Checkmate

5 Reiniciar - Parte II


Notas iniciais
Desculpe a interminável ausência, achei que o capítulo estava péssimo, então reescrevi e reescrevi várias vezes para tentar melhorá-lo... Bom, espero que não esteja clichê, estou lutando constantemente para produzir algo diferente... Aceito críticas ;D Boa leitura!

Uma voz feminina me chamou no escuro. Ela disse algo, eu não compreendi. Abri meus olhos devagar e uma luz no teto foi acesa, pude ver os fios pendurados e remendados na parede descascada. Eu estava deitada sobre um colchão puído, conseguia perfeitamente sentir as hastes de ferro que sustentavam a cama abaixo de mim.

Lancei os lençóis que me cobriam para longe e levantei desesperadamente, não reconhecendo aquele lugar. Meu corpo nu estava limpo, sem sangue, sem terra, sem sujeira. Meus cortes haviam sido costurados, contudo a dor de onde estiveram antes abertos continuava fortíssima, tão excruciante que minha cabeça doía. Olhei minhas mãos, sem unhas, a carne à mostra e alguns ossos luxados... Meu estado era decadente, meu corpo estava desnutrido, cheio de infecções e inchaços, senti verdadeiramente que morreria.

Olhei para a pessoa que me acordara. Era uma senhora de rosto enrugado, cansado e suas feições eram brutas, como as de uma mulher que trabalhara duro a vida inteira e perdera um pouco da alegria e do brilho nos olhos. Ela sabia que não falava seu idioma por isso, recorria a gestos. Acalmou-me e me ajudou a sentar a beira da cama segurando minhas mãos. As mãos dela eram grossas e mal cuidadas, ao passo que as minhas, embora dilaceradas, eram delicadas e macias. Ofereceu-me um pedaço de pão com grãos, que enfiei na boca antes de realmente agradecer, estava com fome. Às vezes ela dizia algo baixinho, como se pensasse. Ela tinha um cheiro de alho muito forte que irritava meu olfato.

Ela devia ser a esposa ou mãe do homem que dirigia a caminhonete. Por que não me levaram a um hospital? Aquele lugar era sujo! Idiotas... Ali não me oferecia segurança nenhuma...

Eu me sentia um bicho, incapaz de se comunicar com os outros, incapaz de se reconhecer como individuo, pensando apenas em comida, calor e em alguma forma de aliviar a dor que sentia. Não podia raciocinar livremente, tudo o que conhecia eram fragmentos de algo que estivera no meu passado e fora mutilado pelas minhas mais recentes experiências. Não sabia como retornaria minha consciência. Surpreendia-me até mesmo por ter me dado conta daquilo.

Outra mulher entrou no quarto, dessa vez uma moça jovem, igualmente cansada e bruta, mas cuja brutalidade trazia alguma beleza incomum para o rosto. Ela trazia nos braços algumas roupas limpas, feitas a mão e mal costuradas, que eram confortáveis por serem maiores do que eu. Aquela jaqueta de couro era interessante: Parecia ser uma boa jaqueta, cara, em contraste com o resto do ambiente miserável.

A senhora pareceu brigar com a moça, suas palavras soaram grossas e frias. Talvez o motivo da discórdia fosse o fato de eu ser inconveniente demais... É claro que eu era inconveniente! Estava ali, comendo e dormindo, ocupando espaço sem nem mesmo mostrar gratidão. Eu era alguém que chegara sorrateiramente, sangrando e desmaiada... Que eu trazia problemas comigo era mais do que obvio... Mas me receberam mesmo assim. Ambas não falavam minha língua, o que tornava a situação mais angustiante, eu não entendia nada. Abriram a janela e saíram do quarto sem dizer, ou tentar dizer, nada.

Outra vez só, eu olhava com curiosidade para as moscas que rodeavam a lâmpada de formato de cone. Conseguia ouvir vozes e barulhos vindos do andar de baixo, mas não as entendia de qualquer forma. A janela aberta trazia para dentro um sutil cheiro de enxofre.

Quando eu me cansara de olhar para os bichinhos que entravam zunindo para se aquecer sob a luz, a porta do quarto foi novamente aberta. A velha mulher e um jovem adulto se sentaram ao redor da cama, no tapete e me observaram curiosos, enquanto a moça me entregava um pote de sopa e saia apressada. A sopa veio com mais um pedaço daquele pão. Provei e senti o gosto do alho no caldo, imaginei a quantidade de moscas e bichos da luz que gostariam de prová-lo; tive ânsia, senti a comida subir de novo, meu corpo queria se livrar dela, mas o liquido foi mandado de volta para baixo, os dois me observavam e seria mal educado cuspir. Como eu odiava alho.

– Você não fala nossa língua... Hum... Então eu vou traduzir o que estamos conversando, para que minha mãe possa entender. – O jovem disse. Ele falava um inglês bom, que eu poderia facilmente compreender.

A senhora me disse algo, que foi traduzido logo em seguida: “te achei no carro do meu marido, você tava dormindo, e sangrando muito. Tinha uns cães correndo atrás de você, achei que fosse perigoso, então atiramos nos cães, eu lavei o carro e queimei suas roupas assim que pude.”

Eu nada disse, esperei que eles continuassem.

– Obviamente você não é daqui. – O jovem disse por si mesmo, traduzindo em sua língua em seguida, para que a mãe entendesse – De onde você é? Quem é você?

Ele era um tanto rude, dizia cada palavra como se estivesse impondo alguma ordem, eu não gostava nada daquilo.

– Eu... Eu... Onde eu estou? Em qual língua vocês estão se falando?

– Como assim onde você esta? Você esta em Oskemen. Não se faça de idiota e responda logo às minhas perguntas. – Parecia bem irritado, a mulher disse algo rapidamente, que pareceu acalmá-lo. — Argh... Aqui a gente fala russo, mas temos o Cazaque como língua oficial também... Presumo que não fale nenhuma das duas.. Como você não sabe onde está? Como você veio parar nessas terras afinal? E vem de onde? Estados unidos? Europa? Qual é seu nome? Estrangeiros não vêm para essa parte do país. Nós cuidamos de você, então o mínimo que nos deve agora são algumas respostas.

– N... Nome? Onde fica esse lugar? Os... Oskemen?

– Você está no Cazaquistão, sua tola, estamos a alguns quilômetros de Oskemen. – ele fez uma pausa. – Me chamo Yeon... Quero saber o seu nome.. N o m e.

– Eu sei o que significa nome, só não tenho um, quero dizer, não que eu me lembre, sabe. Não tenho porque mentir, nem razão para estar brincando com você.

O homem disse algo para a mãe e eles pareceram rir. A ideia de alguém não saber o próprio nome devia ser realmente absurda.

– Então você não tem documentos? Identidade, dinheiro... Nada? – ele continuou – Não vou poder te ajudar em mais nada, se é assim. Vá embora logo que o sol nascer, você aqui traz prejuízos à família e não tem dinheiro para compensar, ou seja, é só um grande incomodo.

– Mas... Não precisa ser grosseiro. – Eu respondi, sentindo uma pequena irritação às palavras dele, mas sentir parecia doer também. Minha cabeça explodia, girava meu cérebro impiedosamente, mal conseguia ver direito, muito menos responder e formular as perguntas que eu tanto queria fazer, que pudessem me trazer boas respostas. — Mas eles vêm atrás de mim não é? Eles sabem que estou aqui. Que sobrevivi? Eles vão me achar não é mesmo?

Os dois se entreolharam confusos. Tenho certeza de que ele disse mais do que apenas a tradução. Então ela declarou algo preocupada e triste, seu filho traduziu:

– Não sei bem o que está acontecendo, mas você vai embora amanha e não queremos que você volte. Você mexeu com gente perigosa, gente que têm negócios ruins com o mundo inteiro. Pode nos trazer problemas, sabe. Lamentamos por sua situação, mas não poderemos te ajudar. Só o que posso lhe oferecer é um bom conselho: Suma daqui o mais rápido possível, desse país, para bem longe, onde ninguém possa te encontrar. Já deveria ter ido há muito tempo atrás.

Eu já imaginara o quão curto meu tempo era... A corrida não terminara após as 4 horas, ela seguia, era como se o sofrimento ganhasse bônus. O sentimento de dúvida, principalmente, era tão terrível...

– Eu não sei para onde ir, senhora. Não tenho identidade, estou num lugar estranho, não sei de onde sou. Eu vou embora, prometo, mas antes, me ajude a ter rumo.

Ele traduziu indeciso. Deram-me uma bebida alcoólica forte, que me aqueceu por dentro e me fez parar de tremer, aliviou minha dor. Bebi mais algumas doses daquilo, até mal conseguir sentir minhas pernas.

– Eu vou te levar para uma embaixada americana amanhã. – ele disse após conversar em russo, muito rápido, com a mãe.

– Não sei se sou da América.

– Você não precisa realmente ser. Diga apenas que perdeu sua identidade, seu passaporte, e invente para si um nome genérico, comum. Diga que teve seu dinheiro roubado e que precisa voltar para os Estados Unidos logo. Apenas vá. Sim, vão te procurar. Eu não sei com o que você mexeu, mas foi perigoso. Tem certeza de que não se lembra de nada?

Eu neguei.

Infernos! Oskemen? Eu estava no meio da Ásia, e não fazia ideia de como?

– Se você trouxer problemas para a minha família, serei eu quem vai te matar – Ele disse por fim, e eu não soube identificar se falava sério ou não.

A senhora se retirou do quarto logo após pronunciar poucas ultimas palavras, mas ele continuou ali.

– Mamãe disse que é bom beber bastante porque aquece. As madrugadas aqui são frias e não temos mais cobertores para você. Ela ficou com pena, afinal. Eu gostava dessa jaqueta, sabe. Valia muito. – ele disse enquanto colocava mais bebida em uma xícara e sentava na cama ao meu lado. Tomou uma grande dose. Tomei outra imediatamente.

– Você é bonito, sabia. Só não precisa ser tão insensível. – Eu disse com seriedade, e ele pareceu extremamente envergonhado. – Eu não sei como cheguei aqui, mas eu sei onde estava antes de vir para sua casa.

– Como assim? Sabes então de qual país veio? Por que não disse antes?

– Não isso. Estava num lugar no meio da floresta, entre as arvores, próximas à estrada. — Cochichei – Há um alçapão, que leva para metros e metros abaixo da terra. Lá existe um lugar esquisito, uma sala, que agora deve estar cheio d’água. Eu estava lá dentro, mas consegui fugir. Você reconhece esse lugar?

– Não. Nunca saí da estrada e não costumo explorar essas áreas. Como você chegou aqui? – Ele pareceu assustado e finalmente curioso sobre o resto de minha história, o que não me surpreendeu porque até mesmo eu não a entendia direito.

– Quando eu saí de lá, me vi na floresta, e havia pessoas me procurando, mas eu me livrei do chip... Corri até encontrar a estrada, e lá, cai na caminhonete de vocês. Acordei aqui. Desculpe-me, eu nunca quis trazer problemas... Não faço questão de permanecer aqui. Vou embora, tentar recuperar minha vida... Minha identidade... E quem sabe ir atrás de quem fez isso comigo.

– Shh... Não diga isso! Nem brincando! – Ele tapou minha boca com a mão – Eles são perigosos. Apenas esqueça isso...

– Quem são “eles”? — Ele tentou mudar de assunto e se levantar da cama após eu continuar insistindo, mas eu o segurei – Você vai me dizer. Agora.

Ele suspirou irritado.

– Já que insiste em brincar com fogo... Por aqui são conhecidos como “intendentes vermelhos”, mas não sei como eles são chamados no seu país – Ele sussurrou.

– E como você sabe que a autoria por meu sequestro é deles?

– Eu não sei. É um palpite baseado no que você me contou. Eu sei que eles causam problemas, fazem coisas ruins, catastróficas acontecerem. Sua história me pareceu um tormento, o que segue o estilo torturante dos raptos que cometem... Você deve ser parente de alguém importante, ou simplesmente ter brincado com algo errado. Adolescentes adoram essas coisas. Quantos anos você tem afinal?

– Eu não sei. Eu nem sei meu nome, quanto mais a minha idade.

– Diga que é maior. Diga que tem vinte anos, ou vinte e cinco no máximo. Para não desconfiarem. Assim é melhor. Mas eu acho que você deve ter entre dezessete e dezoito anos. Você tem altura, mas tem rosto de quem está na mocidade. Você deve gostar muito da vida para estar aqui agora.

E como.

Eu disse que pensava a mesma coisa, então me perdi por alguns segundos admirando o seu belo rosto. Ele percebeu e sua face ruborizou novamente. Demos mais um gole na bebida, quase no fim. Qual seria o teor alcoólico daquilo? Não estavam mentindo quando disseram que esquentava.

– Obrigada por ter cuidado dos meus ferimentos. Você é médico?

– Não. Eu cuido das vacas e porcos do proprietário dessas terras. Espero que tenha ficado bom, sabe costurar animais é mais fácil, mas no seu caso também foi. Você estava tão cansada que nem se mexeu... Nem precisei usar a bebida na operação.

Não soube o que dizer. Ele apenas riu.

Após uns instantes, ele pareceu ceder aos poderes do álcool e se tornou alguém muito mais amigável e divertido. Seu inglês tornou-se incompreensível, e ele passou a misturar palavras em russo em suas frases, que eu não entendia, me fazendo rir.

Ele contou que queria ir aos Estados Unidos e sonhava em ir para uma universidade de medicina na Califórnia, só que por motivos de força maior ele permanecia ali, ele e as vacas.

– Você parece outra pessoa agora, um cara realmente legal, sabe. Parece um amigo, de certa forma, acho que você tem um bom coração afinal.

– Dizem que a melhor forma de conhecer o verdadeiro caráter de um homem é dando-lhe bebida. Bom, se você diz que é assim... Então eu sou a prova.

Disse-lhe que gostaria de vê-lo novamente, talvez na América, se eu chegasse lá, mas ele pareceu voltar ao normal por alguns instantes, dizendo que não me conhecia e que em pouco tempo se esqueceria de mim.

Após um momento silencioso, percebi que ele havia adormecido ao meu lado. A única certeza concreta que eu tinha era a de que alguém, em alguma parte qualquer daquele mundo imenso, me odiava profundamente.

Notas finais
Não sei quando vou postar o próximo, maaas ele já está pronto, só vou revisar, revisar e revisar de novo. E ai, o que achou? Me conte, deixe um comentário ^^!