Chiarascura

5 Às vezes, a morte vem em uma forma diferente


"Há muitas formas de morrer, e a pior delas é viver uma vida que nitidamente não te deixa feliz."

— Diário de Claudia Rakel Shield, 1° Rainha de Primazia

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A rainha Martina andava de um lado para o outro, esperando Louis e o soldado Bencatel para conversar. Não tinha se passado muito tempo desde que ela havia pedido para chamar os homens, porém sua cabeça borbulhava de pensamentos de como ajudar Chiara, e isso pareceu alongar o tempo de sua espera.

Martina, o tempo todo, soube o quão cruel seu marido era com os outros, porém nunca pensaria que ele poderia fazer algo tão traiçoeiro com sua própria filha. Nem se opor ela podia, pois após ganhar a maldita luta, ela assinou um contrato, onde concordaria com o marido em qualquer coisa e que o destino dos filhos, também seria ele quem decidia, pois o filho era do monarca de berço.

Já passavam das 2:00 da manhã e Chiara só tinha até as 9:00 para sair dali e continuar viva. Caso o contrário, ela seria morta, e aquela situação estava desesperando a rainha. Seu coração de mãe não conseguia descansar por sequer um segundo.

Maldito dia que a luta apareceu em minha vida! — ela pensou.

A morte de Reyna e a punição de Chiara, eram duas coisas que ela não sabia como lidar, porém tentava levar do melhor jeito possível. Martina estava, praticamente, perdendo duas filhas no mesmo dia, e ela arrependeu-se amargamente de não terem deixado matar o seu marido quando eles visitaram Comuna, quando Chiara ainda era um bebê de colo.

Só que o pior não era seu marido vivo, era o poder que ele exercia sobre todos ali do império. Até o segredo sobre Reyna e Chiara, ele conseguiu esconder até agora.

Se ele estivesse morto, nada disso aconteceria! — a rainha pensou, enchendo-se de raiva.

A pequena sala que ela estava era depois da cozinha do palácio e por isso, ela estava suando por conta do calor do local. Martina já não lembrava o que era ficar tanto tempo na cozinha desde que saiu de Rabat para se inscrever na luta. Ela tentou relaxar, sentando-se em uma cadeira de palha e somente conseguiu ficar mais apreensiva que antes, já que as memórias do passado invadiram sua mente de quando ela tinha quinze anos.

Ela vestia roupas de cozinheira e tirou seu avental, sentando-se no banco do calçadão da praia, onde ia todos os dias para descansar durante seu horário de almoço.

Martina passou as mãos nas calças brancas, sentindo-as ásperas por conta da farinha das massas. Ela estava trabalhando há meses em dois turnos para poder juntar dinheiro e ir para Aster tentar estudar e conseguir um emprego melhor do que preparando massas no restaurante de Ment Ratt, um dos homens mais importantes do norte do continente.

Ela tinha conseguido esse — péssimo — trabalho depois de sua mãe ter engravidado e não poder trabalhar durante uns meses. A família dela passava longe de ser pobre, entretanto, seu pai não conseguia manter o padrão de vida deles sozinho. Apesar de ser a filha do meio, os seus outros irmãos mais velhos não ligavam muito para o trabalho e a obrigação de ajudar em casa caiu sobre ela.

Tina — alguém seu ombro, antes de sentar ao lado dela. — Sozinha aqui de novo? — era Abby sua amiga.

Ela tinha traços bem bonitos e olhos longos e verdes. Sua pele parecia uma canela de tão avermelhada e ela andava com roupas bem enfeitadas e sempre maquiada, pois aquilo era um costume que o povo da região que ela descendia, sempre andavam daquela forma.

Descansando um pouco, Abby — Martina respondeu. — Minhas mãos estão doendo de tanto amassar e cortar massas para você poder recheá-las.

Sabe... — a outra pensou antes de falar. — Está aberta as inscrições para a Luta Gladiadora do ano que vem. Eu acho que você deveria tentar.

E morrer? — Martina irritou-se com a amiga. — Que espécie de amiga é você, Abby?

Você não vai morrer — Abby respondeu. — Eu tenho certeza que não vai.

A vida não é um livro de fadas, onde a mais fraca ganha — bufou. — Nunca pensei em tentar isso! De verdade, eu nem acho que o príncipe Konecki valha a pena.

Um cara que me transformaria em princesa de um império todo, para mim, vale muito a pena!

Não para mim — voltou a dizer. — Aliás, existem várias pessoas pelo mundo afora que devem ter treinado a vida toda para conseguir ganhar e, com toda a certeza, elas me matariam!

Treino não é tudo — respondeu calma, entregando-a um papel. — Tem que ter inteligência também e isso você tem de sobra. Além de você ser super estrategista, Tina. Caso queira tentar, só ver nesse papel.

Martina olhou o panfleto fazendo a propaganda da luta e ela balançou o rosto de um lado para o outro. Jamais que ela participaria daquilo em sã consciência.

As batidas na porta, tiraram a rainha de suas lembranças. Ela levantou-se, cobrindo-se mais do que já estava com suas vestes de dormir, pois não achava apropriado uma rainha estar daquele jeito na frente de seus súditos.

A porta foi se abrindo bem devagar, chegando a ser suspeito aquele ato. A primeira pessoa a aparecer ali foi o soldado Bencatel. O rapaz estava com vestes normais e bem mais relaxado do que de costume também. Suas expressões estavam bem "duras" e confusas por conta desse chamado súbito.

— Entre, Bencatel, por favor — Martina pediu.

Bencatel fez o que a rainha pediu. Seus passos eram tímidos e lentos, parecia temer a morte ou qualquer outra coisa. Martina apontou para uma cadeira e ele sentou-se. Como Louis estava atrasado, a mulher sentiu que deveria começar a falar com o funcionário e, qualquer coisa, ele passava as instruções para Louis.

— De um tempo para cá, eu venho notando que o senhor está passeando muito com minha filha — falou, já deixando o soldado desconfortável. — Há quanto tempo você está trabalhando aqui?

— Quase quatro anos — ele arrumou sua postura, ficando mais atordoado.

— Sobre Chiara...

— Sim, eu venho conversando muito com ela há um tempo — admitiu de vez. — Acho que Chiara é o membro mais poderoso do clã monarca que vocês têm.

— O que quer com ela?

— Talvez convencê-la a gostar de mim e não achar que todos os pobres são o mal da sociedade.

— Soldado... — a rainha respirou.

— É assim que vocês nos tratam — sua voz saiu firme, porém cheia de dor. — Por sermos a minoria, vocês jogam fogo em nossas terras e nos negam emprego, pois acham que vamos roubá-los! Só que não é assim, Majestade. Com a aproximação com Chiara, pelo menos, sendo amigo dela, eu poderia conseguir que todo meu salário fosse liberado para mandar para mim família e não ficar aqui no palácio para suprir as minhas necessidades! — exclamou, jogando tudo da cara da patroa. — Eu estou dando minha vida para vocês e protegendo todos os dias e noites, por conta disso, deveria ser obrigação de vocês me darem o básico pelo que nos cobram! — Bencatel olhou frio para rainha.

Ele até se sentiu um pouco mais leve por ter dito aquelas coisas, mesmo temendo que ele ganhasse uma punição por aquilo depois, mas não podia deixar aquilo guardado dentro dele. Enquanto o rei gastava rios de dinheiro com festas e presentes desnecessários. Já os pobres, que eram apenas 2% da população, sofriam e eram os quais mais morriam em todo império de Primazia.

Bencatel tinha um pai alcoólico que gastava quase todo o seu salário de pedreiro em bebidas. Sua mãe trabalhava como faxineira e tinha que cuidar de toda família. Tudo pareceu ficar pior para eles, quando seu irmão mais velho sumiu do dia para a noite há quase uma década.

Quando inscreveu-se para os testes de segurança de Primazia, focando em ser um soldado do palácio, Bencatel achou que ganharia bem e que poderia melhorar a condição de sua família, ao menos, um pouco, principalmente seu filho. Seu filho tinha apenas três anos e sua namorada tinha sido morta no hospital, horas após ter o bebê.

O motivo da morte? Ela era menor de idade, solteira e estava grávida.

Isso, para a sociedade, era um crime contra o estado e deveria ser punido com a morte e por isso Bencatel praguejava todos os dias para aqueles que ainda mantinham aquelas leis na ativa.

Joane estava observando tudo o que acontecia naquela sala principal. Não tinha nada além de empregados limpando e alguns passando dos quartos para a cozinha, da cozinha para o lado de fora e assim ia. Só que movimentos rápidos e desesperados foram captados por seus ouvidos bem treinados.

Adam passava apressado e com uma arma em sua mão, parecendo bastante assustado. Ela deu-lhe um bote por trás, pegando a arma rápido e apontando para sua cabeça.

— Onde vai? — ela fez menção a estrangulá-lo.

— Fazer o serviço que o chefe me mandou — Adam tentou se livrar da mulher, porém ela era mais forte que ele. — ME SOLTA! — gritou, ficando irritado.

— Que serviço é esse? — perguntou, encostando mais a arma na cabeça dele.

— Matar Chiara — respondeu. — Mas por que diabos, eu estou falando isso para você?

— VÁ EMBORA AGORA! — Joane o soltou, olhando para ele. — Você não vai matar ninguém, entendeu? Ela é sua amiga!

— Eu faço o que o rei me pede — justificou-se. — A ordem dele está acima das minhas amizades, garota!

— Você vai sair daqui agora — ela apontou a arma em sua direção. — Eu estou mandando! Qual seu nome inteiro?

— Não te interessa! — Adam disse, estressado. — Quem é você para me mandar alguma coisa? Você é apenas uma serviçal qualquer! — desprezou-a. — Só deve saber limpar as coisas e nem deve ter o mínimo de instrução.

Joane atirou de raspão na perna dele, enquanto Adam caiu gemendo de dor e pegando em sua perna, fazendo duas pessoas que passavam por ali olharem para ele. Para os outros mortais, Adam estava sozinho, por isso alguns balançavam a cabeça ou riam, achando que ele estava ficando louco por conversar com o ar.

— Se me zombar novamente, esse tiro vai ser no meio da sua cara, seu humano insignificante! — o ameaçou.

A mulher guardou a arma atrás dele e pegou uma bandeja próxima que tinha alguns alimentos. Ela subiu a escada com a cabeça baixa e quando chegou ao quarto de Chiara, deu três toques na porta e ouviu a voz da monarca permitindo a sua entrada.

A princesa estava sentada no chão, enquanto colocava todas suas joias em uma grande bolsa e ela olhou desconfiada para Joane.

— É nova por aqui? — perguntou, pois nunca tinha visto o rosto daquela mulher.

— Três dias — Joane mentiu.

— É da Ilha Takana de onde você vem? — Chiara levantou-se pegando algumas roupas e colocando na mala também.

— Sim — confirmou, colocando a bandeja em cima da mesa do quarto. — De Alma, para ser mais precisa.

— Ah...

— Onde está indo, Alteza?

— Eu estou fugindo! — exclamou. — Fugindo antes que meu pai me mande uma pessoa para me matar, invés de uma empregada para me alimentar.

— P-para onde?

— Não sei... Talvez um lugar legal... — ela pensou. — Ilha Touni é um lugar calmo e a vida é barata, então pode ser por lá.

Chiara pegou o caderno preto que tinha roubado do quarto de Reyna. Era o diário de sua irmã que ela pegou mais cedo junto com a pedra vermelha. Talvez aquele diário tivesse algo que ela poderia usar para seu benefício próprio, caso fosse condenada à prisão. Chiara agora deveria aprender usar todo seu poder para ficar livre por quanto tempo ela conseguisse.

"Todos os funcionários do palácio na cozinha, imediatamente!" — foi anunciado nos alto-falantes.

Joane praguejou bem baixo, quase imperceptível para todos e saiu. Chiara balançou a cabeça, confusa, pois nunca tinha visto algo assim acontecer, a não ser para os soldados do castelo.

Ela pensou que poderia ser que deram falta da pedra e estavam fazendo vistoria nos funcionários

Chiara deixou aquilo para lá, colocando o diário de sua irmã na bolsa e levantou-se indo até a bandeja. Ali tinha algumas coisas, porém nada que tivesse "enchendo" seus olhos naquele momento. Ela pegou o copo de suco de uva que estava ali. Mesmo sentindo fome, seu estômago estava tão embrulhado que se ela comesse algo, vomitaria logo em seguida.

A porta de seu quarto foi aberta de uma maneira brusca, assustando-a. Sua mãe entrou no quarto, acompanhada de Bencatel e Louis, fazendo Chiara quase cuspir o suco, quando viu que Louis estava com as mãos ensanguentadas e um estilete nela. O homem parecia ter matado mais de cinco pessoas pela quantidade de sangue que estava em suas mãos, pois o líquido vermelho, chegava a cair no chão.

— Vo... Você matou alguém? — perguntou, diretamente para Louis.

— Ele bateu em algumas pessoas — Martina respondeu.

— Você bateu nos soldados daqui? — a princesa arregalou os olhos.

— Eles tentaram me bater e eu só me defendi! — Louis defendeu-se, como se fosse a pessoa mais óbvia do mundo.

— Você é um animal! — exclamou. — Não deveria ter feito isso, sabia? Como quer ser um rei desse jeito? — ela fez cara feia para aquele que, até o momento, era seu noivo.

— O quê? — Louis deu risada, debochando da monarca. — Eles me atacaram e eu ataquei de volta. Eu não morri naquela arena, e não vou morrer por mãos de soldadinhos que nem bem treinados são. E aliás, eu nunca quis ser rei mesmo!

— Ok — Chiara respirou fundo. — Não me interessa quem bateu primeiro! E para sua informação, Louis, os treinamentos de soldados de Primazia, é o melhor do mundo! — voltou a tomar seu suco.

— Chiara... — Martina aproximou-se da filha. — Pare de discutir, você vai precisar ter calma e paciência agora, sim? Você precisa ir embora agora!

— Eu sei disso, mãe — falou deixando o copo para o canto. — Só que eu não tenho lugar para ir e eu não posso dormir na rua ou em hotéis. Com certeza, eles ligariam aqui para casa e meu pai mandaria me buscar.

— Bencatel levará você e Louis para a casa dele. Eu dei dinheiro para ele e quando precisar de algo, só pedi-lo. Assim que você achar um lugar para ir, me escreva com o nome de Abby Meetha — disse, abraçando-a.

— Para onde eu vou, mãe? — perguntou. — Para Sacramento? — tentou achar a resposta.

— Eu não sei — Martina a largou. — Eu vou tentar achar um lugar para você, eu juro. Agora você precisa ir!

Martina pegou o pulso da filha, indo até um candelabro falso e puxou-o para baixo, fazendo uma parede com livros — também falsos — saírem do lugar. Os homens estavam com mochilas, e passaram rápido pela passagem, e Chiara abraçou sua mãe, não querendo largá-la de nenhuma maneira.

— Quando nós vamos nos ver novamente? — perguntou, sentindo uma dor em seu peito.

— Algum dia — a rainha fez a filha soltá-la na força, pondo-a uma capa da cor preta na filha.

Chiara estava em lágrimas. Ela voltou até a bolsa que estava preparando para si e colocou no ombro. Martina empurrou-a para dentro da passagem e fechou-a rapidamente, antes que alguém entrasse ali e contasse ao seu marido. A mulher olhou para o quarto da filha e aquilo ajudava-a a aceitar o fato de que não a veria tão cedo em casa de novo.

Martina passou as mãos no rosto, sentindo vontade de chorar e saiu do quarto da princesa, trombando com seu marido.

— Chiara não está aqui — Martina jogou aquelas palavras rapidamente. — Kon...

— Martina, esqueça ela, para seu próprio bem — o homem pediu. — Ela não é mais nossa filha. Ela está morta para nós também. — ele se portava como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Eu sei que é difícil, só que isso é uma das fases que uma rainha tem que passar — passou a mão no rosto de sua esposa.

— O que está acontecendo? — tentou mudar de assunto, antes que começasse a chorar.

— Atiraram em Adam — explicou. — Estamos atrás de quem fez isso com ele.

— Louis... — Martina falou, baixinho.

Será que Adam era uma das pessoas que tentaram machucar Louis e foi atingido também? — pensou.

O rei saiu de perto de sua esposa, descendo as escadas e Martina andou até o final do corredor, onde um soldado vinha em direção à ela, desesperado.

— A pedra vermelha na sala proibida, não se encontra mais lá, Majestade.

Chiara.

— Falei com meu marido assim que possível. Obrigada por avisar, soldado... — Martina leu o sobrenome dele na identificação. — Felix.

Ele fez uma reverência para ela, indo embora.

Martina sorriu ao saber que a coisa mais importante da vida de seu marido tinha sido levada para longe dele. Agora ele correria o país todo atrás de Chiara, para fazê-la devolver o seu bem precioso.