Cheerock
22 Capítulo 20
Notas iniciais
Carly
– O que foi? – perguntei sonolenta me levantando.
Olhei seu rosto e imediatamente percebi que tinha algo estranho. É claro que ele não estava tranquilo, afinal acabara de sair do enterro do próprio pai, mas ele parecia mais nervoso.
– Nada, eu... – então ele paralisou e me olhou nos olhos, triste – Carly, eu entrei em contato com o advogado do seu pai para me dar notícias sobre o julgamento dele...
– É próxima semana, certo?
– É o que eu achava também, mas parece que decidiram antecipar alguns casos, inclusive o do seu pai.
– Quando é?
– Foi... hoje.
– Ah... tudo bem. E aí? Já saiu o veredicto?
Ele desviou o olhar, nada de bom poderia vir daquele gesto.
– Ele foi... condenado.
Um grande vazio tomou conta de mim, como se todos os sentimentos tivessem saído repentinamente e dado lugar a um vazio, um negro frio e sem vida.
Eu não ouvi mais o que Victor falava, mas senti seus braços ao meu redor, tentando me confortar.
Eu não era próxima a meu pai, mas ele significava para mim a esperança de uma nova vida. É claro que eu gostava de morar aqui, mas cá entre nós eu me sentia uma folgada morando na casa de estranhos. Janice, Victor e Hugo não eram mais estranhos para mim (em especial Victor), mas eu estava vivendo de favor aqui e isso não era nada confortável para mim.
– Carly – ele me chamou, talvez pela décima vez.
Foi então que as lágrimas começaram a cair de verdade. Eu não conseguia controla-las, elas simplesmente caíam rolando desesperadamente.
Encostei-me em seu peito e agarrei sua camisa. Eu tive a impressão de que eu ia cair, de que o mundo estava girando, mas ao mesmo tempo impossivelmente quieto.
Senti alguém acariciando minhas costas e alisando meu cabelo.
– Tá tudo bem, está escrito na legislação que a família tem direito a conversar uma última vez com o condenado alguns dias antes da execução.
– É mesmo?
– Sim, o júri decidiu que ele não poderia receber visitas, mas podemos recorrer, por que é constitucional.
Eu queria aceitar aquilo, eu queria criar esperanças de que eu ainda teria a chance de me despedir, mas foram tantas as vezes em que me dei esperanças e elas me decepcionaram que eu não me sinto mais confiante em alimentá-las.
Encostei-me novamente em seu peito e fechei meus olhos, tentando me acalmar, parar de chorar.
– Eu vou estar aqui por você – sussurrou ele em meu ouvido.
Então me lembrei novamente que era ele quem precisava do meu apoio minutos antes. Desencostei de seu peito e olhei em seus olhos azuis.
– E eu por você.
Ele deu um sorriso e me abraçou. Ficamos assim por muito tempo ou pelo menos até eu adormecer.
Victor
– O que foi? – perguntou Carly me olhando.
Ela olhou para mim com um olhar indagador. Tenho certeza que eu não parecia nada feliz e confiante, e mais certeza ainda de que ela notou.
– Nada, eu... – eu queria mentir, eu queria esconder, eu sabia que iria devasta-la, mas mais cedo ou mais tarde ela iria descobrir e seria melhor se eu estivesse ali com ela para abraça-la – Carly, eu entrei em contato com o advogado do seu pai para me dar notícias sobre o julgamento dele...
– É próxima semana, certo?
– É o que eu achava também, mas parece que decidiram antecipar alguns casos, inclusive o do seu pai.
– Quando é?
– Foi... hoje.
– Ah... tudo bem. E aí? Já saiu o veredicto?
Ela estava me olhando fixamente e eu simplesmente não iria conseguir dar aquela notícia encarando-a, então desviei o olhar.
– Ele foi... condenado.
Ela paralisou e fixou o olhar ao longe, sem reação.
– Carly? – chamei, mas ela ainda estava paralisada, com o olhar perdido – Carly – repeti, mas nada.
Chamei-a repetidas vezes e em certo ponto comecei a ficar preocupado, mas ela não acordava.
– Carly – chamei-a enquanto a chacoalhava. Ela finalmente olhou para mim de verdade e desatou a chorar. Soluçava e tremia quase como minha mãe no enterro há pouco.
Ela quase caiu em meu peito e encostou sua cabeça nele enquanto agarrava a camisa, ainda chorando.
Passei uma das mãos por suas costas e a outra pela nuca e comecei a acaricia-la, precisava mostrar que não estava sozinha.
Lembrei então de quando fazia minha pesquisa sobre o sistema penitenciário, sobre as leis voltadas a isso.
– Tá tudo bem, está escrito na legislação que a família tem direito a conversar uma última vez com o condenado alguns dias antes da execução.
– É mesmo? – disse ela desencostando de meu peito e olhando-me, esperançosa.
– Sim, o júri decidiu que ele não poderia receber visitas, mas podemos recorrer, por que é constitucional.
Ela se encostou novamente e fechou os olhos. Continuei a acariciar suas costas para confortá-la e repeti o que ela tanto queria que eu entendesse apenas minutos atrás.
– Eu vou estar aqui por você – sussurrei.
– E eu por você – confirmou-me ela.
Sorri e abracei-a. Ficamos assim um bom tempo, até ela dormir.
Encostei-a na cama e peguei meu celular para mandar um e-mail.
Subject: RE.: Veredicto.
From: simons_victor@outlook.com
Caro John, como sabe eu comecei a me envolver com o Sr. Upsent por meio de um trabalho da escola sobre o sistema penitenciário e, como sou um estudante muito aplicado, estudei até mesmo a legislação que envolve este assunto. Dito isso devo declarar que sei que é meu direito vê-lo uma última vez antes da execução e eu lutarei por este direito. Sei também que é um privilégio dedicado apenas à família, mas conheço a filha do Sr. Upsent e é a ela que quero reservar este direito. Vou virar os Estados Unidos abaixo se for preciso.
Com meus cumprimentos,
Victor.
Cliquei em enviar e desliguei o computador.
Olhei mais uma vez para Carly e fui ao meu telhado com meu iPod e fones que isolam o som.
Nem mesmo minha mãe sabia, mas aquele telhado era onde meu pai e eu sempre conversávamos sobre assuntos particulares, era nosso canto secreto para assuntos secretos. Era ali que eu ficaria hoje. Escutando Nirvana e vendo o sol se por.
Era um dia bonito demais para tanta tristeza, por isso concentrei-me na beleza da paisagem e na música, esvaziando minha mente de tudo no mundo.
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