Charlie e eu
3 Capítulo 3 - Novas oportunidades
Estava orgulhosa de si mesma. Não havia assaltado a geladeira durante a noite para se entupir com sorvete de baunilha — aquilo era um grande avanço emocional. Claro que ela estava abalada com a traição de Michael, poxa… foram três anos, três longos anos juntos que para ele não significaram nada. Mas o que ela poderia fazer? O chifre em sua cabeça já estava lá, e não sairia nem se ele voltasse de joelhos lhe pedindo perdão. Então apenas resolveu aceitar que ele era um belo de um filha da puta, que a mãe dele a perdoasse, ela não merecia o filho que tinha.
Lamentava mais por seu emprego, como iria conseguir continuar no apartamento nos próximos meses? E pior, cuidando de um gato! Seu celular tocou em algum canto da sala, queria ignorá-lo e continuar deitada na cama, ignorando a existência de todos do lado de fora da bolha que era seu apartamento em tons amarelos.
Um pequeno peso em cima de sua barriga fez com que abrisse os olhos novamente. A visão de Charlie deitado em cima de si era extremamente fofa, o rabo felpudo balançando de um lado para outro era como um convite a se levantar e colocar comida para ele.
— Bom dia, Charlie — o miado foi o seu “Bom dia, Alexa”. — Está com fome?
O rabo dele parou e ele levantou, indo para a ponta da cama, como se dissesse “Sim, vamos comer?”. Alexa riu, a que ponto ela chegou? Estava conversando com um gato e realmente entendendo o que ele queria dizer com seus gestos e miados. Levantou da cama de forma preguiçosa. Um arrepio percorreu seu corpo ao ter seus pés em contato com o piso gelado de madeira polida. Seu celular tocou novamente, dessa vez foi até ele com Charlie dando volta em suas pernas.
Era Sophia. Atendeu antes que a chamada se encerrasse novamente.
— Bom dia, flor do dia! — A voz abafada pelo celular não apagava em nada a animação de Sophia.
— Bom dia, Sophie.
— Demorou para atender. Não estou te atrapalhando na revista, estou?
— Eu não estou no trabalho…
Por um momento a linha ficou muda. Logo a voz de Sophia voltou de forma preocupada: — Você está doente? Pegou a chuva de ontem? Você não costuma levar um guarda-sol com você.
Alex deixou um curto riso escapar de seus lábios, Sophia era como uma mãe para ela, mesmo que ela fosse apenas um ano mais velha.
— Não, eu não estou doente… Fui demitida.
— Como assim, demitida? Por que?!
— Pequenas mudanças feitas pelo CEO.
— Que canalha! Tomara que essa revista vá a falência e ele perca todo o maldito dinheiro dele.
Alexa não conteve a risada. Seguiu até a cozinha — separada apenas por uma ilha de mármore — a geladeira cinza foi aberta e a morena fez uma rápida vistoria, teria que fazer compras. Suspirou. Suas economias não durariam muito, teria que achar um emprego o quanto antes.
— O Michael já sabe? — A voz de Sophia voltou a se fazer presente do outro lado do celular.
— Não… e nem vai saber.
— Ok…? Acho que eu preciso de atualizações dessas últimas vinte e quatro horas da sua vida, Alexa. O que foi que aconteceu?
— Terminamos. Ele meio que estava colocando um belo par de chifres na minha cabeça nesses últimos dois anos — pegou a caixa de leite e três ovos, iria fazer uma panqueca e cozinhar um ovo para Charlie. — Quem me contou foi a própria amante.
— Que filha da puta! Eu sabia que o frio na minha espinha quando conheci ele não era atoa. Minha espinha nunca erra!
— Eu sei. Me desculpa por desconfiar dela.
— E como é que você está com tudo isso? — A preocupação era evidente.
Alexa suspirou enquanto enchia uma panela pequena com água e colocou no fogo.
— Eu acho que estou bem. Só estou preocupada com o meu aluguel… Charlie, não!
Correu para a ilha onde o gato estava, a patinha alaranjada a poucos centímetros de derrubar a caneca de vidro favorita da morena. Por sorte, ele havia parado de empurrar.
— Charlie? Quem está aí, Alexa?
— O Charlie é um gato — a linha ficou muda. — Literalmente, Sophie.
— Você adotou um gato?!
— É temporário. Eu não tenho como cuidar dele sem um emprego, além de que ele pode ter um dono.
— Você não existe mesmo, Alexa. — A risada de Sophia foi ouvida, em alto e bom tom. — Mas se o problema for um emprego, vem trabalhar comigo e com o John aqui no café! A minha última funcionária se demitiu no começo da semana passada, e eu realmente gostaria que você trabalhasse comigo.
— Sério mesmo? Eu não quero que você se sinta obrigada só por causa da nossa amizade, Sophie.
— Fala sério, Alexa. Eu nunca ofereceria esse emprego se não confiassem em você. Não é só porque você é minha melhor amiga.
— Você tem certeza mesmo?
— Você quer que eu mude de ideia, é isso?
— Não! Não. Obrigada, Sophie.
— Não precisa me agradecer, esteja aqui hoje a tarde. Vou dar a grande notícia ao John. Tchauzinho.
Sem esperar uma resposta de sua parte, Sophia desligou.
A morena afastou o celular do ouvido, a tela preta a fazendo pensar por alguns instantes. Os olhos castanhos subiram em direção a Charlie, ele a encarava de forma curiosa.
— Parece que eu não estou mais desempregada, Charlie.
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Mudar de cidade não estava exatamente em seus planos, mas a proposta de trabalhar em Greenlake era boa demais para ser recusada. A única pessoa que não parecia contente com essa mudança era Monique, sua namorada. As várias caixas prontas para serem colocadas no caminhão de mudanças, apenas deixava ainda mais claro de que tudo aquilo era real. Estava mesmo se mudando para uma nova cidade.
— Querida, você sabe que é pelo meu trabalho — a voz de Leon soou calma.
A loira deixou as caixas vazias em cima da mesinha de centro do apartamento. Os olhos castanhos o encaravam de forma zangada — aquela não era a primeira, e com certeza não seria a última vez que iriam ter aquela conversa.
— Você podia muito bem ter negado essa proposta, Leon. O seu trabalho sempre vem antes do nosso namoro!
— Isso não é verdade.
— É claro que é! — rebateu, cruzando os braços. — Você está se mudando para outra cidade só por causa da faculdade.
— Monique, é o meu trabalho — repetiu, em um suspiro cansado. — Eu não posso simplesmente dizer “não, obrigado” e ficar por isso mesmo.
— Claro. Você nunca pode negar algo do trabalho! — Monique explodiu. Os braços gesticulando nervosamente. — Eu devia saber que dessa vez não ia ser diferente.
— Amor…
— Não, Leon. — A loira cruzou novamente os braços, como se o próprio abraço pudesse protegê-la de qualquer mal. — Você vai mesmo me deixar sozinha aqui? Você prefere ir para essa cidadezinha dar aula em uma faculdade, do que ficar aqui, comigo?
— Monique, você sabe que é o meu sonho. Um emprego estável, com mais autonomia e menos sobrecarga. Eu não estou pensando somente em mim.
— E quanto a mim? Eu não sou parte de sonho nenhum para você?
Os olhos esverdeados de Leon a encararam com carinho, era quase como se estivesse discutindo com uma criança. Se aproximou ainda mais dela, segurando em seus ombros finos.
— É claro que é. Mas eu nunca te pediria para abrir mão de nada. Eu só quero que você confie em mim.
Os olhos castanhos brilharam, mas logo seu rosto desviou para o lado oposto, em um gesto quase infantil. Leon riu.
— Não gosto de ficar longe de você — comentou, tão baixo que se Leon não estivesse em sua frente, não teria escutado.
— Acredite, eu também não gosto.
Monique mordeu o lábio inferior, antes de olhar para o moreno. Os cabelos ondulados dele presos em um pequeno rabo de cavalo, contrastavam tão bem com os olhos esverdeados. Não demorou para os lábios rosados da loira formarem um biquinho.
— Você jura que vai me ligar todos os dias?
— Todos os dias.
— Vai vir me visitar todos os fins de semana?
— Sempre que puder.
— Promete que não vai se apaixonar por nenhuma veterinária com sotaque caipira?
Leon sorriu, a puxando para um abraço caloroso.
— Nenhuma delas tem seu biquinho irresistível.
Ela deu uma curta risada, sentindo o calor dos braços do mais alto.
— Idiota.
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