Chloe

1 Capítulo Um


Notas iniciais
Espero muito que gostem!! Continuo?

Era uma manhã ensolarada de primavera, em um dia qualquer da semana. Apesar da pouca chuva da madrugada, havia se formado uma grande lama na horta, e eu tinha minhas botas completamente cobertas por ela, assim como a barra do meu vestido. Soltei uma risadinha silenciosa, enquanto imaginava os berros de mamãe ao ver aquilo. Mas eu simplesmente não ligava. Continuei jogando as cenouras no cesto, me concentrando para não escorregar, enquanto sentia o olhar da senhora Simpson me queimando as costas.

— Tem certeza de que vai continuar fazendo isso, minha senhora? – era a terceira vez no mês que eu ajudava com a colheita, e ela havia me perguntado a mesma coisa em todas elas. Eu havia pedido – obrigado – a mamãe a permitir que os empregados fizessem uma horta nos fundos da Casa Hatfields, para que pudessem vender nas feiras da cidade. Ela não ficou nada contente, e como se não bastasse seu desgosto, tudo piorou quando ela viu que eu havia me encarregado inúmeras vezes de colocar as botas e as mãos na terra.

Minha mãe, a senhora Maisie Hatfields, viúva do então falecido barão de Hatfields, é uma mulher muito conservadora, que sempre presou (até demais) pelas regras e os bons costumes de uma sociedade inglesa. Éramos só nós três em casa. Mamãe, minha irmã Francesca, e eu. Francesca era o sonho de filha que Maisie sempre quis. Bonita, educada, inteligente – mas não demais -. Um espécime encantador. Havia acabado de completar seus 18 anos, e era a grande aposta para a temporada social. Já eu, bem, como mamãe diria, sou a decepção dela.

Sorrio para a batata em minha mão. – Sim, eu tenho. E já falei para não me chamar assim.

— E como devo te chamar?

— De Chloe, claro.

Ouço seu resmungo quando me levanto, limpando minhas mãos sujas de terra em meu vestido. Confiro meu trabalho e me assusto ao ver o estrago que fiz no vestido. Terei problemas.

— É claro que não irei chamar-te assim. É a minha senhora.

— Minha mãe é a sua senhora. Não sou nada de mais. – ignoro a sua careta ao ver meu vestido antes amarelo, agora preto, e olho para de trás dela. Seu filho, Victor, se mantem mais uma vez escondido por baixo das saias da mãe, colhendo batatas com certa dificuldade. Ele tem apenas 5 anos. – Ei, Victor, como vai suas batatas?

Ele me olha com desconfiança, antes de voltar sua atenção para o alimento.

— Ah, vamos lá! Não me diga que não está se divertindo.

Vejo o vislumbre de um sorriso em seu rosto pequeno, e quando olho de volta para o chão, tenho uma ideia. Abaixando-me, recolho um pouco de terra com a mão, jogando acertadamente em seu cabelo. Ouço a senhora Simpson me advertir, mas estou prestando atenção na feição de surpresa e alegria no rosto de Victor.

— E então, divertido o suficiente para você me dirigir um sorriso?

E antes que eu possa pensar em algo, sinto um bola de lama atingir em cheio meu peito. Eu poderia fingir que não esperava. Que não havia gostado. Que fiquei brava. Mas que tempo eu teria para isso se já me encontrava com as mãos na terra em uma guerrinha com Victor?

Jogávamos como loucos aquele material molhado e sujo em ambos, enquanto uma desesperada senhora Simpson tentava nos parar.

— Parem! Parem agora! Victor!

E foi em uma dessas tentativas que, ao invés de me parar, a senhora Simpson desequilibrou-me e eu caí naquele monte lamacento. Com o rosto diretamente nele.

— Minha senhora! Mil perdões, eu não tive a intenção. Eu...

Ela tentava me levantar e limpar os vestígios da sujeira de meu rosto, mas eu já estava revirando-me em uma risada ruidosa. Sim, eu ria um pouco alto. E falava também. Nem um pouco delicada. Depois de repetir centenas de vezes que estava tudo bem, enquanto meu riso cessava, assisti a senhora Simpson arrastar Victor para dentro da casa, resmungando que é preciso se comportar diante da senhoria. Então ele se virou e sorriu para mim. E foi o primeiro sorriso que consegui dele em 5 anos.

Peguei meu cesto e segui lentamente para casa, tentando ignorar o estado deplorável em que eu me encontrava. Olhei com atenção para o casarão, especificamente para a janela de meu quarto, minhas preocupações dos últimos dias voltando à tona. Como mais uma das injustiças da sociedade, as rendas e propriedades de meu pai não passaram para mamãe, ou qualquer mulher da família. Acabou nas mãos de um primo seu distante, que jamais vira, e nunca se preocupou com as propriedades de meu pai. Já havia mais de 15 anos que ele se fora, e agora então, voltaram noticias desse primo. Ele havia falecido há alguns meses, e seu filho herdara tudo. Isso mesmo, tudo.

E essa não seria noticia para se preocupar, se não houvesse voltado, também, noticias de que esse filho estava fazendo mudanças nos negócios do pai. E uma hora ele chegaria aqui, eu sabia disso. E se resolvesse morar conosco? E se vendesse a casa? Olhei para as verduras em meu braço, me imaginando vendendo-as na feira.

Deixei-as na cozinha, pedindo para um dos empregados – que me olhou com completo horror – preparar um banho para mim, e caminhando em seguida lentamente em direção ao meu quarto. Passei tranquilamente pela sala, quase fechando os olhos esperando pelo furacão. Mamãe abaixou seu bordado, levando certa de 5 segundos para processar minha imagem.

— Que o Senhor me perdoe, mas... Misericórdia, Chloe! O que aconteceu com você?

— Sofri um pequeno acidente.

— Um pequeno acidente? Parece que foi atropelada por uma manada de bois. Como você? Mas o que...

Mamãe se joga ao sofá dramaticamente, agarrando seu leque e abanando-se compulsivamente. Continuo com meu sorriso mais debochado, que a provoca ainda mais.

— Não se preocupe, já estou indo me limpar.

— Você ainda vai acabar com meus nervos.

Prossigo meu caminho para meu quarto, observando as gotas de lama que deixo pelo chão, sem parar de sorrir. – Não tenho dúvida.

*

Após cinco minutos, submersa na agua quente da banheira, constato que era exatamente disso que eu precisava. Encosto-me a cabeça a borda, fechando os olhos reflito sobre como tudo ficaria perfeito se eu não tivesse que ir para o baile dos Wright nesta mesma noite. Mamãe não perdia uma oportunidade de empurrar-me para os homens caçando esposas, mesmo sabendo que prestes a embarcar em minha quarta temporada social, eu já era vista como uma solteirona, e a mais comentada, por conta de ser considerada “bonita” e com um dote razoável. Motivos suficientes para manter os homens interessados em desposar-me. E era fato sabido que eles tentavam, mas eu dispensava.

E então as fofocas eram as mais diversas, como eu não ser virtuosa ou ser filha bastarda de posição social inferior. Minha pobre mãe, sofria com a vergonha dessa situação, vergonha que eu não carregava. Simplesmente não iria casar. Não por conveniência, não porque alguém determinou que não serei ninguém sem um homem ao meu lado. Serei, e serei livre.

Alguns momentos mais tarde, quando penteio meus cabelos, Francesca irrompe meu quarto, afobada. É o primeiro baile dela após as especulações sobre ser o ano para lhe fazerem a corte.

— Estou nervosa, Chloe. – olho para ela, toda deslumbrante em seu vestido rosa, o rosto distorcido em uma careta. Dou risada.

— Com o que? Homens?

— Não sei como agir perto deles.

— Não se preocupe, é mais divertido do que parece. Pelo menos para mim.

A noite está agradável e levemente fria quando descemos da carruagem em frente a casa dos Wright. Deixo Francesca aos cuidados de nossa mãe, após repetir para ela regalar e aproveitar ser o centro das atenções. Isso poderia resultar em seu casamento no final do mês, mas para mim era apenas diversão.

A musica é animada e sinto vontade de rodopiar enquanto atravesso o salão, indo de encontro a Alicia. Ela é uma das poucas amigas que tenho, que me acompanha nos bailes e temporadas, mas está preste a ficar noiva e não estou nenhum pouco surpresa.

— Se divertindo? – pergunto, roubando a bebida de sua mão. Ela bufa, os braços cruzados observando a multidão que dança.

— Na verdade, queria estar bem longe daqui.

— Sim, com seu Archie.

— Ele não é meu. Não ainda.

Sorrio conspiratória para ela enquanto dou mais um gole. Ela está tão sonhadora e completamente alheia que não percebe que não há mais o copo em sua mão. Pergunto-me distraidamente como é a sensação de precisar de um homem. Talvez seja diferente da sensação de prisão que sinto quando penso em casamento.

Continuamos conversando amenidades, até que sou raptada por um jovem alto e ruivo, e estou enfim dançando. Percebo o sorriso de Alicia quando me afasto. Ela sabe. Não presto atenção em seu nome, mas como todos os outros seu sorriso aumenta quando digo o meu, como se acabasse de encontrar o que estava procurando. Depois da dança, ele está receoso em ser visto conversando a sós comigo, mas o arrasto para um passeio pelo salão, com todos os olhares sobre nós. Mas seu rosto registar surpresa quando começo a dar minha opinião sobre as regras politicas inglesas e sobre física.

— A senhorita é um espécime bastante... Desigual.

— Acredito já ter ouvido isto antes.

— Mas assim mesmo, preciso dizer que estou devidamente encantado.

Sorrio, fingindo surpresa. – Gosto de rosas.

Na manhã seguinte, a porta de nossa casa está cheias de flores, todas com cartões recitando poemas de homens que eu não saberia dizer quem seria quem na noite passada. Jogo todos os cartões fora e coloco todas as flores no balcão da cozinha da senhora Simpson.

— Deixaram para você, senhora Simpson.

Então subo correndo as escadaria, rindo como se tivesse 5 anos, a ouvindo dizer que jamais vira alguém feliz por ser uma solteirona.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.