Chloe Adornetto e o Anel da Paixão
3 De novo não
– Está tudo bem com você, fofinha? Algum problema? — a enfermeira entrou rebolando no quarto. Seus olhos eram medonhos o suficiente para me deixar de queixo caído. Ela se aproximou de mim com os saltos de ponta finíssima da sua bota tilintando enquanto caminhava de uma forma que achei que estava tentando ser sensual, mas estava exagerando demais.
– Estou ótima, nem preciso de enfermeira. Pode ir, eu fico bem sozinha. Já consigo até me levantar! — peguei o meu colar ensanguentado e rolei as pernas para fora da cama. Uma tontura repentina consumiu meu corpo, fazendo tudo ao meu redor dançar balé.
– Que bom. Assim, pode morrer de forma digna. — as roupas da enfermeira foram consumidas por fogo azul e viraram pó negro, que sumiram no ar. Por baixo das roupas não havia um corpo normal, mas sim um corpo contorcido peludo e asas encolhidas nas suas costas, que enquanto usava a sua roupas de enfermeira, não aparecia. Os seus sapatos estouraram e suas garras se mostraram, arranhando o piso.
Um barulho como ossos quebrando invadiu os meus ouvidos, e um gemido de dor se alastrou pelo quarto de paredes brancas quando as asas enormes da Fúria se estenderam. Ela enviou rajadas de vento e odor direto no meu nariz enquanto chiava e murmurava algo que eu não conseguia entender. Abriu uma bocarra e uma espécie de fogo completamente negro jorrou da sua boca. Suavemente, deslizava pelo ar e vinha na direção do meu peito. Quando se aproximou mais de mim, pareceu como um disparo. Se chocou contra o meu peito e me arremessou contra a parede do outro lado, explodindo após. Senti meu tórax se corroer com o fogo, mas quando olhei só haviam hematomas roxos, o que não amenizava a dor.
O meu colar brilhou enquanto eu o girei no ar, e ele tomava a forma de um longo e espesso chicote de puro ouro e adornos de prata. A Fúria rugiu e suas asas bateram com firmeza. Uma explosão de vento me empalou, me deixando paralisada com o chicote grudado na parede ao meu lado. Ela avançou em minha direção e lambeu o meu rosto, com uma língua áspera o suficiente para deixar um rastro de arranhões na minha bochecha esquerda. Arranhou a minha testa com suas garras enquanto puxava o meu cabelo e passava garra da outra mão no meu queixo. Seu fedor era pior do que qualquer outro que eu já tenha sentido em minha vida. Parecia lixo e um corpo em decomposição, duas vezes pior. Senti suas garras da pata inferior se cravarem na minha coxa, e em vão, tentei movimentar o chicote. Ela arranhou a minha mão profundamente com sua garra livre e agarrou meu braço.
Gritei.
A única alternativa que me restou. Berrei com toda a voz que ainda me sobrou, e dois segundos depois, Kyle entrou na sala trotando em minha direção, com uma pequena adaga dourada. A cauda da Fúria investiu contra ele, direto em seu peito no instante em que ele arremessou a adaga diretamente em sua cabeça, sem que ela tivesse tempo de se defender. Ela explodiu em pó dourado, exatamente como a da escola. Feito purpurina. A cauda da Fúria ainda assim, conseguiu perfurar levemente o peito de Kyle, que caiu enquanto sangrava com as mãos no peito. Ele sorriu para mim, e eu caí ao lado dele, sob o pó que um dia foi um bicho horrendo.
Outra enfermeira entrou correndo no quarto, e ela ficou abismada com a situação. Eu não senti, mas meu chicote havia se transformado em meu pingente novamente. Esta enfermeira tinha olhos verdes e nada de anormal, por sorte. Ela não era exatamente uma enfermeira. Parecia ser mais jovem, muito mais jovem. Não passava dos quinze anos, deve ser estagiária. Ela olhou para Kyle, sorrindo.
– Aqui está você! Finalmente te encontrei. Ainda bem que chegou a tempo de salvar a menina. Por que você nunca presta atenção nas coisas, Kyle? — ela não parecia chocada, mas muito furiosa. Seus cabelos eram levemente ondulados e pretos. Pretos como a noite.
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