Checkmate
7 Survival Horror
Notas iniciais
Sentou-se no saguão de embarque por horas, em silencio, segurando-se para não adormecer novamente e perder o vôo por qualquer descuido. Queria chegar à America, não porque soubesse que aquele era seu lar verdadeiro, mas porque ali apostava em sua segurança.
Um funcionário do aeroporto aproximou-se, um pouco amedrontado ao perceber os machucados e olhar cansado da moça. Perguntou em inglês, com um sotaque chinês muito forte se ela embarcaria no vôo AJ2267 com destino à Nova York, e ela confirmou surpresa. O que acontecera de errado?
Afirmando que estava tudo em ordem, notando a preocupação da passageira, contou que o vôo apenas tivera um over-booking, e estava sendo oferecido para aqueles que aceitassem embarcar no dia seguinte, no mesmo horário, um lugar na primeira classe e um hotel para passar aquela noite.
“Um vôo teve de ser cancelado e tivemos que reajustar os passageiros... Pedimos desculpas pelo incomodo, mas a senhorita ajudaria muito se aceitasse, garanto que lhe encaminho imediatamente para o hotel, e o jantar está incluso! Ora vamos! Viagem na primeira classe lhe oferece bancos reclináveis 180 graus... Não precisa ir apertada e desconfortável! E tem vinho tinto! Você está viajando sozinha? Não é sempre que uma chance dessas aparece, não é mesmo?”
Por alguns momentos, ele pensou que seria impossível conquistá-la, pelo seu estado, deveria estar desesperada para chegar à sua casa. Mas, para sua surpresa, ela aceitou na hora.
Ela afirmou que gostaria de embarcar naquele vôo, contudo não tinha pressa, então pediu para que a procurasse caso nenhum outro passageiro aceitasse a proposta. Irritou-se logo em seguida, não gostaria que tomassem seu lugar, mas em sua cabeça, não podia permitir que sua pressa a denunciasse. Acreditava que não era uma passageira regular.
Seu caminho prosseguiu como o esperado, o que a aliviou até a porta da aeronave. O funcionário apareceu pelo corredor esbaforido, acompanhado por outro passageiro nitidamente revoltado, interrompendo-a. O vento entrou pelas frestas entre a porta e a passarela, e fez com que os curtos cabelos da moça caíssem sobre seus olhos, tapando-lhe a visão e desnorteando-a. O homem esbarrou nela com descuido, e não pediu perdão quando o cartão de embarque dela voou para dentro da cabine e sua carteira caiu no chão da passarela. Jamais viu o rosto do sujeito. Recolheu a carteira, mas não encontrou o cartão e não se deu o trabalho de procurá-lo, seria inútil. Ficou extremamente assustada pelo descuido. E se os documentos caíssem da carteira, e algo errado fosse exposto?
Sentia-se tremendamente idiota por ter cedido seu lugar para alguém estupidamente mal educado, mas, sobretudo por saber que só chegaria ao seu mundo imaginário de proteção em torno de 40 horas. Aquele terrível arrependimento a desolava enquanto recebia novas passagens e era levada ao hotel mais próximo ao aeroporto. O dilema que enfrentava estava matando-a. Sabiam onde ela estava! Chegariam até ela e a jogariam em uma nova cela, assegurando que desta vez, ela não escapasse. Mas quem poderia seqüestrá-la num hotel de luxo, portando um passaporte americano, ao lado de um aeroporto internacional? Não... Aquela ou aquelas pessoas eram fortes... Conseguiram fazê-la esquecer a própria identidade... Aparecer do outro lado do mundo sem ter idéia de como... Poderiam qualquer coisa.
O medo passou logo que o cheiro daquela delicada sopa de tomate com nozes picadas, peixe e vinho branco chegou a suas narinas. Aquele restaurante com luzes fracas, aquelas pessoas bem vestidas, em contraste com suas roupas simples e usadas, e aquele perfume ambiente de limpeza constante adocicavam o momento.
Sem relógio, sem preocupações e sem compromissos pode ficar sentada ali no restaurante, e logo depois no lobby do hotel silenciosamente, apenas observando os hóspedes, em sua maioria atendentes de bordo, pilotos com o uniforme em perfeito estado, ou aeromoças puxando suas malas de rodinha, os quais muitos falavam línguas que ela não entendia. Muitos olhavam em sua direção e parecia que seus olhares a atravessavam, como se fosse invisível, muitos se sentavam próximos a ela, outros apenas passavam, segurando suas malas e maletas. E o tempo ia passando.
O quarto não tinha varanda. Tinha apenas uma grande vidraça que permitia uma vista da pista de pouso e decolagem. Eram bonitas as luzes do aeroporto, da torre de comando, dos poucos outros hotéis e da estrada que seguia para a cidade, todas elas compondo uma melancólica cena de pousos e decolagens constantes. Os aviões chegavam, andavam devagarzinho para os porões onde seriam reabastecidos, algum tempo depois, chegava outro da mesma companhia, e as malas eram retiradas, ou ela via outro que partia, levando aquela imensa lataria ao ar, cheio de pessoas com vidas mais ou menos miseráveis do que a dela.
Ligou a TV que transmitia um canal de noticias de ultima hora, algumas ao vivo, apesar de ser madrugada. O noticiário era em inglês, o que a deixou feliz. Esqueceu o que se passava ali por uns instantes e tirou as roupas para entrar na banheira.
Água quente era tão gostosa... Limpava a pele e parecia entrar pelos curativos, aquecendo o corpo inteiro. Sabia que jamais voltaria a entrar em qualquer piscina ou banheira cheia se as luzes estivessem apagadas. Mas não era apenas isso. O escuro total lhe amedrontava também, e ela sentia-se perturbada na presença de plantas de plástico. Já não sentia amor algum pela Pop Art. Traumas perseguiam-na por toda parte. Físicos e psicológicos, que ao longo do tempo ela ia se dando conta. Ela estava sozinha ali, e aquilo também a incomodava. A solidão parecia torturá-la, permitindo que sua mente voltasse para dentro de sua prisão, já não havia ninguém para salvá-la.
Talvez fosse por isso que gostara tanto de ficar aquele tanto no lobby do hotel. Ali estava só, mas o burburinho dos outros impedia que sua mente fizesse o mesmo.
As toalhas onde ela se secara eram macias, mas não tão macias quanto os lençóis. Tirou as toalhas da cabeça e secou as gotas que sobraram. Sem pijamas, desamarrou o roupão e deitou-se nua. Aquecida e confortável, voltou novamente sua atenção para a TV.
Assistiu um pouco até adormecer, e dormiu durante algumas horas, até que sonhou com o quarto onde estava se enchendo de água, e acordou de sobressalto. Quando antes dormira, estava demasiadamente cansada para se recordar, mas ali, tudo parecia real, violento e apavorante. Não estava ofegante, tampouco suava. Sabia que aquilo aconteceria. Parecia-lhe obvio.
Os desfiles de moda que ocorriam em Paris eram tema da matéria que era apresentada. As modelos magras e bonitas que andavam focadas e decididas pelas passarelas, os flashes das câmeras e estilistas famosos do mundo inteiro. Depois, algo sobre a ajuda humanitária que estava sendo prestada por diversos países a um pequeno país no Caribe, que sofrera um desastre natural. O nome do país jamais chegou a ser noticiado.
A programação foi interrompida, os jornalistas apareceram com notícias urgentes, diretamente de Nova York. Uma aeronave, um Boeing 787, que saíra pela noite de Hong Kong, rumo aos Estados Unidos da América havia desaparecido dos radares. Não havia sinal de sua localização, não havia contato com os pilotos, nada.
Informações sobre o horário de desaparecimento e imagens do aeroporto internacional de ambos os países eram mostrados. O numero do vôo deslizava sobre a vinheta abaixo da tela. Equipes de busca pareciam se mobilizar para revistas em todo o local de trajeto, buscando pistas. Ainda não havia sido obtido nada preciso.
Abriu a carteira com os dedos trêmulos, puxou metade do bilhete que usaria em seu vôo, comparou os números. Queria que não fossem compatíveis, mas a verdade falou mais alto do que suas esperanças. AJ2267. Exatamente o mesmo numero.
Gritou profundamente aterrorizada, um grito alucinado, agudo e duradouro, que poderia ter sido ouvido, mesmo abafado, por qualquer um no corredor, ou nos quartos ao lado. Seus batimentos aceleravam a cada respiração e sentia o sangue congelar pelo desespero. Suava. Suas mãos tremiam compulsivamente. Lançou os copos de vidro contra a parede enraivecida. Chutou o pé da cama, e quando acabou por se machucar, sentou-se na beira da cama e chorou. Chorou enquanto as noticias continuavam a entrar por seus ouvidos espertos. Seus instintos estavam alerta, provavelmente continuariam assim por um bom tempo...
Ela se enganara e seus batimentos retornaram logo aos padrões. Estava demasiadamente machucada, confusa e cansada para continuar tão preparada, seu sistema desligaria logo. Começou a rir sem parar, um riso nervoso, louco.
“Quantas vezes mais eu vou poder fugir da morte?”
Era melhor que ela dormisse mais, até à tarde do dia seguinte, assim pelo menos não escutaria tragédias por um tempo. Nenhum avião americano seria seqüestrado e explodido sem que uma investigação rigorosa ou guerra diplomática ocorressem em seguida, ela tinha certeza. Torcia apenas para que não fosse envolvida nisso. Acusada por alguma coisa.
Porque ela sabia que era para estar dentro daquele avião quando ele se explodiu, o problema era que havia pessoas, como ela, que por algum motivo, ou por causa do over-booking, ou por causa do não comparecimento, se safaram do acidente, e seriam esses os procurados para prestar depoimento. Ela não queria isso. Ela era uma sem – teto, que planejava entrar ilegalmente numa das maiores potencias do mundo, sem dinheiro e sem nome. Se a pegassem, que fosse do outro lado, torcia.
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