Charlie e eu

2 Capítulo 2 - Um gato muito inteligente


Alexa com certeza gostava do jeitinho aconchegante que aquele prédio possuía, mesmo que não fosse um dos melhores. Os tijolos alaranjados, a porta e janelas em uma madeira branca que quase sempre o dono mandava dar uma boa demão de tinta, arbustos bem cuidados pelo morador do 57, algumas janelas tinham pequenas plantinhas e flores. Mas com a chuva recente, tudo parecia mais escuro e triste.

Abriu a porta do hall de entrada, vendo Carl limpando o balcão com uma pequena flanela azul. Ele sorriu quando a viu.

— Boa noite, Alexa. A chuva pegou a senhorita em cheio, hein?

— Boa noite, Carl! Nem me fale. Alguma coisa para mim?

O velho homem se virou, olhando cuidadosamente o painel de caixas postais, mas não havia nada para ela, então ele negou com a cabeça quase que completa com fios brancos. E então ele notou o gato nos braços da morena.

— Não sabia que a senhorita tinha um gatinho. — O sorriso casto dele, deixava claro que gostava de animais.

— Não, ele não é meu. Encontrei ele na rua ainda a pouco, vou procurar um abrigo para ele amanhã.

Carl parou de sorrir, como se sentisse uma tristeza súbita. — Uma pena que não vá ficar com ele. Um animalzinho é sempre uma boa companhia.

Alexa por um momento ficou estática no hall, ela não podia ficar com o gato. Não tinha nem um emprego mais. Sua sorte era que sempre pagava um mês de aluguel adiantado.

Se despediu brevemente de Carl e seguiu em direção às escadas, demoraria para que o elevador fosse consertado novamente. E era em momentos como esse em que ela se arrependia amargamente de ter alugado um apartamento no quinto andar. O gato em seus braços estava tão quieto, apenas seu nariz tremia levemente, indicando que era um animal curioso.

A morena abriu a porta de carvalho escuro com o número 27 dourado bem acima do olho mágico, jogou as chaves na mesinha de canto que ficava ao lado da porta, assim como sua bolsa e, em um suspiro cansado, olhou para o gato em seus braços.

— Você e eu precisamos de um bom banho. Você não vai poder subir e muito menos andar em qualquer parte deste apartamento estando sujo assim.

Seguiu para o banheiro, agradecendo por não estar tão encharcada quanto antes. Os azulejos azuis e brancos contrastavam com as paredes em um tom bem clarinho de amarelo, quase pastel — assim como o restante do apartamento. A única vontade que ela tinha era de se jogar na banheira com uma água quentinha e repensar toda a sua vida, mas o gato ainda precisava de um banho. Choramingou quando percebeu que não tinha nenhum produto animal na casa, claro que não teria. Sua única escolha era usar seu shampoo de morango com chocolate.


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Se surpreendeu quando depois de várias esfregadas com bastante shampoo, a coloração laranja surgiu no gato. Pegou uma de suas toalhas brancas e secou o animal, que mesmo com os pelos ainda úmidos, pareciam bem cheios. Alexa sorriu, um gatinho laranja e branco bem peludo, será que ele havia fugido? Mas ele não possuía coleira de identificação. E se ele tivesse perdido? Se isso realmente tivesse acontecido, ela não poderia levar o gato para um abrigo, teria que colocar cartazes de “animal encontrado” pela cidade com o seu número.

Aproveitando que a porta do banheiro estava fechada, a morena tirou as roupas as colocando no cesto de roupas sujas, tomaria um bom banho quente. Seu corpo precisava de um descanso.


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Se trocou rapidamente. Ela vestia seu “pijama de conforto”: uma blusa de algodão vermelha com estampa do nome LOVE e vários corações em volta e um shortinho preto, tão leve e confortável. Era como um abraço quentinho depois de um dia ruim. Era justamente o que Alexa precisava no momento.

Se sentou no grande sofá estofado de cor marrom. Pegou uma das almofadas beges e a abraçou. O gato estava deitado confortavelmente na poltrona amarelada, enquanto a chuva caía do lado de fora, como se nada no mundo importasse mais — deveria mesmo ficar com o gato sem nome até que o dono aparecesse? Se ficasse com ele, seria um gasto a mais — e ela não poderia gastar tanto.

O pequeno miado fez com que sua mente parasse de vagar e voltasse para a realidade.

— Você está com fome, amiguinho? — Teve outro miado como resposta. — Eu não esperava que teria uma visita felina hoje, então não tenho nenhuma ração para você.

Largou a almofada no sofá e se levantou, indo para a cozinha, que era separada da sala apenas por uma ilha de mármore preto. Abriu a geladeira e pegou uma caixinha de leite, estava quase pela metade, ótimo!

— Você gosta de leite? Acho que é a única coisa que eu tenho em casa e que você pode comer.

“Miau” foi sua única resposta.

Deixou uma pequena risada suspirada escapar por seus lábios, antes de colocar o leite em uma pequena tigelinha de vidro que usava para tomar sorvete. Parecia que o gatinho a entendia e respondia.

— Se você vai ficar aqui comigo, vai precisar de um nome. Não posso te chamar de “amiguinho” para sempre.

O animal começou a beber o leite assim que a cacheada colocou a tigela no chão. Alexa observava o gato enquanto pensava, ele era laranja e branco, não conseguia pensar em nenhum nome que combinasse com o gato.

— Que tal, Fluffy? — Ele parou de beber o leite para lhe encarar, era como se perguntasse: “Sério isso?” — É… não? Ok. Scooby? — O gato apenas voltou a beber o leite, ignorando-a completamente. — Nome de cachorro… entendi.

Andou calmamente até o sofá, não tinha ideia de como chamar aquele gatinho. A única coisa que conseguia pensar era no pelo alaranjado do bichano, não conhecia nenhum personagem ruivo com um nome que parecesse com ele. Era calmo e curioso, que nome colocaria nele?

Ligou a TV para tentar ter novas ideias, mas nada parecia bom o suficiente. Trocou de canal, estava passando o filme “Snoopy & Charlie Brown: Peanuts, o Filme”, quando um dos personagens chamou o garotinho de Charlie Brown. Foi exatamente quando o gatinho miou. Se virou para o gato que vinha da cozinha, o que ele queria?

— Charlie Brown, você vai tentar de novo? — A voz abafada de uma garotinha na TV fez o gato miar novamente.

— Charlie Brown?

Outro “miau” foi ouvido.

— Esse é o seu nome? Charlie Brown? — Sem respostas, o olhou confusa, ela havia errado? Tentou outra vez: — Charlie…?

E lá estava o “miau”. Se enroscou nas pernas da morena em busca de um carinho. Alexa sorriu, o gato realmente a entendia. E havia escolhido o próprio nome!

— Bem-vindo à casa, Charlie! — Acariciou as orelhas felpudas do gato.