Cher Maître

18 A Maior Encrenca de Todas


Notas iniciais
Olá, meus amores! Sei que devo explicações pelo meu sumiço, vamos lá: 2018 foi ano de vestibular, uma hora eu simplesmente tive de abdicar de tudo para estudar absurdamente e, bem, deu certo. Passei para a faculdade dos meus sonhos, tive que me mudar, sofrer um pouco e isso tudo culminou em um 2019 cheio. Primeiro ano de faculdade, primeiro ano de cidade nova, primeiro ano morando sozinha. Meio que deu ruim e eu acabei não conseguindo ter tempo para absolutamente nada, assassinando as minhas histórias. Como eu gosto muito de Cher Maître e sei que muitos gostam, estou tentando retomá-la agora nas férias e, bem, acho que tá dando certo. Esse capítulo foi escrito muito facilmente, provando que o meu maior problema é realmente a falta de tempo. Algumas observações sobre o capítulo: a edição tá meio merda, não sei o motivo, a formatação ficou cagada. Além disso, mais nada! Aproveitem e perdoe essa autora-futura-jurista, beijinhos ♥

Estava quase na metade de meu livro novo da Simone de Beauvoir, quando ouvi batidas na porta. Claro que eu sabia quem era: Vicente.

Não me entenda mal, mas eu não queria saber dele.

Eu conhecia muito bem o jeitinho de meu professor de Filosofia metido a filósofo iluminista ressuscitado. Conhecia o suficiente para saber que ele fingiria que nada havia acontecido e, mais, que talvez até admitisse algum dia, mas colocaria a culpa na bebida.

Dito e feito.

Vicente não falou comigo sobre o ocorrido. No entanto, ele se surpreendeu. Eu também não falei com ele. Tinha exatamente uma semana que eu mal falava com ele. Ele não havia perguntado o motivo, então provavelmente sabia qual era.

— Pode entrar, eu não tô pelada! — Gritei.

E lá estava ele.

Tá bom, eu tava com raiva dele, mas não tinha como não olhá-lo.

Aqueles olhos tão lindos, aquele cabelo dourado de um jeito que chegava a ser irritante e aquela boca… me perdi na minha linha de pensamento no mesmo instante em que pus os olhos no homem.

Estava abobalhada.

Eu odiava admitir, mas eu não conseguia ficar com raiva dele. Não de verdade. Quando eu ficaria com raiva de Vicente por ele ter me beijado? Nunca.

— Rebeca, acho que a gente precisa conversar — Ele disse.

Vicente parecia um pouco ansioso com algo, uma vez que mexia nos fios dourados freneticamente. Eu nunca tinha o visto assim. Além disso, sua roupa também não parecia a mais arrumada. Eu realmente não conseguia imaginar o poderoso Vicente Bordeaux usando aquele conjunto de moletom azul.

— Conversar sobre o que? — Sorri irônica. — Sobre os beijos que meu deu na semana passada ou sobre a sua postura de merda sobre isso?

Ele levantou as sobrancelhas. Eu sei que eu estava sendo dura, mas ele merecia e é fácil entender o porquê.

Eu entendia que era difícil lidar com os sentimentos. Eu realmente entendia. Foi difícil para mim admitir para mim mesma que eu gostava de um cara. Ainda mais um cara como o Vicente. Depois, foi mais difícil ainda lidar com sua rejeição. No entanto, eu acho que tinha ido bem, visto que ele não estava morto. Além disso, eu tinha dezoito anos. Apenas dezoito anos. Porém, parecia que eu tinha muito mais maturidade do que ele. Já que, diferente dele, eu não tinha beijado-o na primeira oportunidade depois da situação que havíamos passado.

E já que ele tinha me beijado, como grande homem adulto que ele era, a obrigação dele era tratar o assunto com maturidade. Não foi o caso. Ele fez exatamente o que eu esperava que fizesse: se esquivou e fingiu que não aconteceu, mesmo sabendo o quanto aquilo me machucava.

E, bem, analisando toda a nossa trajetória, era bem claro: Vicente era um egoísta. Ele não ligava nem um pouquinho para como eu me sentia. Era sempre ele. Como ele se sentia. O que ele achava melhor. O que era melhor para ele.

Eu não sou burra. Claro que não era o melhor para ele se apaixonar por uma garota como eu. Principalmente pela nossa belíssima diferença de idade: 10 fucking anos. Entretanto, às vezes todo esse calculismo me estressava.

E era por isso que ele estava sendo tratado dessa maneira.

— Rebeca, eu… — Ele gaguejou.

Eu sorri forçadamente.

— Sou toda ouvidos! — Fechei meu livro.

— Eu sei que eu devia ter conversado com você sobre como a minha postura foi equivocada e como eu não devia ter feito aquilo, mas eu simplesmente não fui capaz.

Típico.

— Vicente, eu entendo que você bebeu — Suspirei. — Não estou falando que esperava um pedido de casamento, mas você podia pelo menos ter dito algo. Qualquer coisa. Não estragado a nossa viagem dessa maneira.

— Rebeca, tenta me escutar — Ele pediu. Assenti. — Eu simplesmente não fui capaz de te dizer que eu não devia ter feito aquilo porque, bem, eu não me arrependi. Nem por um momento.

Tudo bem, aquilo tinha sido surpreendente. Eu estava em choque.

— Como?

— Isso mesmo — Ele se sentou na minha cama. — Eu não me arrependi nem mesmo por um segundo e eu me senti realmente mal sobre isso. Por isso, tentei te evitar. Eu não conseguiria mentir na sua frente. Não de novo…

Admirar meu colo nunca tinha sido tão reconfortante como agora. Eu não tinha coragem de encará-lo. Aquilo era muito para um dia só. Eu não queria criar expectativas, não depois de passar por uma fossa como eu havia passado, não depois de ele me beijar e fingir que nada havia acontecido.

— Mentir de novo? — Questionei.

— Rebeca, não torne as coisas mais difíceis do que elas são, por favor.

— Só fale a verdade, Vicente, é impossível você me machucar mais do que já machucou.

Ele se aproximou. Suas mãos tocaram as minhas, que estavam apoiadas na cama e afundavam no colchão. Quando senti seu toque, me desequilibrei um pouco e acabei caindo deitada. Vicente percebeu meu descuido, mas não me ajudou. Apenas deitou-se ao meu lado. Agora estávamos deitados como um desses casais de filme de romance que encara o teto. Novamente, ele pôs suas mãos sobre as minhas, enlaçando-as depois. Estávamos deitados e de mãos dadas. O meu lado racional me dizia o quanto aquilo era perigoso, mas o meu lado sentimental agitava-se cada vez mais. Era muito fácil ceder a ele. Não só porque ele era o homem mais lindo da face da Terra, mas porque ele era… Vicente.

Ainda em silêncio, ele apertou minha mão o suficiente para que eu soltasse um suspiro de reprovação.

— Eu menti para você quando eu disse que nós não poderíamos ser nada além do que já somos.

Sim, a fatídica frase que ele havia utilizado para me afastar.

— O que mais nós podemos ser? — Perguntei quase em sussurro.

— Isso.

E ele me beijou. Suas mãos foram para o meu cabelo, enquanto ele me puxava para si. Nosso último beijo havia sido desesperado e sensual, esse era muito mais calmo, gentil. Seus lábios roçaram sobre os meus várias vezes antes que sua língua começasse a conduzir o beijo. A princípio, fiquei estática, mas logo me rendi àquilo. Quem eu queria enganar? Era exatamente o que eu precisava. Depois do estranhamento inicial, puxei os cabelos de Vicente, trazendo-o para ainda mais perto. Ele deslizou sua mão pelas minhas pernas nuas, parando o beijo por alguns segundos para analisá-las e depois entregando-se novamente. Nos beijamos o suficiente para ficarmos ambos vermelhos e sem ar.

— Vicente, eu…

Ele me olhou daquele jeito novamente, como se me admirasse, como se eu fosse uma obra de arte.

— Não fala nada agora, só me beija, por favor — Ele pediu.

Não foi nenhum sacrifício voltar a beijá-lo. E nós nos beijamos por muito mais tempo, apenas beijos e carícias, nada mais que isso. Eu queria mais. Aparentemente, ele também. Mas eu não podia simplesmente me jogar nos braços dele e esquecer de todo o resto. De toda a confusão envolvida em nosso pseudo-romance.

— Vicente, por mais que ficar em uma cama com você seja o ponto alto de qualquer um de meus dias — Ele sorriu com a minha gracinha — Nós precisamos conversar.

— Eu sei — Ele voltou a colocar as mãos em minhas pernas, então sussurrou: — Eu só estava recuperando um tempo perdido.

— Um tempo que você perdeu se martirizando por gostar de uma aluna adolescente?

— Você não poderia ser mais precisa, Rebeca — Ele sorriu novamente. — É por isso que eu gosto de você: você é muito eficiente.

— Ah, é? — Mordi o lábio — Eu adoraria te mostrar toda a minha eficiência. Mas eu não quero distraí-lo do seu dever maior: me dar explicações.

— Bem, Rebeca, eu provavelmente gosto de você pelo seu jeito nada delicado de ser e por suas piadinhas prontas que você solta a cada um minuto, mas eu tenho outras razões para te amar.

Nem nos meus sonhos mais absurdos, eu imaginaria uma coisa daquelas: Vicente admitindo que me amava enquanto estava deitado em uma cama comigo. Mas, se eu tivesse sonhado com aquilo, provavelmente nossa noite terminaria em sexo. Não era o que eu planejava para hoje, mas a ideia não era nada ruim.

— Você hã… me ama?

— Sim, Rebeca, eu te amo. Na verdade, quando você me beijou no ginásio da escola, eu já te amava. Mas toda essa ideia era assustadora demais para que eu pudesse admitir para mim mesmo. Você sabe o quanto nossa relação será complicada. Eu tenho quase trinta anos, você mal tem dezoito. Você precisa entrar na faculdade, viver a sua juventude e eu não quero ser um fardo para você.

Apenas uma parte daquela revelação havia me importado: a nossa relação.

— Você acha possível termos uma relação?

Ele riu. Sua risada foi como música para os meus ouvidos.

— Bem, se você disser que vai aguentar a minha bizarrice e os meus gostos de velho…

Beijei-o. Um desses beijos desesperados. Tão desesperado que ele se assustou, mas logo correspondeu.

— Rebeca, você é uma graça.

— Vicente, eu te amo. Absolutamente. Mesmo você sendo um insuportável que amava me humilhar.

— Rebeca, eu te amo. Absolutamente — Ele imitou minhas palavras. — Mesmo você sendouma encrenqueira de marca maior.

— Acredite em mim: nenhuma encrenca nunca foi maior que você.

— Bem, eu espero que você aprenda a lidar com essa encrenca, boatos que ela espera uma vida inteira ao seu lado.

Notas finais
Tá claro para todo mundo o quanto a Rebeca quer tentar produzir herdeiros de cabelos dourados? Note o tentar hahah