Charles, grafite, skate e garotos
1 Prólogo
Notas iniciais
Boa leitura!
Agora somos dois estranhos, ele voltou para o pedestal, se tornou novamente intocável. Ele não vai me olhar nos olhos. Ele não vai se lembrar. Para ele tudo foi um jogo. Uma experimentação. Eu fui uma experiência. Somos opostos, e na cadeia alimentar da adolescência opostos não se atraem. Está tudo acabado. Sem ligações madrugada adentro com a promessa de um encontro, sem beijos escondidos, desejos emergenciais. Uma sensação de liberdade temporária. A declaração de sentimentos.
Os baseados. Ficar chapados juntos. Curtir a mesma ressaca. Sem hora para dormir. Sem hora para acordar. Sem regras. Sem julgamentos.
Tudo pareceu tão intenso, tão duradouro. Mas parece que foi em outra vida. Em outro tempo.
Pois, tudo que acontece no verão fica no verão.
Ninguém pode saber. Ele disse.
Tudo bem. Eu disse.
Se alguém souber eu te mato. Ele disse.
Tudo bem. Eu disse.
Eu não sou gay. Ele disse.
Tudo bem. Eu disse.
Gosto só de garotas. Ele disse.
Eu sei. Eu disse. Mas na verdade, não estava tão convencido.
Agora ele passa reto, sou apenas mais um estranho. Não transamos. Ele não me beijou. Não fumamos juntos. Não rimos. Ele não me reconhece mais. Finge não saber meu nome quando esbarra comigo “acidentalmente” no corredor.
“Desculpa cara.” Ele diz. Eu virei um cara. Mas quatro semanas atrás eu era o Alê.
Me sinto um idiota.
Eu sou um tremendo idiota.
Ele deve estar rindo agora. Zombando com seus amigos. Devo ter virado motivo de piada. Claro que ele vai dizer que trepou bastante nas férias. Claro que ele vai compartilhar da experiência com os amigos. Mas eu serei “A garota”. Provavelmente ele inventará um nome. Terei seios fartos e uma cinturinha fina. Vai se referir a mim no pronome feminino. E eu serei apenas mais uma vadia para seus amigos.
Eu sou uma vadia. E ainda por cima burro.
Tanto faz.
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