Cher Maître

2 Etnocêntrico de merda!


Notas iniciais
Olá, queridos leitores! Eu disse que não demoraria com o capítulo e aqui estou... Acho que alguém cumpre promessas kk Enfim, o capítulo de hoje é dedicado a todos vocês, sobretudo aos que comentaram e me deram gás para escrever esse episódio. A Rebeca é uma força incontrolável da natureza, então não fiquem com raiva do jeitinho de ser dela, ela não me respeita. Quanto ao capítulo, acho que vocês vão curtir... Mesmo esquema do primeiro, digam o que posso melhorar e esse tipo de coisa! Curiosamente, escrevi o capítulo ouvindo Carla Bruni, cantora italiana que canta em FRANCÊS aushaushauhs Beijos, boa leitura ♥

Depois da simples apresentação que fizera, Vicente fez a chamada e perguntou a cada um de seus novos alunos o nível de seu amor por Filosofia. Estava tão ocupada mexendo em meu celular, que não notei quando chegou minha vez.

— Rebeca Garcia? — Ele perguntou.

— É, sou eu.

— Você gosta de Filosofia, senhorita Garcia?

Naquele momento, eu recebia todos os olhares da turma. Todos pareciam ansiosos com minha resposta. Era de conhecimento geral que odiava a matéria. Havia chegado em um nível de ódio por Filosofia tão grande, que no ano passado tinha me negado a fazer as provas da matéria e quase tinha levado uma dependência no fim do ano.

— Não?

O cara que não devia tomar banho todo dia parecia segurar o riso.

— Não — Finalmente respondi.

Vicente deu a volta em sua mesa e olhou diretamente em meus olhos, como se me analisasse.

— Em uma escala de zero a dez, o quanto você gosta de Filosofia?

Suspirei. Por que ele estava fazendo isso? Já havia respondido que não gostava da matéria.

Não queria admitir, mas a presença daquele europeu metido à besta estava me tirando do sério. Ele estava me deixando nervosa. Logo eu, que nunca sou amedrontada por ninguém. De alguma forma, ele parecia querer me provocar, me ridicularizar ou inferiorizar na frente da turma inteira.

— Zero.

Minha resposta fez com que a turma risse.

— Tudo bem, senhorita Garcia — Seu sorriso era perceptível. — Espero que mude de ideia.

— Completamente improvável — Fui ríspida.

O loiro fechou o sorriso e continuou sua chamada.

*/*

Vicente era um professor melhor do que o esperado por mim. Não era arrogante, sua aula não era um monólogo. Ele gostava que participássemos, e mesmo eu que odiava a matéria, estava entendendo a mensagem que ele passava. Isso não queria dizer que gostava dele. A humilhação a qual ele havia me submetido não tinha sido esquecida por mim.

O francês era um debochado.

Quando a aula se encerrou, respirei aliviada. Já juntava minhas coisas, quando ouvi sua voz.

— Senhorita Garcia, preciso falar com você.

Era ele.

Sem disfarçar meu descontentamento, sinalizei positivamente e caminhei até sua mesa.

Ele era mais bonito de perto. Não pude deixar de reparar em seu tom rosado de pele. Era claramente europeu, mesmo não tendo sotaque. Seus cabelos dourados brilhavam mesmo com a iluminação artificial e seus olhos! Eram os mais bonitos que já tinha visto, sem exagero algum. Tamanha beleza física era recompensada pelo seu notável gênio e arrogância desmedida.

— Manda.

Não sabia se era coisa da minha cabeça, mas jurava ter visto um meio sorriso formando-se em seus lábios. Lábios que acabei por reparar terem um belo formato.

O que eu tava fazendo?

— Senhorita Garcia…

— Rebeca Interrompi-o. — Me chame de Rebeca.

— Tudo bem, Rebeca — Ele disse meu nome cuidadosamente, podia ouvir cada sílaba sendo pronunciada. — Não consegui decifrar seu comportamento na aula de hoje…

Aquilo era sério? Ele estava me privando de alguns minutos de intervalo por causa de meu comportamento? Em que série eu estava? Na segunda? Aquilo era inaceitável.

— Se me permite sair, eu tenho o que fazer — Revirei os olhos.

Comecei a caminhar, mas fui impedida.

— Rebeca, espere um minuto — Suas mãos agarraram meu abraço. — Quero conversar com você.

Uma corrente elétrica me cortou. Não sabia explicar o que estava havendo ali, acho que nem ele. Nos encaramos por alguns segundos até que tirei suas mãos de mim. Aquele toque tinha sido totalmente desnecessário. Não havia gostado. Odiava que tocassem em mim dessa forma, odiava ainda mais se viesse de alguém que mal conheço e já não gosto. Entretanto, a minha pele formigou ao passo que me aproximava do loiro.

Só podia ser loucura.

— Você disse que não gosta de Filosofia, mas suas notas aumentaram significativamente no último bimestre. Como você explica isso? — Sua voz era calma, questionadora.

Não queria, mas me senti inebriada por alguns segundos. A calmaria que sua presença trazia me agradou por algum tempo.

— A Rachel era muito legal, ela me fez entender um pouco dessa baboseira intelectual… — Respondi sem encarar-lhe, não queria que ele visse meu desconforto.

— E como ela te fez entender a “baboseira intelectual”? Ele parecia debochar da minha fala. — Ela teve algum método diferente?

Olhei-o de soslaio.

— Não acho que sou capaz de te explicar, pergunte à Catarina, ela tinha as melhores notas.

— Sim, a Catarina tem as melhores notas da sala — Aquela fala parecia premeditada, como se ele quisesse me incomodar com aquilo — Mas ela teve notas altíssimas com o professor anterior também.

Eu não ia cair em seu joguinho. Com certeza ele queria que eu afirmasse que era a melhor aluna da sala.

— Isso é muito bom! — Sorri forçadamente. — Posso ir agora?

Vicente mexeu nos belos cabelos e estalou os dedos.

— Rebeca, a maior parte dos alunos aumentou a nota com a senhora Bueno, mas nenhum deles teve um aumento tão significativo como você. Queria entender o que aconteceu, só isso. Quando se sentir melhor para explicar, me procure — Ele foi extremamente cordial. — E quero que saiba que para que você tenha boas notas comigo é preciso estudar. Esqueça os métodos ou truques que usou com a senhora Bueno. Eu não sou um professor de bom coração, eu sou um professor que aprova os bons e reprova os preguiçosos.

A raiva me tomou. Quem ele pensava que era? Quem ele pensava que eu era?

Olhei no fundo de seus olhos verdes e suspirei. Em seguida, saí da sala batendo a porta atrás de mim.

Babaca. Era a única coisa que podia pensar sobre ele.

*/*

Estava irritada. Completamente irritada.

Determinada a melhorar meu humor, fui correndo ver a lista do ranking do segundo bimestre. Estava convencida de que veria meu nome em primeiro lugar com uma linda estrela dourada ao lado. Pelos meus cálculos, com toda certeza manteria meu número um.

Uma aglomeração de adolescentes e professores juntou-se próximo a mim. Estavam todos ansiosos para ver a nova lista. Alguns alunos queriam saber se entraram na lista, outros queriam saber se subiram de posição, mas eu só queria confirmar que minha colocação havia continuado a mesma.

Quando finalmente pus os olhos na lista, meu queixo caiu.

Nada poderia ter me desanimado mais que aquilo, nada.

As pessoas atrás de mim olharam umas para as outras, faziam comentários altos o suficiente para que pudesse ouvir.

Meu sangue ferveu.

— Ei, Beca! Parabéns! — Joana, uma aluna do segundo ano me parabenizou.

Sim, havia mantido meu primeiro lugar.

O problema todo é que agora o divido com Catarina.

Olhei para trás e pude notar o rosto da ruiva. Ela parecia muito animada, mas não disse uma palavra. Seu olhar para mim foi de superioridade, como se ela quisesse dizer “Hey, seu sonho acabou”. Não disse nada, tampouco demonstrei meu descontentamento. Apenas mantive meu silêncio e caminhei para longe da multidão.

As sardas e os olhos verdes de Catarina foram minha última lembrança. A garota era bonita, porém totalmente sem sal. Ela não tinha apelo sexual nenhum, era totalmente sem graça. Cabelos ruivos cortados no ombro, óculos enormes — que ela julgava estilosos —, corpo magro e um sorriso totalmente alinhado. Até a aparência da queridinha dos professores era alinhada. Éramos muito diferentes, de fato. Em comum só tínhamos o fato de estudarmos na mesma escola e agora, o primeiro lugar naquela droga de lista.

Quase explodindo, saí de perto da cambada de animais silvestres. Ainda com os olhos verdes de Catarina em minha mente, quase deixei tudo cair ao bater em uma mulher que nunca vi na vida. A mulher tinha longos cabelos castanho-claros e um belo sorriso. Parecia simpática.

— Perdão, mocinha — Ela disse.

— Que nada, a culpa foi minha…
**

Eu tinha muitos amigos meninos. Alguns deles eram uns babacas na maior parte do tempo, mas eu possuía alguns bons. Alexandre era um deles. O loiro bonito do segundo ano era uma espécie de irmão para mim, falava sobre tudo com ele.

— Então você tá me dizendo que o francês metido à besta te deu um sermão à toa?

Os cabelos lisos de Alexandre insistiam em cair em seus olhos azuis.

— Sim, eu tô falando sério — Revirei os olhos. — Vai dizer que você gostou dele?

— Eu não gosto de nenhum professor, então não faz diferença.

Suspirei.

O resto dos garotos do segundo ano se juntou à nossa conversa. Não reclamei, eles me faziam rir bastante na maior parte das vezes. Lucas, um moreno bonitinho, chegou praticamente gritando:

— Vocês viram a professora de Literatura que chegou? A mulher é um espetáculo!

Rapidamente a imagem da mulher que esbarrou em mim veio à minha mente. Lembrei-me de tê-la achado bem bonita, de fato. Mas ao mesmo tempo, não considerava-a a oitava maravilha do mundo. Era bonita, mas não sabia muito sobre ela para dar um veredito final. Sim, para mim beleza e conteúdo são síntese, não coisas separadas.

— Vi sim! Ela é maravilhosa! — Alexandre se derreteu.

— Vocês meninos não podem ver uma mulher mais velha hein! Parece que tem um hormônio específico para isso... — Dei meu sermão.

— Como se vocês, meninas, não estivessem babando pelo francês que chegou hoje! — Frederico, um pirralho do primeiro ano, disse.

Meu sangue ferveu no mesmo instante.

Eu babando por Vicente Bordeaux? Existia coisa mais improvável? Ele não passava de um cara arrogante e prepotente. Jamais sentiria qualquer coisa por ele. Jamais.

— Até parece! — Minha voz falhou.

— A Beca não gosta deles, parceiros! — Alexandre pronunciou-se. — Ela disse para mim que prefere caras mais novos.

Alexandre era completamente ridículo. Seus olhos azuis piscaram para Junior, um garoto do segundo ano que era apaixonado por mim. Por mais que ele fosse bonito, não costumava dar bola para garotos mais novos que eu, mal falava com os de minha idade.

No alto de meus dezessete anos, já tinha tido alguns namoros, mas ninguém que tivesse me balançado verdadeiramente. O único que tinha chegado perto de despertar algo em mim, mudou-se para São Paulo depois da conclusão do ensino médio e não voltou mais. Não fazia falta, afinal.

— Não seja idiota, Ale! — Chamei sua atenção. — Ultimamente não tenho gostado de cara nenhum.

— É porque nunca saiu comigo — Junior aproveitou a deixa.

— Me deixem! Se contentem em devanear sobre a professora de Literatura, rapazes!

— Beca, meu amor — Lucas disse. — Não fique com ciúmes da professora de Literatura, você tem potencial para ficar tão bonita quanto ela. Talvez até mais.

Não me dei o trabalho de responder àquilo. Saí mais irritada ainda do que cheguei.

*/*

Já com os nervos completamente postos à prova, saía aos trancos da escola. Estava preparada para ir para o ponto de carona, quando uma cena me chamou atenção. Vicente conversava com Catarina. Não precisei fazer esforço algum para ouvir a conversa.

— Meus parabéns, Catarina — O loiro disse. — É uma grande conquista.

Até a forma que ele falava transparecia seu ar de superioridade. Etnocêntrico de merda! Era só isso que pensava. Talvez ele se achasse melhor por vir de um país desenvolvido. Queria muito mandá-lo ir à merda. Não gostava de Catarina, mas sentia pena da ruiva por se dar ao trabalho de falar com ele e ainda ser tratada daquela forma.

— Muito obrigada, professor — Seu sorriso poderia ser visto do outro lado da cidade.

Peraí, por que ela estava sorrindo para Vicente? Catarina não era de sorrir. Não daquela forma, não um sorriso inteiro daquele.

Não consegui abafar uma tosse e os dois notaram minha presença. Dois pares de olhos verdes me olharam, um deles muito mais bonitos que o outro.

— Rebeca — Cada fibra de meu ser estremeceu com aquela pronúncia. — Permita-me te parabenizar também.

Seu tom era debochado, quase irônico.

Catarina despediu-se, como se quisesse nos deixar a sós de propósito.

— Obrigada! — Respondi seca.

— Admito que não poderia estar mais surpreso...

Diante de sua fala programadamente ofensiva, Vicente só me dava duas opções: mandá-lo ir à merda ou sair dali. Decidi pela segunda, mas não me contive.

— Professor Vicente! — Chamei. — Quantas faltas posso ter com o senhor?

— Doze — Ele respondeu calmamente.

— Terei todas!

E assim deixei-o com a cara mais imparcial possível. Ouso dizer que ele segurou o riso. Não sabia muito sobre a França, tampouco sobre os franceses, mas só para garantir que nada me lembraria do desgraçado, excluí todas as músicas da Carla Bruni de minha playlist.

Odiava Vicente Bordeaux, odiava a França, odiava a droga daquela escola! Meu dia tinha sido terrível.

Notas finais
Obrigada por ler! ♥ E aí? Qual é a do Vicente?