Charlie e o Curioso Mundo de Sophia
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Olhos esverdeados como uma esmeralda, cabelos negros e cacheados. A garota estava montada em sua bicicleta cor de rosa. Vestia uma camiseta com uma estampa da bandeira do Reino Unido e um short jeans. Seu cabelo encaracolado balançava com o vento, o que a tornava ainda mais encantadora.
Me levantei enxugando as lagrimas do meu rosto. Coloquei minhas mãos sobre os bolsos de minha calça e abaixei a cabeça. Sempre fazia isso quando estava envergonhado. Não gostava que as pessoas me vissem chorando.
– Ei? Está tudo bem? – A garota me perguntou novamente –
– Sim. Está tudo bem. – Respondi olhando para baixo. –
– Hum. Não parece muito. – Disse ela vindo em minha direção e se posicionando em minha frente. Ela estendeu a mão, levantou minha cabeça e enxugou uma lagrima que sobrara em meu rosto. –
– Estou bem sim. Não precisa se preocupar. – Menti. Eu tentava encarar a garota enquanto segurava as lagrimas dentro de mim. Sabia que não estava enganando ninguém.
A garota sorriu. Um sorriso de solidariedade. Era como se ela quisesse me dizer que eu não precisava mentir.
– Sério?
Foi quando eu desabei. A garota era a única naquele lugar e ela estava em minha frente. Não havia mais ninguém ali. Eu precisava daquilo, então eu não hesitei. Meus olhos novamente começaram a encher de lagrimas. Eu a abracei com toda força. Como se não houvesse outra pessoa no mundo se não a ela. Fiquei ali a abraçando. A garota viu meu sofrimento e também me abraçou. Ela me apertou forte.
– Vai ficar tudo bem. – Disse ela –
– Não, não vai ficar bem. Nunca vai ficar bem. – Falei chorando no ombro dela. Foi naquele momento em que eu despejei tudo o que eu escondia em toda a minha vida. Toda a minha raiva pelo abandono, toda a minha tristeza pela solidão, toda a minha mágoa por não ser amado pelos meus pais, tudo eu despejei em lagrimas no ombro daquela garota que eu nunca havia visto na vida.
Aos poucos fui deixando de abraçá-la. Soltei-a e me desculpei.
– O que eu estou fazendo? Eu nem te conheço e já te fiz passar por esse mico. – Falei envergonhado e enxugando as lagrimas. – Desculpa por fazer você passar por isso.
– Não precisa se desculpar. – Respondeu ela –
– Claro que preciso. Olha só, eu te molhei toda. Me desculpa mesmo. Eu não queria fazer isso com você, foi... – Fui interrompido –
– Já disse que não precisa se desculpar. – Ela sorriu – Sou Kari. Qual o seu nome?
– Charlie Johnson. Prazer! – Estendi a mão em direção a ela. Kari estendeu a dela e me cumprimentou.
–Você deve estar passando por um momento difícil não é? – Kari me perguntou sentando no gramado. –
– E bota difícil nisso. – Respondi. –
A única coisa que eu poderia fazer para agradecê-la por ter sido tão gentil comigo, era contar o que havia acontecido. Sentei-me ao lado dela e contei tudo o que minha avó havia me contado. Contei também sobre os planos que eu tinha para descobrir o que havia acontecido com meus pais. Kari ouvia atentamente a tudo o que eu dizia. Não me repreendia em nada, apenas concordava com a cabeça.
–... Aí você me encontrou chorando aqui. – Finalizei. –
– Nossa. Que vida! – Disse ela –
– É... Infelizmente minha vida é assim.
– E você ainda pretende “investigar” – Ela sorriu pelos cantos da boca. – sobre os seus pais?
– Acho que não. Para que eu irei fazer isso? Já sei de tudo. – Afirmei –
– Posso te dar um conselho? – Kari se levantou e montou em sua bicicleta. – Não desiste de querer saber toda a verdade sobre os seus pais não. Quem garante que o que a sua avó diz é a verdade?
Eu me levantei pensativo.
– Bom, tenho que ir. Depois a gente se fala. – Kari começou a pedalar em sua bicicleta e foi embora. Eu acenei dando um tchau. E ela se foi, me deixando ali sozinho novamente. Eu olhei para o céu e vi novamente a lua cheia. Foi naquele momento que percebi que Deus não enviou apenas a beleza da Lua para me acalmar, ele também havia me enviado Kari. Por mais que todos discordassem, eu ainda teria certeza que fora Deus que trouxe aquela garota para me ajudar a desabafar, a soltar tudo o que estava preso em mim.
– Obrigado. – Sussurrei e sorri. Acho que um sorriso era o mínimo que eu poderia oferecer a Deus depois do que ele havia me feito naquele momento. Comecei a dar passos em direção a minha casa, mas parei e decidi visitar Sophia. Fazia dois dias que eu não a via, e por mais que eu não tivesse intimidade o bastante para fazê-la sorrir eu queria visita-la. Do pouco que eu a conhecia ela já se tornara especial em minha vida.
Bati na porta da casa de Dakota e esperei-a abrir.
– Charlie! Que surpresa! – Disse Dakota sorridente – Não sabia que você havia saído do hospital.
– Oi, Dakota. Eu saí hoje.
– Entre, por favor. Só não repara bagunça.
Sorri e entrei em sua casa. Dakota foi a sua cozinha e trouxe um copo de suco com alguns biscoitos de chocolate para mim.
– E a Sophia? – Perguntei enquanto comia alguns biscoitos. –
Dakota sorriu.
– Ela está lá em cima.
– Posso vê-la? – Perguntei ansioso. Eu não sabia qual era o motivo dessa ansiedade em ver Sophia. Eu apenas queria vê-la o mais rápido possível.
– Sim! Mas antes de você ir lá, eu queria dizer uma coisa para você.
– Claro! Pode dizer. – Falei depois que tomei um gole de suco. –
– Eu ainda não tive um tempo para fazer isso, mas aproveitando que você está aqui, eu... Eu queria agradecê-lo pelo o que você fez por minha filha. Eu nem sei se ela estaria viva se não fosse você. Mesmo com todas as dificuldades que passo ao com ela, eu a amo muito e não sei o que seria de mim sem ela. Por isso, obrigada. Eu já te considero da família.
Eu não pude me conter. Corri até Dakota e a abracei.
– Obrigado! Você não sabe como é bom ouvir isso. – Falei –
– Agora vai lá! A Sophia precisa de uma companhia como a sua.
Subi correndo as escadas e fui para o quarto de Sophia. Abri a porta do quarto devagar e a vi. Ela estava deitada em sua cama. Provavelmente estava dormindo. Entrei calmamente para não acorda-la. Fui até a cama dela e sentei em uma beirada onde não estava ocupado. As bochechas rosadas se destacavam no belo rosto da garota autista. Eu a acariciei e a vi abrindo os olhos. Ela se assustou e se distanciou de mim.
– Oi Sophia! – Falei sorrindo –
Fale com o autor