Charles, grafite, skate e garotos
10 Capítulo - IX
Notas iniciais
Cibelle me encara com seus olhos brilhantes, ela está deitada sobre meu peitoral, seu cabelo loiro está bagunçado. Acabamos de transar, ela está nua. Estamos nus.
O sexo foi bom. Sempre é. Cibelle e eu nos entendemos bem na cama.
Enquanto ela acaricia meu peitoral paro para pensar na promessa que fiz a Cecília. Ainda não tive coragem. Não consigo colocar um fim. Parece covardia. Mas a conversa que sucederia ao término morre na garganta.
Estico meu braço e apanho um cigarro no maço. O ano avança e a minha promessa de eliminar os hábitos ruins está ficando cada vez mais distante.
Não vou deixar meus pais orgulhosos, sinceramente, arrisco dizer que não vou deixar ninguém orgulhoso.
Acendo o cigarro e trago.
Cibelle rola na cama.
— Onde você vai?
Ela me olha com um sorriso enquanto veste seu jeans.
— Tati precisa de mim.
Tati sempre Tati. Penso.
— Pensei que ficaríamos juntos hoje.
Ela veste sua regata.
— Está com ciúmes?
Dou de ombros cobrindo meu corpo com o lençol. Vou até a janela.
Cibelle está atrás de mim, ela me abraça pela cintura, acaricia meu abdômen beija o meio das minhas costas, então diz:
— Ela precisa de mim. Estou pensando em um jeito dela e Bernardo voltarem. Eles se amam.
As palavras de Cibelle me atingem.
Eu me afasto.
— O que foi?
Ela indaga sem entender.
Eu fico em silêncio.
Não existe amor quando existe traição. A voz da minha mãe martela na minha cabeça. Ela sempre repetia essa frase. Era seu mantra. Ela estava certa.
Talvez eu não ame Cibelle.
Talvez eu não ame ninguém.
Nem a mim mesmo.
— Nada.
Me sento na cama apagando o cigarro.
— Você poderia falar com Bernardo.
Estou fitando o chão. Não quero encara-lá enquanto falamos de Bernardo.
— Não quero me envolver nessa babaquice. Se ela errou. Ela aguenta.
— Você bem que podia ser mais romântico. Sabe, somos um quarteto.
Não sei quando Cibelle inventou aquela merda. Mas não somos um quarteto.
Não mesmo.
— Não quero me envolver.
É minha última tentativa de me esquivar do assunto.
— Por favor.
Ela me olha com seus olhos pidões.
— Vou ver o que posso fazer.
Ela corre até a mim. Parece agradecida. Me beija nos lábios. E depois vai embora.
***
Quando chego na pista domingo a tarde Bernardo está lá. Cumprimento alguns caras. Bernardo está andando com o skate.
Me sento na ponta da pista. Meu skate está do meu lado.
Um dos caras comenta sobre uma festa. Todo mundo parece animado. Exceto eu. Tento não olhar. Mas preciso falar com Bernardo. Me sinto um idiota. Não acredito que estou prestes a fazer aquilo.
Percebo quando ele para de andar.
Está do outro lado da pista com seu skate repousado sobre os pés. Aproveito a deixa e vou até seu encontro.
Bernardo está sozinho quando me aproximo.
— Eai, cara.
Eu digo.
Bernardo me olha, mas se mantém calado.
Eu me sento ao seu lado.
Ele pergunta se tenho cigarro. Digo que não. Ele volta a ficar calado.
— O que você quer?
Bernardo finalmente indaga. Ele não parece impaciente, mas tem algo estranho em sua voz.
— Seu olho está melhor.
Digo a fim de quebrar o gelo, mas não funciona. Ele não me olha.
— Como está as coisas com a Tati?
Bernardo balança os ombros, seu semblante é pesado. Algo está errado.
— Bernardo. O que está acontecendo?
Ele me olha. Mas preferia que não tivesse olhado. Tem indiferença em seus olhos, como se minha presença o incomodasse.
Me sinto um otário. Ele me acha descartável.
— Alexander, só vaza daqui.
Eu não entendo o que ele está querendo dizer. Algo está errado. Posso sentir.
Tento procurar seu olhar, qualquer coisa que me leve a alguma direção. Qualquer coisa que me faça sentir que ele ainda sente algo.
Bernardo é apático.
Me levanto. Não era obrigado a aguentar suas crises.
— Ela sabe sobre nós.
Eu paro de costas para Bernardo, mesmo sem entender eu sinto que pelo tom da sua voz a coisa não era boa. Me viro.
— A Tati descobriu sobre nós — ele encara os próprios tênis — aquele dia em que transamos no dúplex, ela viu tudo pela câmera. Por isso ela me traiu. Por isso terminamos.
Sinto meu coração disparar. Eu sabia exatamente o que aquilo queria dizer. Era questão de tempo até que Cibelle descobrisse.
Merda.
Aquele era o ponto em que não tinha saída. Estava sendo imaturo, mas era hora de assumir meus erros. Eu precisava falar com Cibelle.
Bernardo se levanta.
— É melhor não sermos vistos juntos.
Balanço minha cabeça lentamente. Estou distante.
Só consigo pensar em Cibelle. E o quanto eu tinha sido canalha com ela.
***
Acordo de um pesadelo, no sonho estou caindo do alto de uma montanha, enquanto despenco morro abaixo eu via todos os olhares em mim, meus pais, Cecília, Cibelle, Tati e Bernardo. Bernardo sorri. Ele parece feliz em me ver despencando. Tento chamar por ajuda, mas ninguém ouve. Ninguém parece olhar diretamente para mim. Exceto Bernardo. Ele me olha diretamente nos olhos, como da primeira vez. Olho no olho. Ele está eufórico. Ele estava me matando.
Pego o celular assim que abro os olhos, nenhuma nova mensagem, nenhuma notificação. Ligo para Cibelle. Eu preciso encontrá-la. Contar tudo que está acontecendo. Ela não atende. Deixo recado, peço que me ligue.
Não fui ao colégio, não estava com cabeça para encarar os professores ou os outros alunos. Não estava a fim de encarar Bernardo.
Peguei o metrô e vaguei de uma estação para outra, indo e voltando no vagão hora cheio hora vazio. A voz robotizada que anunciava as estações parecia distante.
Saltei na Santa Cécilia. Queria andar. Precisava esvaziar minha cabeça, me sentia frustrado, estava sufocado.
Passei parte do meu dia assim, encarando o nada, andando sem rumo. Aquela era a minha forma de meditação pessoal.
Passa das seis quando eu resolvo que está na hora de voltar para casa. Estava caminhando pela República quando ouço alguém chamar por mim:
— Charles!
Me viro.
Quase não consigo acreditar. Demora alguns segundos até que eu consigo assimilar imagem, pessoa e voz.
Eurico.
Ele está na minha frente. Me encarando.
Ele não parecia o mesmo. Mas era ele.
Agora ele tinha tatuagens, seu cabelo não era mais ao estilo James Dean, era curto, quase careca. Mesmo com as mudanças ele continua, lindo.
Nos aproximamos e ele me abraça forte. Me sinto constrangido com tanta demonstração de afeto. Não sabia como agir então me afastei um pouco. Ele não pareceu se importar.
— Quanto tempo!
É tudo que consigo dizer.
Eurico sorri largo. Meu Deus. Como seu sorriso era bonito.
— Como você está? Você está tão diferente!
Ele diz. Mas não estou certo se é um elogio.
Conversamos um pouco. Eurico me conta que está estudando Rádio e Tv na Belas Artes. Ele faz um resumo sobre sua vida, diz que está morando em uma república com outros três rapazes. E que trabalha como DJ nos fins de semana. Ele conta sobre o novo namorado, acho que é um gringo chamado Antonie. Talvez não tenha prestado tanta atenção.
Ele fala que precisamos marcar algo. Eu digo que sim. Mas sei que não vamos nos ver. Ele pede meu número. Eu passo. Mas não anoto o seu. Não quero ficar na obrigação de procurá-lo. Se ele não me procurar. Ok. Seguimos em frente.
Ele se despede. Diz que adorou me rever. Tento parecer igualmente empolgado. Mas não sou bom em fingir emoções.
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