Chica Loca

1 Capítulo 1


Algo me incomodou naquele dia, eu não sou um cara de acordar cedo, mas lá estava eu abrindo meus olhos junto com o sol nascendo. Minha cabeça parecia ter sido socada contra a parede várias vezes (talvez até tivesse sido o caso já que eu não lembrava nada da noite passada) mas era quase certo que era apenas uma bela de uma ressaca. Levantei o mais devagar possível para tentar não fazer com que minha cabeça explodisse, mas isso não foi lá um grande sucesso.

Olhei para a cama só reparando agora que eu tinha companhia. Eu não fazia ideia de que lugar era aquele, mas para minha sorte tudo indicava para um motel (se fosse a casa dela eu só teria que torcer para que morasse no térreo ou que os pais estivessem fora. Foi um grande alívio quando eu vi o espelho no teto). Eu não conseguia me lembrar de absolutamente nada e o quarto rodando não estava ajudando muito. Eu tinha que achar as minhas roupas e dar o fora dali antes que meus pais resolvessem voltar de viagem.

– Merda! – Eu estava pior do que eu imaginava, tinha acabado de cair no chão. O efeito do álcool ainda devia estar muito forte.

Levantei cambaleando e com um pouco de sorte consegui encontrar minhas roupas espalhadas pelo quarto. Não tive tanta sorte assim com a cueca, mas pela mulher que estava deitada naquela cama, eu podia apostar que eu devia estar tão louco para comê-la que não deve ter sobrado nenhum pedaço para contar história. Vesti a calça e deixei esse papo para lá, muita frescura para se pensar enquanto minha cabeça estava em risco, de explodir ou de ser cortada pelos meus pais.

Dei uma última olhada para minha acompanhante. Forcei meus olhos ao máximo a se manterem focados e pegarem o maior número de detalhes do estrago que eu que eu tinha feito na noite passada. Cara, eu estava orgulhoso. Ela estava embrulhada no lençol como se quisesse que eu a abrisse, feito um presente de natal (se eu tivesse tempo eu ficaria muitíssimo feliz de tornar isso uma realidade). As pernas dela estavam de fora e eram longas e bronzeadas de uma maneira que deixaria qualquer homem louco. Além do conjunto cintura fina e peitos grandes. Não conseguia ver seu rosto porque ela tinha arrumado um jeito de escondê-lo debaixo do amontoado de cabelo que caía em cima dele. Naquele momento eu estava rindo sozinho, eu não podia nem imaginar de onde aquele anjo tinha caído, mas eu estava mais do que feliz de ter sido na minha cama.

Peguei minha carteira, deixei uma nota de vinte dólares em cima da mesinha e caí fora. Esperava que fosse o suficiente para pagar por aquele quarto. Se não fosse, não podia fazer mais do que isso, eu estava completamente duro.

Descer as escadas foi um movimento meio ousado da minha parte. Me lembro de quase ter tropeçado umas duas ou três vezes, mas por fim cheguei ao meu carro são e salvo. Eu também não estava em condições seguras de dirigir, minha sorte é que minha casa não ficava tão longe assim (e que nenhum guarda estava por perto quando eu avancei três dos quatro sinais no caminho).

Estacionei a picape de qualquer jeito e fui direto para o meu quarto tomar um banho (tirar o cheiro de álcool e sexo) e cair na minha cama. Alguma coisa me dizia que eu tinha combinado de sair com Chad e Tommy à noite e eu precisava estar na melhor forma para contar vantagem sobre o anjo que estava deitado comigo naquela cama de motel.

Peguei minha toalha, liguei o chuveiro e deixei a ducha gelada me dar uma levantada nos ânimos. Meus planos de dormir desceram pelo ralo quando eu ouvi meus pais gritarem da porta que tinham chegado (talvez eu conseguisse uns minutinhos de descanso se eu fosse legal, os ajudasse a pegar as coisas no carro ou fingisse algum interesse na segunda lua-de-mel deles). Mas achei melhor deixar isso pra lá. Fiquei mais um pouco no chuveiro, deixando a água levar o cheiro da bebida e vestígios de perfume de mulher. Cinco minutos depois o “banho” tinha acabado e eu estava enrolado na toalha procurando para algum remédio que cuidasse de eliminar a dor-de-cabeça.

– Querido, por que não veio falar com a mamãe? – Dona Annie Mary apareceu na minha porta com um bico enorme. Ela ainda tinha esse negócio de achar que eu era ainda o seu bebezinho. Isso era ridículo na maior parte do tempo, mas às vezes me trazia uma série de vantagens se eu soubesse como utilizar.

– Eu passei a noite inteira estudando para os testes. – Apontei para o meu rosto mostrando todo meu cansaço (só que não por causa dos estudos). As olheiras da noite mal dormida contribuíram bastante para dar crédito à ideia. – Minha cabeça parece que vai explodir.

As sobrancelhas da minha mãe se uniram de um jeito engraçado, pareciam que tinham se tornado uma só, mas era óbvio só de olhar para a cara dela que ela não tinha acreditado em nada. Dei de ombros, fingindo um pouco de mágoa pela descrença dela em mim. Ela não precisava saber que estava certa, que na verdade eu tinha passado a noite na festa da casa do Jeffrey enchendo a cara e acordando do lado de uma tremenda gata em um motel de quinta.

– Vai para cama, vou te fazer um chá. – A expressão do rosto dela ficou um pouco mais suave e ela virou as costas e saiu. Assim que a vi virando o corredor, deixei escapar um suspiro e aproveitei o tempo que eu consegui: fui direto para meu quarto, deitei na cama e apaguei completamente.

A lua-de-mel deveria ter sido fantástica, porque eu só acordei pelo menos três horas mais tarde. Isso me dizia de imediato que meus pais estavam de ótimo humor. Quando acordei, a xícara de chá estava em cima da minha escrivaninha e a minha toalha tinha ido parar no chão, do outro lado do quarto. Apanhei uma roupa no armário e saí completamente revigorado.

Minha mãe estava na cozinha e cantarolava a música velha que ela sempre colocava alto quando a gente saía de casa. Procurei minha chave do carro em cima da bancada onde eu geralmente colocava e tive a impressão de que eu a tinha esquecido na picape com toda a correria. Merda!

– Suas chaves estão comigo. – Ela disse sem olhar para mim. Continuou fazendo a comida e cantarolando enquanto dançava pela cozinha. Eu tinha certeza de que a lua-de-mel tinha sido um sucesso. – Você esqueceu dentro do carro, seu irresponsável.

Ela apontou com a colher para a banqueta e eu sentei. Não esperava um sermão, na verdade. O bom-humor dela era animador e nada poderia me abalar depois de uma manhã com uma companhia tão gloriosa quanto a minha. Percebi que ela estava fazendo um bolo já que tinha caixas de massas semi-prontas em cima da pia.

– A lua-de-mel parece ter sido melhor do que o esperado. – Ela me deu um tapa na mão quando eu tentei roubar um pouco do pote, mas não conseguiu disfarçar o brilho nos olhos.

– Seu pai me reconquistou todos os dias de novo e parecia tão mais jovem e disposto... – Ela soltou um suspiro apaixonado e eu um grunhido de puro terror. Eu não estava a fim de imaginar meus pais em seus momentos de casal apaixonados, nenhum filho que se preze pensa em um negócio desses. – Mas não mude de assunto, mocinho. Se eu contasse para o seu pai que encontrei suas chaves dentro do carro, você passaria a andar a pé todos os dias da sua vida.

Dei de ombros e lancei um charme para ela, talvez eu tivesse sorte. Ela fez a cara engraçada de novo e resolveu desistir.

– Só não minta mais para mim, ok? Da próxima vez não vai ter nenhuma semana de sexo que te salve. – Eu fingi que não ouvi, era muito melhor assim. – A propósito, seu pai foi buscar o irmão que você esqueceu na casa da Lauren.

Ah, Timothy. Eu não o havia de fato esquecido na casa do amiguinho dele, os pais de Louis ligaram perguntando se ele não podia deixa-lo passar o fim de semana com eles. Desconfio que eles não confiavam em mim para tomar conta do meu irmão e, no final, todos se sentiram mais felizes assim. Contornei a bancada e dei um beijo rápido na minha mãe para deixa-la contente. Peguei as chaves do carro, conferi meu celular no bolso e saí dali antes de descobrir se meu pai estava alegre como todo mundo.

Fui direto para o Chica Loca, o restaurante mexicano que nas noites de sexta-feira deixavam os alunos consumirem bebidas alcóolicas contando que fossem discretos. Nunca houve nenhum problema, ninguém queria acabar com nossa fonte de diversão. É lógico que se tratava de uma informação privilegiada, nem todo mundo da escola sabia. Eram amigos e alguns amigos dos amigos, mas mais ninguém. Fiquei meia hora esperando que Tommy e Chad aparecessem por lá até avistar a cabeleira loira mergulhada no gel entrando pela porta.


– Cara, seu penteado é uma merda. – Tommy me olhou por cima dos óculos escuros e me mostrou o dedo do meio. Dei de ombros e continuei comendo os nachos que eu tinha pedido.

– Eu disse pra ele o caminho todo, mas ele não quis ouvir. – Chad imitou meu movimento e roubou um nacho enquanto sentava. Ele era um cara legal, o mais tranquilo de nós três. Seu único grande defeito é que ele não podia ver um rabo de saia sem perder a cabeça.

–Calem a boca os dois. Isso se chama investimento. – Tommy passou os dedos sobre o topete, arrepiando-o mais por via das dúvidas.

–Está investindo em quê? – Perguntei.

–Não em quê, mas em quem. Idiota. – Um movimento leve em direção à garçonete que se aproximava foi o suficiente para que Chad e eu entendêssemos tudo. Amy estudava com a gente desde o início do ano passado e Tommy nunca foi capaz de superar o fora que ela deu nele depois de uns amassos na festa de Halloween.

– Em que posso ajudar? – Ela parou em frente a nossa mesa e nós três paramos para dar uma conferida, era impossível para um homem não fazer isso quando se tratava de Amy Smith.

– Eu vou querer uma porção de fritas e um triplo-x com bacon extra. – Chad fazia uma força sobrenatural para se concentrar somente no cardápio, ele sabia que Amy era carne proibida e fazia isso em respeito ao Tommy. Amy olhou pra mim e eu dei de ombros aprontando para a cesta de nachos na minha frente, ela sorriu e me deu uma piscadela. Tentei esconder o sorriso automático que surgiu.

– Outra garçonete, é isso que eu quero. – Tommy jogou os braços sobre o sofá como se estivesse na sua própria casa. Esse era o jogo do Tommy, se fazer de durão. Para mim e Chad ele não fazia nenhuma questão de esconder que ainda rolava um sentimento forte por Amy, mas para os outros, ele simplesmente a odiava. – Você está me causando indigestão.

– Tudo bem, então. Berna pode atendê-los. – Ela não parecia muito abalada ou triste por não ter que nos servir mais. Tommy pelo menos esperava um pouco de raiva, mas ela era fria como gelo, segundo ele. – Vou aproveitar e pedir para ela te trazer um pouco de bom gosto, seu penteado é um lixo.

O queixo de Tommy caiu e Chad não conseguiu esperar que Amy saísse para começar a rir. Amy sempre dava a última palavra. Quando Berna chegou Tommy ainda não tinha se recuperado e Chad havia se engasgado com um nacho enquanto ria. A gente podia dizer que Berna era quase o oposto completo de Amy. Enquanto uma tinha um corpo que parecia esculpido detalhe por detalhe, Berna parecia pesar cento e vinte quilos e estava sempre cheirando a fritura.

– O que houve com ele? – Ela perguntou enquanto apontava para o rosto vermelho de Chad. Não respondi. Simplesmente, por motivo nenhum, eu estava pensando naquela manhã.

Agora que eu estava definitivamente sóbrio e minha cabeça não doía mais (não tanto, quero dizer), tudo parecia meio confuso e distorcido. Eu tinha certeza de que a garota era simplesmente maravilhosa, mas o fato de ela não ter um rosto estava me incomodando mais do que deveria.

– Dean? Dean?! – Tommy me deu uma porrada na cabeça e eu voltei a prestar atenção na conversa. – Você tá legal, cara?

– Sim, ótimo. – Uma sensação de vitória me invadiu por completo quando a memória do corpo dela entrou em foco na minha cabeça. De repente o rosto não me parecia algo tão importante assim. – Vocês lembram o que aconteceu ontem à noite?

Os dois se olharam, a cor de Chad já tinha voltado ao normal e Tommy parecia ter superado dignamente seu pequeno problema com Amy. Fiquei encarando os dois, tentando entender o que aquilo tudo significava, eles pareciam estar perguntando um ao outro o que deveriam fazer. O que diabos tinha acontecido noite passada?

– Droga. – Um deles finalmente disse e começou a retirar a carteira do bolso da calça. Tirou uma nota de cinquenta dólares e jogou na minha direção. Fiquei encarando aquilo, enquanto o outro me tacava outra nota de cinquenta dólares. – Você venceu.

O que eu perdi?

– Hm... Legal! Eu venci! – Peguei as cem pratas e guardei no meu bolso antes que os dois mudassem de ideia. – Mas do que exatamente estamos falando?

– Na noite passada... Quando você levou a freirinha “para casa”. – Levantei uma das minhas sobrancelhas e encarei os dois, quase rindo da cara deles. Era impossível eu ter levado Lauren “para casa”. – Não se lembra, cara?

– Na verdade, não. – Fixei a imagem da mulher deitada na minha cama e tentei me focar somente nisso. – Vocês deviam estar muito doidos.

Senti falta de uma cerveja naquele momento. Mesmo sabendo o que eu vi, eu tinha a impressão de que eles não estavam mentindo e isso tornava minha manhã gloriosa em algo que eu não sabia definir.

– Não, cara. Não estávamos. – Berna chegou com o triplo-x com bacon extra e as fritas de Chad e uma latinha de Coca-Cola para o Tommy. – Nós te seguimos até o motel para saber se você não estava enrolando para ganhar as cem pratas. Era a freirinha, com certeza.

Eu deixei o nacho que eu estava segurando cair, tinha alguma coisa errada ali. Lauren e eu tínhamos uma história antiga (mas bem inocente, se posso dizer em minha defesa). Nós éramos amigos quando mais novos. Ela parecia mais um menino do que de fato uma menina, além de ser gordinha na época. De qualquer modo, todo dia depois da escola eu passava na casa dela e nós dois saíamos para jogar bola ou brincar de alguma coisa. Nossos irmãos tinham a mesma idade também, então nossas mães acabaram se tornando próximas ou algo parecido. Mas, por volta da sétima série, o pai dela foi transferido para Washington e perdemos totalmente o contato um com o outro. As únicas notícias que eu tinha vinham da minha mãe quando ela ligava para conversar com Madeleine. Quando eles voltaram alguns anos depois, Lauren apareceu na escola com um par de óculos grandes, tranças enroladas na cabeça e coberta dos pés a cabeça. Estava totalmente estranha e por mais errado que isso possa soar, fiquei bastante aliviado quando ela fingiu que não me conhecia.

Eu não conseguia associar nenhuma das duas imagens que eu tinha de Lauren com a mulher incrível que acordou na cama comigo. Tinha algo errado.

– Vocês têm mesmo certeza que era a freirinha saindo do carro comigo? – Os dois balançaram a cabeça concordando e parecendo confusos com a minha reação. Minha cabeça voltou a latejar de novo quando tentei lembrar quando eu tinha saído da casa do Jeffrey e o que tinha acontecido depois.

Um baque na mesa fez meu cérebro tremer e encontrei Amy olhando para mim com uma cerveja na mão.

– Você parece estar precisando. – Ela parecia indiferente quando saiu, mas Chad comentou algo sobre ela ter dado uma conferida no Tommy antes de ir limpar o balcão.

– Com amigos assim, não preciso me preocupar com os inimigos, não é? – Revirei os olhos para Tommy e ele fechou a cara o resto da tarde. Amy era um assunto muito sensível para ele e eu não tinha culpa se Amy tinha algum tipo de queda por mim e ficava me dando piscadinhas e sorrisos todas as vezes que íamos lá. – Foi mal, cara.

Deixei passar mesmo ele não parecendo realmente arrependido e ofereci a cerveja para ele.

– Sem álcool, muito esperta. – Ele revirou os olhos, mas bebeu mesmo assim.

Depois disso, nós três ficamos quietos. Chad parecia distraído com alguma coisa, Tommy ficou se olhando nas lentes de seus óculos, com certeza achando que seu penteado estava uma merda. E eu tentando descobrir com quem eu tinha dormido na noite passada.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.