Chocolate
1 Chocolate
Notas iniciais
Feita no meio da madrugada D: Altas doses de açúcar.
Passou a mão pelo rosto, não sabendo ao certo o que pensar. Encarava a caixa vermelha adornada por uma fita marrom de cetim, seu nome escrito num pequeno cartão ao lado da caixa. Suspirou, decidindo que talvez devesse mesmo ler o cartão, por mais que a última coisa que quisesse ver no momento seria algo relacionado à Reita.
Porque ele era um idiota.Porque ele era um idiota cego, teimoso e frio.E o que mais odiava era que sim, Reita era um idiota cego, teimoso e frio, e mesmo assim...Quer dizer, isso não mudava de forma alguma o fato dele ser um babaca mal humorado. Infelizmente não mudava o fato de que ele podia ser extremamente gentil.Mesmo que tivesse acontecido tudo aquilo de manhã.Naquela manhã, o vocalista havia acordado mais tarde – como sempre – mesmo que ainda tivesse completamente sonolento quando o maldito celular começou a tocar. Ficou encarando por alguns segundos o aparelho, tentando entender porquê por todos os demônios, diabos e youkais existentes em tos os panteões e imaginações infantis, Reita estaria ligando pra ele às nove horas da manhã de um domingo. De folga. - Reita?- Ruki... eu... te acordei?- O que você acha? – resmungou, mal humorado.- Desculpe mesmo. Eu precisava... conversar. Com você.- Comigo? Por que comigo? – não, ele não conseguia raciocinar direito com aquele sono.- Você... realmente está com sono, ne? Eu passo aí mais tarde.- Nah, agora você já me acordou. Eu vou pegar a minha roupa e ir pro banho. A porta vai estar encostada, entra e espera aqui.- .... Certo.Depois de enrolar mais cinco minutos na cama, o pequeno vocalista foi até a sala, destrancando a porta do seu apartamento, pegou uma troca de roupa e foi para o banheiro. Deixou a água quente acordá-lo, enquanto tentava pensar.Reita querendo conversar com ele num dia de folga. Num dos malditos dias de folga que Ruki nunca sabia se agradecia ou amaldiçoava.Afinal, era um dia em que ele não tinha que olhar pra cara de Reita.Não tinha que fingir ser mais um amigo.Não tinha que se machucar mais um pouco.Não tinha seus minutos para olhá-lo enquanto afinava o baixo ou fazia alguma piada com Uruha – que só entendia depois de uma longa explicação de Sakai.Muito provavelmente ele viria falar da outra noite. Huh. Isso sim seria um problema. Mesmo que tivesse sido um simples toque. Um mero roçar de lábios. Fruto do álcool – que ele sequer havia tocado. Mas o que poderia dizer em sua defesa?Sabia que o baixista era babaca o suficiente pra nunca sequer sentir alguma coisa por ele. Ou pra esconder e negar isso, mesmo sobre todas as torturas medievais conhecidas e desconhecidas. Bem, ele passou a considerar a segunda possibilidade depois da reação do outro naquela noite.Voltando mais um pouco no tempo, chegamos àquela noite. Mais um fim de show. Mais um trabalho cumprido. Kai havia sumido, provavelmente se esgueirando atrás de qualquer par de peitos bonitos. Uruha estava seguindo mais ou menos o mesmo caminho. Aoi tinha ido pra casa gastar suas últimas energias no twitter. Só tinha sobrado mesmo Reita para acompanhá-lo na bebida, mesmo que apenas Ruki fosse beber. Reita nunca fora forte pra bebidas, e sabia que provavelmente teria de socorrer o vocalista depois.E é óbvio que isso aconteceu. Pelo menos era isso que Reita deveria achar.Na sua memória, Ruki sabia exatamente o que tinha acontecido. Mas tinha colocado todo o seu lado ator para fora, fingindo estar o mais bêbado possível. Não podia afirmar com certeza se Reita havia acreditado. Ao menos esperava que sim. Foi o único jeito que achou de tentar o menos especular o que eu outro pudesse – ou não – sentir.Ele sabia o que sentia pelo baixista.E daquela maneira, fingindo-se bêbado e afirmando categoricamente que não se lembrava de nada no dia seguinte, deixou palavras saírem atropeladas e embromadas. Não havia dito com todas as letras que queria que Reita o tomasse em seus braços, o possuísse o amasse. Só havia dito que gostava de uma pessoa que nunca olharia pra ele. E aquele olhar que havia ganhado.Um olhar que quase o fez desistir daquele teatro. Mas ao mesmo tempo deu a certeza de que deveria continuar com aquilo, pra tentar entender porquê daquilo. Diabos, ele nunca tinha dado nenhum sinal em todos aqueles malditos anos de banda. Mas ele não dissera nada.E Ruki se irritou com aquilo. E no fim das contas, acabou por roubar um beijo do baixista. Um quase beijo. Na verdade foi apenas um contato breve, quase sem querer, sem nenhum aprofundamento ou algo do tipo. E Reita... simplesmente desviou os olhos, resmungou que Ruki estava bêbado demais e o colocou debaixo da água fria.Assim. Simples assim.Mas na semana seguinte, Reita não havia tocado no assunto. Na sua mente ligeiramente – apenas ligeiramente – distorcida, Ruki especulou o porquê. Digo, se não representasse absolutamente nada para ele, com certeza seria alvo de toda e qualquer piada que o baixista pudesse pensar ou imaginar. Mas ele ficou quieto.
Nem uma palavra.E havia também o fato de ter se aberto uma pequena distância entre os dois, coisa que não havia ali. De uma maneira ou de outra, Ruki já estava se preparando psicologicamente para ganhar um fora homérico, entrar m depressão, escrever umas quinze músicas sobre amor não correspondido, atacar três potes de sorvete e então finalmente tentar reunir o que sobrasse dele.Não que esperava ter sucesso nisso.Ao menos renderia músicas depressivas.Saiu do banho demorado, pensando quantos potes de sorvete aniquilaria naquela noite. Se secou e se vestiu sem pressa alguma, indo pra sala. Não estranhou nem se assustou ao ver o loiro sentado no seu sofá, fuçando algum canal na TV. Sentou, ainda coçando o olho, levemente sonolento, respirando fundo e tentando pensar que... que as coisas não era tão horríveis como pareciam ou poderiam ser.- O que aconteceu, Aki?O baixista sorriu de canto, os olhos ainda pregados na televisão.- Me diz você.- ... Hã?Reita riu, negando com a cabeça. Ainda sem olhá-lo.- A convivência com Uruha está te afetando, Taka.- Pode ser direto? Detesto quando você faz rodeios.- Eu sei. O silêncio reinou na sala por alguns minutos, Ruki considerando a possibilidade de socá-lo até que falasse. De súbito, o baixista se voltou para o menor.- Você não estava bêbado, não é?- Aki, o que...?- Sabe do que eu estou falando. Você não estava bêbado. Não é?O vocalista não respondeu, apenas franzindo o cenho. Depois de alguns segundos ponderando, deu de ombros.- Faz alguma diferença? - E se eu disser que faz?Mais um minuto de silêncio. O menor realmente não sabia o que pensar daquilo. Acabou sorrindo de canto, nenhuma alegria em seu sorriso, negando suavemente com a cabeça.- Não vai fazer diferença, Aki. Eu sei. Esquece o que aconteceu.- Ah, então foi simplesmente um lapso? Simplesmente decidiu que aquilo seria divertido?E ali estava aquela acidez que o menor não gostava muito. - Akira, por que diabos você se sentiria mexido com aquilo? Porra, eu sei que você nunca me viu além de amigo. O que deu em você?- Não me senti mexido!- Então por que essa histeria na minha casa? Esqueça isso e pronto! Eu estava bêbado e fiz besteira. Não pode me desculpar por isso?- Você não estava bêbado!Ruki parou por alguns segundos, ligeiramente ofegante. Não queria levantar a voz de novo.- O que está realmente te incomodando, Akira? Que droga, nem um beijo de verdade foi! Se eu soubesse que você estaria gritando comigo agora, provavelmente teria te dado um beijo de verdade, ao menos pra justificar todo esse escândalo.Assistiu ao baixista passar as mãos pelo rosto, suspirando fundo. - Só se aproveitou, Taka?- Eu não sei o que eu estava pensando na hora! Mais silêncio. Foi a vez de Ruki passar a mão pelo rosto.- Akira, eu não sei o que você quer ouvir de mim. Por favor, esquece isso. Levantou-se, a cara fechada, se virando para o menor.- Então é isso. Você estava bêbado, mesmo eu sabendo que não. Diz tudo aquilo, me beija, ou seja lá o que foi, e me fala pra esquecer?- O que você faria no meu lugar, Akira? – lá estava ele, elevando a voz de novo.- Contaria a verdade!- E qual seria a verdade?Não respondeu, apenas encarou o menor com uma expressão que o vocalista nunca havia notado antes, e depois simplesmente saiu porta a fora. Ruki levou alguns segundos pra notar o que havia acontecido ali. Grunhindo, voltou para o quarto, estacando na porta quando viu o que havia sobre sua cama.Uma caixa vermelha, adornada por uma fita marrom de cetim brilhante.Sentou-se na cama, completamente confuso. Ficou encarando a caixa e o cartão ali, com o seu nome. Com o seu nome. Escrito na letra dele. Depois de alguns segundos de hesitação, acabou por pegar o cartão. Seus olhos passaram rápidos pelas palavras escritas a punho, um leve sorriso passando pelos seus lábios.Sim, ele era um babaca.E o amava por isso.Agradecendo que morava num andar alto, saiu quase correndo do quarto, escancarando a porta da sala com certa violência, e acabando por estacar no lugar. O babaca estava ali, parado ainda na porta da sua casa, aparentemente tentando decidir se voltava ou não. Não pode se impedir de sorrir, se aproximando. E socado o braço do maior.- Babaca.- Taka, o que...?Abraçou o maior, escondendo o rosto em seu pescoço. Aos poucos, hesitante, Reita envolveu sua cintura, o rosto de afundando nos cabelos claros e ainda úmidos do vocalista.- Eu não estava bêbado.- Eu sei.- Não sabia como você ia reagir, fiquei com medo.- Não precisava ter medo.- E como diabos eu ia saber?Acabou por rir, apertando o menor ainda mais contra si.- Pelo menos abriu a caixa?- Não tive tempo. O que é?- Vamos ver se você adivinha. Tem avelã, cacau...- Meus bombons preferidos!O maior riu de novo, beijando de leve o pescoço de Ruki. Apenas deixou seu rosto se afundar naquela pele que havia desejado por tanto tempo, se perdendo naquele perfume que tanto gostava, abraçando-o tão forte quanto poderia.~ F i m ~
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