Cheerock
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Victor
Fazia duas semanas que Carly e eu não trocávamos uma palavra. Ok, exagerei, falávamos “bom dia”, “boa tarde”, “boa noite” e eventualmente “tudo bem?”.
De certa forma isso me deixava chateado, mas o problema era dos dois. Aquele maldito quadro não saía da minha cabeça e sempre que eu olhava para Carly eu o lembrava.
Várias vezes senti vontade de me levantar no refeitório e arrastá-la dali, mas nunca tive coragem, todo mundo perceberia que somos amigos ou pior: pensariam que gosto dela. Não, isso não pode acontecer! Por mais que eu admita que ultimamente eu tenha revisto minhas reações quando estamos sozinhos e calados e percebi que talvez – e só talvez – eu goste um pouquinho dela. Há! Que ridículo!
Enfim, foi isso. Duas semanas sem nos falar, como completos estranhos ou como a Carly e o Victor de três semanas atrás que se odiavam.
Por isso me assustei quando ela entrou na minha aula de química e falou alguma coisa para o professor.
– Victor Simons está liberado.
Fiquei no meu canto olhando o professor – que me olhava bem zangado – sem saber se era pegadinha.
– Victor Simons saia desta sala agora mesmo!
Aí percebi que não só era sério como também eu provavelmente fiz algo ruim. Fiz? O que diabos Carly Upsent disse ao professor?
Quando fecho a porta da sala Carly cai na gargalhada.
– O que você disse para ele?
– Que você estava sendo chamado na diretoria por que fomos pegos fazendo “coisas” no banheiro feminino do ginásio.
Eu não sabia o que falar. Do que ela estava rindo? Diaba loira! Acaba de arruinar minha relação com o professor de química!
– Isso não é engraçado Carly.
– Calma, ele vai para o diretor prestar contas e vai descobrir que era mentira.
– O que você quer?
Ela ficou me olhando.
– Não nos falamos há duas semanas e é assim que fala comigo?
– Não nos falamos há duas semanas e você fode minha vida escolar?
Ela riu.
– Vem.
Ela pegou minha mão e me levou para o auditório. Ela sentou e pôs a mão no rosto.
Depois de um tempo olhando ela assim e me perguntando se já podia voltar para a aula, percebi que estava chorando.
– Ai meu Deus, Carly?
Ela me olhou, confirmando minhas suspeitas.
– Oi – ela disse sorrindo um pouco.
Sentei ao seu lado e passei o braço pelo seu ombro.
– O que aconteceu?
Ela encostou a cabeça em meu ombro.
– Eu só senti um vazio, sabe?
Ah eu sabia como era isso. Eu lembrava muito bem que depois do acidente de meu pai eu senti muito esse vazio.
– Eu sei como é – falei – Como se você estivesse afogando em seus próprios demônios.
– Isso. Como se você sentisse algo ruim dentro de você, algo que te consome...
– E você precisa de uma âncora pra continuar.
– Isso.
Ficamos um tempo absorvendo aquilo.
– Carly?
– Sim?
– Eu sou sua âncora?
– Acho... acho que sim.
Eu não pude deixar de sorrir.
– Desculpa – disse ela.
– Pelo o que?
– Por te tirar da sala daquele jeito e dizer uma besteira dessas.
– Não é besteira Carly. É uma coisa importante.
Ficamos calados. Ela virou a cabeça para me olhar e eu a imitei. Sorrimos um para o outro.
Puta merda, de novo não. Eu sinto que se eu não sair daqui agora mesmo posso estragar o momento. Eu definitivamente gosto de Carly Upsent.
Porra! Eu gosto da Carly! Que alívio e ao mesmo tempo que merda!
Eu sinto que estou me aproximando e a vejo quase piscar em câmera lenta.
O sinal toca nos assustando.
– Aula de teatro – falei me lembrando.
– O que?
– Agora tem aula de teatro aqui no auditório.
Ela paralisou.
– Vem.
Agarrei sua mão e a guiei para a saída dos fundos. Saímos na divisória dos vestiários masculino e feminino.
– Você vai por ali e eu por aqui.
– Ok
Ela parecia quase decepcionada.
– Carly!
– Sim?
Ficamos olhando um para o outro por um tempo. Eu não sabia o que dizer, eu nem tinha ideia porque a tinha chamado. De repente uma ideia cruza minha mente.
– Tenho uma surpresa pra você – falo sorrindo com a ideia – No pátio, antes do treino das pu... líderes de torcida.
– Ok – disse ela sorrindo também.
– Até lá.
– Até.
E ela se foi.
~o~ o/ ~o~
– O que vocês acham? – perguntei para Teddy e Logan.
– Acho uma boa ideia, mas será que vão deixar? – pergunta Teddy.
– Precisam deixar! – diz Logan – Essa foi a ideia mais brilhante que você já teve! Todo mundo vai adorar!
– Eu também gostei, mas não quero causar mais problemas, Victor. Você acabou de sair de uma suspensão e o diretor disse claramente que se houvesse outra você estaria excluído da banda.
– Fala sério, né, Teddy? – disse Logan – Ninguém pode nos separar! Se eles nos proibirem de continuar aqui, vamos treinar na garagem de alguém!
Opa, não gostei dessa ideia.
– Ok, vamos fazer isso – disse Teddy.
– Espera, talvez nós devêssemos obedecer ao veredicto do diretor – falei.
Eles me olharam.
– Que é isso Victor? Tá com medo de quê?
Puta merda, e agora?
– Nada eu só não quero levar outra suspensão, minha mãe me mata.
– Você nunca se importou com isso – insistiu Logan.
– Mas agora me importo.
– Podem deixar que eu falo com o diretor – disse Teddy – Ele gosta de mim, vai permitir.
– Mas se não permitir vamos fazer mesmo assim.
Que cara teimoso, puta que pariu!
– Certo – tive que concordar.
Teddy saiu para a sala do diretor e nós fomos para a próxima aula.
Na hora do almoço Teddy disse que conversou com todo o corpo docente e eles decidiram que faríamos tudo no intervalo entre o fim das aulas e o começo dos clubes. Exatamente como eu planejei! Vai dar tudo certo e eu não vou ser suspenso novamente!
Não pude deixar de olhar a mesa de Carly nesse momento e quase levei um susto quando a vi olhando de volta. Sorrimos um para o outro, ela ia amar a ideia.
Passei o resto do dia inteiro só pensando e treinando os acordes na Mary Ann imaginária.
Faltando meia hora para acabar a ultima aula nós três saímos mais cedo para arrumar o palco. Pela primeira vez fiquei nervoso. Meu coração batia forte em meu peito e eu pensei que ia vomitar, mas consegui me controlar e arrumei o sistema de som enquanto Teddy arrumava a bateria e Logan treinava alguns acordes por que nunca tinha tocado aquela música.
Quando o sinal finalmente tocou, o pátio começou a encher e as pessoas nos viam e paravam, esperando pelo show.
– Vamos? – perguntou Logan.
– Ainda não – falei. Carly não estava em lugar algum e eu não poderia começar sem ela.
– Temos um tempo, Victor, precisamos começar – disse Teddy.
– Só mais um pouco.
Carly finalmente dobrou o corredor com seu uniforme de líder de torcida e com pelo menos outras cinco garotas ao lado dela.
– Agora – falei.
Teddy deu as primeiras batucadas para nos sincronizar antes da música começar e começamos a tocar.
Carly colocou a mão na boca assim que reconheceu a música, mas pude ver que sorria.
Era uma versão mais rock de Firework, da Katy Perry.
Todo mundo pulou e cantou junto, até ela. Quando a música finalmente acabou uma salva de palmas e gritos foi ouvida, mas eu só conseguia ver Carly, que tinha o maravilhoso sorriso brilhante no rosto. Isso já podia ser o pagamento por uma suspensão – mas eu não iria pegar suspensão por causa disso... ufa.
A multidão se dispersou e nós três fomos arrumar tudo.
– Eu e Logan vamos levar a bateria para dentro e você desarma o sistema de som – disse Teddy.
– Ok.
Comecei a tirar os fios das caixas de som do pátio e guarda-las na bolsa de Teddy, depois guardei o baixo e Mary Ann nas respectivas mochilas e apoiei em uma das mesas, esperando os dois voltarem.
– Ei – disse Carly vinda pelas minhas costas.
Olhei-a.
– Você não tem treino agora?
– Eu me machuquei – disse ela apontando para o joelho ralado.
– Então você não precisa ir à enfermaria?
– Eu tenho que falar com você antes.
– E aí?
– Eu amei.
Sorri mais ainda.
– Que bom.
Ela chegou mais perto, até estarmos a um palmo de distância.
Ficamos um olhando para o outro por um bom tempo.
– Ah, qual é Simons!
E pulou agarrando meu pescoço, me obrigando a segurá-la pela cintura. E me beijou. E eu a beijei. E uau...
Carly
Victor não falava comigo há duas semanas. Tudo bem que em parte é minha culpa, eu não flava com ele, sempre desviava o olhar e tentava passar o mais longe possível dele. A verdade é que eu sentia falta dele e de seus olhos azuis. Por que é que eu sempre tenho que estragar as coisas? Fiz aquele quadro idiota e agora não tenho coragem de olhar aqueles olhos.
O pior é que sempre que eu passava por ele eu sentia uma dor no peito e uma vontade enorme de chama-lo, mas nunca tive a coragem. Afinal de contas, eu sabia por que eu parei de falar com ele, mas por que ele parou de falar comigo?
Então aqui estou eu na aula de inglês pensando nele. Algo em meu peito doeu como sempre dói quando o faço e lágrimas começam a ameaçar cair. A única pessoa que já me viu chorar foi Victor Simons e vai continuar assim.
Fui até o professor.
– Posso ir à coordenação? Não estou me sentindo bem.
– Vá.
Saí da sala e fui à aula de química, bati na porta e chamei o professor.
– Carly?
– Oi, o diretor está chamando a mim e ao Simons.
– Por que motivo?
Tive que pensar em algo rápido.
– Fomos pegos transando no banheiro feminino.
Os olhos dele se arregalaram. Nem eu sei de onde tirei aquilo, mas se deu certo, melhor para mim!
– Victor Simons está liberado.
Ele olhou para o professor, parecia não saber o que fazer.
– Victor Simons saia desta sala agora mesmo!
Ele arruma as coisas com pressa e de qualquer jeito e sai apressado da sala. Assim que fecha a porta eu me permito rir.
– O que você disse para ele? – pergunta ele zangado.
– Que você estava sendo chamado na diretoria por que fomos pegos fazendo “coisas” no banheiro feminino do ginásio.
Ele escancarou a boca e depois franziu as sobrancelhas.
– Isso não é engraçado Carly.
– Calma, ele vai para o diretor prestar contas e vai descobrir que era mentira.
Victor suspirou e cruzou os braços.
– O que você quer?
Caramba, pensei que essa parte seria mais fácil, mas parece que me enganei. Peguei-me olhando aqueles olhos azuis e me perdendo neles.
– Não nos falamos há duas semanas e é assim que fala comigo?
– Não nos falamos há duas semanas e você fode minha vida escolar?
Ri. Só ele para me fazer rir quando quero chorar.
– Vem.
Guiei-o para o auditório e sentei na mesma cadeira que sentei na primeira vez.
As lágrimas vieram naturalmente. Coloquei a mão no rosto com vergonha. Eu não queria chorar, mas parecia ser a única coisa que eu sabia fazer ultimamente.
– Ai meu Deus, Carly?
Olhei-o.
– Oi.
Ele sentou ao meu lado e passou o braço por meus ombros. Comecei a me sentir melhor logo daí. Victor Simons era definitivamente minha luz.
– O que aconteceu?
Apoiei a cabeça em seu braço.
– Eu só senti um vazio, sabe?
– Eu sei como é. Como se você estivesse afogando em seus próprios demônios.
– Isso. Como se você sentisse algo ruim dentro de você, algo que te consome...
– E você precisa de uma âncora pra continuar.
– Isso.
Ficamos em silêncio. Estava de certa forma feliz por ele me entender, não me sentia mais tão sozinha. Por que não vim falar com ele antes?
– Carly?
– Sim?
– Eu sou sua âncora?
– Acho... acho que sim.
Ele sorriu mostrando as covinhas. Eu adorava aquele sorriso, assim como adorava mais ainda essas covinhas.
– Desculpa – falei, por fim.
– Pelo o que?
– Por te tirar da sala daquele jeito e dizer uma besteira dessas.
– Não é besteira Carly. É uma coisa importante.
Eu viro para olhá-lo e ele me imita. Acabamos sorrindo um para o outro.
De repente os sorrisos vão se desfazendo devagar, até sumirem de vez e então ele começa a se aproximar. Fecho os olhos me aproximando também. Eu nunca quis tanto um beijo quanto quero esse.
Puta que pariu eu quero beijar Victor Simons. Eu realmente quero muito beijá-lo.
Começo a levar meu braço para seu pescoço, mas o sinal toca antes que nossos lábios se encostem. Estávamos tão concentrados em nosso possível beijo que damos um pulo quando o barulho repentino nos acorda do torpor.
– Aula de teatro – diz ele assustado.
– O que?
– Agora tem aula de teatro aqui no auditório.
Ai. Meu. Deus. Não podemos ser pegos no auditório em horário de aula!
– Vem.
Ele agarrou minha mão – enviando ondas de choque pelo meu braço – e me guiou até a divisória dos vestiários.
– Você vai por ali e eu por aqui.
– Ok
Eu estava cabisbaixa, não vou mentir. Eu realmente queria aquele beijo e eu sabia que não teria outra oportunidade.
– Carly!
– Sim?
Virei-me rapidamente, será que eu estava errada e ele iria me dar um beijo ali mesmo?
Ele me encara por um tempo. Ganhando coragem, talvez?
– Tenho uma surpresa pra você – falo sorrindo com a ideia – No pátio, antes do treino das pu... líderes de torcida.
– Ok
– Até lá.
– Até.
Saio do vestiário e vou para minha aula de história americana, mas minha cabeça não deixa Victor Simons. Como nunca notei que aqueles lábios eram tão convidativos quanto seus olhos? Tão rosados e proporcionais... Será que ele vai me beijar na frente de toda a escola? A ansiedade está me matando.
No final da aula corro para o vestiário e troco a roupa pelo uniforme das líderes de torcida em um salto, bem a tempo de ver Lohanna chegando toda eufórica e gritando.
– Os meninos estão contando no pátio!
Então eu virei o Flash dos quadrinhos e voei pelos corredores ignorando os inspetores dizendo que eu não deveria correr neles.
Finalmente chego ao pátio e o vejo. Ele me vê também, estava só esperando por mim, pois assim que chego eles começam a tocar.
É Firework da Katy Perry. Eu nem posso acreditar. Ele adivinhou exatamente o que eu estava querendo ouvir. Será que existe sincronia mais perfeita?
Sinto muita vontade de subir no palco e dar um beijo nele, mas eu não me atreveria a tamanho mico.
A música acaba e todo mundo aplaude, mas eu não consigo tirar as mãos do rosto de tanta felicidade.
As meninas então agarram meu ombro e me arrastam quase literalmente até o campo, onde treinamos.
Eu preciso ver o Simons, não quero ficar aqui nesse treino idiota, mas a treinadora nunca vai me deixar sair por nada.
– Vamos treinar pirâmide! – sugere Kass.
Aceito ficar no topo de prontidão, já com a ideia perfeita na cabeça.
Subimos umas em cima das outras até o topo e, quando finalmente chego ao final, simulo uma falta de equilíbrio e caio.
As meninas vêm me socorrer, mas eu só tenho um joelho ralado.
– Você quer que eu te acompanhe à enfermaria? – pergunta Kass, provavelmente se sentindo culpada.
– Não, obrigada. Vou sozinha mesmo, só precisa de um curativo.
Saí mancando um pouco até sair do campo de visão delas, aí começo a correr até o pátio. Para minha sorte, ele ainda está lá, arrumando os equipamentos. Melhor ainda: está sozinho.
– Ei – falei para chamar sua atenção.
Ele se virou e me olhou, sorrindo.
– Você não tem treino agora?
– Eu me machuquei – falei apontando para o joelho.
– Então você não precisa ir à enfermaria?
– Eu tenho que falar com você antes.
– E aí?
– Eu amei.
Ele deu aquele irresistível sorriso de covinhas.
– Que bom.
Cheguei mais perto até estarmos na distância certa para ele me agarrar e me dar o tão esperado beijo. Mas ele parecia estar se segurando. Na verdade parecia que ele não tinha tomado o remédio – embora eu o tenha visto tomando mais cedo – estava mexendo os pés e as mãos.
Eu não podia esperar por mais tempo, se sou eu quem tem que dar o primeiro passo, assim será!
– Ah, qual é Simons!
Pulei em seu pescoço e ele agarrou minha cintura. Foi a chance perfeita para colar meus lábios nos dele.
E assim nos beijamos. Foi suave, depois radical, e aí... uau...
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