– {...} Reconstruindo em mim, a esperança de saber que posso ser feliz.

Cantei a última parte da música e ouvi um forte barulho de palmas vir da plateia. Olhei para os lados e meus colegas também estavam batendo palmas para mim. Consegui sorrir e agradecer pelo microfone.

– Quero agradecer a todos! Primeiramente ao diretor que permitiu que fizéssemos essa apresentação. Queria agradecer também aos meus companheiros de grupo, que confiaram em mim para o cargo de vocalista. Queria agradecer a vocês que assistiram e aplaudiram nossa apresentação tão calorosamente. Queria agradecer especialmente a Sophia e Dakota – Apontei para as duas – que sempre me deram toda a força e carinho possível.

Foi então que vi na entrada do ginásio uma pessoa que eu não esperava ver. Kari estava entrando naquela hora. Quando me viu em cima do palco, sorriu e eu sorri de volta.

– Bom, acho que é isso. Mais uma vez obrigado!

Todos aplaudiram e começaram a sair do ginásio de apresentações. Vi Kari vindo em minha direção. Desci do palco e fui até ela. Ela me abraçou fortemente e eu repeti o gesto Talvez não precisasse de mais coisas, um abraço pode mostrar toda a saudade e carinho que uma pessoa tem pela outra e foi exatamente isso que aconteceu. Não importava o passado, o que havia acontecido, o importante era o presente, o agora.

– Acho que cheguei um pouco atrasada para a apresentação. Desculpa! – Disse ela em meio ao abraço –

– Sem problema. – Me soltei do abraço e olhei-a nos olhos –

– Não, sério. Você estava tão ansioso para essa apresentação e...

– Ta, o importante é que você veio.

Kari sorriu e me abraçou mais uma vez.

– Trouxe um presente para você.

– Pra mim? Porque? – Perguntei –

– Amanhã é seu aniversário ou você acha que eu esqueci disso?

Bati com a mão em minha testa.

– Com toda essa bagunça dos ensaios da banda, acho que eu me esqueci disso.

Contei uma mentira, eu não havia esquecido, só não queria que ninguém soubesse. Agora meu segredo estava em risco. Kari havia voltado e sabia disso. Sabia que no dia seguinte e completaria dezesseis anos, do jeito que ela era, falaria para todo mundo, coisa que eu não iria gostar nem um pouco.

– Não conta para ninguém, ok? – Pedi –

– O que? — Ela me perguntou – Porque? Tem alguém que não sabe disso?

– Ninguém sabe. Não contei para ninguém.

– Porque?

– Porque eu não gosto muito desses clichês de aniversários. – Fiz uma pausa e depois expliquei – Todo mundo te dando abraços forçados, te dando presentes estranhos e fingindo que gosta de você quando não gosta.

– Então não vai ter festa?

– Tomara que não.

Eu pensava que iria ser como antes. Eu tinha aquele trauma das crianças chorando em minha festa de aniversário de 8 anos. Tinha medo de aquilo acontecer novamente. Coisa de tolo? Sim, mas cada um tem seus medos bobos não é?

Kari, Michael, Jake, Lucio e eu fomos para minha casa. Minha avó havia nos convidado para um almoço entre amigos. Então convidei todos os meus amigos para aquele momento. Sophia e Dakota já estavam lá. Meu pai, minha mãe, meu irmão e meus avós também. Quando me viu, Sophia correu até mim e me deu um abraço.

– Agradece a ele Sophia por ter dedicado aquela música para nós. – Dizia Dakota –

– Obrigada Charlie, eu gosto muito de você. – Disse ela –

Eu a abracei ainda mais forte. Depositei um beijo em sua testa e sorri para ela. Ela também sorriu para mim. Passei os braços sobre os seus ombros e a levei para sentar ao meu lado. Minha avó caprichou naquele dia. Ela fez uma lasanha de dar água na boca mesmo depois de ter comido dois pratos cheios dela. Sabe quando você não está com fome, mas vê uma comida bem bonita e quer come-la? Bom aquela lasanha trazia essa sensação.

Todos nós conversamos muito. Conversamos sobre quase tudo o que tinha para conversar. Conversamos até faltar assunto. Houve um momento em quem não sabíamos mais sobre o que falar. Mas a bendita Kari fez o favor de puxar um assunto nada agradável para mim. Quando o silêncio reinava, minha amiga de olhos verdes fez o favor de lembrar a todos sobre o meu aniversário. Aquele assunto fez todo mundo falar ao mesmo tempo.

– Amanhã é seu aniversário Charlie? – Perguntou Dakota –

– Cara, porque você não contou isso para a gente? – Perguntou Jake –

– Podíamos fazer uma festa! – Disse Michael –

– Não, não, não! Festa nem pensar. – Falei –

– Festa tem comida gostosa. – Falou Sophia –

– Tem mesmo. – Concordou Lucio –

– Podíamos fazer um bolo gigante de chocolate – Sugeriu minha avó –

– Nada de bolos vó.

– Imagina o tanto de gente que podíamos convidar. – Jake falou –

– Nada de convidar um monte de gente. – Falei –

– Ia dar para fazer um festão! – Concordou Kari –

– Tenho que pensar em que presente comprar para você, Charlie. – Disse minha mãe –

– Também tenho que comprar um presente. – Falou meu pai –

– Mãe, pai, não quero presentes amanhã.

– Beijinhos e coxinhas, já estou ficando animado para essa festa– Disse Lucio –

– Não vai ter festa, Lucio! – Falei –

– Brigadeiros são marrons e gostosos. – Disse Sophia –

– Então está combinado! Amanhã vamos fazer uma festa de aniversário para o Charlie. – Concluiu meu avô –

Todos me olharam sorridentes. Acho que eu era o único que não sorria.

– Galera, eu não quero uma festa. Vó a senhora esqueceu que eu não sou muito fã de festas? – Perguntei –

– Claro que me lembro. Mas desta vez vai ser uma festa que você vai gostar, prometo. – Respondeu –

Não fiquei com raiva de Kari por ela ter falado para todos que no dia seguinte era meu aniversário. Eu estava muito tempo sem ver ela para ficar com raiva por causa e um trauma idiotia. Todos da banda, Sophia, Kari e eu passamos a tarde jogando videogame na casa de Jake. Jogamos tanto que meus dedos doíam. No jogo de luta eu era péssimo. Só ganhava de Sophia (apesar de eu ter perdido uma vez para ela), perdia para todo mundo. Agora no jogo de corrida eu era o melhor. Ganhava de todos. E eu pensei no quanto aquele dia estava sendo bom.

[...]

No dia seguinte acordei com meu quarto lotado de presentes. Eram mais ou menos uns 40 pacotes. Acho que queriam me fazer um surpresa.

– Minha família comprou isso tudo? – Perguntei a mim mesmo –

A resposta para aquela pergunta era ‘não’. Haviam nomes e bilhetes nos pacotes de presentes. Havia um do diretor da escola. Imagina só, do diretor! Outro presente estava com um bilhete com um pedido de desculpas e finalizando com um parabéns. Esse bilhete era do garoto que eu havia brigado no começo do ano. Consegui dar um sorriso com aquilo. Havia presentes de pessoas que eu nunca havia conversado, mas que eu havia conquistado o respeito com a apresentação da banda. O da minha mãe, o da minha vó, o do meu avô, do meu pai, de Dakota, de Kari e dos garotos da banda também estavam lá. Eu me perguntava onde guardaria aquilo tudo. Eu estava vendo os presentes quando ouvi um barulho de vidro se quebrando. Desci as escadas devagar e me deparei com um bocado de gente na sala de estar, sala de jantar e cozinha da minha casa. Todos da minha sala e algumas outras pessoas estavam ali. Sophia estava comendo um brigadeiro acompanhada de Jake. Kari estava ajudando minha mãe e a arrumar a mesa, que estava cheia de salgadinhos, doces de festas, refrigerantes e um bolo gigante como minha avó falara no dia anterior. Dakota juntava um prato de vidro que havia caído no chão. Lucio estava sentado tomando um copo de refrigerante acompanhado de Michael. Meu pai e meu avô estava conversando. Ninguém havia me percebido, até uma criança de mais ou menos 5 anos me olhar e gritar: “Olha o Charlie ali”. Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para mim, então Kari começou a cantar o “Parabéns para você” e todos a acompanharam.

Se a festa não foi o que eu esperava? Sim, não foi exatamente o que eu havia pensado que seria, mas até que posso considera-la uma boa festa. Todos me abraçaram e não havia ninguém chorando. Todos estavam sorridentes e brincalhões. Fizemos várias brincadeiras como a mimica, o bingo e corrida de sacos. Fizemos todas essas brincadeiras que não são muito feitas hoje em dia.

No final do dia, quando todos haviam ido embora para suas casas. Sophia veio até mim e me deu o envelope que ela havia guardado o ano inteiro.

– Presente para você. – Disse ela – Não abre agora, é uma... surpresa, é uma surpresa.

Minutos depois dela ir embora, eu abri o envelope e tirei de lá de dentro um bocado de folhas com desenhos muito elaborados. Perguntei-me se Sophia havia desenhado aquilo. Eram desenhos tão detalhados que podiam ter sido feitos por profissionais. Olhei bem os desenhos e percebi que era exatamente desenhos de momentos que eu e ela havíamos passados juntos. Tinha um desenho de eu a observando da janela. Um outro desenho do momento em que eu a salvei de cair do segundo andar da sua sala. Um desenho de eu brigando com o garoto para defende-la, outro mostrava eu andando de mãos dadas com ela. Outro mostrava eu a abraçando e um outro eu a beijando na bochecha. Eram mais ou menos uns cinquenta desenhos. Então foi quando me lembrei que sempre que acontecia algo marcante entre Sophia e eu, ela pegava o envelope. Ela sempre desenhava os momentos bons para que eles se eternizassem. Aquilo era extremamente fantástico. Chamei pessoal da banda e a Kari e mostrei os desenhos para eles. Eles também ficaram surpresos. Corremos para o local de ensaio da banda e pegamos o valor que havíamos recebido do diretor por causa da apresentação. Peguei um papel e uma caneta e escrevi o seguinte:

“Nunca estarão sozinhas! Deus sempre trará pessoas para ajudar os que precisam. Nesse momento são vocês que ele escolheu. Use essa quantia para fazer aquilo que não tem tido condição, use com aquilo que você não quer perder, use com aquilo que você ama e quer preservar.

Fomos para a casa de Dakota e Sophia, colocamos o envelope com o dinheiro e a carta em frente a porta delas e batemos na porta. Corremos e nos escondemos em um lugar que daria para ver a reação de Dakota e de Sophia. Quando a mãe da autistas abriu a porta ficou sem reação em não ver ninguém. Ela olhou para o chão e viu o envelope. Pegou e ficou ainda mais surpresa quando viu aquela quantia. Leu a carta e percebi que seus olhos começaram a lacrimejar. Começou a chorar e a sorrir ao mesmo tempo. Sophia a viu sorrindo e também começou a sorrir. Kari, Michael, Jake, Lucio e eu nos abraçamos e prometemos que sempre iriamos ajudar a quem precise. Voltamos a olhar Dakota e Sophia e elas também estavam se abraçando com um sorriso no rosto e os olhos cheios de lagrimas.

Sabe quando você vê o sorriso de uma pessoa e percebe que vale a pena sacrificar alguma coisa por ela? Não? Então acho que você devia sacrificar alguma coisa para ajudar alguém, pois não existe sensação melhor do que ver a felicidade dos outros pelo bem que você fez a ela.

{...}

Se passou um ano e nossa banda deslanchou. Bem, não muito como você pode estar pensando, mas fizemos um certo sucesso em festas de escolas, casamentos, festas de aniversários e etc. Meu pai Harry, conheceu uma mulher (Que por sinal é bem bonita) e está namorando com ela há dois anos. Minha mãe Judite ainda está solteira, está trabalhando na empresa do meu pai como secretária. Meu irmão Raphael está indo para escola, eu mesmo o levo. Jake está namorando com uma garota chamada Lania. Ela é muito simpática, mas um pouco ciumenta. Michael ainda está solteiro, está à procura de alguém para namorar, mas ele sempre me diz que é difícil arranjar alguém que goste dele. Se você quiser se candidatar, ok? Lucio está “ficando” com duas garotas ao mesmo tempo, e sempre me faz prometer que não vou contar nada para nenhuma delas. Minha vontade é de contar tudo, mas prefiro não me intrometer. Ele tem sido bem legal comigo ultimamente, talvez por medo ou sei lá. Meu avô e minha avó continuam firme e forte, sempre bem unidos. Dakota conseguiu um emprego e está fazendo de tudo para que Sophia tenha uma vida que merece, ela está sendo muito dedicada a fazer isso.

Você deve estar se perguntando com quem eu fiquei, não é? Bom, até o momento não estou namorando ninguém. Nem Kari, nem Sophia. Tudo está bem comigo. Estou me sentindo bem e não estou muito ansioso para arranjar uma namorada. Bem, na verdade estou sim. Todo mundo sabe que é bom ter alguém ao nosso lado para nos abraçar, nos beijar, nos fazer carinho na cabeça, ir no cinema, no teatro e ler um livro juntos, mas é sempre difícil escolher a pessoa certa (Michael sempre me diz isso). Se vou escolher a doçura, a simplicidade e a inocência de Sophia, ou se vou escolher a responsabilidade, a simpatia e o carinho de Kari ou se vou escolher alguma outra garota, disso eu não sei. Só o futuro dirá. Mas de uma coisa eu sei! De uma coisa tenho certeza. Foi perfeito ter conhecido tanto Kari, quanto Sophia. É sempre bom ter alguém para contar nos momentos difíceis como Kari fez comigo e é sempre bom ter alguém para nos alegrar e nos fazer sorrir como sempre Sophia faz comigo.

Sophia está feliz, como sempre. Os desenhos dela estão sendo leiloados na internet e tem muita gente comprando para ajudar nas despesas de seu tratamento. Ela amadureceu um pouco, acho que foi por causa do tratamento que ela está fazendo. Sempre digo a ela que foi ótimo em conhece-la. Digo que foi ótimo ter conhecido o mundo dos autistas. Foi muito bom ter conhecido o jeito de Sophia, foi bom ter conhecido o seu olhar distante, mas presente – se é que você me entende – a sua forma de rodar as coisas que estão em suas mãos, a forma de desenhar momentos marcantes, a forma de sorrir e mexer com as mãos. Foi muito bom ter tido o meu primeiro beijo com ela e foi ótimo ter conhecido o curioso mundo de Sophia.

Tenho toda a certeza que minha vida ficou mais feliz quando vim para essa cidade, minha vida ficou mais feliz quando conheci todos os meus amigos. Minha vida deu uma volta de 180 graus. Mudou de direção, mudou de rumo. Eu mudei de vida.

Notas finais
Bom, acho que esse é o fim. Desculpe se decepcionei vocês com o final, mas achei que esse era o melhor. Irei começar a escrever outra fanfic/história e posto para vocês. Obrigado a todos vocês por terem lido essa história, espero que vocês tenham gostado. Torçam por mim, pois pretendo lançar um livro daqui um tempo. Abraços e beijos para todos vocês!! Até mais! Me adicionem no facebook: Facebook.com/MiguelRC22, me sigam no twitter: Twitter.com/migu1s e me sigam no instagram: instagram.com/migu1s. Fui.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!