Chewing Gum
1 Capítulo Único
CHEWING GUM – CAPÍTULO ÚNICO
“DON’T JUDGE”.
As Aventuras do Pequeno Timmy e o Mundo dos Doces – Capítulo Um
“Oh, não! O que faremos?”.
[...]
“O pequeno Timmy era obcecado por doces, tanto que sua mãe temia que fosse contrair diabetes cedo. De início, ela achava que era apenas uma fase de um menino de sete anos, mas viu que era um problema quando ele começou a consumir mais açúcar do que o normal.
Tudo só piorou quando ele começou a fazer “amigos de açúcar”. Em outras palavras, seus doces favoritos se tornaram seus melhores amigos, com quem o garoto conversava e dava nomes.
O pai paranoico dizia que ele era esquisito, a mãe batia na tecla da fase o tempo todo, já o pequeno Timmy, acreditava que era a realidade; os doces falavam, mas só ele conseguia escutar.
Conversavam sobre um mundo em que apenas as crianças boas conseguiam passar, o Mundo dos Doces, onde tudo era feito de açúcar e coberto de cores, onde o vento cheirava a framboesa e o granizo era, na verdade, cubos de açúcar. Era lá que o pequeno ia sempre que cansava de ficar sozinho em seu quarto, sem nenhum amigo para brincar.
— Precisamos de você, Timmy! — exclamou Jin, o pirulito de morango. — O Mundo dos Doces está em perigo e só você pode nos salvar!
— O que houve?
— A escuridão ameaça tomar conta da nossa Terra! Estão tirando a fragrância doce e apagando todas as cores. Eles não podem acabar com o nosso brilho.
— Oh, não! O que faremos?”.
O capítulo mal havia começado e eu tive que dar uma pausa para respirar e perguntar pela milésima vez o que estou fazendo da minha vida. Em todos esses nove anos em que trabalho como corretor, nunca uma história me deu tanta dor de cabeça e raiva.
Da próxima vez vou colocar no meu currículo: Kim Namjoon, trinta e dois anos, NÃO corrige livros infantis sobre um garoto no mundo dos doces.
O pessoal da editora diz que não é tão saudável para eu revisar e escrever apenas livros tristes, que falam sobre depressão ou coisas do tipo. Eu tenho facilidade com esses assuntos, sem falar que é algo que gosto de fazer e serve como terapia, já que não tenho com quem desabafar e não tenho paciência, tempo e nem dinheiro para pagar um psicólogo.
Também é uma característica minha não me sentir bem sabendo que uma pessoa só está me ouvindo porque estou pagando e ainda tem limites. Mas nada contra quem faz esse tipo de tratamento.
Já passei da idade de ler livros infantis, sem falar que me dá um desgosto e indisposição gigantesco para trabalhar com uma história de enredo idiota, clichê e, ao meu ver, muito sem graça.
Quer dizer, imagina uma pessoa trabalhando meses, dedicando sua vida nisso, se esforçando para ganhar um salário e gastar uma parte do dinheiro em uma história como essa. Seria cômico dizer que é quase uma romantização de diabetes? É a moda entre as crianças?
Eu jamais daria um centavo para uma história como essa. Eu com treze anos elaboraria uma história melhor. Mas trabalho é trabalho, enquanto uns perdem dinheiro por isso, estou ganhando, apesar de considerar um desperdício de tempo e falta de valor à minha especialidade.
Se colocassem algo tipo “É dos mesmos criadores de “Dora, a Aventureira”, eu certamente não duvidaria.
É com lágrimas que eu, uma e meia da manhã, estou corrigindo essa história, porque o prazo de entrega é até amanhã e eu enrolei porque simplesmente não conseguia ler essa merda. Pelo amor de Deus, o público alvo são criancinhas de dois anos de idade?
Nem o débito no final do mês me consola por ter desperdiçado quarenta e cinco minutos da minha vida lendo isso e uma hora e quinze corrigindo — se deixar de lado o tempo em que enrolei para não ter que fazer isso.
Já são seis horas da manhã e há trinta minutos atrás eu me perguntava novamente o que estou fazendo da minha vida, enquanto bebia vagarosamente o meu cafezinho.
Cheguei no ponto de ônibus com as mãos firmes em cada alça da minha mochila e até agora o ponto está vazio, só tem eu e um garoto de cabelos escuros que fica fazendo bolinha com o chiclete a cada dois segundos.
Duas coisas que estão me incomodando. Primeiro o fato de que só de ver um doce na minha frente já me deixa irritado por causa daquela maldita história. Segundo, não entendo como alguém consegue carregar a mochila com uma alça só, eu já sinto só de olhar o peso que dá em um braço só e a agonia por ver o outro solto.
O garoto já deve ter percebido a minha cara de desgosto pelo jeito que me encarou, como se estranhasse algo e agora está soltando um leve riso pela minha reação. Felizmente o meu ônibus acaba de chegar e o clima tenso se rompe automaticamente.
Esperei a manhã toda para ver a cara de Hoseok assim que pusesse os olhos naquela história. Ele é um dos coordenadores do setor de correções, mas não deve fazer ideia de que um livro tão besta havia sido aprovado e em breve levaria o selo da editora.
Na minha opinião, ele ficaria tipo “mas que droga é essa?”, só que, diferente do que eu imaginei, ele ficou encantado e disse que era uma das histórias infantis mais incríveis que ele já havia lido.
Meu queixo ficou tão caído que quase saí arrastando pelo chão, desacreditado com a reação dele e, para a minha maior surpresa, outras pessoas da editora amaram a história. Só eu que, como sempre, fui o “diferentão” e critiquei bastante.
Confesso ter uma má reputação no trabalho e todos reclamam do meu temperamento por não rir de determinadas tentativas de piadas que algumas pessoas fazem, pelo fato de não gostar de algumas histórias que estão na moda e por escrever histórias com temas pesados e uma série de coisas. Mas, gente, pelo amor de Deus, como é possível que uma história sobre um menino na Terra dos Doces seja tão interessante? A escrita desse autor nem é tão boa assim.
Para ser sincero, se fosse uma escrita boa, eu reclamaria que seria um desperdício de talento. Não tem escapatória, esse livro é uma total perda de tempo tanto para quem escreveu quanto para o idiota que corrigiu e os outros idiotas que pretendem comprar. É por isso que a nossa geração é composta por jovens idiotas.
— Você está há quase quinze minutos sem tomar um gole de seu café, Namjoon. Se perdeu nos pensamentos? — A voz de Taehyung acaba de me despertar dos devaneios.
Felizmente, ele era a única pessoa sensata que ainda tinha a educação e paciência de escutar o meu ponto de vista.
— Estou pensando em inventar um pseudônimo — respondo. — Porque me recuso a colocar meu nome como corretor daquela idiotice que vocês têm coragem de chamar de história.
— Está falando de As Aventuras do Pequeno Timmy e o Mundo dos Doces? Não é uma história ruim, ela é bem interessante, me deu até uma nostalgia.
Eu não acredito. Estou me segurando para não jogar o café na cara dele, mas há poucos minutos atrás eu estava reclamando de desperdícios.
— Meu Deus, Taehyung! É uma criança solitária que vai para um mundo onde tudo é feito de açúcar, onde todos são felizes e volta para casa como se nada tivesse acontecido. — Cruzo os braços. — O que isso parece para você?
— Uma aventura?
— Não, esquizofrenia!
— Cara, eu sei que a realidade é dura e que se todos fôssemos maduros o mundo provavelmente seria mais fácil para se viver, mas tenta parar com essa mania sua de só enxergar o lado sombrio em tudo. Será que a escuridão que o livro narra não tomou conta de você sem que percebesse?
Não acredito que ele está usando a história do Timmy retardado para tentar me dar uma lição de moral. Eu juro que quando encontrar o autor dessa história, vou socá-lo tanto que ele vai finalmente saber o que é ser tomado pelas trevas.
— Eu vou fingir que você não me comparou com o Mundo dos Doces e nossa amizade vai continuar.
Como se já não bastasse ser conhecido como “Kim Trevoso Namjoon da Escuridão”, agora sou o “Kim Criticador Sem Cultura Trevoso Namjoon da Escuridão”. Todos da editora ficaram comemorando o “sucesso” das Aventuras de Timmy e eu só desejando que o mundo tivesse acabado em dois mil e doze, mas infelizmente nada é como queremos, não é mesmo?
E, para piorar a situação, ao chegar no ponto de ônibus bem na frente da editora, desta vez voltando para casa, me deparo com o mesmo garoto de hoje de manhã. Era só o que me faltava.
— Oh, você de novo! — ele me cumprimenta com um sorriso no rosto.
Aceno como resposta, incapaz de dizer qualquer coisa pelo constrangimento.
— Você trabalha aí? — O rapaz aponta para o prédio.
— Sim, mas honestamente estou me perguntando se devo continuar. Quando escolhi a minha profissão, eu tinha certeza do que era trabalhar com isso, mas agora tenho algumas dúvidas.
— Nossa, aconteceu alguma coisa? Você não parece bem.
— Estou cansado de críticas, de pessoas que não valorizam o meu trabalho, meu propósito e não respeitam os meus gostos. Às vezes me pergunto se o problema sou eu ou eles.
“Quer dizer, me colocaram para revisar uma história horrível e sem graça para crianças. Todo mundo amou, disse que era bonito e coisas assim, mas eu não vejo nada demais, honestamente. O que pode ter de tão emocionante em um garoto que tenta salvar um mundo de doces antes que a escuridão tome conta do lugar?”.
O de cabelos negros acaba achando graça da minha revolta tão de repente e, ao meu ver, ele deve ter me achado louco.
— Não me diga que você é Kim Namjoon, o encarregado de revisar “As Aventuras do Pequeno Timmy e o Mundo dos Doces”?
— Você é algum tipo de stalker ou é meu seguidor no Twitter e viu meus desabafos reclamando dessa história? — Arqueio a sobrancelha.
— Muito prazer. — Ele estende a mão como cumprimento. — Sou Park Jimin, o autor da história.
Eu não acredito. Seria isso o universo conspirando para eu sempre passar vergonha na frente desse cara?
— Essa seria a hora em que eu avançaria em seu pescoço e te socaria até você encontrar o Timmy lá no Mundo dos Doces, mas vou dizer apenas... Oi, Park Jimin, como vai?
— Você não gostou da minha história?
— Lindíssima, nunca critiquei.
— Ei, relaxe, não vou ficar chateado, uma crítica construtiva nunca deve ser encarada como algo ruim, certo?
Que tiro foi esse? Ah, não, espera, foi o tapa na cara que eu recebi agora. O dia inteiro fiquei xingando o autor, imaginando que fosse um cara desocupado, infantil e que achasse a vida um mar de rosas, mas ele até me parece ser maduro e educado. O famoso “não julgue o autor pelo enredo sem noção de sua história mais sem noção ainda”.
— Eu sinceramente só tenho uma pergunta para isso tudo: por quê? — Agora preciso desabafar. — Quer dizer, o conflito não é emocionante, esperei algo mais emocionante que no final o garoto descobrir que o Mundo dos Doces não era real, mas que viveria eternamente no coração dele.
— Não me leve a mal, mas acho que você levou a história ao pé-da-letra mais do que deveria.
— Tinha metáfora naquilo?
— É uma crítica. Sabe, na mente de uma criança, o mundo é grandioso, com muitas coisas boas a serem exploradas, porém, quando se encontra a paz, há sempre algo ruim para tentar mudar isso. É quando crescemos e vemos que todas essas cores, tudo de bom, só era real para nós e que o mundo em si pouco a pouco é tomado pela escuridão.
Ainda bem que Taehyung é rico e já foi para casa de carro, porque se ele estivesse comigo agora, iria gritar um: “Toma, seu otário!”, bem na minha cara. Eu não tinha parado para pensar nesse lado, sabe, é uma boa analogia, se for para pensar desse lado.
No final, o meu amigo tinha razão, estou com a cabeça tão próxima da realidade que não consigo enxergar nada além disso, nem mesmo algo que está diante dos meus olhos.
— Eu retiro o que disse — comento, enquanto coço a nuca. — Cara, falar de algo sério em forma de literatura juvenil foi genial.
— Obrigado. — E Jimin faz uma breve reverência. — A propósito, sou fã dos seus livros e é uma honra tê-lo como corretor, apesar da minha história não ter sido tão impactante para você. Prometo melhorar da próxima vez.
Meu Deus, estou me sentindo um monstro.
— Não, não! Você é ótimo, Jimin. Eu não analisei como deveria, não foi culpa sua.
— Mesmo? Acha que tenho futuro?
— Com certeza. Sabe, se você quiser conversar sobre futuros planos, a gente marca para tomar um café.
Ele sorri e aperta a minha mão.
— Será um prazer, Kim Namjoon.
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