Cheiro De Tinta
1 Cheiro de tinta
Cheiro de tinta a fazia recordar da infância, quando via o pai pintando de graça, porque ninguém mais tinha condições de pagar um pintor naquele tempo. E também quando o pai pintava e repintava a parede do porão, e pouco a pouco ela aprendia as palavras. Cheiro de tinta definitivamente a fazia relembrar a infância na rua com nome de céu – e quem destruiria uma rua com esse nome?
Olhando para aquelas paredes que ainda exalavam o cheiro de tinta fresca, Liesel recordou das maçãs, das batatas e dos livros roubados. Do futebol e das páginas. Dos pesadelos e do acordeão. Dos cabelos da cor de limões e do “que tal um beijo, saumensch?”. Dos olhos mortos de Werner e do rosto daquela mãe, que ela ainda se perguntava onde estaria. Dos cabelos elásticos e dos olhos de prata derretida. Dos tiques nervosos de Tommy e do cabelo de penas e gravetos de Max. E daquele beijo com “gosto de arrependimento à sombra do arvoredo e na penumbra de coleção de ternos do anarquista”.
A menina feita de trevas era, naquele momento, uma mulher feita de lembranças. Uma menina que tinha amado e odiado as palavras. E que esperava tê-las usado direito.
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