Chocolate
2 Parte II
Notas iniciais
Eu estava tão irritada, não ficava furiosa daquele jeito tinha muito tempo. Quem aquele professor pensava que era para ser tão arrogante comigo? Ele era um completo idiota!
Claro que me importava com meus filhos, eles eram tudo para mim, mas às vezes as coisas fugiam do meu controle, eu não era imbatível. Mas, não, um cara que nunca me viu na vida antes se achava no direito de me julgar.
Era tão fácil julgar o próximo sem o conhecer de verdade, odiava quando as pessoas faziam isso. Eu era julgada desde nova, fui uma adolescente grávida que não foi à faculdade, fui a garota que quis me tornar confeiteira, fui a mulher que ouvia os outros fazendo piadinhas sobre eu ficar em casa com as crianças enquanto meu marido estava na guerra, o que para elas significava que ele estava por ai me traindo.
— Oliver! — gritei quando cheguei a casa, batendo a porta com força atrás de mim.
— Bella, o que foi? — Laura surgiu a minha frente, parecendo assustada.
— Cadê o Oliver?
— Lá no quarto dele, o Dante está fazendo um trabalho de ciências com o coleguinha dele que mora aqui do outro lado da rua.
— O Oliver tirou uma nota baixa em matemática — disparei para Laura. — Ele não presta atenção às aulas e não faz os deveres de casa, você sempre fala que eles fazem os deveres, Laura! — exclamei nervosa.
Ela franziu o cenho.
— Ele nunca me disse que não estava fazendo os deveres — ela murmurou. — Eu sempre deixo eles fazendo os trabalhos enquanto vou cuidar do jantar, Bella.
— Tudo bem. — Passei a mão por meus cabelos. — A culpa não é sua, é minha que sou uma péssima mãe.
— Querida, você não é uma péssima mãe — Laura falou gentilmente.
— Sou sim, eu deveria estar mais atenta às crianças, mas estou me matando no trabalho e não tenho tempo de checar cada caderno. — As lágrimas voltaram aos meus olhos. — Eu deveria conseguir outro trabalho, um que me dê horário mais fixo, que me permita estar em casa com eles durante a hora de fazer o dever de casa.
— Isabella, você ama o que faz.
— Mas isso está prejudicando meu filho, porque eu não estou aqui para ajudá-lo e ele só tem a mim, ele não tem o pai e eu preciso o ajudar! — Solucei, Laura me colocou em seus braços naquele instante.
— Não se cobre tanto, Bella — Laura falou, afagando minhas costas. — O Oliver apenas tirou uma nota baixa, ele vai recuperar.
— É, talvez, mas eu tive de ouvir do professor dele que era uma mãe relapsa.
— Ele disse isso?
— Não com essas exatas palavras.
— Bom, ele parece um idiota! — Laura me soltou, limpando minhas lágrimas. — Você não é uma mãe relapsa, está apenas atarefada demais e se tem muito trabalho é justamente para dar o melhor para os meninos, o que você ganha de seguro do James é bem pouco e Gerald e eu não podemos ajudar muito financeiramente. — Os olhos dela também estavam marejados. — Por isso você está ai pegando muito trabalho, mas não se ache uma mãe ruim por isso, pois você não é. Sobe e conversa com o Oliver, certo? — Ela sorriu para mim.
Concordei com um aceno de cabeça, subindo até o quarto de Oliver. Não me importei em bater, fui logo entrando. O encontrei deitado de bruços no chão, desenhando o que parecia ser um castelo em um caderno.
— Oliver?
— Oi, mãe! — Ele olhou para mim, sentando.
Caminhei até ele, me sentando à sua frente.
— Falei com seu professor.
Ele engoliu em seco.
— Ele me contou que você não tem prestado atenção às aulas, ou feito seus deveres de casa, quer me explicar isso?
Oliver suspirou, olhando para o chão.
— Você pode ser sincero, ok? Apenas quero que me conte o que está acontecendo.
— É que eu não estava prestando atenção à aula do professor Cullen no primeiro dia de aula dele, porque tava fazendo um desenho, então eu não entendi nada das próximas aulas e fiquei com vergonha de pedir para ele me ajudar.
— Por que ele é um chato? — murmurei, Oliver me olhou surpreso.
— Ele é um pouco chato — confessou. — Muito sério, a minha antiga professora era doce, como você diz que temos que ser com as pessoas, mas o professor Cullen tá sempre com cara de quem vai brigar com alguém.
Ah, aquele homem com certeza não era doce!
— Qual desenho você estava fazendo na primeira aula?
Oliver remexeu no seu caderno, me mostrando um desenho de James com ele.
— Você sente muito a falta do seu pai, né?
Ele assentiu.
— Foi o papai que me ensinou a desenhar, lembra?
— Lembro sim. — Passei a mão por seus cabelos. — E por que você não disse a mim ou a vovó Laura que estava com dificuldades em matemática?
— A vovó Laura já me ensinou algumas coisas erradas antes — ele confessou envergonhado. — Lembra, daquele trabalho de inglês? Foi você quem me ajudou a corrigir.
— É, a vovó não concluiu os estudos dela, ela tem dificuldades também, mas você poderia ter me dito, querido.
— Não queria te preocupar, mãe — sussurrou. — Não queria que você soubesse que sou burro.
— Você não é burro, só está perdido na matéria. — Afaguei seu rostinho, vendo as lágrimas nos seus olhos. — Você sempre pode contar tudo para mim, Oliver. Sei que sente falta do seu pai, também sinto muito a falta dele, mas James não está mais aqui e você, seu irmão e eu temos de ajudar uns aos outros, entendido?
— Entendido.
— Você continua desenhando nas aulas do professor, Cullen?
— É — confessou.
— Isso tem de parar Oliver, você pode desenhar nos fins de semana e por algum tempo antes da hora de dormir, mas não pode desenhar no meio da aula, ok? É errado, tem de prestar atenção ao seu professor, mesmo que ele explique de forma complicada.
— Prometo que vou parar de desenhar na aula, mamãe — jurou. — E minha nota baixa? O que o professor Cullen falou?
— Não foi uma reunião muito boa — admiti. — Talvez eu tenha piorado um pouco as coisas. — Suspirei, pensando na minha tentativa falha de suborno e eu continuava não aceitando o fato daquele homem não gostar de chocolate. — Irei ligar para a diretora da escola amanhã, irei ver o que resolveremos — falei, pois o professor com certeza me entregaria para a direção.
— Tudo bem — Oliver falou. — Eu fiz um desenho do professor Cullen — contou, me pegando de surpresa.
— Você fez?
— É. — Mexeu no caderno, me mostrando o desenho, reconheci o professor diante à lousa, que estava cheia de contas, Oliver desenhava muito bem como James um dia desenhou, o professor Cullen era bonito até por desenho. — Será que eu entrego o desenho para ele?
— Melhor não! — exclamei, pensando em como ele já tinha reagido mal aos chocolates, eu aceitava ter meu orgulho ferido, mas não queria que aquilo acontecesse com Oliver caso o professor dissesse algo grosseiro para ele.
— Ok — Oliver falou cabisbaixo.
Toquei na Dog Tag em meu pescoço, decidindo algo naquele instante. Retirei o cordão, o que chamou a atenção de Oliver.
— Acho que está na hora disso ficar com você. — Coloquei no seu pescoço. — Assim você se sente mais pertinho do seu pai e vai conseguir vencer as dificuldades.
— E você, mamãe?
— Eu tenho você e Dante, vocês são os pedacinhos que James deixou para mim, com os dois junto de mim eu me sinto muito bem. — Beijei sua testa. — Quando seu irmão precisar da Dog Tag, talvez você repasse para ele.
Oliver tocou no cordão, concordando com um aceno positivo de cabeça.
— Amo você, mamãe.
— Também te amo, Oliver.
***
Passei mais algum tempinho com Oliver, mas precisei voltar ao trabalho, para acabar de preparar uma encomenda para o dia seguinte. Eu estava finalizando tudo com Leah, quando Alice surgiu na cozinha chamando por mim.
— Bella, tem um cara lá fora querendo te ver — ela anunciou.
— Bella tem um pretendente? — Rosalie perguntou empolgada.
— Ele é um gato! — Alice exclamou, quase saltitando em seus pés, ela era uma baixinha de vinte e dois anos de idade, com cabelos pretos curtos e olhos acinzentados.
— Eu não tenho um pretendente — falei para Rosalie. — Qual o nome desse homem? — indaguei Alice, sem ter ideia de quem estava querendo falar comigo.
— Edward Cullen.
— Espera, esse não é o professor do Oliver que você estava falando mal meio minuto atrás? — Rosalie questionou.
— É.
O que aquele homem estava fazendo ali? Tinha ido falar mal de mim novamente?
— Por que você não nos disse que ele era bonito? — Leah indagou.
— Não tinha necessidade.
— Claro que tinha! — Leah e Rosalie exclamaram juntas. — Vai lá falar com ele, agora — Rose ordenou.
— Mas...
— Eu ajudo a Leah acabar de embrulhar isso. — Gesticulou para a encomenda. — Vai lá falar com o professor bonitão.
Bufei, saindo da cozinha com Alice me seguindo. Ela parou junto a Jéssica perto do balcão, enquanto eu passava por ele e ia para o pequeno salão da padaria, que aquele horário estaria vazia se o professor do meu filho não estivesse ali, segurando em suas mãos a caixa de bombons que levei para ele mais cedo, que estava amassada nos cantos.
— O que veio fazer aqui? — perguntei entre dentes.
— Quero pedir desculpas, pelo modo como falei com a senhora mais cedo — falou, soando realmente arrependido, o que me fez abaixar um pouco a guarda. — Fui muito grosseiro.
— É, foi sim.
Ele suspirou, olhando para a caixa de bombons em suas mãos, eles ainda estavam lá dentro, intocados.
— Eu devia ter chamado a senhora mais cedo para uma reunião, sobre a falta de atenção de Oliver e ele não resolvendo os exercícios, foi relapso da minha parte esperar tanto tempo — admitiu.
Cruzei os braços na frente do corpo, erguendo o queixo.
— Uma atitude preventiva poderia ter evitado a nota baixa dele.
Assenti.
— É, você está certo, mas talvez eu também devia ter notado que ele estava com problemas em matemática. Oliver me contou que ele não prestou atenção à sua primeira aula, então isso se tornou uma bola de neve de matérias acumuladas e ele ficou envergonhado de pedir ajuda para qualquer um.
— Ele costuma desenhar nas minhas aulas, nunca chamei a atenção dele por isso, também foi um erro.
— Ele aprendeu a desenhar com o pai — contei. — Sente falta de James e sempre desenha quando pode, mas já chamei a atenção dele sobre isso, ele não vai mais ficar desenhando nas aulas.
O professor assentiu, levando uma mão até seu bolso e tirando lá de dentro um cartão, o entregando para mim, era de um tal de Santiago.
— Santiago Martin é um amigo meu, ele dá aulas de reforço em matemática, se você se interessar pode marcar algumas para Oliver. Já falei com o Santiago, ele fará uma promoção para você, irá pagar bem menos do que o convencional e garanto que o Oliver irá aprender.
— Nossa... — murmurei, sem acreditar naquilo. — Obrigada, mas não precisa do desconto. — Não queria que ele pensasse que eu não tinha grana para aulas de reforço, claro que seria uma despesa extra que ia mexer em todas as finanças da casa, mas eu poderia pagar por isso.
— Apenas aceite, senhora Smith — ele pediu. — Eu me sinto culpado por não ter interferido na situação do Oliver antes, isso é o mínimo que posso fazer, se fosse permitido eu mesmo daria aulas de reforço para ele, mas como seu professor na escola isso é proibido. Enfim, ligue para o Santiago, fale em meu nome e ele saberá o que fazer.
— Certo, tudo bem — concordei por fim, olhando novamente para a caixa de bombons na sua mão. — Foi mal, mas como você pode não gostar de chocolate?
Ele riu baixinho, aparentemente ele não tinha só a cara de mau.
— Eu nunca gostei, como já lhe disse antes. — Estendeu a caixa de bombons para mim, eu a peguei sem protestar. — A jogou no lixo, mas ele estava vazio, acredito que dê para comer sem problema, meu pai diria que largar chocolates no lixo é um absurdo.
— Seu pai tem razão, talvez eu devesse mandar a caixa para ele — brinquei.
— É, ele está morto — o professor sussurrou e a compreensão tomou conta de mim naquele momento.
— Você não sabia que o Oliver era órfão, sabia?
— Não — admitiu. — Eu pensei que ele era só mais um garoto mimado que faz o que quer com apoio dos pais, sendo certo ou errado. Antes de ensinar na escola do Oliver eu dava aulas em uma escola particular em Londres, todas as crianças eram assim. Os pais não se preocupavam de verdade com os estudos dos filhos, as crianças eram terríveis — murmurou a última parte.
— Olha, sei que errei com o lance de tentar lhe subornar com os chocolates. — Balancei a caixa em minha mão. — Mas, juro que não faço essas coisas, eu sou bem honesta, acho que meu único crime foi essa tentativa de suborno, até porque o meu pai é um policial — desatei a falar. — E meu marido era militar, eu com certeza sou a favor das regras.
Ele deu um sorriso mínimo.
— Tudo bem, prometo não processá-la por suborno.
— Obrigada! — agradeci. — Por ter vindo até aqui ter uma conversa amistosa e por não me dedurar para a direção da escola, com certeza muito obrigada por indicar seu amigo para Oliver poder aprender.
— Eu irei auxiliar Oliver na escola também, senhora Smith. Irei ajudá-lo com todas as dúvidas, pode dizer a ele que não precisa ficar envergonhado.
— Talvez você devesse ser menos sério — falei, mordendo minha língua assim que acabei de falar, ele me olhou... Sério. — Quero dizer, você dá aulas para crianças, não pode dar aulas como se estivesse numa faculdade, mas me ignore, estou falando demais.
— Vou levar em conta sua sugestão, senhora Smith.
— Agradeço por isso.
— Mais uma vez, me desculpe por ter falado aquelas coisas lá na escola, foi muito indelicado da minha parte. Você com certeza não é o tipo de mãe que não preocupa com seus filhos.
Sorri timidamente para ele.
— Como você sabia onde me achar mesmo? — perguntei.
— Na embalagem diz Swan. — Apontou para a caixa de chocolates. — E como Oliver é Oliver Swan Smith e você me disse que tinha feito os chocolates, deduzi que a encontraria aqui.
— É claro. Posso te oferecer algo? Talvez algum doce sem chocolate? Ou algo salgado, quem sabe.
— Isso é uma nova tentativa de suborno?
— O quê? Não! — Ele riu, me fazendo perceber que estava brincando comigo. — Não foi engraçado.
— Foi um pouquinho. — Colocou suas mãos dentro dos bolsos de sua calça. — Eu aceito um croissant, se vocês tiverem.
— Temos sim, com certeza! — Me virei para o balcão, me deparando com Alice, Jéssica, Leah e Rosalie olhando para nós dois, elas tentaram disfarçar que não estavam nos espiando, mas foi uma tentativa frustrada, era óbvio o que estavam fazendo. — Jéssica, você pode me ver um croissant? — pedi a ela.
— Posso te ver qualquer coisa, chefinha — ela falou, piscando para mim, indo pegar um croissant.
— Para a viagem? — perguntei para o professor.
— É — ele respondeu, parecendo intimidado com as mulheres que estavam o encarando antes.
— Você ouviu, Jéssica.
— Ouvi tudinho.
— Oi, sou a Rosalie! — minha amiga estendeu uma mão para Edward por cima do balcão. — Eu espero que goste do croissant que fiz.
— Ah, claro, olá. — Edward apertou a mão dela.
— Então, a Bella está encrencada com você, professor? — Rose questionou. — Ela vai receber um castigo?
— Rosalie! — exclamei, sentindo minhas bochechas corando, entendendo perfeitamente a insinuação dela, Edward também pareceu entender, uma vez que pigarreou, olhando para o lado.
— O quê? Não falei nada — ela disse dando de ombros.
— Aqui! — Uma animada Jéssica entregou o croissant para Edward, que fez menção de tirar sua carteira do bolso, mas agi logo.
— Nem pensar, é por conta da casa!
Ele abriu a boca para protestar, mas fui novamente mais rápida.
— Não vou aceitar o dinheiro.
— Certo — ele cedeu.
— Bella, você o convidou para a festa de Páscoa? — Rosalie indagou.
— Ah, você com certeza deveria ir à festa de Páscoa da Bella — Leah se meteu no assunto.
— São as melhores — Alice fez coro.
Eu ia matar todas elas!
— Não, eu...
— Bella, o convide para a festa de Páscoa! — Rosalie ordenou, me lançando um olhar sério. Ela seria a primeira que eu mataria.
— O que acha? — perguntei ao professor. — Todo ano ofereço uma festinha simples de Páscoa na minha casa, se você quiser pode ir e levar um acompanhante.
Ele com certeza tinha uma namorada, alguém tão bonito não estaria solteiro. Não que eu me importasse com o estado civil dele, não era da minha conta.
— Aqui o endereço. — Alice passou um pedaço de papel para o professor antes que ele pudesse falar algo sobre o convite.
— E-Eu — Edward gaguejou.
— Apenas apareça se quiser — declarei. — De qualquer forma, uma Feliz Páscoa desde já.
— Claro, uma Feliz Páscoa para todas vocês — ele falou para as meninas e eu. — Até breve, senhora Smith. — Se despediu de mim com um aceno de cabeça.
— Até! — Acenei para ele, o deixando sair da padaria antes de me voltar para Rosalie e as outras. — O que deu na cabeça de vocês?
— Vocês ficam muito bonitinhos juntos, Bella! — Jéssica exclamou entusiasmada. — E ele é um gato.
— Ele é o professor do meu filho.
— E dai? Ele é professor do Oliver, não seu — Alice disse.
— Mas ser aluna dele não deve ser nada mau — Leah brincou, todas riram, um bando de malucas.
— Bella? — Rosalie me chamou, fazendo com que eu olhasse para ela. — Eu acho que o coelhinho da Páscoa te trouxe um cara.
— Claro que não. — Bufei. — Não fantasiem com isso.
Passei pelo balcão, voltando à cozinha. Apoiei a caixa de chocolates na bancada, ainda pensando em como Edward podia não gostar de chocolate. Era uma afronta, eu com certeza não poderia ter qualquer coisa com um homem que não gostava de chocolate.
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