Chofer
1 único
Quatro paredes, um cubo abafado com uma cama de lençóis sujos ao centro, nela dois rapazes nus arfando o ar e com seus membros flácidos. Um era loiro, pelos no rosto e sobrancelhas enroladas. O outro era moreno, tatuagens no corpo e em seus olhos haviam olheiras além da apatia.
O primeiro, Sanji, pegou sua carteira de cigarros da cabeceira para tragar um. O segundo, Law, tinha as mãos sujas por ter passado seus dedos em pontos sensíveis de Sanji, enquanto lhe pedia para não gozar. Uma foda gostosa e agora tentava recuperar os ânimos com a cabeça no travesseiro.
— Sanji. — Murmurou.
— Oi? — O loiro já tinha o cigarro aceso entre os dedos.
— Eu estou namorando.
Embora tivesse um aperto no coração, já esperava por isso um dia, ele sabia que a relação que tinha com Law não era nada profunda. — Uma garota?
— Sim.
— Você a ama?
Law não respondeu e Sanji revirou os olhos.
— Você não ama ninguém. — Se levantou da cama e foi atrás das peças de roupas. — Só não tente machucar o coração dessa garota.
Law fez um gesto desdenhoso com a mão, não aguentava aquela preocupação tola de tratar bem as mulheres. — Você e seu cavalheirismo...
— Ei! Não é cavalheirismo. — Parou de vestir a calça para encará-lo ainda deitado. — Até um ogro lhe diria isso, não brinque com os sentimentos das pessoas como faz comigo.
Terminou de vestir a calça, enquanto a camisa social vestiu indo para fora do apartamento, os sapatos estavam na entrada. Law continuava quieto na cama, e Sanji já estava de terno, ou seja, pronto para ir embora. Mas pensou que deveria dizer mais alguma coisa antes de atravessar a porta. — Não me contate mais! Não tenho tempo a perder com um cara que não assume nenhuma responsabilidade!
Isso feriu o ego de Law, que cobriu os olhos atordoado com o antebraço. Ele sabia que Sanji estava certo.
Ainda que tomava uma metrópole, de arranha-céus, escritórios, anúncios, luzes, carros, taxis, poluição... o céu era preenchido pela lua minguante brilhante, sem nuvens e as estrelas eram mais visíveis do que esperado. Sanji caminhava na calçada sem se importar da multidão ver suas lágrimas caírem de seus olhos azuis, o rapaz sabia que todos estavam com pressa e não davam a mínima pra ele. Por mais que Law tivera deixado claro, Sanji ainda tinha esperanças de que seria sério um dia. E por mais que a culpa fosse desse idiota, só passava pela sua cabeça que devia ter um problema para não ser o bastante. Para não ser um namorado, para não ser apresentável à sua família, para ser amado.
Continuava a andar, até que viu um táxi e fez sinal para parar. Sentou no banco do passageiro e enxugou suas lágrimas imediatamente, embora o taxista ter as notado a tempo. Sanji resolveu puxar um assunto trivial para disfarçar e diminuir o constrangimento.
— Tem feito cada vez mais frio.
Foi só depois que disse isso que percebeu que o taxista aparentava ter sua idade, mas o cabelo verde foi o que lhe chamou de fato a atenção. O aparelho de gps ao lado do volante também.
— Sim, logo será inverno. — Respondeu sem nem ao menos encarar os olhos azuis no retrovisor. — Para onde quer ir?
— Bem... eu queria pular da ponte. — Riu e o esverdeado não demonstrou nenhum traçado de incredulidade. — Me diga... para onde você quer ir?
— Não entendi, senhor.
— Apenas me leve para um lugar que gosta de ir.
O taxista relutou por um instante, mas deu a seta com o fim de voltar para a avenida.
Sanji relaxou no seu banco e observou a cidade: a luz do semáforo vermelho bater no vidro da janela frontal do carro, os rastros de luz que ficavam pra trás quando o taxista seguia por uma certa velocidade. Manchas circulares no horizonte, indicando mais luzes como se fosse infinito. Amava a cidade e andar de carro, mas como Law o buscara, deixara o seu em casa. No entanto, aquele marimo não era nada mal, dirigia até melhor que o cretino do Law.
— Gosto de como dirige.
— Oi?
— É suave e às vezes sinto frio na barriga. Aliás, estamos indo para bem longe, né?
— Quer que eu pare?
— Não, continue... faz tempo que não faço uma boa viagem. — Em seu bolso, o celular vibrava e Sanji tinha certeza que era mais uma notificação de Law. Ele deve ter passado na sua casa e não o encontrou. — Sabe, eu acho que quanto mais longe melhor.
— Ei, eu posso dar uma parada antes? Comprar umas bebidas?
— Mas não está dirigindo?
— Bem, você elogiou o modo como dirijo. E eu já bebi pra caralho até agora.
— Quê?! — Exclamou, incrédulo.
— Ora, vai ficar preocupado com isso? Não tá tarde demais, quando pede pra um estranho te levar pra qualquer lugar?
— É... — Sanji se convenceu, e até achou a linha de raciocínio dele muito boa. — Pode pegar essas bebidas, mas compre pra mim também em troca.
Ele ouviu o marimo soltar um resmungo, pelo visto não gostou da ideia de ter que comprar suas cervejas, mas Sanji apenas riu dele.
— Ora, até que você é divertido!! — Disse em meio a risos.
No entanto, não esperava pela pergunta que o taxista diria a seguir. — Por que estava chorando?
Sanji congelou com a pergunta e parou de olhar para o retrovisor para olhar a janela ao seu lado. — Me envolvi com um cara que não quer nada com nada.
— Hum... sinto muito.
— Não sente! Ande, pisa no acelerador e vamos comprar essas bebidas.
Depois de comprarem as bebidas, o carro parou no destino que Sanji não fazia ideia de qual era.
— Uma praia? — Perguntou absorto, com seus cabelos esvoaçando pelo vento e seus olhos azuis fixo no mar escuro diante de si.
A lua minguante estava mais brilhante, as poucas estrelas que se revelavam na cidade, agora eram muitas. O ar era mais agradável, mas as luzes circulares das cores vermelhas, brancas, azuis e verdes ainda estavam ali, embora não mais no horizonte e sim em volta, bem pequeninas, muito distantes. Mas o horizonte verdadeiro era o completo mar escuro.
— Gosto de vir pra cá depois do serviço. Ser um taxista é sinônimo de que você vai aguentar um engarrafamento pior do que o outro. — Zoro havia acabado de sair do carro e andou até ficar ao lado de Sanji, que já estava na areia.
E foi só naquele momento, que Sanji pôde observá-lo com mais clareza. Era forte, mais alto, bronzeado, diferente... porque parecia desajeitado, bruto, mas passava uma sensação de segurança. Sanji notou que demorava a respondê-lo e ficou constrangido por aqueles segundos todos ter “secado” o marimo.
— É verdade! A cidade deve ser estressante pra ti! Eu sempre gostei dela... mas eu acho que se estivesse no seu lugar, eu preferiria vir para este lugar.
— Sobrancelha enrolada. — Chamou Zoro de repente e, quando viu que Sanji o respondeu virando o rosto para si, arremessou uma lata de cerveja para ele pegar.
Por pouco, não caiu na areia. Foi muito repentino e Sanji estava pronto para xingá-lo... ele ouviu certo? Aquele marimo lhe chamou de “sobrancelha enrolada”?
— Meu nome é Sanji.
— É? O meu é Zoro.
Foi nesse momento que se deu conta que não havia perguntando o nome daquele desconhecido.
— “Zoro”?
— Isso.
— Será que você pode me passar seu número?
Zoro tirou do bolso da camisa um cartão, com todos os seus contatos. — Quando precisar de um táxi, é só me ligar.
Bem, não era bem a esse tipo de contato que Sanji se referia. Mas guardou o cartão e abriu a lata para beber, enquanto apreciava o mar. E o marimo ao lado.
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