Notas iniciais
Boa leitura!

Acordar cedo deveria ser proibido.

Odeio o despertador, que sempre toca na melhor parte do sono. Odeio a luz que invade meu quarto sem pedir permissão. Odeio os passarinhos cantando de forma alegre manhã adentro.

Tudo me irrita.

Desço arrastando os pés.

Já estou vestido para mais um dia de aula, camisa do uniforme calça larga, vans preto nos pés, boné cinza na cabeça.

Meu pai me olha quando cruzo a cozinha. Ele ajeita o óculos no rosto.

Está vestido com seu habitual terno.

Já está pronto para mais um dia de trabalho.

Ter um pai advogado era sempre assim. Café da manhã apressado. Jantar atrasado.

Ele se despede, diz que chega tarde. Tem reunião.

Eu assento.

Ele deixa a casa.

Minha mãe não está. Ela sempre sai de manhã. Gosta de caminhar no parque Ibirapuera. Nunca entendi isso muito bem. Pessoas mais velhas têm hábitos estranhos.

Mordo um pedaço de pão e deixo a casa também.

Moramos na parte Oeste da cidade, próximo à estação Marechal Deodoro em Santa Cecília. A casa é modesta. Um sobrado herdado dos meus avós paternos. A construção é antiga, mas muito bem conservada.

Estudo em uma área nobre da cidade, localizado no centro de São Paulo. Escola de rico. Eu costumo dizer.

Estudo lá graças ao emprego do meu pai, eles oferecem uma bolsa de estudos integral para os filhos dos seus funcionários.

Não gosto de lá. Quer dizer. Gostava da escola pública. Pular o muro. Não fazer nada.

Era divertido. Sei que não devo pensar nessas coisas.

Um bom estudo é a porta para grandes oportunidades. Minha mãe sempre diz.

Eu finjo concordar. Mas a verdade é que quando se tem dezesseis anos a única coisa que verdadeiramente importa é a curtição.

Agora, acordo cedo demais. Cruzo a cidade para sentar ao lado de garotos que nunca vão saber o que é pegar ônibus lotado.

Cibelle me encontra no portão do colégio, assim como quase todos ali ela também vem de família rica ou de classe média. Seu pai dirige o carro do ano, ela tem um iPhone 7, ela viaja para Disney todo ano. E sua casa tem duas piscinas. Mesmo com tudo isso, ela me escolheu como seu namorado. As vezes penso que ela não faz isso para provocar seus pais.

Ela me beija. Eu sorrio.

—Festinha hoje — ela anuncia orgulhosa — você vai?

Olho para ela.

— Festa em plena segunda-feira? — Indago sem animação.

Ela dá de ombros.

— É só uma social — ela masca chiclete de uma maneira rítmica e irritante — sabe a Tati? Então, os pais dela estão na Europa. Ela quer fazer algo. E adivinha — ela faz um suspense patético — ela nos chamou. Disse, chama o Charles ele é maneiro.

Encaro ela com um sorriso forçado. Sei muito bem porque a Tati me acha maneiro. Eu sempre levo a erva. Isso deve me tornar bem maneiro.

Cibelle. Gosto dela. Mas não curto seus amigos. Pelo menos a maioria.

Mas lembro que a trai. E então apenas concordo.

Eu devo isso a ela. Penso.

Ela dá pulinhos de felicidade. Exagerado, mas isso me diverte.

Damos as mãos e seguidos para dentro do colégio.

Cibelle parece ter orgulho do nosso namoro. Ela me exibi como um prêmio. As vezes isso me deixa constrangido. Tento não ligar. Não me tornar paranóico. Mas me sinto sufocado.

Todos os olhares estão em nós. Cibelle é popular, e acho que eu também. Alguns acenos de mãos. Algumas pessoas me olham torto. Outras abrem um sorriso. Não sei dizer se isso me diverte ou se me destrói. Acho que um pouco dos dois. Odeio aquele lugar. Mas pertenço a ele. De um jeito ou de outro.

Encontro Cecília. Ela e Cibelle trocam um aceno nada afetuoso.

Cibelle se despede com um beijo e então segue o lado oposto do corredor.

Cecília olha para mim.

— Ainda não entendo porque você está com ela — Ela parece uma índia, com seu cabelo preso em duas tranças — ela é tão superficial.

Eu dou risada. Cecília dá um tapinha em meu ombro.

Seguimos para sala.

Cecília é filha de um desembargador, família rica. Sua mãe tem uma galeria de arte na Oscar Freire, mesmo morando em Pinheiros. Cecília não era como a maioria. Era ligada em ação social. Ela sempre pensava no próximo.

Agora com a separação dos seus pais, ela está dividida entre Pinheiros e Alphaville. Vive uma semana com o pai outra a com a mãe. Fico pensando como deve ser ter duas famílias. Duas casas. Duas rotinas.

Cecília não parece se importar.

Ela nunca transparece incômodo.

Sento na última mesa da sala, sempre fui do fundão. Cecília senta do meu lado. Saca os livros da bolsa. Ao contrário de mim ela sempre foi estudiosa.

Isso lançava um equilíbrio na nossa amizade. Ela era o gênio e eu o jovenzinho sem expectativas de um futuro próspero.

O professor entra.

Xavier seu nome.

Estava na casa dos cinquenta. Cabelo grisalho — se fosse careca seria como o Professor Xavier do X-Men.

Postura formal. Sempre vinha de terno. E nunca ria. Sua matéria era História. E eu sempre me pegava imaginando suas histórias.

O que ele tinha para contar?

Meu celular vibra. Olho o cartaz ao lado do quadro negro.

PROIBIDO CELULARES.

A palavra em negrito salta em meus olhos. Ignoro. Nunca gostei de regras.

Saco o celular e mexo por baixo da mesa.

No visor eu vejo ser uma nova mensagem. Número não salvo.

Precisamos conversar. Me encontra

Depois da aula.

Podia fingir não saber quem era. Mas eu conheço aquele número. Sei que não devo responder. Ignorar era o melhor a fazer. Ele me fez prometer que esqueceria o que aconteceu. Então ele deveria fazer o mesmo.

Seja hermético. Não deixe que ele se sinta no controle.

E eu não devo me importar. Mas sou curioso. E quero saber o teor da conversa. Pelo menos é nisso que devo acreditar. É curiosidade. Eu não estou com saudades. Ele não mexe comigo.

Desbloqueio o celular para responder. Então sinto que a sala fica em silêncio.

Tenho a sensação que todos me olham, ergo meus olhos. Estou certo.

Xavier está em pé. Em minha frente. Ele estica o braço. E sei exatamente o que ele quer.

Ele me olha impaciente. Sinto raiva. Raiva de Xavier. De Bernardo. Das férias. De mim. Principalmente de mim.

Dou meu celular a contragosto.

Ele balança a cabeça, como se me achasse um completo idiota.

Suspiro.

Xavier leva meu celular para sua caixa. Sei que só vou pegar meu celular no final do dia.

Fiquei sem celular.

E Bernardo sem resposta.

A hora do intervalo é meu momento favorito. O único momento em que eu consigo respirar verdadeiramente.

Encontro Cibelle nos fundos do colégio, ela está acompanhada de Laura e Eduardo.

Laura fuma malboro. Tem cabelo negro e comprido. Laura também é bolsista. Sua mãe é professora de Inglês. Laura é bonita, baixinha, com olhos puxados e sorriso fácil.

Eduardo parece tomar suco em uma squeeze, mas eu sei que não é suco. Eduardo sempre bebia destilado pela manhã. Era um alcoólatra juvenil. Ele e Laura eram namorados. Ao contrário de Laura, Eduardo não era muito simpático. É careca e tem olhos castanhos opacos, sem brilho. Espinhas no rosto. E sempre é sério. Ele é filho de um Major aposentado e uma professora de Balé. De todos os amigos de Cibelle. Era eles que eu achava menos babacas.

Me sento ao lado deles. Laura me cumprimenta com um beijo. Eduardo com um aceno.

Cibelle deita a cabeça no meu colo. Beijo seus lábios. Eles tem sabor de melancia.

— Te mandei mensagem, mas você não respondeu.

— Xavier confiscou meu celular.

Respondo.

Ela me olha e solta um riso. Ela deve me achar um grande imbecil. Quem era pego pelos olhos de águia do professor de História? Eu mesmo. Charles Alexander.

— Cara, você é muito burro! — Exclama Eduardo. Sua voz é atravessada. Ele estava bêbado.

Dou de ombros acendendo um cigarro.

— Eles formam um casal tão fofo — escuto a voz de Cibele, ergo a cabeça.

Sinto enjoo. Desvio o olhar.

Poderia concordar com ela. Todos ali acham a mesma coisa. Mas ao contrário deles. Eu detesto o casal feliz que vem na nossa direção.

Bernardo e Tatiane.

Perfeitos.

Perfeita ilusão.

Tatiane é da mesma altura de Cibelle , tem quinze anos, as duas estão na mesma sala, são amigas desde infância. Foi Cibele quem apresentou Tati a Bernardo. Isso foi há um ano.

Bernardo me olha.

Eu desvio o olhar soltando a fumaça no ar.

Cibele levanta do meu colo para cumprimentar a melhor amiga.

Quero sair dali.

Bernardo se senta ao meu lado.

Nada aconteceu. Ainda somos conhecidos. Ele ainda vai me chamar pra andar de skate.

Ele estica suas pernas contra o gramado verde, está de bermuda, sua perna tem pêlos finos.

As garotas se reúnem no canto, Laura, Cibelle e Tatiane conversam alegremente. Parecem combinar algo. Eu as ignoro.

Eduardo ainda está do nosso lado. Mas ele parece longe demais. Está chapado com sua bebida batizada.

Dobro meus joelhos.

Está sol. Mas sinto frio.

— Tem cigarro? — Bernardo diz.

Eu saco o maço do bolso e entrego.

Ele tira um e leva os lábios, me olha. Eu te dou o isqueiro. Ele acende. Puxa e solta a fumaça no ar lentamente.

Seu pescoço está curvado para cima. Lembro como era tocar em sua pele. Ouço seus gemidos. Me arrepio.

— Você recebeu minha mensagem? — Bernardo murmura tão baixo que eu quase não ouço.

Balanço a cabeça, apagando o cigarro.

— Podemos nos encontrar hoje?

Não.

— Sim.

— Aonde?

Em lugar nenhum.

— Pode ser na Roosevelt.

Bernardo está sorrindo. Aquilo me destrói. Nada parece abalá-lo. Ele não sente nada. Me sinto frustrado.

Essa merda toda está acabando comigo.

O sinal toca. Bernardo apaga o cigarro e se levanta corre em direção a sua namorada troféu. Ele segura a mão dela. Os dois parecem felizes.

A felicidade não existe. Tudo é um jogo de interpretação.