Cher Maître
12 Inevitável
Notas iniciais
Monalisa correu atrás de mim, parando-me e pondo-se em minha frente. Por mais que estivesse profundamente irritada por não saber de seu caso com meu irmão, conseguia entendê-la. Era uma situação complexa, tinha a diferença de idade e tinha a Bruna. Em outra ocasião, eu comemoraria o fato de uma amiga minha estar com o idiota do Ricardo, mas da forma que eles fizeram, era difícil engolir.
— Rebeca, não aja como se você não entendesse! Essa não é você… — Monalisa argumentou. — Sabemos que você não agiria assim.
— Monalisa, eu não tô nem aí para o que você e o babaca do Ricardo fazem dentro do quarto dele! Não mesmo! Mas droga! Antes de ser a sua cunhadinha mágica, eu sou a sua melhor amiga! — Cuspi as palavras. — Por que eu não poderia saber? Você acha mesmo que eu te recriminaria?
A negra abaixou a cabeça, fitando o chão. Sabia que ela estava envergonhada. Monalisa não era de expor seus sentimentos, nem mesmo conosco, era compreensível que agisse daquela forma. Ela era uma garota extremamente reservada e preocupava-se excessivamente com a opinião das pessoas, isso a impedia de muitas coisas.
— Não sei, Rebeca — Ela começou a chorar. — Eu só…
Ricardo apareceu. Pronto, agora o circo estava formado.
— Rebeca, não fique brava com ela — Meu irmão intrometeu-se. — Fui eu quem pediu para não falar contigo.
— Eu não tô nem aí para você, idiota — Respondi para Ricardo. — A sua opinião e um monte de merda são a mesma coisa para mim. Agora, Monalisa, poderíamos continuar nossa conversa?
Ricardo mexeu em seus cabelos escuros idênticos aos meus e suspirou alto o suficiente para que pudesse ouvi-lo. Olhei para ele, depois para Monalisa e uma parte de mim queria rir. Eles formavam um casal incrível, tinham muito em comum e um relacionamento entre os dois me livraria de Bruna de uma vez por todas. Eu aceitaria a ideia com facilidade, era óbvio, mas isso não impedia-me de sentir raiva por terem escondido isso de mim.
— Não fale assim com o Rick, Beca — Monalisa soluçou. — Ele só estava preocupado com seus surtos de raiva. Talvez em um desses surtos você pudesse jogar na cara da Bruna e…
Não deixei que ela terminasse.
— Já passou da hora deles terminarem! Como você se submete a esse tipo de coisa, Lisa?
— Não é tão simples, Rebeca! — Meu irmão disse. — Você acha que a vida é toda preta no branco assim?
— Acho sim e se não é, deveria começar a ser — Respondi. — Por que viverem escondidos se podem simplesmente assumir um relacionamento e serem felizes? Isso é estúpido. O que impede?
— A Monalisa é menor de idade, não sabemos como a família dela reagiria e a Bruna não está preparada para isso.
O jeito metódico de Ricardo me irritava profundamente. Como ele podia falar de pessoas como se elas fossem uma de suas propagandas?
— Ah! Deve ser muito cômodo para você! Pega a Lisa e quando a Bruna está aí, se aproveita da ignorância dela e dorme com ela também!
Vi a raiva tomar meu irmão.
— Rebeca, você não parece uma adulta! Olha como você age! — Ele começou a gritar. — Acha mesmo que eu ando dormindo com a Bruna? Não seja estúpida! Arranjei desculpas para ficar longe dela o tempo inteiro, como pode ser tão idiota de não ter notado? É óbvio que você sai por aí dizendo as coisas sem pensar, uma garota mimada como você, criada com tudo na mão.
— Cale a sua boca, você não sabe de nada sobre a minha vida — Minha voz saiu falhada. — Mal fica em casa e quer me dar lição de moral? Ricardo, você é uma vergonha para mim! Tenho vergonha de compartilhar o mesmo sangue que você, seu babaca controlador de merda!
Meu irmão saiu de perto de nós, deixando-me sozinha com Monalisa, que ainda chorava. Seus cachos estavam caídos pelo seu rosto, que por sua vez, encontrava-se enfiado entre seus joelhos.
— Eu sou burra! — Ela começou. — Como eu pude me apaixonar por ele? Está óbvio que ele nunca vai ficar comigo.
Levantei o rosto de minha amiga e tentei agir com racionalidade. Sabia que Ricardo não era nenhum cafajeste, ele de fato terminaria com Bruna. Tinha sido injusta com ele, mas ele mereceu no final. Ele não sabia muito sobre mim, tampouco sobre minhas dificuldades, mas achava-se muito superior e agia como se pudesse falar sobre tudo o tempo inteiro.
— Por mais que ele seja um completo acéfalo, tenho certeza que ele não vai sustentar essa situação por muito tempo — Fui sincera. — Ele vai ficar com você, fique calma. Mas realmente, que dedo podre… Você não faz ideia da fria em que está se metendo.
— Rebeca — Ela me chamou. — Promete que não vai deixar de ser minha amiga por nada?
Respirei fundo.
— Prometo.
— Promete que vai matar o Ricardo se ele me machucar profundamente?
Sorri, era impossível ficar brava com quem se ama.
— Um tiro na testa está bom para você?
*/*
Estávamos às vésperas do baile. Enquanto eu, Clarice e Luíza discutíamos nossas roupas, Monalisa lia sua edição de colecionador de O Morro dos Ventos Uivantes. Ríamos dela por viver no mundo da fantasia, ao passo que nós decidíamos coisas realmente sérias (subentende-se fúteis) sobre nossas vidas.
Clarice já estava quase totalmente curada do baque havia levado. Seus pais ainda seriam julgados e aguardavam em liberdade, ela por sua vez, queria distância deles e estava morando com sua tia. A medida que os dias iam passando, sua autoconfiança voltava ao normal e tínhamos a esperança de que o baile fosse o seu último remédio.
— Vocês acham mesmo que esse modelo na cor creme vai ficar bom em mim? — Clarice rodopiava com um vestido modelo sereia na cor verde.
— Você ficaria linda até dentro de um saco de batatas, Clarice — Luíza opinou. — Sua beleza é uma afronta ao universo.
Clarice deu de ombros e sorriu em seguida.
— Vestiria um saco de batatas se ele fosse assinado pela Vivienne Westwood.
Monalisa levantou o olhar e sorriu.
— Como você é fútil, Clarice! — Disse. — Você deveria se preocupar mais se está bonita, não na marca que está vestindo.
— Ei, Rebeca! — Luíza chamou minha atenção. — Não vai experimentar seu vestido?
Os últimos dias haviam sido difíceis para mim. Havia feito uma série de simulados na escola ao mesmo tempo que tentava lidar com o meu problema mais difícil de ser resolvido: Vicente. Sabia que o campo estava livre, mas não sabia como colocar meu time para jogar. Mais do que qualquer vestido bonito ou festa perfeita, eu queria beijá-lo e queria que ele soubesse tudo que venho guardando.
— Vou sim — Falei. — Só um minuto.
Tirei meu modelo da sacola. Era uma espécie de tubinho preto, mas não um dos tradicionais, o meu era estilizado. Eu era baixinha, portanto podia abusar de comprimentos mini. Meu vestido era tão curto, que se eu me abaixasse, todos saberiam a cor da minha calcinha. No entanto, valorizava o meu corpo não muito proporcional. Dava a impressão de que eu era mais magra também, delineando minhas leves curvas e deixando-me com cara de mais velha.
— Uau! Você está muito gostosa com essa roupa! — Clarice bateu em minha bunda. — Duvido que o Vicente resista, você vai matar o homem do coração.
— Dizem que homens mais velhos não resistem a garotas jovens com vestidos colados… — Luíza implicou.
Monalisa ficou sem graça.
As meninas ainda não sabiam de sua relação com meu irmão, mas logo saberiam. Havíamos conversado muito sobre tudo e concordamos que o estado de espírito de nossas amigas brancas não era o melhor para receberem uma notícia daquela. Era melhor esperar a poeira baixar, Ricardo por um ponto final em seu caso com Bruna e aí sim poderíamos contá-las.
— Ainda descubro o que tanto a Monalisa esconde… — Clarice afirmou. — Nem mesmo no baile ela quer ir.
— Eu nunca vou — A negra se defendeu.
— Quem garante que você já não está envolvida com esse tipo de coisa faz tempo? — A branca contra-atacou.
Eu e Luíza nos entreolhamos e gargalhamos. Clarice e Monalisa costumavam trocar farpas, era muito divertido assistir.
— Quem garante que você não está maluca? — Nossa amiga com nome de pintura de Leonardo da Vinci se irritou. — Cansei das maluquices de vocês, preciso de um descanso!
— Irritadinha ela, né? — Clarice reclamou.
— Você não é fácil! — Ri.
*/*
Vicente conversava animadamente com o professor de Sociologia. Ficava me perguntando que tipo de assunto intelectual eles tinham. Devia ser uma coisa tão viajada, que só de imaginar, o famoso Erro 404 de problema de conexão vinha para minha cabeça.
— Aqui está nossa pequena estrela — O professor de Sociologia notou minha presença.
Minhas bochechas avermelharam.
— Ela é mesmo uma graça! — Vicente sorriu.
— Obrigada, queridos mestres! — Respondi amistosa. — Fico me perguntando o tipo de assunto que homens tão inteligentes desenvolvem…
— Ah, não era nada de extraordinário — Vicente disse. — Falávamos sobre fechamentos de notas.
Sorri propositalmente. Queria parecer bonita perto do meu francês predileto, então mexi nos cabelos a fim de deixá-los mais harmoniosos.
— Aceito um dez de cada um de vocês — Disse com voz infantil.
— Não sei se será um dez, mas com certeza chegará perto — O professor de Sociologia afirmou. — Você é sempre brilhante.
Vicente mordeu os lábios devagar e fitou-me em seguida. Aquilo tinha sido de propósito? Meu Deus do céu, eu iria desmaiar. Ele precisava saber do que sentia por ele, assim eu saberia se era recíproco e me sentiria bem.
Minhas coisas já estavam arrumadas, estava quase na hora de ir embora. Esperta como sou, sabia que se andasse devagar, o loiro me apanharia e com certeza me ofereceria carona. Caminhava vagarosamente quando notei a presença de meu ex namorado no portão.
— Veja se não é a garota que me abandonou… — Matheus começou.
— Veja se não é o trouxa inconformado! — Fui grossa.
— O cara por quem me deixou já está contigo? — Como ele podia ser tão insuportável? — Ou você percebeu que foi babaquice?
— Não é da sua conta, meu anjo — Respondi irônica.
— Não corra atrás de mim quando se arrepender, vai ser tarde!
— Não vou correr atrás de você em hipótese alguma.
A presença de Matheus ali era estranha, mas preferi não pensar sobre.
*/*
Como havia imaginado, Vicente parou seu carro ao meu lado. Mais que depressa, abri a porta e entrei.
— Desde quando a senhorita se tornou tão receptiva às minhas caronas? — O loiro questionou.
— Desde que passei a não te odiar.
— A senhorita me odiava? — Sua risada era gostosa de se ouvir.
— Nem sabe o quanto.
— Por que? — Seu sorriso era contagiante.
Minha vontade era de responder que era por ele ser tão bonito e não ser meu, mas achei melhor não assustá-lo.
— Não sei, só não te achava simpático.
— E agora acha?
— Muito.
Depois de dirigir por alguns metros, Vicente subitamente parou o carro em uma livraria, abriu sua porta e abriu a minha em seguida, no maior estilo cavalheiro. Dei minha mão a ele, que agarrou-a e me conduziu loja a dentro. Sorri com o gesto, era impossível ficar séria ao seu lado. Ele me desarmava de todos os jeitos, em todos os sentidos, queria tê-lo mais do que qualquer coisa. A paixão era mesmo uma febre que demora a passar, era mesmo uma virose sem data para acabar, era felicidade além do que se podia contar.
Olhei seu perfil e derreti-me um pouco mais. Seu olhar cruzou o meu enquanto ele falava com uma das atendentes, que parecia impressionada com o poder de sua beleza física. Não estava entendendo o motivo de nossa parada, tampouco se ficaríamos por muito tempo ali. Mesmo assim, passar tempo com ele fora da escola era uma dádiva.
— Acho que está por aqui… — Sua voz era tão linda.
E eu soube naquele momento que era impossível evitar o inevitável. Vicente era o meu passado, presente e quem sabe, futuro. Desejava que suas mãos apertassem minha cintura, desejava que seus olhos me encarassem e que nossos lábios se encontrassem. Sua presença fazia eu me sentir viva, seu sorriso iluminava o meu dia, minha alma entrava em êxtase cada vez que ouvia a sua voz.
— Rebeca? — Ele chamou minha atenção. — Vamos?
— Vamos sim.
Sentei-me em uma cadeira naquela livraria e esperei que ele me trouxesse o tal livro. Cerca de quinze minutos depois, ele voltou com cara de poucos amigos.
— Não achei o livro, que droga! — Exclamou.
— Nossa, você está realmente bravo! — Debochei. — Nunca te vi xingando.
— Não espalhe, é segredo — Ele piscou um olho. — Acho que não tenho outra escolha a não ser te deixar em casa.
*/*
— Novamente, obrigada pela carona — Sorri. — É sempre muito bom passar tempo com você.
Chegamos à minha casa alguns minutos depois. Vicente parecia hesitante com alguma coisa, mas não soube identificar. Encarei-o. Seus olhos verdes pareciam carregados de desejo, não mais que os meus, pensava. Seus lábios nunca tinham parecido mais bonitos, mais apetitosos, queria beijá-lo por dias, meses, anos. Eu estava apaixonada por ele de corpo e alma e o que mais existisse.
— Igualmente — Ele engoliu em seco. — Sua companhia é muito agradável. Uma pena eu não ter encontrado o livro…
— Não tem problema, ficar esse tempo contigo já foi um enorme presente.
Seu rosto corou.
— Preciso ir, Rebeca — Ele afirmou. — Nos vemos no baile.
— Tudo bem.
Aproximei meu rosto do seu lentamente e em seguida, deixei um beijo bem perto de sua boca. Ele respirou fundo e apertou os olhos, como se reprimisse alguma coisa.O destino havia me pregado uma peça, talvez. Eu não conseguia afastar meus pensamentos do maldito professor de Filosofia que havia me humilhado no primeiro dia de aula. Eu queria que ele soubesse o que sentia, mas queria mais ainda, que ele sentisse o mesmo. No entanto, por que ele tinha que me lançar aqueles olhares? Ora gélidos, ora ardentes.
Eu queria que ele fosse meu. Queria que todos soubesse que ele era meu, de mais ninguém. Pensar em qualquer outra pessoa com ele me fazia ter vontade de morrer. Nunca tinha sido dada a emoções, nunca tinha sentido ciúmes de alguém, tampouco havia sido possessiva. Entendia que seres humanos não eram objetos para serem possuídos. Mesmo assim, Vicente era meu. Ninguém poderia tirá-lo de mim quando eu pusesse minhas mãos nele.
Para que isso acontecesse, eu só precisava de uma coisa: que ele deixasse.
Fale com o autor