Chloe Adornetto e o Anel da Paixão
1 O menino bode
Eu estava em um dos meus dias comuns, sem conseguir ler ou entender o que a professora falava sobre quem descobriu a América ou qualquer outra coisa que seja; eu não conseguia deduzir. O sinal tocou e todos saíram, menos eu. Fiquei de castigo por não fazer a atividade que a srta. Jesse tinha passado, eu nunca iria conseguir fazer um texto de "como eu me sinto por dentro", era uma coisa que ninguém precisava saber. Sou linda por dentro e por fora.
A srta. Jesse pareceu entretida enquanto eu navegava pelos meus pensamentos de si mesma, observando minhas unhas que agora estavam vermelho-sangue. Ela veio caminhando em minha direção, com o salto baixo do sapato horrível e fora de moda batendo violentamente enquanto ela caminhava ou corria, ou os dois. Algo brilhou prateado em sua mão e eu tomei um susto quando vi um chicote se desenrolar. Era de puro aço, mas era maleável, o que percebi quando ela levantou a mão e fez o chicote estalar no meu caderno, rasgando-o em dois. A mesa ficou com uma marca do chicote, como se fosse queimada.
As mãos da srta. Jesse se transformaram em patas com dedos longos e no fim, enormes garras sujas e esperando para serem lixadas. Não esperei ela terminar sua metamorfose e saltei da minha cadeira, indo correndo pro fim da sala. O pingente na minha garganta estava pulando, e só não sei o motivo. Aquilo acontecia as vezes, e eu acho que é quando estou muito assustada e meu coração bate tão rápido e tão forte que até os outros sentem, ou não. Não consegui concluir, porque a srta. Jesse havia completado a sua transformação grotesca: tinha asas peludas e com espinhos nos intervalos formados por ossos. Uma cauda com uma seta pontuda dançava no ar atrás de suas pernas. Sua estatura tinha aumentado em pelo menos um metro, a professora baixinha de no máximo um metro e quarenta e sete não existia mais, agora tinha no mínimo dois metros e meio. No topo da sua cabeça, enrolavam-se chifres com as pontas indicando meus olhos.
O pingente estava batendo cada vez mais forte no meu pescoço, e eu já tinha preocupações demais, então o arranquei com toda a minha força da minha garganta. Quando ele arrebentou, chacoalhou o suficiente e ficou extremamente largo. Um brilho dourado o consumiu, deixando-o do tamanho do chicote da professora. Presumi que aquilo nunca foi meu pingente favorito, mas uma arma poderosa. Já que existiam monstros e tudo mais, porque eu não podia ter uma arma? Mas como é que meu pai conseguiu fazer aquilo? Ele era um joalheiro e tanto, mas transformar um chicote em um colar era demais. Não deu nem tempo de tentar decifrar de onde surgiu tudo isso, mas eu tinha que aceitar que estava quase morrendo. A srta. Jesse estalou o chicote no ar e avançou em minha direção, fazendo a corda laminada na ponta enrolar os meus pés e me derrubar. Enquanto caía, girei minhas mãos de uma forma tão graciosa que eu nem imaginava que conseguia fazer e a ponta dourada do chicote acertou em cheio sua asa direita, e ela derreteu até virar pó.
Parecia purpurina.
Uma morte digna, mas não para aquela coisa horrenda. Ouvi algo como patas de cavalo batendo no chão. Não podia ser outro bicho daquele. Eu acho que não conseguia nem me levantar mais. Me arrasto até a parede da sala e me sento, observando a destruição que a professora Jesse fez só de andar por entre as mesas: estavam todas quebradas ou tortas, e onde o seu chicote apenas esbarrou, queimou. Um menino de pele morena e cabelos enrolados tão extraordinariamente que chegou a me espantar aparece na porta. Fui descendo o olhar pelo seu corpo. Tinha um tórax definido com os músculos bem delineados... E pernas de... Cabrito?
– Ah. Por favor. Já chega! Limite de monstruosidades por hoje já esgotou. — eu gritei e a minha voz foi se esgotando de puro cansaço. Ergui o meu chicote sem qualquer entusiasmo, e ele pareceu criar vida. Encolheu e virou o meu pingente novamente. Ótimo. Agora havia outro monstro e eu não tinha sequer uma arma. E por que eu tinha uma arma?
A última coisa que vi foi o menino estranho trotando na minha direção, e tudo apagou. Minha mente estava confusa demais. Eu senti mãos ásperas me erguendo pelas costas e pelas juntas atrás dos joelhos, e apenas deixei que quem quer que seja o fizesse. Acho que nenhum monstro me carregaria desta forma, e fiquei feliz por um mínimo instante.
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