Cherry Heart

15 Capítulo 15


Notas iniciais
Demorou mas foi.
Tenho net de novo :}

luzes coloridas detonavam em todas as direções, o salão apinhado de gente era quente e abafado apesar de amplo, as colossais caixas de som bombardeavam música como batimentos cardíacos acelerados pelo recinto.

A garota começou a sentir-se esquentar no vestido justo e curto, olhando freneticamente pela multidão, tirando e recolocando a franja roxa atrás da orelha enquanto o restante do cabelo caía agora cheio e ondulado sobre os ombros nus. Acabara de chegar à festa e já corria febrilmente atrás de seu par, temendo levar um bolo, por mais estúpida que lhe parecesse levar essa idéia em conta e até mesmo importar-se com ela.

Não acreditava que havia vindo com aquela roupa, era por demais insinuante, além de justa. Não estava deixando-a respirar normalmente, além de que ela já estar segurando o fôlego.

- Achei que não vinha! –Tsubaki apareceu de um aglomerado de garotas conversando todas ao mesmo tempo. –Quem foi que disse que isso era pagação de mico? –Indagou puxando uma sobrancelha clara para cima.

- Enfim, você parece linda. –Sorriu sobre os cachos que insistiam em colar-se em suas bochechas gorduchinhas. Enquanto tentava mudar de assunto manteve os olhos pregados a porta de entrada escancarada.

-Você é que está... –Ela engoliu o restante que ia dizer e virou-se para a porta de entrada, onde um burburinho assolava uma multidão de garotas mais novas circundando a porta.

- Cheguei. –Anunciou Crow quando abriu espaço para passar por entre as meninas menores. Parecia cheio de si, e mais que o eventual, vestindo preto de cima a baixo em roupas sociais com um paletó sobre o ombro e uma rosa vermelha exibindo suas pétalas e espinhos no bolso esquerdo.

- Percebemos. –Cortou-o Yume, percebendo que alunas do ensino fundamental assistiam Crow como se fosse educado ficar olhando assim o par dos outros. Não que ela se importasse.

Crow olhou para trás –e para baixo – captando os olhares das garotas pequenas. Ajeitando a mão que segurava o paletó piche por cima do ombro da camisa social, arrastou o sorriso de lado.

- A festa já pode começar. –Ironizou a garota loira, rindo baixo, e deixou Yume e seu par sozinhos no mar de meninas bem mais baixas do que eles.


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- É que eu já disse que não quero mais enrolação. –Ralhou uma voz profunda e áspera detrás de uma ampla escrivaninha negra, logo atrás havia uma janela que dava vista do aposento inteiro para a vista lá fora, bem acima das copas cor cobre das árvores já quase sem folhas.

- Mas eu não vou mais enrolar. –Respondeu inquieta uma figura alta com o cabelo escuro e longo, muito liso preso num rabo frouxo caindo pelas costas. Vestia um sobretudo e por baixo uma camisa social como se estivesse programando ir há algum lugar antes de ter de submeter-se à aquela reunião. –Só não queria ter de começar nada ainda hoje.

- Isso não pode continuar se estendendo por muito tempo, faz idéia de como é prejudicial? – Sua voz elevou-se e depois tornou a baixar. –Seus olhos de escuridão demonstraram um rápido fraco melancólico, de cansaço.

- Disso eu já sei.

A imagem do empresário embotado atrás da mesa, tornou a postura ereta mais convencional, abandonando os últimos pensamentos com um breve suspiro de trivialidade.

- Certo, faça o que achar que deve fazer. –Deu de ombros, ainda com muita imposição na voz.

- Certo. –Ele fez uma pausa. – Acho que vou chegar em casa bem tarde hoje

O homem sentado assentiu.

- Lembre-se disso, ele é seu irmão, afinal.

- Boa-noite, pai. –Fez uma reverência japonesa e chapinhou até o elevador.

Dentro do recipiente de metal, podia ver a cidade através do vidro limpo do elevador. Virou-se para a parte metálica e encostou sua testa sobre a superfície fria, tentando pensar em no que fazer, afinal, Crow era seu irmão. E ela tinha de ir.


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No salão de festa, a música parada irrompeu de repente e os alunos começaram a exclamar e fofocar num ritmo crescente. Um concurso de dança muito besta havia acabado de anunciar seus vencedores.

Afundando na multidão que parabenizava-lhe, Yume concentrava-se em ouvir apenas os bons comentários, mesmo sendo empurrada cada vez mais para baixo quando a enxurrada de gente tornava a abater-se sobre ela.

Uma mão tirou-a de baixo da algazarra.

- Muito bem! –Tsubaki exclamou em seu ouvido, abaixando-se alguns centímetros. –Você definitivamente mereceu.

- Mas você podia ter ganho de nós. –Alertou-a. –Sinto muito que o seu par não veio.

- Hm, eu também. –Respondeu Tsubaki, mas a falta agora não parecia ser o assunto do momento. Tinham coisas bem mais interessantes –e mil vezes mais divertidas que um bolo – acontecendo.

- De boa. Parece que, pra variar, Yamaruu não deu as caras por aqui. –Crow comentou, dando de ombros num chacoalhado.

- Sinto muito, de novo. –Emendou Yume, quase em cima da voz do garoto.

- Ah, deixa, a noite é pra caçada. –Citou e então deu-lhes as costas, rumando por entre a multidão inquieta.

Yume fez menção de segui-la por um instante, mas daí sentiu um aperto em seu pulso.

- Vamos lá pra fora que está quieto. –Disse Crow.

- Por quê? –Ela aproximou-se mais, tentando ouvir melhor sobre a música eletrônica com um bate-estaca frenético ecoando bem perto deles.

- Eu não consigo pensar no que falar com tanto barulho. –Deu uma risada nervosa perto do ouvido dela e passou a mão no próprio cabelo, arrepiando a franja.

Ambos foram para a parte de fora, onde as folhas outonais desfaziam-se a seus pés. Deixaram para trás porções de ficantes agarrados junto à parede e foram até a beirada da calçada, onde fileiras de árvores formavam coroas cobre na grama ao seu redor. A luz alta dos postes e a copa das árvores encobriam as estrelas no céu e davam às suas sombras uma forma alongada.

Sentaram-se no meio-fio.

- Sabe quando você veio pela 1º vez na doceria? – Começou Crow após alguns silêncios em afonia. –Eu vi você toda chateada e fui falar com você. –Ele deu um risinho sínico. –Deve ter achado que eu era um cara legal ou coisa por aí. Mas de fato... eu já não andava bem há um tempo, e achei você ali sentada perto da janela transparecendo como a vida não prestava.

Ele deu outro riso e balançou a cabeça, coçando o pescoço.

“Como se estar viva fosse ruim. Daí eu sentei lá, queria saber qual era a sua, até zoar com você, sei lá, e te paguei aquela torta Mais aí você começou a falar.” Ele tornou a sorrir normalmente e virou-se para ela. “E eu acho que agradeço por isso.”

Seguiu-se outro breve silêncio.

- Era sorvete. –Respondeu ela algumas oitavas abaixo do natural.

- Hm?

- Você deixou foi um sorvete por conta da casa, daquela vez.

- É, mas –Ele sacudiu a cabeça, desentendido. –Eu só queria zoar com você.

- É, mas –Ela fez uma pausa e fixou o olhar no poste do outro lado da rua. – eu acho que agradeço por isso.”

Eles voltaram a permanecer em silêncio, por um intervalo maior.

- Hmmm, não acredito que disse isso. –Praguejou a garota pondo a cabeça entre os joelhos.

- Nã-ão. Eu adorei. É legal ainda poder zoar com você.

Yume soltou um gemido e afundou o rosto ainda mais, o cabelo sendo empurrado para trás.

- Ei, Yume. – Chamou-a Crow, e sua voz soou levemente distante.

Quando ela levantou a cabeça e virou-se para ele, principiando a palavra “quê?”, ele passou-lhe a mão por detrás do pescoço puxou-a para perto e para cima, até ficarem cara a cara. Tiveram então de tocar os lábios em um beijo técnico, então foram mais afundo em um verdadeiro beijo de língua.

Crow tentou puxá-la mais para perto, mas acidentalmente ambos tombaram do meio-fio e acertaram as cabeças num carro que começou a apitar e chamar a atenção de toda a vizinhança.


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Atrás de uma árvore perto do carro cujo alarme disparara, ele respirou fundo duas vezes seguidas. Não queria nem ter estado ali para escutar, para começo de conversa. E agora, além de chegar atrasado, tinha de seguir com isso.

Ajeitou a longa franja negra atrás das orelhas e afundou o semblante na palma da mão, dando outro longo suspiro cansado, aparentemente pensativo. Yamaruu se sentia muito mal, mas definitivamente os planos não eram aqueles. E ele não desistia tão fácil assim.

Felizmente, ninguém desistiria tão fácil também.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.