Chiarascura
7 Fortuna Favet Fortibus
"Quando o exército de Ascian conseguiu vencer Caelum, Meridia se entregou ao demônio. Naquele momento, ele não esperou qualquer palavra da mulher, e cortou sua cabeça com apenas um golpe. [...] No entanto, o seu poder não foi passado para ele. Por isso, Ascian resolveu aprisionar o poder de Meridia em outro lugar, pois havia nada mais a fazer, pois ele já era o vitorioso."
ᅳ Conto: A Vanadinita, Livro de Profecias de Mr. Diablo
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A vanadinita estava nas mãos de Chiara, e a monarca olhou para a pedra vermelha pela milésima vez. Ela tentava achar alguma coisa que desse para ter certeza que tinha algum poder ali, porém não tinha nenhum sinal. As duas irmãs mais novas de Bencatel, penteavam o seu cabelo, caladas, após um banho demorado e quase ter matado a matriarca da família, por conta da demora.
A princesa só queria paz e relaxar, então pensou que um banho a ajudaria. Contudo, só lhe trouxe mais problemas.
ᅳ Essa é a famosa pedra vermelha? ᅳ Lydia, a maior delas, perguntou.
ᅳ Não ᅳ negou. ᅳ Mas vocês conhecem a história?
ᅳ Já nos contaram sobre isso. "A Pedra Vermelha", é onde está todo o poder de Meridia.
ᅳ E você sabe mais sobre isso? ᅳ Chiara questionou, curiosa. Ela nunca teve coragem de ler o conto sobre isso, então só ouvia pequenos trechos das coisas, e tentava encaixar em sua mente.
ᅳ Nosso pai contou uma vez para nós ᅳ Carmen, a menor delas, respondeu. ᅳ Ele era mais crente nessas coisas quando não bebia... E era bem mais legal ᅳ ela pareceu triste. ᅳ A princesa não leu?
ᅳ Eu li algumas lendas, pois eu tenho medo disso ᅳ admitiu, suspirando logo em seguida. ᅳ Vocês podem me dar um resumo do que contaram para vocês? Quem sabe não é diferente do que eu já ouvi.
ᅳ Podemos! ᅳ Lydia exclamou, animada. ᅳ Está escrito que quando os demônios ganharam a luta contra os anjos, Ascian matou Meridia, e prendeu todo o poder dela aí. Diferente de que todos pensavam, Meridia não tinha a figura de uma mulher, era apenas um ectoplasma vermelho com poderes, e esse ectoplasma poderia se transformar no que quisesse. Por exemplo, pessoas, insetos, dragões ou qualquer coisa. Para deixar mais seguro dos anjos, Ascian confidenciou a pedra para William Shield tomar conta e proteger o mundo dos anjos. Caso alguém de Caelum achasse a pedra, aconteceria outra guerra por conta de Meridia, e todos morreriam de novo. A pedra foi entregue ao seu antepassado para salvar o mundo.
ᅳ Uau... ᅳ Chiara apertou o vanadinita em sua mão.
ᅳ Falam que se desenhar um círculo no chão, uma cruz invertida e a outra não e levar mais pessoas para esse ritual e falar "fortuna favet fortibus" três vezes, o poder é libertado e o império de Primazia entra em guerra contra o império de Sacramento ᅳ Carmen comentou.
ᅳ Sério? ᅳ Chiara ficou assustada, e recebeu a confirmação das meninas. ᅳ Obrigada, meninas. Eu acho que vocês devem ajudar a Sra. Fritz com o jantar, e eu termino aqui sozinha.
ᅳ Certo ᅳ Lydia respondeu, e elas saíram sem dificuldades.
A monarca ficou remoendo suas ideias, pensando se aquilo era verdade ou não. Apesar de acreditar nele, era muito fantasioso ter o poder de Meridia preso ali. Tentando não pensar nisso, ela terminou de secar seu cabelo, vestindo a roupa mais comum que ela trouxe, que era uma calça e um suéter da cor cinza.
De repente, Bencatel abriu a porta, fazendo-a tomar um susto.
ᅳ Desculpe-me, Alteza, pensei que estava lá embaixo ᅳ ele ficou envergonhado.
ᅳ Ok, é seu quarto ᅳ mexeu os ombros, dando um sorriso sem graça. ᅳ Ninguém está pelada aqui, então tudo bem.
ᅳ Oh, claro.... Ainda bem! ᅳ exclamou, entrando na brincadeira, e os dois riram.
ᅳ Bencatel... ᅳ Chiara ia falar uma coisa, porém não tinha certeza se deveria.
ᅳ Não me chame de Bencatel ᅳ pediu. ᅳ Você não é mais minha patroa e... E eu acho meio chato que fiquem me chamando de Bencatel o tempo todo, principalmente quando estou fora do trabalho. Caso não saiba, meu nome é Benício e, caso queira, pode me chamar assim ou de Ben, todos me chamam de Ben ᅳ Benício disse, indo até sua cômoda, pegou o porta-retratos dali e guardou na gaveta.
ᅳ Benício, eu sinto muito por ela ᅳ Chiara mostrou compaixão.
ᅳ Você não sente nada, Alteza ᅳ o homem foi um pouco grosso. ᅳ Nem você e nem ninguém que seguem e concordam com essas regras estúpidas e nunca se opõem a elas!
ᅳ Eu não sou do jeito que você pensa! ᅳ a princesa ficou um tanto nervosa. ᅳ Eu sempre fui contra, sim, e sempre falava para meus pais proibirem essa lei, pois era cruel! Tudo que eu tinha conhecimento e era contra, eu me posicionava! Só que eu não posso mudar tudo só porque eu quero, se soubesse o que passava ali...
ᅳ Nunca passou fome, frio, medo ou ficou receosa de se relacionar com alguém por conta da lei ᅳ Benício sorriu, fraco. ᅳ Você sempre teve tudo! Teve uma boa casa, família, roupas, joias e dinheiro. Olha o que está vestida ᅳ apontou para as roupas da monarca, e ela abaixou a cabeça para observar a vestimenta. ᅳ Com certeza, é uns três salários.
ᅳ Nada é como nós pensamos, Bencatel! Fome e frio, realmente eu nunca passei, mas nunca senti medo? Há pessoas especializadas para provar e procurar veneno nos alimentos, ameaças de morte, poder sair em público e ter um atentado contra minha família. Ser da monarquia, dá medo, sim! Do mesmo jeito que ter receio em se aproximar de uma pessoa ᅳ suspirou.
ᅳ Ainda não me comoveu.
ᅳ Eu sempre pensei que a vida de vocês era melhor que a minha. Eu nunca tive uma família, um pai e uma mãe, eu sempre tive um rei e uma rainha que cuidavam mais dos outros, do que dos filhos! Eu sempre passei a vida inteira com os empregados e seus filhos, sem ter uma atenção por quem eu sou realmente. Tudo era falso nas capas de revistas... Eram apenas poses. Minha família são os meus amigos... ᅳ ela levantou-se da cama. ᅳ Amigos esses que eu quase não vejo, pois meu pai odiava o Lima. Não é sempre que Lana está aqui em Taverna. Adam, mesmo convivendo comigo no castelo, eu o via pouco. Durante meses, você foi a única pessoa que eu podia conversar os meus assuntos que não envolviam política, povo, leis e dinheiro. Quando não se está dentro de algo, você acha que o outro é sempre melhor e o certo.
ᅳ Não quero saber das futilidades da família real! ᅳ Benício ficou furioso. ᅳ A mãe do meu filho morreu, sem ter direito a se defender, sem ter direito a criar o filho e agora eu não tenho dinheiro para cuidar dele da forma que precisa! Ele tem um maldito problema no coração e fez uma cirurgia cara, os remédios são tão caros que nem se vendesse minha casa e minha alma, eu conseguiria comprar remédios por míseros um ano!
ᅳ Se me ajudar a voltar para casa, eu te promovo a um cargo maior e dobro seu salário ᅳ Chiara tentou fazer um acordo com o soldado. ᅳ Além de poder ficar com todo o dinheiro que minha mãe deu para cuidar de mim.
ᅳ Você não tem medo de morrer? ᅳ indagou, achando a ideia de Chiara voltar para casa bem estúpida. ᅳ O seu pai vai te matar!
ᅳ Eu tenho medo de ficar viva ᅳ murmurou. ᅳ Você e o Louis podem me acompanhar até a praia? Um lugar onde ninguém nos verá?
Benício franziu o cenho, achando aquele pedido bem inusitado.
ᅳ Pergunte a ele ᅳ Benício desdenhou do pedido. ᅳ Se ele quiser ir, eu os levo ᅳ ele saiu do quarto.
Chiara pegou um casaco ainda mais quente e a pedra, descendo a escada. Ela nunca iria se acostumar com o barulho chato daqueles degraus. Louis estava na sala brincando com as irmãs de Benício, então ela chamou o seu nome.
ᅳ Diga ᅳ o loiro se aproximou dela.
ᅳ Pode ir à praia comigo e o Benício?
ᅳ Está frio demais para ir à praia agora, né? ᅳ Louis tentou dizer "não" de uma forma menos bruta. ᅳ O que quer lá?
ᅳ Um teste ᅳ fez-se de misteriosa. ᅳ Só direi para você lá.
Louis respirou fundo, concordando. Ele tinha que fazer tudo que ela quisesse enquanto estivesse na Terra e Joane não aparecesse para resgatá-lo.
Chiara sorriu, chamando Benício.
Ao chegar na praia, Chiara explicou o que queria fazer, e os dois homens a chamaram de louca, porém ela não desistiu de seu plano, mesmo sabendo que aquilo, realmente era uma loucura e, caso existisse de verdade, até poderia tirar a vida de alguém.
A batalha para os dois aceitarem a fazer aquele ritual com ela, foi exaustiva e quando a monarca estava desistindo da ideia, os homens deram o braço a torcer. Louis desenhou o círculo com uma cruz invertida e outra para cima, Chiara pôs a pedra do meio disso e eles deram as mãos e começaram a falar a frase em latim três vezes.
Fortuna favet fortibus
(A sorte favorece os corajosos)
ᅳ Esta merda não funciona de verdade! ᅳ Chiara ficou frustrada. ᅳ Eu vou destruir isso antes que meu pai venha atrás de mim e mande me queimar em praça pública, como a igreja fazia no passado com os pecadores.
Ela pegou uma pedra grande que tinha por ali e jogou em cima da vanadinita, transformando-a em cacos. Um terremoto foi sentido na mesma hora e Chiara olhou para Louis, assustada e o loiro também estava bem confuso com tudo. Com a pedra quebrada, uma luz vermelha se projetou dos cacos, fazendo movimentos estranhos no ar e parecia a figura de uma fênix. Os cacos da vanadinita tornaram-se pequenos objetos pontiagudos.
Chiara foi levitada no ar e começou a flutuar como nas cenas de possessões nos filmes. A princesa ficou fora de si, enquanto os outros dois olhavam aquilo com um misto de maravilhados e assustados com o fenômeno. Uma fumaça vermelha contornou o corpo da mulher, junto com os pedaços da pedra e uma luz branca forte e muito brilhante, foi em direção a princesa, entrando nela. Quando a fumaça desaparece, os cacos da vanadinita atingiram Louis, atravessando o seu corpo, fazendo-o cair no chão, contorcendo-se de dor e pedindo por ajuda.
Benício pôs as mãos na boca, enquanto Chiara caia no chão, desacordada. Ele aproximou-se dela, olhando para todos os lados, vendo se tinha alguém por ali e por sorte, estavam apenas eles. Chiara estavam um tanto diferente. Ela estava com um semblante mais poderoso e seu cabelo tinha mudado de cor, ficando vermelho como o sangue.
O soldado ficava olhando para o lado, pensando em como pedra os dois corpos do chão e não aparecia nenhuma ideia, além do desespero que ele estava sentindo.
Como aquilo tinha acontecido? ᅳ o Benício pensou, ainda com seu coração acelerado.
Benício foi para o lado de Louis e percebeu que o homem estava ficando cintilante, enquanto ia desaparecendo. Saía sangue da boca, olhos, ouvidos e narinas de Louis, e tinha um pedaço enorme, cravado em seu coração, que o soldado puxou para fora.
Um fio de sangue seguiu a pedra, transformando-se em um material bem parecido com a vanadinita.
ᅳ Não é uma pedra preciosa... ᅳ sussurrou para si. ᅳ É sangue cristalizado.
Benício lembrou que quando era mais jovem, seu professor de Química lhe disse que se o sangue cristalizasse, ele se tornaria uma vanadinita. O que a pedra era, não era uma pedra comum que aprisionava o poder de Meridia, era o sangue dela cristalizado.
ᅳ Mas como? ᅳ ele pensou, passando as mãos pela cabeça.
O soldado tentou pegar Louis do chão, só que ele estava intocável. Suas mãos passando por ele, como se fosse uma projeção. O corpo dele ia desaparecendo deixando apenas os pedaços da pedra e o sangue dele que caia no chão, se juntava a elas, desaparecendo logo em seguida.
O homem continuou ajoelhado ali, olhando para Chiara, vendo se ela também desapareceria. Ele estava entorpecido em seus próprios pensamentos, tentando encaixar tudo o que tinha acontecido naquele lugar, esperando a mulher acordar e poder dar uma resposta para o que tinha visto.
Eu sabia que era loucura e ainda resolvi participar! ᅳ pensou, ficando pior do que já estava, pois poderia ter salvado a vida de duas pessoas.
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