No meio daquela dança, me peguei pensando em como um menino sem amigos, tímido e com os pais desaparecidos havia mudado tanto em um ano. Já estávamos entrando em dezembro e eu podia considerar aquele ano o melhor da minha vida. Não só porque eu conheci meus pais, mas porque pela primeira vez em toda a minha vida eu consegui criar um laço de amizades com várias pessoas. Eu havia deixado a timidez de lado e fiz coisas que eu nunca havia considerado fazer antigamente. Eu nunca tivera amigos e de repente eu conseguia ter vários. Era impressionante demais para mim. Como eu podia ter mudado tanto em apenas um ano? Pensei também que se eu estivesse cara-a-cara com o antigo eu de um ano atrás, talvez não o reconheceria. Talvez eu me recusaria a acreditar que aquele era eu.

Ouvi a música acabar e meus pensamentos voltarem ao normal, voltarem ao presente. Sophia estava sorrindo. Um sorriso definitivamente lindo. Mesmo com os seus dentes meio tortos, eu achava aquele sorriso lindo. Beijei as costas da mão direita da autista e sorri para ela.

– Obrigado pela dança, linda donzela. – Falei –

Vi Dakota sorrir. Olhei atentamente para ela e percebi o quanto ela se parecia com Sophia. O sorriso, os cabelos, o formato do rosto. Me perguntei qual característica Sophia havia puxado do pai. Talvez os olhos, pensei.

Sentei no sofá, peguei meu celular e olhei as horas. Eu tinha que voltar para casa.

– Tenho que ir. – Falei – Tenho que descansar um pouco, hoje o dia foi meio puxado.

– N-a-não. – Disse Sophia gaguejando – Charlie não pode, não pode ir agora. Eu quero dançar, dançar mais um pouco com ele.

Ela apontou o dedo para mim.

– Sophia, ele tem que ir. – Disse Dakota – Não pode ficar mais tempo.

Sophia acabou concordando com a minha partida. Eu tinha que ir. Eu estava esgotado. Minha garganta doía de tanto que eu havia cantado naquela tarde. Quando entrei em casa, todos já estavam jantando. Meu pai não estava lá e eu não sentia nem um pouco de fome. Cumprimentei a todos, bebi um copo cheio de água e fui para meu quarto. Deitei em minha cama e dormi quase que imediatamente.

{...}

Alguns dias depois

Aquele ano estava acabando e com ele também ia meu primeiro ano de aula naquela escola. Sinceramente? Eu não estava tão satisfeito com meu desempenho. Jake e eu tentávamos prestar o máximo de atenção naqueles últimos dias de aula para as provas finais. Queríamos tirar excelentes notas para que não precisássemos de fazer a recuperação. O difícil seria estudar depois da aula, pois tínhamos ensaios com a banda. Então teríamos que conseguir arranjar um tempo para a banda, pois sem sombra de dúvida a escola era mais importante naquele momento. Quando contei para Lucio minhas prioridades naquele momento, ele teve que discutir, pois não gostou nenhum um pouco de eu estar priorizando as matérias da escola ao invés da banda. Felizmente ele foi obrigado a concordar, pois a prioridade de Jake também era passar com boas notas na escola.

Conversamos com o diretor sobre nos apresentar na festa de despedida daquele ano. Ele concordou em nos pagar uma pequena quantia, pois a escola não tinha muito dinheiro guardado. É claro que aceitamos.

{...}

Depois das provas, tínhamos que esperar mais dois dias para sabermos as notas e sabermos se havíamos sido aprovados, reprovados ou se havíamos pegado recuperação. Aquele frio na barriga havia voltado e eu sentia uma mistura de medo com esperança. Sinceramente? Eu tinha quase certeza que tinha acertado a maioria das perguntas. Mas sempre há aquela desconfiança, aquele medo de ter se confundido e ter marcado a resposta errada.

Quando os dois dias se passaram, minha mãe percebeu meu nervosismo. Ela mandou eu levar a bomba de ar, caso eu passasse mal por causa do nervosismo. Com toda a certeza eu iria sentir uma pitada de falta de ar. Fazia tempo que eu não sentia isso. Mas era melhor prevenir. Eu estava tão nervoso que tinha vontade de ir ao banheiro de minuto em minuto. Quando cheguei na escola, percebi que todos estavam com o mesmo nervosismo que eu. Vi que algumas garotas choravam de ansiedade e medo. De vez em quando, alguns garotos gritavam “A lista de quem foi aprovado chegou” e todos se desesperavam corriam até eles para ver. Parecia uma corrida para ver quem pegava primeiro o prêmio de um milhão de dólares. Rolava tudo ali, empurrões, tapas, socos e muitos (muitos mesmo) palavrões. Mas quando chegavam lá percebiam que não era nada mais que um trote besta de fim de ano. Quando o diretor trouxe o resultado, um aglomerado de pessoas se reuniu em sua volta. Ele tirou exatamente oito folhas impressas de um envelope amarelo e as pregou na parede. Todos os alunos se juntaram para ver quem havia sido aprovado e quem havia sido reprovado. Mais ou menos 100 alunos estavam tentando ver a sua situação. Pode-se imaginar o tamanho da bagunça que estava ocorrendo ao redor daquelas pequenas folhas pregadas na parede. Esperei a bagunça diminuir para eu ver qual era a minha situação.

Quando eu estava indo em direção a parede com os papeis pregados, vi Jake correndo em minha direção. Ele estava todo sorridente e parecia aliviado.

– Eae? Você está aprovado? – Perguntei –

– Sim. – Respondeu – Graças a Deus!

– Viu minha nota final?

– Sim, vi sim. – Disse ele, fazendo um semblante de frustação –

– E...? – Perguntei nervoso –

Jake abaixou a cabeça.

– Cara, sinto muito. É melhor você mesmo dar uma olhada.

Corri para ver minha nota final. Jake corria atrás de mim. Olhei na primeira folha e nada, meu nome não estava lá. Segunda, terceira, quarta e finalmente a quinta. Meu nome era o antepenúltimo da lista. Olhei minha situação. Não consegui conter a alegria. Estava escrito Aprovado. Foi então que eu comece a dar gargalhadas. Gritei para todos ouvirem: EU ESTOU APROVADO. Muitos dos alunos que estavam em minha volta me deram tapinhas nas costas me dando os parabéns, outros apenas me olhavam pelo canto do olho como se estivessem pensando: “E precisa gritar para o mundo inteiro ouvir, garoto idiota?”. Acontece que eu estava feliz demais para apenas sorrir e ficar feliz como se fosse uma pequena conquista. Pode até ser uma pequena conquista, mas depois de tudo o que eu havia sofrido naquele ano, aquilo era algo espetacular para mim. E eu que pensava que iria ficar de recuperação.

Jake estava olhando para mim sorrindo. Olhei para ele e dei um soco em seu braço (Não muito forte, é claro).

– Você me deu um susto com aquele papo de “sinto muito”. – Falei –

Jake riu.

– Foi só para dar um emoção a mais.

– É, seu plano funcionou. – Disse – Cara, tirei um peso das costas. A dúvida se eu passaria ou não estava me atormentando já um bom tempo.

– Eu também tirei um peso das minhas costas hoje. Mas tem outro que está me atormentando.

– Tem? – Fiquei surpreso – Qual é?

Sentamos em um banco que ficava no pátio da escola.

– Dakota e Sophia.

Lembrei-me do dia em que eu havia dançado com Sophia naquele exato momento. Eu sabia que elas precisavam de ajuda, mas Dakota era orgulhosa demais para aceitar. Tínhamos que adiantar nosso plano para ajudá-las o mais rápido possível.

– É bom você ter tocado nesse assunto. – Falei – Agora que terminamos nossas preocupações escolares, temos que nos dedicar a nossa apresentação.

– Verdade! E o pior que a apresentação é daqui a três dias.

Concordei com a cabeça. Foi quando vi de longe Sophia vir correndo em nossa direção. Percebi de cara que ela iria me abraçar, então me levantei para receber o impacto de seu corpo magro. Mais uma vez, ela me abraçou fortemente.

– Oi Sophia. – Disse Jake –

Ela pareceu não perceber sua presença, pois não o olhou.

– Cumprimenta o Jake também, Sophia. – Falei –

Foi então que ela o olhou.

– Oi Jake. Oi. – Disse ela – Jake á amigo do Charlie?

Ele riu.

– É, eu sou sim. E também posso ser seu amigo, claro, se você quiser.

Jake se levantou e foi até um canteiro onde havia algumas flores que havia na escola. Pegou uma e deu para Sophia. A garota a pegou e instantaneamente a cheirou. Peguei a flor de sua mão e coloquei atrás de sua orelha.

– Tem um espelho aí, Jake? – Perguntei –

– Acho que sim.

Meu amigo vasculhou sua mochila até achar um pequeno espelho redondo. Jake me entregou e eu o posicionei em frente a Sophia.

– Fica mais bonito assim, não fica Jake? – Perguntei –

– É, realmente fica.

– Jake é legal. – Disse ela – Charlie, o Jake pode... Pode ser meu amigo?

Fiz que sim com a cabeça, então Sophia olhou para Jake e o abraçou. Não tão forte como me abraçava, mas o abraçou levemente. Depois olhou para o desenho em sua camisa e ficou passando o desenho por ele e começou a cantar a nossa música, “Posso ser feliz”. Era nessas horas que eu percebia que devia lutar para que Sophia ficasse bem. Bem em todos os sentidos.

Notas finais
Decidi fazer um capítulo maior, o que vocês acharam? O que vocês querem que aconteça no final da história? Bom, acho que é isso. Obrigado a você que está acompanhando a história desde o começo. Obrigado a você que leu este capítulo. Abraços!!