o aparelho, colocou o vinil, e olhou na contra capa para ver qual era a faixa.

— Faixa onze, deve ser essa. — Quinn resmungou antes de abaixar a agulha do aparelho. A musica começou a tocar e ela resmungou novamente – Não, não é essa. – Ela se voltou para o aparelho novamente para trocar a agulha de lugar.

O ruído característico do vinil que antecede a música começou a encher a sala, então o som do bumbo da musica começou, Quinn virou-se na direção a Rachel que estava parada no espaço que separa a cozinha da sala de estar, e começou a mexer os ombros no ritmo da música. Rachel observava tudo com um sorriso enorme no rosto.

Quando Ella começou a cantar, Quinn começou a mexer a boca dublando a cantora e começou a andar na direção de Rachel.

Like the beat beat beat of the tom-tom

When the jungle shadows fall

Então a música falou do tic tac do relógio, Quinn juntou suas mãos ao corpo e começou a balançar seus dedos indicadores de um lado para outro.

Like the tick tick tock of the stately clock

As it stands against the wall

Quando a música começou a falar sobre os pingos de chuva, ela começou a dar pequenos pulos na direção de Rachel.

Like the drip drip drip of the raindrops

When the summer shower is through

A loira deu dois rodopios e se aproximou de Rachel que ria muito. Quinn estendeu a mão para Rachel tirando a garota para dançar, Rachel sinalizou que não com a cabeça. Mesmo assim, Quinn pegou sua mão puxando-a para perto. Com o impacto dos corpos Quinn parou de dublar a música e engolir seco.

So a voice within me keeps repeating you, you, you

Rachel ergueu os olhos até encontrar os de Quinn, uma sorriu para a outra e quando a banda toda entrou na música, a loira começou a conduzir a dança.

Night and day, you are the one

Only you beneath the moon and under the sun

Whether near to me, or far

It's no matter darling where you are

I think of you

Night and day, day and night, why is it so

That this longing for you follows wherever I go

Elas dançavam como nos filmes musicais das décadas de trinta ou quarenta, com muitos rodopios, utilizando todo espaço livre da sala e sem tirar os olhos uma da outra.

I think of you

Night and day, day and night, why is it so

That this longing for you follows wherever I go

In the roaring traffic's boom

In the silence of my lonely room

I think of you

Night and day, night and day,

As duas riam muito até que uma voz as assustou:

— O que está acontecendo aqui? Por que você está com meu pijama? – Hiram perguntou sorrindo.

Elas olharam para eles como se tivessem sido pegas fazendo algo errado. Após alguns segundos, Quinn andou até onde os homens estavam e disse:

Under the hide of me

There's an oh such a hungry yearning burning inside of me

And this torment won't be through

— Depois a gente explica, essa musica é muito boa para perder, o senhor me dá o prazer dessa dança?- Quinn falou estendendo a mão para Hiram que olhou para ela e Rachel assustado, mas aceitou o convite.

Till you let me spend my life making love to you

Day and night, night and day

Night and day

Under the hide of me

Enquanto os dois dançavam Leroy olhou para Rachel com cara de quem não estava entendendo, Rachel sorriu o que o fez sorrir também.

There's an oh such a hungry yearning burning inside of me

And this torment won't be through

Till you let me spend my life making love to you

Day and night

Night and day.

Hiram não tinha a desenvoltura de Rachel, mas era um bom dançarino. Quando a música acabou e eles se separaram e foram aplaudidos por Leroy e Rachel. Os dois agradeceram os aplausos fazendo reverências.

— Você dança muito bem Quinn

— Obrigada Sr. Berry.

— É Hiram, você pode nos chamar pelos nossos nomes, mas agora vocês podem nos explicar o pijama?

— Quinn molhou as roupas dela no banheiro, e eu tive que colocar na máquina. Achei que ela se sentiria mais confortável com isso, já que vocês tem praticamente o mesmo tamanho. Tudo bem papai?

— Claro, sem problemas! Foi algum cano que estourou? – Hiram perguntou preocupado.

— Não, Sr.... Hiram foi burrice minha mesmo. — Quinn respondeu sem jeito, fazendo todos sorrirem.

— Nós atrapalhamos algo quando chegamos?- Leroy perguntou.

— Não! – As duas responderam juntas. O que fez os dois homens se entreolharem com leves sorrisos.

— Bom, nós vamos subir, estamos cansados. – Hiram falava – Nós já jantamos. Vocês comeram alguma coisa?

— Ainda não. –Rachel respondeu.

— Vocês poderiam pedir uma pizza. – Leroy falou abrindo a carteira e entregando o dinheiro a Rachel.

— Então, boa noite meninas. – Hiram se despediu dando um beijo em cada uma e Leroy fez o mesmo.

— Quinn, você foi realmente uma ótima parceira de dança. – Hiram falou enquanto abraçava Leroy.

-Melhor que eu? – Leroy perguntou.

— Ninguém é melhor que você. – Hiram respondeu repousando a cabeça no peito do marido.

Leroy o abraçou com muito afeto e beijou — lhe o topo da cabeça. Eles disseram boa noite novamente e seguiram abraçados em direção às escadas.

Quinn observava toda a cena com um sorriso muito discreto, virou-se para Rachel e disse:

— É lindo.

— O que?

— O que eles tem. Toda essa atmosfera de respeito, companheirismo... amor.

— Não sabia que você é do tipo romântica. – Rachel falou fingindo surpresa.

— No fundo isso é o que todo mundo quer, alguém que respeite e complete para envelhecer junto. Até mesmo as pessoas que não admitem ou não sabem, no fundo querem. – Agora Rachel estava realmente surpresa.

— E você Quinn, o que você quer? – Rachel séria quando perguntou.

— Eu? – Quinn sorriu — Eu quero pizza, estou morrendo de fome.

— Você é muito ardilosa. Vou pedir uma vegetariana pra gente. – Rachel falou sorrindo.

— Como vegetariana? Eu não sou vegetariana. – Quinn sorria.

— Mas eu sou. – Rachel estava um pouco espantada.

— Mas eu sou visita. Você não pode me forçar a comer uma pizza com gosto de sola de sapato. – Quinn falou franzindo a testa.

— Não tem gosto de sola de sapato, tem gosto de vegetais.

— Foi o que eu acabei de dizer! — Quinn falou abrindo os braços.

— Sua consciência não pesa por comer esses pobres animais? – Rachel falou estreitando os olhos.

— Eu não vejo como animal. Como a maioria das pessoas eu vejo como carne, eu olho para um bife e vejo um bife, uma coisa suculenta e deliciosa que eu adoro. Eu só me lembro que era uma vaca, quando pessoas como você me lembram disso.

— Isso é muito cômodo, não pensar na carnificina que pessoas como você provocam todos os dias. Além de matar animais faz mal para o seu organismo, se você comesse mais vegetais iria ver o quanto sua saúde e sua disposição melhorariam.

— Mas eu como, só que na pizza tira toda a diversão.

— Pelo jeito isso não vai levar a gente a lugar nenhum. Eu não vou comer carne só por que você quer uma pizza divertida. – Rachel estava começando a ficar irritada.

— Isso nem passou pela minha cabeça, eu respeito sua opinião. Eu pensei em pedir meio a meio.

— Minha parte faria contato com o inimigo, eu não comeria.

— Você come queijo?- Quinn perguntou meio pensativa.

— Sim.

— O que você acha de mussarela com muito molho de tomate?

— Para mim está ótimo! – Rachel falou sorrindo

— Para mim também. – Quinn sorriu também.

— Então, você pode pedir a pizza? Eu vou ver como estão suas roupas.

— Tudo bem, onde está o número?

— Naquele caderno preto embaixo do telefone. – Rachel falou apontando para o objeto.

Quinn pegou o telefone e Rachel desceu para o porão.

Rachel sentou — se em um dos degraus da escada, foi aí que as comparações começaram. Ela nunca tinha estado com alguém que discutisse o prato que comeriam até chegarem a um consenso. Geralmente com Finn e com os outros rapazes com quem eventualmente saía, ela escolhia o restaurante e o que iriam comer. Era diferente estar com alguém que a respeitasse, mas que não se anulasse só para agrada – la. Era bom.

Logo ela se lembrou do motivo por que Quinn estava lá, levantou-se e foi ate a máquina e viu que tinha feito besteira. Subiu e falou para Quinn com cara de quem fez arte:

— Você ficaria muito brava se eu dissesse que ao invés de colocar sua roupa na secadora, coloquei na maquina de lavar?

— Não, é só colocar na secadora. – Quinn falou com um sorriso leve.

— E se eu disser que eu coloquei no ciclo de molho, e sua roupa está cheia de sabão, e vai demorar um pouco. – Rachel mantinha a mesma expressão no rosto.

— Então nós temos um problema, porque eu vim para cá a pé. Você vai ter que me levar em casa ou me agüentar aqui por um bom tempo. – Quinn intensificou o sorriso.

— Dirigir agora? – Rachel falou com muito desanimo.

— Agora não, depois que a pizza chegar, ou você acha que eu não vou esperar a pizza da discórdia? – As duas riram.

— Você poderia dormir aqui, tem o quarto de hospedes. Você ficará confortável. – Rachel nem se deu conta, quando viu já havia falado.

Quinn pensou em recusar, mas ela sentiu algo estranho como se não pudesse sair dali. Ela pensou por alguns instantes, sorriu e disse:

— Tudo bem, eu aceito o convite, mas eu tenho uma idéia. Você tem colchão inflável ou saco de dormir?

Rachel inclinou um pouco a cabeça para o lado e franziu a testa diante da pergunta, mas sentiu um alívio no peito quando Quinn falou que ficaria.

Elas foram surpreendidas pela campainha, a pizza havia chegado.

O céu estava limpo e estrelado. A noite estava um pouco fria. No jardim da casa de Rachel era possível ouvir alguns cochichos e ver a luz de duas lanternas na grama.

— Não acredito que concordei com isso. – Rachel falou em um tom de voz quase normal.

— Shhiiiuu... Você vai acordar seus pais. – Quinn falou quase em um sussurro.

— Eles estão acordados, eu tive que perguntar onde estavam essas coisas.

— Eu falei para você que provavelmente estavam na garagem. – Nesse momento Quinn parou de andar. – E a sua garagem... que medo.

— Por quê? – Rachel falou parando também.

— Sua garagem é separada por sessões. As caixas separadas por datas, com nível de importância de conteúdo e em ordem alfabética. Tanta organização assusta.

— Organização sempre é bom. Se as outras garagens não são assim, deveriam ser. Agora sobe.

Quinn começou a subir a escada que dava para a casinha da árvore e Rachel subiu logo atrás. Elas subiram toda a tralha e encheram o colchão de solteiro. Estava tudo pronto para que se deitassem, quando Rachel falou:

— Quinn, você acha isso boa idéia? E se aparecer um bicho? — Rachel falou olhando para os lados.

— Se aparecer um bicho, a gente usa um dos dois inseticidas que você trouxe ou aquela raquete de tênis. Aliás, eu não entendi a raquete.

— É só por precaução, alguém pode aparecer. Nunca se sabe.

— Quer dizer que se aparecer uma bandido, você vai chama-lo para uma partida? – Quinn falou sorrindo.

— Folgada! – Rachel fechou a cara. – Melhor a gente deitar antes que eu desista.

— Então eu fico no saco de dormir e você no colchão.

— Nada disso. Como você mesma disse você é visita, você fica no colchão.

— Estou achando que essa conversa vai longe. – Quinn ergueu as sobrancelhas e comprimiu os lábios.

— É só você parar de ser teimosa e deitar. – Rachel sorria.

— Eu não sou teimosa, você que está teimando comigo. — A loira sorriu também. – Então vamos dormir as duas no colchão.

— Acho melhor não.

— Por que não? Se você está achando que eu vou te atacar durante a noite, fique tranqüila. Ou será que sou eu quem está correndo perigo?

— Sei que isso vai te decepcionar, mas não. Você não corre perigo. — As duas sorriram.

Quinn deitou-se e falou. – Então nada impede, pode vir. – Ela bateu com a mão no espaço que tinha reservado para Rachel se deitar.

Rachel se rendeu ao sorriso encantador de Quinn e deitou – se ao lado da garota.

Elas se deitaram uma de frente para outra, com sorrisos leves nos lábios.

— Nem te perguntei, você avisou sua mãe? – Rachel perguntou tentando agir normalmente.

— Ela não está em casa, está na casa do namorado. – Quinn tentava fazer o mesmo que Rachel.

— Sua mãe está namorando?

— Está. Esse é o primeiro namorado que ela arruma desde que se separou.

— Eles estão juntos a muito tempo?

— Já faz algum tempo, estão até falando em casamento. Se isso acontecer minha mãe entra para a realeza.

— Não entendi. Como realeza – Rachel demonstrou confusão.

— Promete que não vai rir?

— Prometo.- A morena estava mais confusa ainda.

— Minha mãe está namorando o rei das perucas de Ohio. – Após ouvir essas palavras Rachel não se conteve e começou a gargalhar. – Todo mundo tem essa reação quando eu conto. – Quinn foi contagiada pelos risos da garota e começou a rir também.

— Desculpa, mas é engraçado. – Rachel falava ainda rindo. – Como alguém se torna rei das perucas?

— Sabe que eu nunca perguntei, mas é algo que também me intriga. – As duas riram até que Rachel disse:

— Sem querer ser chata. A conversa está ótima, mas tem certeza que quer dormir aqui?

— Tenho certeza que se resolvermos essa nossa frustração de nunca termos feito isso na infância, vamos nos poupar de gastar milhares de dólares com anos de terapia. – Como de costume, começaram a rir novamente.

— Ainda acho que não vou conseguir dormir. – Rachel falou.

— Eu posso te contar uma historia se você quiser.

— Eu iria adorar, faz tanto tempo que ninguém me conta uma história. – Rachel estava muito empolgada.

— Era uma vez, numa terra muito, muito distante. Lá nas profundezas do inferno, um demônio chefe. — Rachel achou estranho, mas não disse nada.- Esse demônio tinha uma filha, uma linda menina chamada Santana... – Agora Rachel não se conteve e começou a rir muito.

Ao ver Rachel se contorcendo de rir, sob a luz fraca do pequeno lampião que as iluminava, Quinn perdeu- se em seus pensamentos. Nunca havia se sentido tão próxima de casa como agora.

Santana costumava dizer que só existiam dois lugares em que ela se sentia em casa, um era nos braços de Brittany, o outro era Las Vegas. Pela primeira vez, ali deitada ao lado de Rachel, Quinn entendeu exatamente o que Santana queria dizer.

Era como ser um turista e poder viajar o mundo todo, e apesar de ser bem acolhido, poder ver coisas novas e as vezes não ter vontade de partir. Nada se compara a sensação de poder tirar o peso da bagagem das costas e sentir o cheiro familiar. Saber que realmente chegou ao lugar a que pertence. Saber que chegou em casa.

Quinn foi tirada de seus pensamentos pela voz de Rachel:

— Quinn você está me ouvindo? Eu te perguntei como você pode falar assim da sua amiga.

— Claro que te ouvi Rach. – Quinn deu um sorriso com o canto dos lábios. – Não é nada de mais falar assim dela. Ela adora ouvir essa historia.

— Quer dizer que essa não é uma historia exclusiva? – Rachel se fez de ofendida. – Assim eu não quero. Tem que ser uma exclusiva ou um clássico.

— Como você é exigente! Tudo bem. O que você acha de uma sobre o rei das perucas? – E mais uma vez as duas começaram a rir novamente.

No quarto dos pais de Rachel, Leroy e Hiram conseguiam ouvir quando elas se exaltavam nas risadas, mas não sobre o que riam.

— Você já tinha visto os olhos dela brilharem daquele jeito ao olhar para alguém? – Hiram perguntou.

— Nunca. Tenho medo que ela se machuque. — Leroy parecia preocupado.

— Quinn parece ser uma boa garota.

— Sim parece, mas não se esqueça do por que ela esta atrás da nossa menina.

— Me pareceu que nem elas lembram dessa aposta quando estão juntas. – Hiram sorriu para o marido.

Na casinha da árvore os risos continuaram. Quinn não conseguiu contar uma historia para Rachel, porque a morena toda hora interrompia e elas acabavam se distraindo com outros assuntos.

Foi assim que elas conversaram até dormir.

Na manhã seguinte, os corpos estavam colados um ao outro em forma de concha. Quinn tinha o braço direito embaixo do pescoço de Rachel, e os dedos dessa mão entrelaçados a mão direita da morena. Seu braço esquerdo repousava sobre o abdômen de Rachel, e sua perna esquerda estava sobre as pernas da garota, que dormia com sua mão esquerda sobre a coxa de Quinn.

Essa posição ocorreu durante a noite, sem que elas percebessem, foi natural e instintiva.

Quinn foi primeira a começar a acordar. Ela roçou o nariz no pescoço de Rachel e a puxou contra o próprio corpo. Sentindo a movimentação atrás de si, Rachel comçou a despertar e abriu os olhos. Olhou para o teto, e por alguns segundos não reconheceu onde estava. Virou a cabeça e viu Quinn que também abria os olhos devido a sua movimentação.

— Bom dia! – Rachel disse entre um bocejo e uma tentativa de se espreguiçar.

— Bom dia! – Quinn respondeu antes mesmo de se dar conta de quem estava deitada com ela.

Ficaram na mesma posição por mais alguns segundos, e quando se deram conta do que estava acontecendo, trataram logo de se soltar.

— Você dormiu bem? – Quinn perguntou tentando quebrar o clima estranho que havia se formado.

— Muito bem, e você? – Rachel tentava fazer o mesmo.

— Bem também. Será que minhas roupas estão secas? – Quinn perguntou se levantado rapidamente.

— Agora devem estar. — Rachel demonstrava um pouco mais de naturalidade agora.

— Então vamos pegar, preciso ir para casa. – Quinn ainda estava desconfortável.

Rachel ficou decepcionada, respirou fundo e disse: — Claro.

Enquanto caminhavam até a casa, Rachel falou que não era preciso que Quinn a ajudasse arrumar nada, que ela daria conta sozinha. Parecia que o que ela queria mesmo era se ver livre da loira. Quinn percebeu, e decidiu não contrariar.

Ao chegarem à cozinha, encontraram Leroy que ainda tomava café da manhã.

— Bom dia meninas. – Ele disse com um enorme sorriso no rosto.

— Bom dia. – As duas responderam e Rachel foi em direção do pai para beija-lo enquanto Quinn parou e ficou observando a cena.

— Já volto, vou pegar suas roupas. – Rachel falou e desceu para o porão.

— Sente-se Quinn, coma alguma coisa. – o homem disse todo gentil.

— Obrigada, mas eu não como logo que me levanto, tenho que escovar os dentes antes e esperar um tempo para tirar o gosto de creme dental da boca.

Leroy sorriu e disse:

— Engraçado, a única pessoa que eu conheço que também faz isso é Rachel. – Quinn deu um leve sorriso ao ouvir as palavras de Leroy.

— Aqui estão Quinn. – Rachel falou entregando – lhe as roupas. – Você pode se trocar no meu quarto.

Enquanto Quinn subiu para se trocar Leroy e Rachel ficaram em silêncio. Ela voltou e Rachel a acompanhou até a porta.

— Obrigada pela noite, ela foi.... interessante. – Quinn não sabia ao certo dizer como a noite havia sido. – A gente se fala. Precisamos nos encontrar em um lugar que não seja sua casa.

— Tudo bem, me liga. – Rachel disse de forma seca, o que fez Quinn tirar do rosto o leve sorriso que tinha no rosto.

Então Quinn partiu pensando por que Rachel estava agindo daquela forma. Não era aquele tipo de relação que tinham tido até ela dizer que ia embora. Isso fez milhões de teorias passarem pela sua cabeça.

Ao fechar a porta, Rachel respirou fundo e foi para junto de seu pai.

— Como foi a noite querida? – Leroy perguntou olhando nos olhos de Rachel.

— Foi boa. – Rachel falou com cara de desdém.

— Pelos risos e gargalhadas que escutei, me pareceu que foi melhor que isso. — Diante do argumento do pai, Rachel ficou calada.

— Você contou para ela? – Ele continuou a falar.

— Contou o que? – Rachel se fez de desentendida.

— Acho que você sabe muito bem do que estou falando, você contou para ela? – Ele tinha agora um olhar de reprovação.

— Pai, eu sei por que ela está aqui. É por causa dessa maldita aposta, então nada sobre minha vida, é da conta de Quinn Fabray. – Rachel estava muito seria. Beijou o pai na testa e subiu para o quarto.

Chegando no quarto Rachel abriu a bolsa que estava pendurada e tirou o celular de dentro. E olhando para o aparelho, se lembrou de ter visto cada vez que o nome de Quinn apareceu na tela e ela não atendeu.

Ao deitar-se na cama, começou a se perguntar por que ela estava fazendo aquilo, afinal ela não devia nada a ninguém para aceitar essa aposta estúpida. Além disso, não era para fazer Quinn correr atrás dela, era para não querer beija-la, e bem lá no fundo ela já não tinha tanta certeza se conseguiria.

Também se fez algumas perguntas como por que ficou tão chateada com a reação que Quinn teve ao se levantarem, quantas já dormiram abraçadas com ela e de quantas ela já tentou fugir de manhã. Detestou se sentir apenas mais uma na lista de tantas que acordaram ao lado da loira.

Sentou-se na cama e pensou em voz alta:

— O que eu estou fazendo?

Foi tirada de seus pensamentos com o celular vibrando em sua mão e sorriu ao ler a mensagem:

Hoje a noite você já tem compromisso. Te pego às 8:00.

Notas finais
E aí, foi bom pra vocês? Ou está devagar de mais?

Achei que a noite da banheira não poderia acabar daquele jeito e que renderia mais alguma coisa. Até que rendeu né?

Esse foi inspirado na faixa 2 do disco citado no capítulo. A música se chama You do something to me. Aliás, foi concebido ao som de muita Ella, muito Ramones, The Killers e Pearl Jam.

Espero a opinião de vocês.

Bejo.