Charles, grafite, skate e garotos
3 Capitulo - II
Notas iniciais
Analiso minha figura no espelho. Meu rosto está pálido, olheiras, abatido. Ainda é manhã, ele sempre fica assim. Meu nariz é fino, meus olhos são verdes e meu cabelo castanho claro revolto. Minha blusa é larga, gosto desse estilo largado, meu corpo é magro. Tenho uma tatuagem no braço esquerdo, é uma frase, Crazy is not enough “Louco não é suficiente”. Não me pergunte algum significado. Estava chapado. Não me culpe. Meus pais quase me mataram. Eu entendo. A tatuagem não é das melhores. Meus pais esperavam mais de mim. Sou um gênio da marginalidade.
Tenho um piercing de argola no nariz e completei dezesseis anos há dois meses.
Minha namorada está deitada na cama, ela mexe no celular.
Parece incomodada. Mas não quer começar uma discussão. Nem eu.
Ela me olha pelo reflexo do espelho. Tem olhos castanhos, cabelo loiro tingido, usa um vestido florido. Tem seios pequenos e firmes, quadril largo. Não parece ter sua idade, quinze anos parece muito pouco para meninas como Cibelle.
Ela vai dizer que quer conversar. Eu não sei o que dizer. Ela sabe que estou estranho. E a única coisa que temo é que ela descubra o motivo.
— Você não vai dizer nada? — Ela indaga. Olho para ela, agora está sentada, largou o celular, seu braço está cruzado na altura dos seios. Ela me olha.
— Ah… — Eu me viro. Agora estamos frente a frente — tem algo que queira saber?
Ela revira os olhos.
Está bem zangada.
— Você andou estranho as férias toda. Não me ligou. Não saimos.
Penso em Bernardo.
— Eu já disse. Não estava bem.
Desvio o olhar.
Cibelle sabe quando minto. Não quero mentir para ela. Mas não tenho escolha. Não quero que ela me odeie.
— Você está sendo paranoica.
Me sinto um canalha. Sei que a paranóia tem fundamento.
Fui infiel as férias toda. Trinta dias saindo com outra pessoa. Desejando outra pessoa. Fodendo. Chapando com outra pessoa. Eu sou um grande canalha.
Caminho pelo quarto, vou até meu notebook, acesso o facebook. Ela caminha em direção a porta.
— Estou indo embora.
Ela pega a bolsa.
Me viro.
Levanto.
Não gosto quando brigamos. Mas às vezes se torna inevitável. Me sinto um tremendo idiota. Ela não merece.
Mas eu não posso admitir que a trai. E que foi com um garoto. Com seu próprio primo. Sangue do seu sangue. Namorado da sua melhor amiga. Alguém em que ela confia. A ideia me assombra.
Tudo se torna ainda pior quando lembro o quanto ela insistiu para nos tornarmos amigos.
Bernardo e o Charles tem coisas em comum. Ela dizia.
Eu sempre evitava o encontro. Achava ele tão patético quanto seus amigos.
Mas então aconteceu.
Trocamos telefones.
Nos víamos às vezes na praça Roosevelt, ele sempre me comprimentava. Não agia como um playboy babaca.
Achava ele maneiro.
E então a merda toda aconteceu.
Agora, tudo estava perdido. Não havia meio termo. Se Cibelle descobrisse tudo estava acabado.
— Fica… — Murmuro sem jeito. Ela vira o rosto quando eu tento beijá-la — por favor.
Ela não parece ceder. Mas ela vai. Eu a conheço.
Minutos depois ela está nos meus braços, estamos na minha cama. Ela acaricia meu peitoral nu. Acendo um cigarro. Ela me pergunta se não vou parar de fumar. Eu a ignoro puxando toda a fumaça tóxica para os pulmões.
—Meus pais querem que você vai almoçar lá no sábado. É o aniversário de mamãe.
Cibelle parece animada. Sinto-me desesperado. Sei que os pais de Cibelle não simpatizam comigo.
E que esse convite não surgiu espontaneamente.
Não sei se é uma boa ideia.
Então, não digo nem que sim nem que não. Apenas fico em silêncio.
Cibelle sabe que talvez eu não vá. Mas isso não tira o direito dela se sentir triste. Eu não sou o genro dos sonhos. Sei que seu pai preferia ver sua única filha com alguém de família. Algum dos filhos dos seus amigos podres de rico. Alguém que fale pelo menos três línguas e que não use roupas largas e ande de skate feito um marginal.
Ficamos assim até o fim da tarde.
E então ela vai embora.
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