Checkpoint - Love Is a Laserquest (Percabeth)
18 Capítulo 18 - Chemtrails Over The Country Club.
Notas iniciais
“It's beautiful how this deep
Normality settles down over me
I'm not bored or unhappy
I'm still so strange and wild”
Annabeth levantou da cama quase que roboticamente, sentindo a cabeça latejar. Olhou-se no espelho ao lado, se deparando com sua figura sonolenta. Não dormia direito já fazia dias e seu rosto deixava bem claro. As olheiras estavam mais profundas do que de costume e os fios loiros pareciam sem vida. Os dias que havia passado na praia pareciam ter sido um devaneio. Ali, duas semanas depois, quase não conseguia se lembrar do cheiro de maresia ou do calor reconfortante do sol. A garota andou até a janela, abrindo a cortina de leve. O dia amanhecia devagar, quase parando. A luz que entrava pela recente abertura iluminava o lugar tanto quanto um pequeno abajur faria, conseguia sentir o frio que fazia do lado de fora só de olhar. Uma senhora passeava com um poodle, ambos agasalhados. Annabeth concluiu que a mulher deveria amar muito aquele cachorro pequeno e peludo para ter a coragem de sair de casa naquela temperatura.
—Lugar maldito. — Annabeth murmurou, fechando a cortina com raiva. Estava contando os segundos para voltar para casa. Quando soube que teria que fazer exames de compatibilidade com sua mãe, não fazia ideia de que teria de viajar mais de quatro horas de avião para fazer isso. Mas claro, deveria ter imaginado que os caprichos de Atena atrapalhariam sua vida. Nenhum dos mais de 60 hospitais em Manhattan serviriam para simples exames, ela PRECISAVA que fossem feitos no Minnesota, de todos os lugares.
E Annabeth absolutamente odiava o Minnesota.
Havia visitado apenas uma vez quando era mais nova, antes da separação dos pais. Ela, Atena, Malcolm e Frederick tinham ido visitar algum amigo da família que a loira já não lembrava mais o nome. Também era verão, a estação do ano preferida de Annabeth. Então imagine o desgosto da garota quando, ao colocar o pé para fora do avião usando sandálias rasteiras e uma regatinha, ela se deparou com nada mais nada menos do que neve. Neve! No verão! Foi a maior insanidade que ela já vira. Não havia sol, praias ou vendedores de sorvete. Apenas tabuleiros empoeirados de xadrez, senhoras agasalhadas que ficavam observando a neve cair pela janela de suas casas e eventualmente uma xícara de chocolate quente. A temperatura não aumentou mais de três graus no tempo que passaram lá, o que acabou com a garota tendo que passar uma semana inteira agasalhada, sem poder brincar de nada do lado de fora, exceto por fazer bonecos de neve que o cachorro da casa eventualmente destruía. Um verdadeiro inferno. Annabeth odiava o lugar desde então.
Fechou a cortina com vontade, como se não ver o lado de fora fosse mudar o cenário. Ela andou até o banheiro e tomou um banho demorado na água quente, estava com o queixo tremendo quando se enrolou na toalha. O quarto do hotel não tinha sequer um secador, então apesar de não lavar o cabelo em mais de três dias, resolveu simplesmente prendê-lo num rabo de cavalo. Colocou uma blusa azul, seguida por um suéter e então um casaco mais pesado de couro. Não estava tão frio assim comparado aos outros dias, mas Annabeth era terrivelmente friorenta, sairia enrolada no lençol da cama, se pudesse. As malas já estavam arrumadas desde a noite passada, empilhadas na ponta da cama. Ela deu uma volta geral no quarto para garantir que não havia esquecido nada e então as pegou e saiu. O peso doeu sobre os ombros e pulsos, mas pelo menos o quarto ficava na frente do elevador.
Não se surpreendeu ao ver que a mãe já estava na recepção a espera dela. O cabelo curto e castanho estava perfeitamente alinhado, apesar de ser apenas 06:00 da manhã. Ela usava calças retas escuras, uma blusa de gola alta e um sobretudo pesado com pelos de algum animal morto na gola. Tudo caia perfeitamente nela. A pele parecia saudável demais para uma mulher com mais de quarenta aos, as unhas estavam muito recentemente feitas e o perfume doce dela contaminava todo o corredor. Estava linda, como era de costume, praticamente impecável. Ninguém acreditaria se ela dissesse ter uma filha de 18 anos, muito menos que estava morrendo de câncer. Annabeth tinha raiva disso. Atena levantou o celular por apenas um segundo quando a filha se aproximou e então voltou sua atenção para o aparelho.
— Seu cabelo está sujo. — Foi a primeira coisa que a mãe a disse, a voz tão gélida quanto o vento que entrava pela porta giratória. — E mais uma vez, não te mataria passar um corretivo nessas olheiras. — A loira travou o maxilar, não sabendo como ela se quer teria percebido isso no milissegundo em que fizeram contato visual.
— Bom dia pra você também. — Annabeth disse com um sorriso desdenhoso. — Por que está aqui? — A mulher levantou a mão, sinalizando que a garota parasse de falar. Ela digitou alguma coisa no celular por segundos, o barulho das unhas se chocando contra a tela. Quando terminou, bloqueou o aparelho e o guardou na bolsa que certamente também era feita de algum animal morto. Ela cruzou os braços e então encarou Annabeth. Realmente encarou. A garota odiava quando ela fazia isso. Os olhos de Atena eram de uma cor ainda mais cinza do que os da filha, quase metálico. A íris era tão predominante sobre a pupila que era inquietante, eram bonitos de um jeito sinistro, como se fossem feitos de vidro. Sem alma.
— Frederick disse que seu voo é as 08:00. Você precisa de uma carona para o aeroporto, eu imagino? — Disse, como se dizer aquilo a entediasse. A garota levantou uma das sobrancelhas, desconfiada. Não era exatamente do feitio dela ser gentil.
— E por que você me daria uma carona? Que eu saiba ainda existem táxis no Minnesota. — A mulher semicerrou os olhos, Annabeth sabia que seu sarcasmo a dava nos nervos. Esperou uma resposta cheia de desdém, típico dela. Algo sobre como a filha era sua maior decepção, ou sobre como ela era parecida com pai. Para sua surpresa, a mulher se contentou em travar o maxilar e arrumar a postura. Alguma coisa certamente não estava certa.
— Chega de perguntas, Annabeth. Faça seu checkout, estou esperando no carro. — Ela disse simplesmente, colocando seus óculos escuros no rosto e saindo pela porta giratória. A loira encarou até que ela desaparecesse no estacionamento, a testa franzida pela confusão. Não houvera um único momento em toda sua estadia em que sua mãe a havia oferecido sequer um copo d’água. Deuses, a mulher nem mesmo a oferecera um teto, apesar de Annabeth estar naquele lugar horroroso e gelado exclusivamente por causa dela. Teve que ameaçar desistir dos testes para que ela tivesse a decência de pagar o hotel. A loira desistiu de tentar achar sentido nas ações daquela criatura insana e acabou por fazer o checkout.
Cada centímetro da pele de Annabeth se arrepiou no segundo em que pisou do lado de fora, a ponta do nariz já estava ressaca pelo frio. Se a garota soubesse que aquele era o lugar infernal para onde sua mãe havia fugido, teria sido poupada de muito sofrimento. Nunca desejaria encontrar Atena se soubesse que aquele tempo todo ela estava em Minnesota. Ela se apressou em ir até o carro da mãe, ignorando o olhar que a mulher a deu quando entrou e fechou a porta um tanto forte demais.
—Não sei se você tem ciência, mas bater portas é rude. Imagino que com a criação que teve isso seja comum. — A mulher disse ao dar partida do carro. O tom parecia controlado, mas trêmulo, como se ela estivesse se segurando. Annabeth estranhou novamente, Atena nunca se segurava.
— Perdão pelo meu comportamento, é que minha mãe não me ensinou direito – A loira disse, com um sorriso sarcástico enfeitando o rosto. Assistiu a expressão da mulher endurecer, o lábio curvado levemente para baixo, enfatizando as linhas nas bochechas dela. Quase nunca conseguia ver as marcas do tempo no rosto da mãe, supôs que era porque ela não sorria muito, exceto por seus sutis e falsos contorceres de lábio que concedia aos desconhecidos que precisava agradar. Mas ali, naquela expressão costumeira, era bem fácil de enxergar. Ela não parecia velha, necessariamente, era mais... Sábia, imemorial e onisciente. Era o tipo de feição que te fazia acreditar que ela sabia mais e que fazia Annabeth se questionar se estava errada, mesmo sabendo estar certa.
— Coloque o cinto. — Foi o que ela disse, simplesmente. A loira não discutiu.
O caminho até o aeroporto foi insuportavelmente silencioso. Annabeth não ligava muito de conversar com a mãe, inclusive preferia que o silêncio conjunto fosse o caso. Mas até mesmo com seus fones de ouvido e a paisagem gélida que acompanhava pela janela, não conseguia relaxar. Alguma coisa estava errada. Annabeth a observava pelo canto do olho, esperando que ela finalmente dissesse o que estava acontecendo, mas a mulher permanecia quieta. Tinha certeza absoluta de que alguma coisa estava errada. Conseguia ver no jeito que Atena segurava o volante, no desconforto que a fazia se mexer constantemente no banco do motorista, na veia sobressaída na lateral da testa dela. Nunca tinha visto a mulher tão vulnerável e aquilo a deixava extremamente inquieta. Annabeth a observava pelo canto do olho, esperando que ela finalmente dissesse o que queria, mas a mãe permanecia quieta.
—Chegamos. — Foi o que ela disse, por fim. A loira respirou fundo, não tendo percebido que sua respiração se tornara tão inconstante. Resolveu não perder tempo e abriu a porta do carro, saltando para fora. Puxou a mala do banco traseiro e pendurou a mochila, antes no seu colo, nas costas.
—Bom, então tchau. — Disse, desesperada para se livrar de Atena e seja lá qual fosse seu problema.
— Annabeth. — A mulher disse, a impedindo de fechar a porta. A garota respirou fundo antes de olhar para a mãe, que falava sem encará-la. Os músculos dos ombros de Annabeth estavam tensos, o maxilar travado. — Você vai vir morar comigo até o fim do tratamento. Se os resultados forem compatíveis, claro. — A mudança continuava a mesma, como se ela estivesse prestes a rachar, mas o tom era firme e autoritário, fazendo com que a garota tivesse a impressão de que aquilo não era uma sugestão. A garota riu, desacreditada.
— Desculpa, como é? — A voz saiu mais aguda que o normal.
— Você não vai fazer eu repetir, vai? — A mulher revirou os olhos e então encarou a filha, a olhando de cima abaixo. — Preciso de você por perto se eu precisar de cirurgia, ou algum procedimento. Você por acaso acha que faz sentido o doador ficar em outro estado? — Annabeth riu novamente, tirando a mochila do ombro e a jogando no chão, enfurecida.
— Por acaso está sugerindo que eu deixe minha vida em Manhattan pra servir como uma BOLSA DE SANGUE pra você nesse fim de mundo? Você é LOUCA? — A garota gritou. Ao seu redor as pessoas viravam o rosto para tentar entender o que estava acontecendo, mas ela não ligava. Estava tão irada que teve de resistir a vontade de pegar a pedra mais próxima e quebrar todas as janelas do carro da mãe. Sentiu o sangue ferver quando Atena manteve sua expressão tediosa no rosto, a audácia dela era realmente impressionante. A loira comprimiu os lábios e respirou fundo — O que PORRA faz você acreditar que eu faria isso? — Disse, de maneira mais calma.
— Eu não acredito, você vai fazer. — O tom confiante dela foi a gota d’agua.
— Eu não vou fazer porra NENHUMA pra você, Atena. — Annabeth fechou a porta com tanta força que o vidro tremeu.
— Você talvez queira repensar isso, Annabeth... — Ouviu a mulher falar. Não se virou para encará-la, mas parou no canto em que estava. — Soube que você conseguiu entrar na Nova Roma. Confesso que me surpreendeu, você finge que não é nada como eu e, no entanto, continua seguindo os meus passos. — A loira virou-se para ela tão rápido que o pescoço fez um barulho esquisito.
— Eu não sou NADA como você. — Ela disse, praticamente rosnando as palavras. Atena não pareceu nem um pouco abalada.
— Claro, claro. — A mulher revirou os olhos com um mínimo sorriso debochado em seus lábios. — Enfim, eu repensaria sua decisão se estivesse nos eu lugar. Dizem que os estudantes que se formam com honras lá têm bastante influência com a bancada. — Annabeth franziu a testa com o comentário, tentando assimilar. Não era possível que ela fosse tão baixa. Atena seria capaz de arriscar algo que a filha tinha passado a vida inteira tentando conseguir, o único sonho que ela jamais teve, por puro egoísmo. A garota deveria imaginar, deveria esperar isso dela, deveria saber. Mas, para seu próprio espanto, aquilo fez com que seus olhos se enchessem de água. Depois de tudo que enfrentou, não achava que ainda tivesse alguma coisa que a mãe pudesse fazer que a afetasse, pelo menos não daquele jeito. Entretanto ali estava ela, paralisada de mágoa, tão engasgada com dor que mal conseguia dizer uma palavra.
— Eu já fui aceita. Não tem nada que você possa fazer. — Ela conseguiu dizer, a voz embargada, as mãos tremendo de raiva. Atena suspirou e deu partida no carro.
— Mas imagine só se o diretor Quíron, meu amigo de longa data, recebesse uma ligação especial minha... O que poderia acontecer? — Annabeth fez o maior esforço que conseguiu para evitar que a primeira lágrima caísse. Não ia chorar ali, não deixaria a mãe saber o quanto a havia afetado. Atena a encarava, mas ainda assim não esboçava reação. — Os resultados estarão prontos em duas semanas, deixe as mal-
—Eu espero que você morra antes disso. — A garota a interrompeu. Seu tom era definitivo, apesar de soturno. Poderia ser efeito da raiva, mas Annabeth nunca tinha entoado palavras tão sinceras. Não esperou para ouvir a resposta da mãe, partiu correndo para dentro do aeroporto. Os olhos da loira brilhavam pelas lágrimas reprimidas quando fez o check-in no caixa. A atendente não perguntou, apesar do olhar cheio de compaixão. Devia estar acostumada a ver doces lágrimas de despedidas cheias de amor derramadas no chão do aeroporto. Não tinha como saber que as de Annabeth, porém, tinham gosto amargo.
O voo pareceu demorar uma eternidade. Passou pelo menos uma hora de sua viagem segurando o choro e o resto tentando dormir para evitar lembrar que queria chorar. Não foi bem-sucedida em nenhuma das duas coisas. Annabeth não era muito de chorar, mas quando começava, era difícil parar. Pelo menos a visão da neve sumindo gradativamente na janela do avião a animavam. Mal esperava para chegar em Manhattan. Queria dar um abraço no pai, ver seus amigos. Aquilo seria o bastante para recuperar sua sanidade, para continuar firme. Desejou estar com Thalia e Luke no fundamental de novo, brincando de guerreiros, usando réguas como espadas e cadernos como escudos. Não conseguia se lembrar quando tudo tinha ficado tão complicado, quando começou a esconder coisas dos dois, quando começou a se sentir um peso. As lágrimas brotaram novamente, mas ela as espantou. O celular vibrou no colo, relevando uma mensagem. Conseguiu ver o nome de Percy na tela com os olhos embaçados e leu:
“Já chegou em casa?”
A garota suspirou, respondendo com um breve “quase.” O celular vibrou um pouco um tempo depois, mas dessa vez ela não respondeu. Olhou pela janela novamente, sentindo um tipo diferente de tristeza dessa vez. Não queria responder Percy enquanto estava daquele jeito, odiava o pensamento de ele perceber o quanto ela estava melancólica. Estaria melhor no dia seguinte, talvez depois. Iria na casa de Thalia então, falaria com ela e Luke, chamaria Silena, Charles e os outros. Todos beberiam ou veriam filmes e Annabeth conseguiria se distrair. Quando fossem dormir, sorrateiramente se enfiaria no quarto de Percy. Deuses, como já sentia falta dele. Quase cogitou correr em seu encontro no segundo que colocasse os pés em Manhattan, mas sabia que não poderia. Não queria de ele o visse naquele estado, não queria que ele descobrisse aquela parte disforme e caótica da vida dela. Tampouco seus amigos. Annabeth estava cansada de ser um fardo, sempre sendo cuidada por alguém. Disse a si mesma que ficaria bem, aquela situação ia se resolver e tudo voltaria a ser como antes.
Ficou satisfeita ao sentir o sol do fim da tarde tocar a pele quando saiu do aeroporto. O ar poluído da cidade nunca pareceu tão limpo. Demorou um pouco até conseguir um Uber, como era de costume. Geralmente o pai a teria buscado, mas não estava na cidade. Quando os exames de Malcolm deram negativos na compatibilidade com Atena, ele resolveu voltar pra Irlanda e retomar o curso na faculdade. Frederick tinha comprado uma passagem há meses para ir visitá-lo, muitos antes de toda a confusão com Atena. O pai até tentou argumentar e dizer que poderia deixar para depois que a situação fosse resolvida, mas Annabeth sabia o quanto ele queria visitar os castelos medievais, tinha planejado aquilo por muito tempo. Partiu com Malcolm no dia em que Annabeth foi para o Minnessota e só voltaria em uma semana. A garota não se importava, poderia ficar sozinha em sua própria miséria por um tempo.
Como se o dia já não tivesse sido ruim o bastante, o motorista se recusou a fazer a volta para deixar Annabeth no endereço certo, alegando que a rua dela estava congestionada pelo trânsito naquele horário. A loira quis argumentar, mas não encontrou forças. Resolveu pegar suas malas e andar as três quadras até sua casa, mas a loira certamente o daria duas estrelas na avaliação. Depois de andar por uns bons minutos, finalmente virou a esquina de sua rua. E então constatou que, de fato, a rua estava completamente congestionada, o que ainda não era justificativa para deixar um passageiro tão longe do destino.
A alça da bolsa já doía nos ombros quando se aproximou de sua sacada e só então reparou que não era a única por perto. O coração de Annabeth falhou uma batida. Percy estava ali, na frente de sua casa, olhando para a porta como se estivesse tentando descobrir como ela funcionava. Ele andou alguns passos e então voltou para trás, correndo as mãos pelos cabelos. Trazia alguma coisa parecida com uma caixinha em uma das mãos, mas a garota não conseguia ver bem o quê. Ela o observou repetir aquilo algumas vezes, sem saber se estava alucinando de sono ou se era a realidade. Por fim, Percy pareceu desistir de qualquer que fosse sua missão e se virou, dando de cara com ela. O garoto deu um leve pulo para trás ao notar sua presença e suas bochechas tomaram um leve tom avermelhado.
—A-ah! Você não tá lá dentro, olha que coisa... — Ele disse, coçando a nuca. Os olhos verdes dele brilharam ao olhá-la, um sorriso animado nos lábios. Percy estava lindo e bronzeado, usava um suéter azul e calças de alfaiataria, o cabelo menos bagunçado do que costumava estar. Parecia estar indo para um almoço de família, ou o aniversário de alguém. Não era o tipo de visual que ele costumava ter. Se sentiu extremamente insegura de repente. Lá estava Percy, parecendo uma miragem de tão deslumbrante, enquanto a garota não conseguia se lembrar da última vez que havia lavado o cabelo. Sabia que os fios pareciam um completo ninho de passarinho depois de uma viagem tão longa, além de não estar usando nem mesmo um miligrama de maquiagem para esconder as olheiras de dias seguidos mal dormidos. Pelo que conseguia se lembrar, também tinha uma espinha enorme e vermelha crescendo na bochecha esquerda. Ela suspirou.
— Por que tá aqui, Percy? — Disse, se arrependendo instantaneamente do quanto tinha soado irritada. Ainda mais quando o garoto franziu a testa, claramente confuso com a recepção hostil.
— Mais cedo você disse que estava chegando, então vim te ver. — Ele respondeu, recuperando o bom humor de antes. Percy deu um passo para frente com um sorriso encantador nos lábios. A felicidade dele era tão genuína que a garota se sentia culpada por não conseguir juntar-se a ele. Claro, apesar do comportamento avesso, ver ele na sua frente tinha sido como tomar um copo de água gelada no meio da madrugada depois de tirar um longo cochilo. Teria o ignorado completamente se não fosse o caso.
— Achei que você ia visitar sua irmãzinha pro aniversário dela em São Francisco.
— Eu vou, mas só no domingo. Ainda é terça-feira, Sabidinha.
— Ah, é. Foi mal, não dormi muito bem esses dias. — A garota disse, balançando a cabeça de leve. Levantou o braço e passou a mão no cabelo, sentindo claramente os fios soltos do rabo de cavalo. O gesto fez com que a mochila escorregasse do ombro e teria caído no chão, se Percy não a tivesse pegado.
— O que eu to fazendo? Deixa eu te ajudar – Ele rapidamente tomou todas as bagagens de Annabeth para si, as segurando com muito mais facilidade do que ela. Normalmente teria falado algo sobre como não precisava que ele carregasse coisas para ela, mas, naquele estado, a loira não conseguiu evitar de deixar um leve sorriso agradecido surgir em seus lábios. Ela pegou a chave no bolso e destrancou a porta, permitindo que Percy adentrasse a casa com ela. O garoto entrou no lugar, hesitante, com os olhos atentos escaneando as redondezas.
— Não tem ninguém em casa, cabeça de alga. Pode relaxar os ombros. — Disse, trancando a porta novamente.
— Ah, achei que esse ia ser o momento que eu ia conhecer seu pai. Até usei meu suéter de festa, pais gostam de suéteres. — Annabeth abriu a boca algumas vezes e a fechou novamente. Então ele tinha se arrumado daquele jeito porque achou que ia conhecer o pai dela. A garota tentou fingir que aquilo não tinha feito seu coração acelerar. — Nesse caso, onde fica seu quarto? — O garoto perguntou. A loira ergueu as sobrancelhas e cruzou os braços. — Para colocar as malas, Sabidinha, não tenha a impressão errada. Suéter de festa, lembra? Sou um bom menino hoje. — Ele piscou na direção da garota, que revirou os olhos.
— Pode deixar aqui perto do sofá, eu subo com elas depois.
— De forma alguma, eu sou um cavalheiro, faço questão. — Percy andou até o pé da escada e parou lá, indicando com a cabeça para que a garota subisse.
— Bom menino, cavalheiro... Esse suéter realmente faz milagres. — O garoto semicerrou os olhos na direção dela, fingindo se ofender. — Tem certeza de que isso não é só uma desculpa pra eu te levar no meu quarto?
— Bom, eu acho que você só vai descobrir se me levar. — Ele disse com o usual sorriso dissimulado nos lábios. Annabeth revirou os olhos de novo, reprimindo um sorrisinho dessa vez. Começou a subir os degraus, o garoto bem atrás dela.
— Não repare na bagunça, não paro em casa faz quase um mês. — A loira disse antes de abrir a porta. Ele apenas assentiu, subitamente silencioso. Annabeth entrou no quarto e passou para o lado da porta, dando espaço para que o garoto entrasse. Percy colocou as malas cuidadosamente ao lado da cama perfeitamente arrumada e então girou em torno de si mesmo, observando os arredores.
— Você chama isso de bagunçado? Nunca vou te levar no meu quarto.
— Eu já vi o seu quarto, não é tão bagunçado — A loira riu e se aproximou, sentando-se na cama, mas quando a pele tocou os familiares lençóis, sentar não parecia o bastante, então ela suspirou e se aconchegou um pouco entre os travesseiros, com os pés para fora. Percy sentou-se timidamente na poltrona ao lado da cama, a encarando.
— Estou falando do meu quarto de verdade, em São Francisco. Não posso bagunçar a casa de outra pessoa, minha mãe me mata. — O comentário tirou uma risada de Annabeth.
— Eu já vi uma foto da sua mãe no seu Instagram, ela não parecer ter tamanho pra te matar.
— Ah, você ficaria surpresa. Uma vez, quando eu tinha 8 anos, ela ficou internada no hospital e eu acabei dormindo com ela lá uns dias. No primeiro dia eu não fiz minha cama quando acordei, e então ela mandou que eu fizesse. Eu me recusei e disse que a enfermeira faria, porque achava que era trabalho dela. — A garota escutou a história atentamente, tentando esconder a curiosidade quando ele mencionou a internação da mãe. Presumiu logo que o conhecimento sobre hospitais que recentemente havia descoberto que ele tinha era por causa daquilo, mas achou melhor não perguntar.
— Aí... — Foi tudo o que disse, batendo na própria testa.
— É, a velha não ficou muito feliz. Fiquei sem sobremesa durante três dias e ela me tirou o celular. Mulher vingativa.
— Em defesa dela, você mereceu.
— Mereci, mesmo. — O garoto disse, dando de ombros. Os dois trocaram um breve olhar silencioso por alguns segundos, Percy sorriu levemente. — Eu imagino que você esteja querendo perguntar da internação, conheço esse olhar. Quase dá pra ver as engrenhagenzinhas girando na sua cabeça.
— Não precisa se não quiser, eu nem ia perguntar, juro. — A garota disse, deitando-se de lado para a direção dele, abraçando as próprias pernas.
— Eu quero, não é nada demais. Além disso, eu gosto de te contar coisas. Não tem basicamente nada que eu não tenha vontade de te falar. — Annabeth o encarou, sem saber como responder. Nunca ia se acostumar com jeito que Percy dizia as coisas, como se ele mesmo não percebesse a amplitude do que estava falando, ou o efeito que teria em outras pessoas. A garota se contentou em assentir, o encorajando a falar. — É uma história não muito longa. Quando meu pai deixou a gente minha mãe ficou bem deprimida. Parou de sair, de trabalhar e até de comer. Chegou num ponto que ela ficou tão magra que foi internada por anorexia. — O moreno fez uma pausa, mas Annabeth não disse nada, ele não parecia ter terminado. — A sra.Blofis, uma vizinha nossa, cuidou de mim nessa época. Eu passava a maior parte do tempo no hospital, claro, mas não podia ser o tempo todo. Ela ficou quatro meses internada e depois passou uns anos fazendo acompanhamento.
— Ela melhorou? — Foi tudo o que ela conseguiu dizer. Não queria deixar na cara, mas não conseguiu evitar de imaginar o pequeno Percy de 9 anos tendo que lidar com tudo aquilo. O peito apertou tanto que quase sentia lágrimas nos olhos. O garoto pareceu perceber a reação dela, pois imediatamente forçou um sorriso.
— Com certeza, hoje em dia é como se nunca tivesse acontecido. — Percy deu de ombros. — Ela ficou tão agradecida a sra.Blofis que acabou até se casando com o filho dela, o Paul. E daí que saiu minha irmãzinha. — O garoto disse, em tom de piada. Ele fazia isso, Annabeth já sabia. Esconder com humor o quanto as coisas o afetavam.
— Deve ter sido assustador. — Ela disse, o olhando. Percy deu de ombros de novo, encarando o teto do quarto, as pernas o girando de um lado pro outro na poltrona.
— Faz muito tempo, Sabidinha. Não é algo que eu penso sobre. — Ele disse, ainda sem olhá-la. A garota o observou, pensando se ele estava encarando o teto para evitar que os olhos lacrimejassem. Teve vontade de abraçá-lo, mas não sabia como ele aceitaria naquela situação. Percy não falava muito daquele tipo de coisa, a loira não sabia exatamente como agir.
— Mas fica aí no cantinho, não fica? Tudo fica. — Ela disse suavemente, esperando não ter lido errado a situação. Dessa vez ele a olhou, quase relutante. Annabeth não se mexeu muito, mas estendeu a mão na direção dele, um gesto mais simples que um abraço. Para seu alívio, Percy segurou a mão dela, saindo da cadeira e sentando-se no chão ao lado da cama. Ele ficou em silencio alguns segundos, mas suspirou.
— É, acho que tudo meio que fica. — O garoto acariciava a mão dela delicadamente, os dois observaram o pequeno enlaço.
— Você toca violão? — Ela murmurou, o fazendo rir. Nunca havia reparado nos calos proeminentes na ponta dos dedos dele, mas também nunca haviam passado muito tempo de mãos dadas.
— Toco, mas os calos são por causa da marcenaria.
— Ah é, tinha esquecido que você faz isso de eletiva. Cadeira engraçada pra escolher num curso de biologia marinha. — O garoto riu e deu de ombros.
— Eu fazia no ensino médio, pareceu fazer sentido.
— Você nunca me mostrou nenhum dos seus trabalhos.
— Bom, já que você mencionou... — Percy impulsionou o corpo levemente para cima, pegando algo na parte traseira do bolso. Tirou de lá uma caixa pequena e retangular de veludo azul, algo onde geralmente se colocaria um colar ou um bracelete. — Pra você, humildemente feito por mim. — Annabeth franziu a testa e pegou a pequena caixa, a examinando.
— Você me fez um colar de madeira?
— Abra a caixa, sabidinha. — Ele disse. A loira levantou uma das sobrancelhas na direção do garoto, desconfiada, mas o fez. Dentro havia uma pequena peça de madeira, do tamanho de um daqueles carrinhos de madeira que vendem na feira de artesanato. Annabeth conseguiu reconhecer de cara os pilares firmemente congregados na água, a barragem arredondada do rio, as montanhas de pedra em volta. Tudo estava perfeitamente colocado e pintado lindamente.
—É a... A represa Hoover. — A garota disse, cautelosamente examinando o pequeno objeto, era tão assustadoramente detalhado que Annabeth teve medo de estragar de alguma maneira.
— Isso! Mais de duzentos metros de altura. Construída na década de 30. Cinco milhões de metros cúbicos de água. — Ele disse, como uma apresentação decorada.
— Acres cúbicos... — A loira corrigiu, ainda hipnotizada pela peça.
— Perdão. — O garoto disse, achando graça. — Acres cúbicos. O maior projeto de construção dos Estados Unidos... Em miniatura. — Annabeth se sentou na cama, os olhos grudados no objeto em sua mão.
— Você fez isso? — O garoto assentiu — Você fez pra mim? — Ele assentiu de novo. A loira abriu a boca para dizer alguma coisa, mas nada saia. Podia lembrar-se de ter mencionado que gostava muito da represa para ele e que gostaria muito de visitar, mas tinha sido o que, uma vez? Não conseguia acreditar que ele tinha decorado aquilo, até mesmo o jeito que ela descrevera.
— Não ficou exatamente do jeito que eu queria, você não imagina o quanto é complicado fazer esses detalhes das pedras em volta, foi uma loucura! Mas enfim, você gostou? Por favor diga que sim. — O garoto perguntou, apreensivo.
— Você... Se eu gostei? Percy eu acho que esse é o melhor presente que eu já ganhei. — A garota exasperou, como se ele tivesse feito a pergunta mais idiota do mundo. O moreno suspirou, parecendo aliviado. Um sorriso enorme decorou seu rosto.
— Você jura? Eu posso te fazer outros! Qual outro lugar você gosta? Eu sempre quis fazer as acrópoles, mas nunca tive motivo, você quer? — Percy fazia uma pergunta atrás da outra, animado como um Golden Retriever.
—Percy...
— Que seja, vou fazer de qualquer forma, mas você pode me dizer outros que gosta e eu faço também, pode ser? — A garota ainda estava um pouco embasbacada, mas assentiu. Ele retribuiu e segurou o rosto dela com firmeza, se esticando para a dar um beijo em sua testa, quando se afastou, continuou segurando o rosto dela– Deuses, eu não sabia que tinha sentido tanto sua falta. — Disse, em meio a um suspiro. Ele escaneava cada parte do rosto de Annabeth como se fosse a primeira vez que a visse. A loira sentiu vontade de se esconder, não entendia por que ele a olhava daquele jeito, tinha plena consciência de sua aparência exausta e carrancuda naquele momento. Talvez ele estivesse fingindo? Mas por qual motivo ele faria aquilo? E como alguém fingiria aquele brilho nos olhos?
A loira admirou aqueles olhos verdes e gentis, quase ansiosos, desesperados para ver mais detalhes dela. Depois de tantos dias com Atena, o carinho quase a causou estranheza. O toque de Percy era como rolar em veludo, sua pele quente a fez esquecer cada segundo que passara no frio de Minnesota. Deixou o rosto encaixar no enlaço das mãos dele, como um gato procura por carícias. O garoto sorriu e a puxou para um beijo firme, porém, surpreendentemente delicado, assim como o toque dele. Era demais, todo aquele calor e ternura, tudo era demais. O ódio tinha tentado derrubar a primeira lágrima de Annabeth naquele dia, mas quando de fato aconteceu, apenas o amor havia sido responsável. A loira conseguia sentir o gosto salgado nos lábios quando o garoto se afastou, a olhando com preocupação. Ele acariciou os olhos dela, tentando secá-los, mas as lágrimas continuavam vindo.
—Annabeth, o que aconteceu? — O garoto perguntou, quase desesperado. A loira não conseguia falar, então balançou a cabeça com força e jogou seus braços ao redor do pescoço do garoto, que a puxou para si como se a vida dependesse daquilo. Ele subiu na cama e a aninhou em seu peito, acariciando os fios loiros e emaranhados enquanto ela chorava. Percy não disse mais nada, não fez nenhuma pergunta, apenas continuou empenhado em abraçá-la até que se acalmasse. Annabeth não conseguiria lembrar exatamente em qual momento adormeceu, mas naquela noite dormiu como não fazia a semanas.
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