Por mais anos que viva nunca me esquecerei. Aquele olhar frio e malévolo. Aquele riso grotesco e cruel.

Chamam-me criatura das trevas, mas foi aquele homem que nem pestanejou ao tirar a vida daquela criança!

Ainda hoje a choro. Remoo-me em remorsos por não a conseguir salvar. Os seus gritos atormentam o meu sono. Aquela bela rapariga de cabelos ruivos... Nunca a esquecerei.

O seu nome era Charlie. Tinha um sorriso subtil e dócil. Mas aquilo que mais amava nela era a sua paixão pela vida.

Conheci-a numa noite em que fugia de caçadores de vampiros. Lembro-me de, durante a minha semiconsciência, ela cuidar das minhas feridas. Também me lembro do receio que tinha em me tocar. Isso fez-me perceber que a jovem reconhecia a minha natureza.

Os seus receios não a impediram de cuidar de mim. Toda essa generosidade fez crescer em mim uma paixão que não sentia há séculos. Perdia-me em pensamentos e sonhos sobre qual seria o sabor daqueles lábios rosados encantadores.

Mais tarde pude prová-los. Assim que recuperei as minhas forças beijei-a. Sob a desculpa de um máximo agradecimento pude ter aquela boca doce encostada à minha.

Eu sabia que ela também me desejava. Podia ver o desejo no seu olhar, de modo inocente. Provavelmente nunca o sentira por mais ninguém.

Ela nunca me fez perguntas. Nunca questionou sobre quem me seguia, quem me tinha deixado no estado deplorável com que me havia encontrado. Mas conversávamos bastante, sobre poesia, sobre a beleza da noite, sobre a pureza das flores. Ah! Sobre tantas coisas! No fundo, falávamos sobre a beleza da vida.

Lembro-me da primeira vez em que nos deitámos juntos. O seu nervosismo consumia-a, mas a sua paixão fez com que não hesitasse um segundo que fosse.

Ainda hoje me pergunto como podia aquela simples criada da herdade onde me refugiara ter a graciosidade e beleza da mais encantada princesa.

Depois aquele dia fatídico chegou. Aqueles homens repulsivos encontraram-me.

Foi tudo tão rápido, até para mim era difícil definir os seus movimentos. As dores causadas pelos seus ataques no meu corpo deixavam-me num estado terrível de torpor. Não conseguia fixar a minha vista.

Depois ouvi o seu grito na porta. O terror estava estampado no seu rosto inocente. Eu implorei-lhe para que fugisse, mas era tarde demais.

Um dos homens agarrou-a pela sua cintura fina e, com uma facilidade aterradora, rasgou o seu vestido, expondo os seis seios frágeis e bem definidos. Ela guerreava-se para que a soltasse, mas todos os seus esforços eram em vão.

As lágrimas escorriam pelo meu rosto temendo aquilo que lhe fariam. Queria pará-los! Queria salvar a minha bela Charlie, mas cada vez que tentava levantar-me, um golpe era desferido nas minhas costelas, obrigando-me a rastejar pelo chão de terra batida.

Aquele homem enorme amarrou-a a uma das colunas do celeiro. As cordas grossas faziam a sua pele pálida sangrar.

- Pára, por favor! – Implorei-lhe. – O teu alvo sou eu!

Já com as calças desapertadas, o chefe caminhou até mim. Assim que me encarou cuspiu-me para a cara.

- Não me interrompas vampiro nojento!

Voltou ao seu trabalho com Charlie. Agarrou o seu queixo e forçou um beijo. A valente, porém tola rapariga mordeu o seu lábio até o rasgar. O homem limpou a boca e depois encarou a expressão de ódio na sua cara infantil.

- Temos uma guerreira! – Troçou.

Os homens riram-se, acompanhando o seu líder.

O que se seguiu foi um verdadeiro espectáculo de horrores. Aqueles cinco homens profanaram o corpo da minha amada. Charlie não deixou de lutar nem por um segundo, contudo isso não lhe serviu de nada.

Quando eles acharam que estavam satisfeitos já o corpo de Charlie jazia sem vida, amarrado àquela coluna, distorcendo a sua beleza frágil e pura.

A culpa fervia nas minhas veias. Queria matá-los! Queria que a dor que Charlie sentiu não passasse de cócegas perto da dor deles! Mas o meu corpo não se mexia, adormecido no seu próprio sofrimento.

- Acredito que o nosso trabalho aqui está feito! – Troçou o líder.

Os homens seguiram atrás dele até à porta, onde ele não aguentou não se despedir de mim.

- Vemo-nos por aí Assassino de Veneza!

Arrastei-me até ao corpo de Charlie. A sua pele já arrefecia. A brancura do seu rosto fazia-a parecer um anjo.

Como os odeio! Malditos caçadores de vampiros! Um dia exterminá-los-ei!

Notas finais
reviews? *__*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!