Cheia de Charme
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Notas iniciais
Tinha algo diferente nela, algo que eu nunca tinha encontrado em nenhuma mulher. E como ela já era mulher, mais do que eu era homem quando tinha os mesmos 19 anos... Era decidida, inteligente e sabia confundir meus sentidos com uma facilidade linda.
Como alguém explicaria esse sentimento que crescia entre nós dois? Mesmo eu, que compunha canções de amor, modéstia a parte, perfeitas como ela mesma definia, não conseguia colocar em palavras o poder que aqueles grandes e brilhantes olhos castanhos, aquele doce sorriso meigo, aquela pele perfumada e lisa e o calor delicioso daquele corpo exerciam sobre mim.
Eu me sentia um adolescente de novo com a sua primeira namorada, querendo presenteá-la com as estrelas e a lua, querendo abraçá-la e prendê-la pra sempre em meus braços, dizendo que a amava perdidamente...
Porque, Deus, eu já a amava... Eu já sabia que a amava no momento em que seus olhos cruzaram com os meus, quando ela deu seu primeiro sorriso acanhado ao me ver sentando ao seu lado, sabia quando ela disse que tinha gostado do meu show, quando dançamos, quando aqueles lábios cheios e saborosos encontraram os meus no nosso primeiro beijo...
Uma paixão assim não acontece todo dia¹...
Eu ainda tentava desvendar os segredos dela, ainda tentando encaixar uma melodia em nossos versos, procurando os versos certos que cabiam na nossa melodia²...
Nós sabíamos que não seria fácil, que a nossa diferença de idade seria um problema maior aos outros do que era pra nós dois... Sabíamos que vencer a distância seria uma batalha diária pra ambos... Que relacionamentos entre músicos e fãs sempre eram tumultuados por intrometidos... Mas eu contava com a maturidade dela pra me dar o apoio que esse amor precisava pra sobreviver.
Porque por ela eu arriscaria tudo, pra poder guardar só pra mim todo o seu charme encantador, todo seu desejo revolucionário, todo seu espírito brincalhão... Um espírito que ansiava pela paz e tranquilidade, trancado num corpo que devia querer a bagunça e a aventura... Devia, mas não queria...
E eu agora a admirava adormecida em meus braços, com as feições tranquilas, sua respiração serena e com um pequeno sorriso nos lábios.
Camila se moveu minimamente e eu estreitei seu espaço em meus braços, apertando seu corpinho em meu peito e ela se virou pra me encarar.
– Bom dia — eu disse, dando-lhe um beijo na testa.
– Bom dia — ela sorriu o mais lindo dos sorrisos que eu amava.
– Eu te acordei?
– Não – ela bocejou. — Faz tempo que você está acordado?
– Uns quinze minutos, mais ou menos...
Ela começou a beijar meu peito, fazendo um carinho delicioso em minha nuca que me fez fechar os olhos e morder o lábio inferior com força. Senti-a envolver minha cintura com as pernas e beijar meu pescoço, enquanto eu arranhava suas costas.
– Está com fome? — eu perguntei, brincando com algumas mechas de seu cabelo. Ela balançou a cabeça negativamente e beijou meus lábios, ficando por cima de mim. — Quer tomar banho?
Camila nem moveu a cabeça pra me olhar, fez um barulhinho com a garganta indicando outra resposta negativa enquanto mordia minha orelha.
– Então, o que você quer? — eu perguntei, acariciando seus braços e ela deitou a cabeça em meu peito.
– Como sabe que eu quero alguma coisa? — ela disse quase num sussurro, sua voz suave inocente como a de uma criança.
– Porque eu sei interpretar muito bem suas feições, amor — eu disse, colocando o dedo sob seu queixo e erguendo seu rosto pra me encarar. — Então, o que é?
– Eu posso ligar pra casa? Ainda não é noite lá e... Eu queria falar com a mamãe...
Eu não resisti a doçura daquele pedido e lhe dei um selinho carinhoso.
– Você não precisa pedir minha permissão pra ligar pra casa, Cami! Eu não sou seu pai... Graças a Deus, não sou — eu disse, fazendo carinho em seu rosto.
Ela riu, se enrolando no lençol e se desprendendo dos meus braços pra ir até o telefone. Fiquei observando seus gestos e eu não sabia o que me incomodava mais: se era tê-la tão distante dos meus braços ou escutá-la falando uma língua tão incompreensível pra mim.
Levantei e fui me agarrar em sua cintura, encaixando seu quadril ao meu, beijando seu pescoço, me perdendo entre os seus cabelos, pela sua pele, acompanhando o contorno dos seus lábios macios com o polegar, sentindo aquele perfume que me enlouquecia, que eu não sabia explicar...
Não demorou muito pra que ela desligasse o telefone, se virasse pra em meus braços e envolvesse meu pescoço num abraço apertado e carinhoso.
– Eu te amo! — sussurrei em seu ouvido.
– Eu também — ela disse, beijando meu pescoço.
Não havia mais nada de verdadeiro no mundo. Eu estava conectado a ela pra sempre e caminharia sempre ao seu lado pra o que quer que o futuro nos preparasse, porque eu não faria nada que fosse magoá-la e sempre estaria pronto quando ela precisasse de mim.
Não importavam os problemas se estivéssemos juntos e eu não esperava menos de nós dois. Porque eu temia perdê-la, temia causar qualquer dor, pois tudo o que doía nela, doía ainda mais em mim.
Nossos dedos se entrelaçaram suavemente e eu sabia que ela também estaria ao meu lado e que quando não estivéssemos juntos, estaríamos pensando um no outro. Seus olhos se fixaram nos meus e ela sorria, nós dois juntos construiríamos a nossa vida, construiríamos o mundo do nosso jeito, sem nada que achamos errado, um mundo perfeito pra nós dois.
E eu já não teria nenhum medo de ser feliz. Porque ela tinha entrado em minha vida e me ensinado o que é amar!
¹ "Cheia de Charme" — Guilherme Arantes
² "Letra e Música"
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