Chasing Life
10 Dia dez - Envelheço na Cidade
Notas iniciais
Naquela manhã, Kuchiki Byakuya acompanhava a agenda do prefeito, que prestigiava a inauguração de uma pista olímpica de atletismo. Estavam há cinco anos das Olimpíadas, mas a incrível eficiência japonesa não poderia deixar de se manifestar. O evento contou com a presença não somente de personalidades políticas, como também com a de atletas consagrados do atletismo japonês.
Durante a solenidade, o prefeito discursou a respeito de suas expectativas e planos para sediarem os jogos olímpicos de 2020. Além do mais, ressaltou a importância de estimular os jovens ao esporte, enfatizando que a sociedade de Tóquio só tinha motivos para se beneficiar com um empreendimento esportivo tão valioso.
O Kuchiki, bem como os outros representantes de seus respectivos partidos, também teve seu momento para pautar acerca dos projetos e investimentos no setor de esportes. Sojun preferiu que o filho tomasse a voz, uma vez que seria mais coerente, pois a cadeira de porta-voz do partido pertencia a Byakuya. Ao menos em Tóquio. Sojun queria ter a certeza de que seu único herdeiro experimentasse a carreira política antes que decidisse se afastar dela por completo. Mas também não o pressionaria, se a vontade do filho fosse seguir com seus estudos acadêmicos em Nagoya. Byakuya era disciplinado e devotava-se para exercer um bom trabalho com aquilo que se comprometia a fazer. Tal atitude lhe renderia uma carreira de prestígio, qualquer que fosse o caminho que desejasse trilhar.
— Nossa organização entende que os esportes devem ser contemplados em sua dimensão social, educacional e cultural, pois é um instrumento nobre de transformação e inclusão, que integra cidadãos e promove a união de nossa nação. O Partido Democrático deposita suas esperanças e investimentos nos atletas que irão competir pelo nosso país, bem como apoiará os aspirantes da nova geração.
Byakuya ficou em silêncio, aguardando a salva de palmas cessar para retornar ao seu lugar. Os repórteres dispararam seus flashes e ele manteve sua expressão altiva, circunspecta. Não se sentia confortável encarando as câmeras e tampouco se expondo publicamente, Mas, durante o ano em que ocupou a cadeira na Assembleia, eventualmente aprendeu a lidar com tudo aquilo da sua própria maneira.
Quando o silêncio voltou a reinar no salão, Byakuya deixou um último agradecimento no microfone. Foi o momento em que ele se descuidou, olhou para baixo, na fileira de repórteres, e o viu. Os cabelos vermelhos, as tatuagens e os olhos rasgados por detrás das lentes quadradas. Ele soube que Renji percebeu que havia sido notado, pois se olharam diretamente. Mas precisava dar o microfone para o líder do Partido Liberal que já estava de pé, ao seu lado.
Retornou para o seu assento ao lado do pai, onde assistiu ao restante das declarações e coletivas até o fim. Sojun apertou sua mão e sorriu-lhe com carinho.
— Fez um bom trabalho, meu filho.
— Apenas cumpri meu dever.
—x—
Seu pai não pretendia demorar. Queria apenas acompanhá-lo para discutirem assuntos familiares e pessoais, já que os horários de ambos não entraram em acordo na última semana, com exceção daquele evento. Byakuya ainda tinha de atender a algumas entrevistas, então a conversa seria curta, apenas para estabelecerem contato de pai e filho.
O gabinete de Byakuya não acomodava nenhuma extravagância. Os tons eram sóbrios, os móveis de mogno e cadeiras de um couro marrom. Havia uma estante que ocupava toda a parede de fundo, repleta de livros, e eventuais peças decorativas que já estavam ali antes que a sala fosse sua. Assim que Byakuya entrou, sentou-se na sua poltrona, enquanto que Sojun apoiou a coxa sobre a mesa, com o tronco de frente para ele.
— Soube que está tendo problemas com sua ação de divórcio.
— Hisana não quer cooperar. Mas, eventualmente, ela cairá em si.
— Tem certeza que deseja continuar com isso, meu filho?
Sojun tinha sempre uma expressão calma, que raramente lhe abandonava o semblante. Mas Byakuya sabia ler aqueles olhos e enxergar ali um tom de preocupação.
— O senhor sabe que sim. Nunca houve a chance de dar certo.
— Ah, está se referindo àquilo. — Sojun se levantou e caminhou até a janela. Ele não viu quando o filho mirou-o com os olhos cerrados ante a menção de sua sexualidade, como se tratasse de um objeto avulso que se esquece num baú de velharias.
Apesar de ofender-se, Byakuya sabia que o pai não tinha a intenção premeditada de espicaçá-lo. Seu modo de lidar com aquilo sempre foi contornando e saindo pela tangente. Parecia sentir-se mais confortável se nunca precisasse dizer os verdadeiros nomes, como se esse tipo de atitude tornasse o fato menos real.
— Aquilo sou eu, pai.
Sojun virou-se, sorrindo-lhe ternamente, como quem não deseja instigar discussões a respeito do assunto. Aproximou-se do filho e beijou-o na testa para despedir-se.
— Certo, Byakuya. Eu só espero que seja feliz, não cabe a mim julgá-lo.
Quando o pai abriu a porta para sair, o estagiário que trabalhava na recepção estava ali de pé, e assustou-se quando viu Sojun diante dele. Fez uma reverência e afastou-se para o Kuchiki passar e esperou ter a permissão do outro para entrar.
— Entre, Rikichi.
O rapaz apressou-se até a sua mesa. Parecia sempre ansioso com alguma coisa.
— Kuchiki-sama, o jornalista que irá entrevistá-lo já está na recepção.
— Diga que estou pronto.
Rikichi assentiu com a cabeça e deixou-o sozinho. Enquanto isso, Byakuya apanhou a pauta do evento para repassar mentalmente os tópicos discutidos. Sabia que a intenção da mídia naquele momento era sondar as propostas de cada partido, frente ao impacto de um evento da dimensão das Olimpíadas. Mas a lembrança de ter avistado Renji no grupo de repórteres encobriu o desejo de focar sua atenção em qualquer outra coisa. Lembrar-se daquele rapaz fazia atrair uma sensação boa, de aconchego, de ter o coração agasalhado.
Fazia um ano. Um ano desde que o deixara na porta de seu apartamento. Era verdade que se quisesse, poderia encontrá-lo, mandar um convite, com toda a facilidade e recursos ao seu dispor. Sabia seu endereço, e poderia conseguir até informações mais pessoais, como: documentação, currículo e diplomas. Mas não era do seu feitio bisbilhotar a vida de outrem. Mesmo que esse outrem fosse alguém do qual ele gostaria muito de rever. Estaria mentindo se não dissesse que não havia nunca digitado seu nome no motor de buscas e lido algum de seus artigos, ou mesmo checado seu portfólio. Mas até ali, poderia ser considerado dentro da normalidade.
Ele também não tinha tempo para esse tipo de coisa. Em suas horas livres, procurava dedicar-se ao piano ou alguma boa leitura. Também fazia anotações referentes à pesquisa que deixara em Nagoya. E, sempre que possível, mantinha contato com seus companheiros de universidade. Pretendia voltar, assim que seu pai encontrasse alguém mais apropriado para ocupar seu cargo.
Byakuya respirou fundo e encarou a janela com seus olhos cinza. O começo de tarde estava iluminado, apesar das nuvens que salpicavam o céu. Era o último dia de agosto, mas o vento já trazia o frio do outono, e, vez ou outra, geava durante a madrugada. Olhou no relógio no alto da parede que marcava 12h30 e desejou que as entrevistas não ocupassem muito do seu tempo. Gostaria de aproveitar a tarde para adiantar trabalho e deixar o seu fim de semana livre. Talvez eu deva ir até Nagoya ter uma conversa com Hisana. O pensamento o entristeceu e fez com que voltasse para sua leitura.
Minutos depois, três batidinhas anunciaram a entrada de alguém. A porta se abriu, e ele impulsionou sua poltrona para frente, apoiando as mãos juntas sobre a mesa.
— Com a sua licença, Kuchiki-sama.
Byakuya não conseguiu esconder a colossal surpresa que se apossou dos seus músculos faciais e corpo inteiro. Uma descarga gelada atravessou sua espinha e o petrificou por alguns segundos. Estava sem ação. O rapaz estava parado no meio da sua sala, esperando que dissesse alguma coisa, uma ordem, um cumprimento, qualquer coisa. Mas apenas se encaravam, sustentando a atmosfera de perplexidade.
— Renji, como...? — Byakuya se levantou, sem razão aparente.
— Posso me sentar, senhor?
O Kuchiki ainda o encarava, absorto em surpresa. Deixou-o em espera por alguns segundos, o bastante para que o constrangimento dele só aumentasse.
— Por favor. — disse, por fim, apontando a cadeira a sua frente.
Os dois tomaram seus lugares ao mesmo tempo. Renji mostrou-se ocupado procurando alguma coisa em sua maleta. Ele parecia nervoso, embora tentasse demonstrar naturalidade enquanto revirava seus papéis. Byakuya cogitou perguntar por que não tinha sido avisado da sua chegada, mas lembrou-se de que aquilo não seria possível. A não ser que estivesse ali para entrevistá-lo.
— Renji.
— Senhor. — O rapaz levantou a cabeça como se despertasse de um transe. Seus óculos estavam frouxos, escorregando um tanto sobre o nariz.
— Não vai me dizer o que faz aqui?
— Ah, mas... — ele empurrou as lentes para o lugar. — Bom, é que eu pensei que o garoto da recepção tivesse avisado. Eu vim para a entrevista.
Certo, pensou o Kuchiki. Não parecia despropositado. Era natural que jornalistas esportivos o procurassem naquela ocasião, afinal, havia acabado de participar de um evento voltado para o tema das Olimpíadas. Talvez se tivesse pedido os nomes que Rikichi anotava em sua agenda, o encontro não seria de todo uma surpresa. Mas jamais fizera isso, e não tinha como de repente adivinhar que deveria se atentar para esse detalhe.
O processo era sempre o mesmo. Rikichi anotava o compromisso, e ele, Byakuya, os cumpria. Nomes só eram mencionados quando se tratava de seu pai ou de pessoas bastante específicas do âmbito político. Mas ele estava divagando, buscando evasivas que não faziam o menor sentido.
— Você errou, no fim das contas.
— Oi?
— Naquele dia, quando nos despedimos, você disse que seria mais fácil que eu o contatasse do que o contrário. Mas agora está aqui.
Renji sorriu. E ao mesmo tempo pareceu grato por tirar uma enorme carga de tensão das suas costas. Byakuya se pegou cogitando se a cobertura do evento e o agendamento daquela entrevista tinham sido oferecidos a ele por acaso, como trabalho, ou se Renji se oferecera, deliberadamente, pela oportunidade. Morreria com a dúvida.
— Ah, é mesmo? Eu tinha dito isso? Quem diria, não é? Foi uma coisa boa eu ter errado, então... digo, é bom rever o senhor.
O Abarai retirou um gravador de dentro da sua maleta e colocou-o sobre a mesa.
— Igualmente, Renji. Espero que tenha conseguido reparar o carro.
— Consegui sim, bom, não eu, meu chefe. Quando disse que foi o senhor quem bateu em mim ele até me perdoou. — o ruivo não iria jamais confessar que comprou até mesmo uma câmera nova com o dinheiro que havia sobrado do conserto. — Bom, eu estou pronto quando o senhor estiver.
Para a surpresa do Kuchiki, o rapaz cumpriu seu dever de maneira muito profissional. Não que duvidasse de sua capacidade. Mas o nervosismo que o dominava quando ele entrou pela sua porta, agora parecia ter se dissipado por completo. Renji mostrou-se bastante seguro de si enquanto o entrevistava. Achara suas perguntas inteligentes, e mesmo provocativas. Viu que o Abarai fizera sua lição de casa, pesquisando a fundo a ideologia e história do seu partido.
Havia ficado claro que discordavam em alguns pontos. Mas, Byakuya ficou sinceramente satisfeito que Renji não reprimiu o que pensava, usando seus argumentos para retornar-lhe questões ainda mais espinhosas. Num dado momento, tomaram consciência de que estavam debatendo ética e moral. Renji riu e procurou cumprir com o restante de perguntas que havia anotado, uma vez que seu tempo com o Kuchiki era contado. Havia mais outros três na fila para entrevistá-lo.
— É isso, acho que acabamos. O senhor deseja dizer mais alguma coisa?
— Sim. — no entanto, Byakuya estendeu a mão e desligou o gravador. Então ficou segurando o botão sem qualquer motivo especial. — Está aqui há bastante tempo, portanto, ainda não almoçou. E eu também não. — ele estimou algo olhando para o relógio na parede. — Creio que estarei livre dentro de uma hora e meia.
Renji piscou repetidas vezes, empalideceu e depois engoliu em seco. Abanou a cabeça, rindo muito consigo mesmo e começou a tossir. Daí esticou o braço para apanhar seu gravador, mas foi a mão do Kuchiki sobre o aparelho que, sem querer, ele agarrou. Largou-a imediatamente como se levasse um choque. Então o acesso de tosses pareceu mais violento.
— Meu Deus, desculpe! O senhor tem uma água?
— Fique à vontade. — Byakuya apontou ao fundo, uma mesinha.
Achou engraçada a reação do jornalista. Não tinha certeza se Renji compreendia o que significava aquele convite, mas pretendia descobrir. O que o deixava mais confiante, era que ele já sabia que, se houvesse uma recusa por parte do Abarai, não seria pelo fato de ele também ser homem. Mas Renji ainda era ignorante ao fato de Byakuya também gostar de rapazes. E era difícil para que uma pessoa com seu cargo, e com sua relevância social, se sentisse à vontade para confiar em outro alguém a ponto de se abrir sobre esses sentimentos. E ele ainda tinha um divórcio em andamento. Byakuya não queria se decepcionar.
O ruivo se levantou, nervosamente, e foi até a direção indicada buscar seu copo consolador de água. O Kuchiki pôde reparar melhor no que ele vestia: um cardigã azul cobalto por cima de uma polo xadrez e calças caqui. O cabelo era preso na habitual trança, com a franja passada por detrás da orelha. Byakuya tinha curiosidade de vê-lo com os fios soltos e esparramados por sobre os ombros.
— Eu ainda preciso fotografar o senhor para a reportagem. — Renji serviu-se e voltou para o seu lugar, aparentando mais calmo. — Onde vai querer que eu tire as fotos?
Byakuya não esperava por aquilo. Sentia-se desconfortável sendo fotografado publicamente, mas posar para fotos em particular triplicava seu incômodo. Não fazia ideia de como gostaria de ser clicado. A melhor resposta seria recusar, educadamente. Havia dezenas de fotos suas no website da Assembléia que o Abarai poderia usar. Mas ele simplesmente não se sentia inclinado a negar o pedido a Renji.
— Certo. As fotos serão suas, como as prefere?
— Ah, o senhor quem sabe. Onde se sentir mais confortável. Mas acho que se desse pra ser uma de corpo inteiro, aquela clássica, de frente a sua mesa, seria uma tomada interessante. Mas quem decide é o senhor mesmo.
Byakuya não quis transparecer mal-estar. Prontamente se levantou e recostou-se de leve na sua mesa. Ajeitou sua gravata e passou a mão sobre a lapela do terno, depois verificou as mangas. Parecia tudo ótimo, como sempre. Byakuya era impecável com sua aparência.
O rapaz pegou sua câmera e afastou-se. Enquanto ele a configurava, o Kuchiki disse:
— Renji, sobre o almoço, entendo se tiver outro compromisso...
— Hã? Não, eu não tenho nenhum. Porque é meu aniversário, meu chefe me deu o resto do dia livre depois que eu terminasse as coisas por aqui.
— Ótimo. Nesse caso, você escolhe o lugar.
O Abarai posicionou-se. O Kuchiki respirou fundo, olhando a sua volta. Não sabia se deveria cruzar os braços, deixá-los soltos ou se apoiava as mãos na mesa. Como se para se proteger, acabou cruzando os braços sobre o peito, esforçando-se para mostrar uma expressão natural e serena. Renji tirou cinco fotos, para garantir. Apesar de que todas eram exatamente iguais.
— Ficaram muito boas!
— Aposto que sim.
Rikichi bateu na porta para anunciar que o tempo de Renji havia se esgotado. Byakuya disse que já haviam terminado e dispensou o estagiário. Enquanto o Kuchiki voltou para o seu lugar, o Abarai pôs-se a arrumar ligeiro as suas coisas dentro da maleta.
— Renji, foi muito competente. Fará uma excelente reportagem.
— Espero que sim, senhor. Quando ficar pronta, gostaria de saber o que achou. Ah, é... e se não fosse incômodo demais, também queria que o senhor lesse o artigo que escrevi sobre o jogo. Foi o nosso texto mais lido e comentado do ano passado. Saber sua opinião seria muito importante pra mim, afinal, foi o senhor quem proporcionou aquela chance...
— Podemos falar sobre isso no almoço?
— Claro que sim.
— Ótimo. Então, até logo. Lembre-se de escolher onde deseja ir. E não se esqueça de deixar seu número com Rikichi na recepção.
Quando Renji deixou a sala, uma ruga de preocupação surgiu no meio da testa do Kuchiki. Mas ele estava apenas apreensivo sobre como conseguiria cumprir o restante de sua agenda o mais rápido possível.
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