Voltando à parte um pouco mais relevante, vou começar a contar o que exatamente aconteceu no tal domingo.
Eu tinha brigado feio com os meus pais. Eles me proibiram terminantemente de sair da cidade pra seguir o que eu queria, eles não queriam que eu fosse baterista.

Pelo amor de Deus, eu queria/quero estudar música, é pra isso que eu queria sair daqui! Se pelo menos eu dissesse que queria ir embora pra vagabundear numa cidade mais populosa tudo bem, mas eu quero estudar. Eles estão me proibindo de estudar, perceberam isso? É um absurdo. Mas eles não entendem, de jeito nenhum.

Eu saí de casa e liguei pro Jeff, era bom desabafar com ele quando essas coisas aconteciam. Mas nada dele. Quer dizer, quando eu tentei ligar pela terceira vez, ele atendeu bem educadamente dizendo “Porra, Chuck, eu estou ocupado! Liga depois, que coisa!” e desligou na minha cara. Já te disseram que bonzinho sempre se ferra? Pois é, eu sei bem disso. Eu sou aquele idiota que trata todas as pessoas com carinho e só recebo patada. [n/a: toca aqui Chuck! parei x.x)Eu recebo patada porque as pessoas sabem que eu não vou retrucar e depois vou perdoar. Eu sou aquele bem idiota que espera muito das pessoas e recebe coisas tipo isso em troca.

Depois de ouvir as palavras dele e o ‘tu tu tu’ do telefone, percebi que eu ficava melhor com a minha própria companhia do que de qualquer outra pessoa.
Foi assim que eu fui andando até lugar nenhum. Aliás, eu parei numa sorveteria. Sim, o nome da sorveteria era ‘Nowhere’. Agora você me pergunta, “por que logo numa sorveteria?”. Fácil, ela estava lá.


Pois bem, eu entrei na sorveteria, escolhi uma mesa um pouco escondida, mas, mesmo assim, um pouco perto dela. Eu fiquei lá sentado igual um babaca olhando pra ela. Corrigindo o que eu falei: percebi que eu ficava melhor com a companhia dela do que de qualquer outra pessoa. Mesmo que só os meus olhos façam companhia, realmente, à anatomia dela.
Precisei de um tempo pra perceber que ela estava sozinha, bastante estranho por sinal. Talvez tão sozinha quanto eu. Talvez, se eu fosse falar com ela...
Aham, eu nunca iria falar com ela.
A minha consciência só piora as coisas, de vez em quando.

Então ela olhou pra mim. Olhou e fim. Foi rápido e quase não daria pra perceber se eu não contasse as horas pra isso acontecer e se eu não estivesse olhando obcecado pra ela. Ela deveria estar se sentindo incomodada e, por isso, olhou. Pelo menos olhou.

Eu queria incomodar, eu queria que ela percebesse tudo que eu sentia sem que eu precisasse dizer. Impossível. Na verdade, eu apenas queria que essa barreira não existisse, eu queria poder agir normalmente com ela, pelo menos não ter medo do fora que ela pode me dar. Eu só tenho medo porque eu sei que ela vai me ignorar porque ela não pode falar comigo por eu não ser do grupinho.
Então ela sorriu. Olhou pra frente, sorriu e fim. Foi perfeito como todos os outros sorrisos tímidos que ela já deu na vida. Aliás, foram pouquíssimos. Eu tive a honra de presenciar aquela raridade de sorriso para mim.
Para mim.

Meu sorriso nervoso se projetou como resposta. Deve ter sido ridículo, tanto que ela olhou para baixo imediatamente. Era um livro de história por cima da mesa dela? Era a pior matéria na opinião dela e só faltou jogar uma panela de água fervente no Mr. Crownwell quando ele deu 2,5 na nota do último teste dela. Aliás, eu já bolei 357 planos pra perguntar se ela queria ajuda. Não pergunte se algum deu certo. Até parece que eu ia chegar de repente na mesa dela e dizer alguma coisa, assim, do nada.

- Oi. – Então ela chegou assim, do nada, na minha mesa e disse oi. Disse e fim.

- Oi. – É só agir naturalmente.

- Posso me sentar aqui com você? – Ela perguntou tudo que eu estava querendo perguntar a ela há 5 minutos atrás. – Quer dizer, você pode me ajudar? Porque nem adianta eu ficar aqui se você não tiver tempo ou não quiser. Ai, desculpa, eu to sendo muito direta, né? Tá, eu to falando demais.

- O que você quer? – Eu sei estragar tudo em dois segundos. – Digo, desculpa, eu não queria que isso soasse grosseiro. – Recorde, 9 palavras!

- Não, tudo bem! Eu... preciso de ajuda em história. – Ela estava com vergonha. Pelo menos eu não sou o único, apesar de estar mil vezes mais tímido que ela. E, perceberam? Bolei meus 357 planos à toa.

- Eu posso te ajudar.

- Sério? Ótimo, dá licença. – Ela se sentou do meu lado (gostaria de frisar: do meu lado) e começou a tagarelar. Pois é, a vergonha dela passou em três segundos. Mas isso eu já sabia que aconteceria.

A única coisa que eu não sabia é que, a partir daquele dia, eu passei a gostar muito mais dela e eu sei que ela também gostou de mim. É, ela gostou!
E a única coisa que eu ainda achava impossível é que eu chamaria isso de amor logo, logo.