Cheerock
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Carly
– Um, dois, três e quatro, cinco, seis, sete e oito! — gritava a treinadora enquanto fazíamos os movimentos, quase como uma dança, no gramado.
Taylor parou o treinamento e ficou olhando.
Odeio esse cara. Odeio mamãe. Odeio Terrence. Odeio esse colégio. Odeio ser líder de torcida. Odeio minha vida.
Nossa, parece até que estou sendo uma revoltada como o Victor. Odeio ele também.
Acabado o treino, saí para o corredor sem nem passar pelo vestiário. Não quero falar com as meninas e explicar por que faltei a primeira aula.
– Upsent! — gritou alguém atrás de mim. Me virei e vi Ted.
Fala sério.
Ele já tinha me procurado diversas vezes para ver se conseguíamos trazer Taylor de volta para mim e Anderson para ele, mas eu não quero aquele idiota de volta.
Ted é fofo e fiel — mistura rara hoje em dia — e nem é tão feio se quer saber, mas é ingênuo e bonzinho demais também, o que o torna um alvo fácil.
Esperei ele me alcançar e continuei andando.
– Já disse Ted, não quero Taylor de volta e não vou te ajudar a separar os dois.
– Por que todo mundo vai achar que você o quer de volta, é, já sei. Mas olha...
– Ted, eu posso separar os dois de um modo que ninguém saiba que fui eu.
Chegamos ao meu armários e o abri para pegar minha mochila e deixar meus pompons.
– E por que não faz? Carly, eu sei que não somos amigos e que talvez você me odeie, mas eu preciso da Andy.
Isso foi o cúmulo.
– Ted? — bati a porta do armário com força e me virei, encarando-o com raiva — você não pode estar falando sério.
– É claro que estou!
– Pra quê, exatamente, você precisa da Anderson?
– Pra viver!
Ai que melodrama!
– Ted, a Anderson traiu você, OK? TRAIU VOCÊ! Essa garota não merece seu amor!
– Taylor também te traiu.
– E você por acaso me vê rastejando aos pés dele?
– Não, mas...
– Ted, você merece mais que isso — coloquei a mão no ombro dele — Pare de implorar por migalhas de atenção! Você merece uma garota legal e fiel, que te ame tanto quanto você a ela.
– Mas... Quem é essa garota?
– Você vai acha-la, Ted. Tenha paciência.
Ele olhou para baixo, desolado.
– Nunca vou amar alguém como amo a Andy.
Que cara apaixonado! Seria fofo se não fosse trágico.
– Ted...
– De qualquer modo não foi por isso que vim te procurar.
– Não?
– Não, vim te perguntar se você viu o Victor.
– O VICTOR? — como assim?! — Por que você acha que eu sei onde o Victor está? — coloquei as mãos na cintura, só me lembrei do machucado tarde demais e dei uma pausa para respirar — Por acaso tenho cara de GPS?
Ted segurou o riso.
– Ted se você acha que eu te odeio, imagina o Victor! A ele eu odeio ao quadrado!
– É que eu vi vocês dois conversando na secretaria e pensei que você soubesse.
– Ambos chegamos atrasados e estávamos, provavelmente, discutindo.
– Tá bom, mas juro que vi vocês dois rindo...
Ele está mesmo rindo como se soubesse de alguma coisa?
– Ted, faz um favor pra mim? Vai procurar a Anderson e se arrastar aos pés dela? Parece ser a única coisa que você sabe fazer.
Com isso, me virei e passei pela porta do colégio.
Quem ele pensa que é? Eu, Carly Upsent, saber onde Victor Simons está? Todo mundo sabe que a líder de torcida odeia o roqueiro e vice e versa.
E afinal, se Ted, melhor amigo de Victor, não sabe onde ele está, como EU vou saber?
Cheguei a minha rua. Deserta, como sempre.
A minha casa, que tornava a rua sem saída, estava com a porta aberta.
Como eu queria ser invisível agora. Terrence provavelmente está me esperando. Hoje vai ser um pesadelo. Ainda bem que é sexta, assim não vou precisar ir ao colégio amanhã e vou ter o final de semana todo para esconder as possíveis marcar. Precisamente calculado.
Entrei pela porta aberta, sem fecha-la. Estava tudo... Limpo.
Mamãe decidiu ser dona de casa agora? Não, tem algo errado.
Caminhei devagar até a cozinha. Limpa. O quintal estava até com folhas varridas da grama seca. A escada estava sem as latinhas vazias de cerveja que se espalhavam por ela.
Mas o que diabos aconteceu aqui?
Não me entenda mal, mas é simplesmente... Estranho.
– Você chegou, putinha? — gritou Terrence do andar de cima.
Ele veio descendo a escada. Usava calça de pijama e fumava uma espécie de cigarro mal feito. Maconha talvez?
– Gostou do que eu fiz na casa?
– Você fez isso? — perguntei incrédula.
Por que Terrence limparia a casa do nada?
– É claro! Mas tenho um motivo, é claro. Venha, quero te mostrar o que fiz no quintal.
Ele enlaçou meu ombro e começou a me guiar.
Meus instintos começaram a gritar. Terrence nunca é legal comigo.
Desvencilhei-me dele.
– Tenho muito dever de casa pra fazer. Amanhã eu vejo.
Me virei e vi três caras na porta. Eles eram todos altos, fortes e intimidantes.
– Isso é invasão de domicílio, saiam agora ou vou chamar a polícia.
– Tente — disse alguém atrás de mim.
Virei-me e vi outros três caras, mas o do meio usava roupas mais elegantes.
– Carly — falou meu padrasto — Esse é o Sr. Swag, ele veio hoje cobrar uma dívida antiga e concordou em quitar se você ajudar.
Oh, fuck.
– Mas se você não ajudar também não é problema — falou o homem forte de trás — Com a luta é sempre mais divertido. Tenho que sair daqui.
Os cinco homens foram fechando o círculo, apenas o homem de terno e Terrence ficaram para trás.
Parecia um pesadelo. Os cinco estavam rindo e as sombras da casa os deixavam assustadores.
– Não — murmurei.
Dois deles estenderam as mãos e agarraram a manga do meu uniforme de líder de torcida.
– Não — falei mais alto.
Eles riram mais.
Os dois homens que puxavam o uniforme começaram a rasga-lo e o homem que estava atrás de mim segurou firme meus ombros.
– Olhe só esses peitos — falou um deles pegando meu sutiã.
– Vai ser uma brincadeira muito legal.
Um deles levantou minha saia e passou a mão em minha calcinha.
Não. Não. Não. Não. Não. Não. Não! Não vou deixa-los fazer isso. Não vou ser estuprada por cinco homens! Meu padrasto sozinho já faz estrago demais.
Olhei ao redor e vi atrás do homem que segurava meus ombros uma vassoura.
Fiz tudo sem pensar, por que se pensasse iria desistir.
Peguei a vassoura em um movimento brusco e acertei em um deles com a força que consegui.
Ele cambaleou e o choque dos outros me deu tempo e espaço para correr.
Cheguei na sala com a certeza de que me pegariam de novo, mas nem a pau me viraria para olhar.
Corri o mais rápido que pude sem me importar com a dor na cintura.
Alguém conseguiu pegar meu braço e senti algo cortando-o, mas com um puxão consegui fazê-lo soltar.
Passei pela porta e corri mais rápido ainda, sentindo o vento no meu peito e uma dor no braço, mas continuava correndo.
Os olhos estavam fechados para não olhar para trás.
Mais rápido, mais rápido, mais rápido!
Eu vou conseguir! Eu sou rápida e vou conseguir!
Vou para a delegacia mais próxima e pedir... Sei lá, exílio!
Eu vou...
Bati em alguma coisa e caí no chão com um baque.
Fui pega. Abri os olhos.
– Carly?
Ele segurou meu braço, me puxou e correu comigo.
Victor
"Que vergonha, Victor" pensei ao ver Ted e Logan no corredor me procurando.
Sim, eu estava me escondendo deles.
O problema é que eu estava com medo de dizer a eles que estou suspenso. Estávamos prestes a ter uma apresentação importante — íamos tocar no principal bar da cidade — e eu não poderia treinar. Tá, tudo bem, podemos tocar um na casa do outro; só que eles iriam querer tocar lá em casa e isso iria perturbar meu pai e minha mãe. Meus amigos não sabem sobre meu pai, inclusive.
Então cá estou eu, escondendo-me temporariamente dos meus amigos.
E o prêmio de melhor amigo do ano vai para... Victor Simons!
No final da detenção corri para fora do colégio.
Hoje é dia de visitar meu avô. Ele mora num asilo na parte estranha e pobre da cidade, numa ruazinha estreita bloqueada por uma casa decadente.
Levei Mary Ann, meu avô adora minha guitarra.
Passei o caminho todo em alerta, são bairros tão estranhos que minha atenção triplica.
Finalmente cheguei ao asilo.
– Boa tarde, Victor — falou o porteiro, um homem tão velho que não se dava ao trabalho de se levantar e abrir o portão para mim, apenas jogou a chave para que eu mesmo o fizesse.
– Olá, Sr. Covalski — falei enquanto destrancava o cadeado — Como vai hoje?
Tranquei o portão novamente e devolvi as chaves.
– Tirando minhas hemorróidas estou bem.
Eu realmente não precisava saber disso.
Dei o sorriso mais agradável possível.
– Que... infortúnio.
– Sim, sim! Dói como um porco saindo do meu orifício fecal quando vou defecar! E sai muito sangue! Você já viu um? Parece uma flor roxa!
Que... Nossa. Não tenho nem palavras para descrever a imagem que veio em minha mente.
– Como está meu avô? — mudando sabiamente de assunto.
– Seu avô morreu ontem.
Meu coração parou.
– O que?
Ele desabou a rir.
– É brincadeira meu rapaz.
Esse velho caquético cheio de hemorróidas está mesmo brincando sobre a morte?
– Eu vou entrar.
– Ai ai, esses jovens de hoje...
Releve Victor, é só um velho com um senso de humor negro.
Abri a porta e o cheiro de hospital e perfume antigo me atingiu. Dezenas de velhos conversavam animadamente ou jogavam jogos ou dormiam com a boca aberta ou dançavam ao som de uma música de elevador tocando de um rádio apoiado na janela. Todos deram uma olhada e me cumprimentaram.
– Victor, querido, como vai? — perguntou Sra. Amenllof.
– Bem e você? — respondi.
– Trouxe minha pamonha? — resmungou o sempre irritado Sr. Korowa.
– Nada de pamonha para o senhor — respondi novamente.
– Victor Simons, ah eu me lembro de você! Venha aqui para acertarmos pendências! — gritou o Sr. Polk mostrando o punho. O nome do meu avô também é Victor e os dois tem "pendências".
– Agora não — me esquivei de um golpe fraco.
– Ah, eu me lembro quando tinha essa idade! — murmurou Sr. Efesto, sempre nostálgico.
– Isso que ele carrega é uma arma? — perguntou Sra. Falosi, paranóica como sempre.
– É uma guitarra — defendi Mary Ann.
Entrei no corredor dos quartos e abri a porta com o nome do vovô.
– Victor? — ele murmurou se virando para me olhar.
Ele estava sentado numa cadeira almofadada em frente da janela.
– Oi vovô.
– Você trouxe Mary Ann!
Ele sorriu mostrando a banguela rosada.
– Trouxe sim, achei que iria gostar de vê-la.
– Ah, e como gosto!
Vovô estendeu as mãos para pegá-la.
Passei cuidadosamente Mary Ann para ele.
A guitarra antes era dele e o nome Mary Ann foi de sua primeira namorada. Aprendi a tocar com meu avô, éramos muito ligados até ele ir morar em um asilo. Foi a primeira de uma série de brigas com meu pai.
– oh, você cuida muito bem dela!
– É muito importante para mim.
Ele me olhou com lágrimas prestes a cair.
– Você é tão esforçado, meu neto — ele passou a mão enrugada em minha bochecha — tenho muito orgulho de você.
Meus olhos marejaram, mas segurei.
– Acho que eu precisava ouvir isso.
Ele sorriu e apoiou Mary Ann no chão.
– Tenho algo para você.
– Deixe eu lhe ajudar a levantar.
– Não, gosto de me sentir útil.
Ele afastou minha mão, apoiou-se na cadeira, levantou e saiu devagar até sair pelo corredor.
Olhei pela janela e vi Carly Upsent com seu uniforme de líder de torcida caminhando em direção da casa decadente.
Será que ela nunca vai parar de me seguir?
Meu avô entrou no quarto com uma caixinha na mão.
– Isso aqui foi meu e quero passá-lo a você.
Ele me passou a caixinha e eu a abri, curioso.
– Não pode ser!
Era a palheta favorita do meu avô, assinada pelo próprio Jimmy Hendrix.
– Obrigada vô!
Abracei-o com força.
– Cuidado, sou frágil!
Rimos juntos.
Ele sentou-se novamente e olhou pela janela, pensativo.
– Como está seu pai?
Parei de admirar a palheta e olhei para o chão.
– Igual.
– Isso é bom ou é ruim?
Suspirei.
– Eu não sei mais.
– Victor, não é sua culpa.
Sei..
– hm.
Foi a vez dele de suspirar.
– Você vem amanhã?
– Hugo e mamãe vão sair e eu vou cuidar do papai a tarde toda.
– Oh.
– Mas venho domingo.
Ele sorriu.
– Eu vou adorar.
– Vou deixar Mary Ann com você, posso?
Ele abriu mais o sorriso.
– Eu também vou adorar isso.
Sorri.
– Tchau vovô — dei um beijo na cabeça dele — Até domingo.
– Tchau, meu neto.
Saí da casa ignorando os pedidos e perguntas dos outros velhos. No asilo eu sou um rockstar assediado.
Já estava na rua quando ouvi o tumulto.
Olhei e vi Carly correndo pela rua com cinco homens corpulentos correndo atrás dela.
A garota estava de olhos fechados com força, os cabelos desgrenhados, blusa rasgada, o braço com um corte sanguinolento e lágrimas no rosto.
Percebi tarde demais que íamos esbarrar.
O impacto foi tão forte que caímos no chão. Upsent abriu os olhos, estavam inchados e vermelhos.
Ela parecia tão assustada que minha raiva dela e meu susto da situação passaram e tudo o que pude ver foram os homens chegando perto e eu soube que precisava ajudar.
– Carly?
Segurei o braço dela e a puxei para de levantar comigo. Depois disse corremos.
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