Chichi no Hi
1 Chichi no Hi
A expressão carrancuda de Enji Todoroki afastava as pessoas ao redor. As crianças da escola Fukanasa estavam atrás de seus respectivos pais, sem nem piscar, desviando os olhares. O herói não parecia se incomodar com isso, cruzou os braços musculosos na frente do corpo e aguardou ao lado da esposa e filho a celebração do dia dos pais.
O dia dos pais era realizado no terceiro domingo do mês de Junho. Contudo, após uma tensa batalha de All Might e um vilão nas redondezas, o distrito foi fechado e as aulas suspensas. Apenas uma semana depois retornaram as atividades e, com isso, a celebração de dia dos pais foi remarcada.
Rei Todoroki era uma das mães responsáveis pela organização da comida, ela quem ajudou as outras mães comprando os ingredientes e preparando gostosos temakis, onigiri e taiyaki, os favoritos de Shōto.
A professora Fumiko fez uma mesura em agradecimento a presença da família e ao trabalho de Rei, orientando-os de que logo mais as crianças se reuniriam para cantar uma música em homenagem aos pais.
— Isso vai demorar quanto tempo? — Enji perguntou, olhando sério para a pequena professora. Ela era uma mulher magra e franzina, com olhos grandes, além de estar muito pálida. A cor vivaz de sua pele parecia fugir cada fez que ela precisava falar com Todoroki.
— Em alguns minutos, senhor, apenas estamos organizando o palco. — Ela respondeu com um fio de voz trêmulo. — Shōto-kun, vamos também? Você tem que cantar com seus colegas.
O menino se escondeu atrás da mãe, segurando-se na barra da saia dela. A professora insistiu mais uma vez, com uma delicadeza na voz até que Enji Todoroki direcionou seu olhar severo para o filho.
Shōto caminhou devagar na direção da professora, com a cabeça baixa e os ombros caídos. Ele seguiu de mãos dadas com ela até o pequeno palco de madeira improvisado no pátio do colégio.
Aquele era um dos colégios mais caros da redondeza, a lista de espera para se entrar em uma escola como aquela as vezes durava mais tempo do que uma criança poderia ficar de fato no primeiro ciclo escolar. Com isso, pouquíssimas conseguiam entrar. Os irmãos de Shōto não estudaram ali, estudavam em uma escola mais próximo de casa. Lugar que Enji jamais colocou os pés. Shōto Todoroki não precisou entrar em uma lista de espera. Ele foi contemplado com uma vaga que apareceu magicamente após uma visita de Enji Todoroki na sala do diretor.
— Se esforce, Shōto. — Disse Rei, acenando para o menino. Ela depois virou-se para o marido e o olhou em seus olhos frios. Era engraçado, pois ela quem detinha o dom do gelo, enquanto Enji carregava o fogo em seu corpo. Mas não havia ninguém mais frio do que ele. — Vamos nos sentar.
— Vá você, eu vou ficar aqui. — Enji Todoroki não demonstrou a menor intenção de estar naquele lugar. Contudo, após alegarem que ele não possuía carisma o bastante para estar em primeiro lugar como herói, foi preciso repensar algumas atitudes.
Por isso o filho foi matriculado na melhor escola da Região, ele começou a fazer mais aparições com a família em parques e restaurantes, algumas vezes ele até os levava em alguma viagem nos feriados que tinha folga.
E enquanto a imagem da família perfeita ganhava espaço nas capas das revistas, a família Todoroki não sentia mudanças naquele novo cenário. Quando viajavam, Enji passava a maior parte do tempo em algum lugar treinando com Shōto, enquanto os outros brincavam na praia. Quando saíam para jantar juntos, eles ficavam em uma mesa reservada no restaurante para não serem incomodados e Enji mal ficava cinco minutos na mesa, já se levantava para beber algo no bar do estabelecimento até a hora de partir.
Agora, parado diante da plateia de pais seletos do Japão, Enji mostrava que era um pai presente na educação do filho. E foi exatamente isso que Rei falou, ao lembrá-lo porque estavam ali.
Todoroki olhou a esposa com seu par de olhos frios, ele soltou o ar pela boca, irritado com a fala da mulher. Em seguida, deu alguns passos esperando que ela o acompanhasse. Eles se sentaram na primeira fileira, onde poderiam ser destaques. Os fotógrafos estavam lá para registrar que a família Todoroki estava presente. Enji mantinha seu rosto com uma expressão vazia, enquanto Rei forçava-se para sorrir na direção do filho que os observava do palco.
A canção iniciou e, no começo, Shōto sequer abria a boca. Aquela atitude dele seria uma vergonha, pensou Enji, depois ele viu que Rei batia palmas e cantava a música, sem deixar de olhar para o filho. Ela o estava incentivando ao seu modo. Foi quando Shōto começou a mover a boca e assim que se sentiu confiante, a canção saiu.
Enji Todoroki continuou sentado e em silêncio, aguardando o final da canção. Quando terminaram, as crianças agradeceram os pais e a professora informou que elas dariam um presente feito pelos próprios alunos para cada pai.
Shōto foi se aproximando devagar e com vergonha, segurando em suas mãos um saquinho de embrulho. Ele parou ao lado da mãe e ficou encarando seus sapatos.
— Querido, esse é o presente para seu pai? — Rei perguntou, acariciando os cabelos do filho. — Vamos, dê o presente para ele.
Shōto olhou para a mãe e depois inclinou o corpo mais para frente para ver o pai parado ao lado dela. Ele esticou a mão na direção de Enji e ficou assim até que o mais velho pegou o embrulho. Era minúsculo em suas mãos.
Rei sorriu para o filho, para o marido ela apenas direcionou um olhar e um pedido para que ele abrisse o presente, senão seria uma desfeita para todos presente.
Enji girou os olhos e abriu o embrulho, a fita de cetim era muito pequena, então ele puxou, acabando por rasgar o pacotinho. Assim que tirou o presente da embalagem, viu um pequeno copinho de cerâmica modelado de forma amadora pelas mãos do pequeno Shōto.
— É tão bonito. — Rei falou, após o silêncio de Enji ficar constrangedor para todos ao redor. — Você é incrível, filho. Papai com certeza vai usar na agência dele. Não é?
Enji não respondeu, ele apenas acenou com a cabeça. Os repórteres se aproximaram para fazer algumas perguntas e tirar mais fotografias da família. Logo depois, Enji seguiu para o carro estacionado na calçada, onde o motorista os aguardava.
— Vão para casa, eu irei para a agência daqui. — Ele ordenou.
— Achei que íamos almoçar juntos. — Rei comentou, enquanto colocava Shōto no banco de trás.
— Não tenho tempo para isso, preciso trabalhar. — Enji deu as costas e Rei entrou no carro.
— Ele não gostou do presente, mamãe? — Shōto perguntou, segurando-se nos braços da mãe quando o carro começou a se movimentar.
— Claro que gostou, ele disse que iria mostrar para todos na agência, por isso decidiu ir logo trabalhar. — Rei sorriu, e Shōto não notou as lágrimas escorrendo de seu rosto.
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